
ERICO VERSSIMO
INCIDENTE EM ANTARES


Copyright  1971 by Erico Verissimo 
Copyright  1988 by Herdeiros de Erico Verissimo
Ilustrao de capa: Iber Camargo (detalhe) 
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Brasil

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CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte  Cmara Brasileira do livro, SP
      Verssimo, Erico, 1905-1975.
      		Incidente em Antares / Erico Verissimo.  45 ed. - So Paulo: Globo, 1995
      ISBN 85-250-0590-8 1. Romance brasileiro I. Ttulo 88-05189 CDD-869935
      ndices para catalogo sistemtico:
      1. Romances: Sculo 20: Literatura brasileira 869-935
      2. Sculo 20: Romances: Literatura brasileira 869.935

Neste romance as personagens e localidades imaginrias aparecem disfaradas sob nomes fictcios, ao passo que as pessoas e os lugares que na realidade existem ou existiram, so designados pelos seus nomes verdadeiros.
(Nota do Autor)

primeira parte

ANTARES
    
I
    Afirmam os entendidos que os ossos fsseis recentemente encontrados numa escavao feita em terras do municpio de Antares, na fronteira do Brasil com a Argentina, pertenciam a um gliptodonte, animal antediluviano, que, segundo as reconstituies grficas da Paleontologia, era uma espcie de tatu gigante dotado duma carapaa inteiria e fixa, mais ou menos do tamanho dum Volkswagen, afora o formidvel rabo  feio de tacape ricado de espiges pontiagudos. Calcula-se que durante o Pleistoceno, isto , h cerca de um milho de anos, no s gliptodontes como tambm megatrios habitavam essa regio diabsica da Amrica do Sul, onde  s Deus sabe ao certo quando  veio a formar-se o rio hoje conhecido pelo nome de Uruguai. Ignora-se, todavia, em que poca da Era Cenozica surgiram naquela zona do Brasil meridional os primeiros espcimes do Homo sapiens. Tudo nos leva a crer, entretanto, que esse problema jamais tenha preocupado os antarenses. O que at hoje ainda os deixa ocasionalmente irritados  o fato de car-tgrafos, no s estrangeiros como tambm nacionais, n|o mencionarem nunca em seus mapas a cidade de Antares, como se So Borja fosse a nica localidade digna de nota naquelas paragens do Alto Uruguai. De pouco ou nada tm servido os memoriais assinados pelo Prefeito Municipal, pelos membros da Cmara de Vereadores e por outras pessoas gradas e repetidamente dirigidos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica, protestando contra a acintosa omisso. O Pe. Gerncio Albuquerque, quando ainda vigrio da Matriz local, mais de uma vez encaminhou, mas em vo, idntica reclamao ao Instituto Histrico e Geogrfico do Rio Grande do Sul, do qual era membro correspondente.
    No entanto a verdade clara e pura  que, a despeito da m vontade ou da ignorncia dos fazedores de cartas geogrficas, a cidade de Antares, sede do municpio do mesmo nome, l est, visvel e concreta,  margem esquerda do grande rio.
    
    O incidente que se vai narrar, e de que Antares foi teatro na sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963, tornou essa localidade conhecida e de certo modo famosa da noite para o dia  fama um tanto ambgua e efmera,  verdade  no s no Estado do Rio Grande do Sul como tambm no resto do Brasil e mesmo atravs de todo o mundo civilizado. Entretanto, esse fato, ao que parece, no sensibilizou at agora gegrafos e cartgrafos.
    To inslitos, lridos e ttricos  e estes adjetivos foram catados no artigo alusivo quele dia aziago, escrito pelo jornalista Lucas Faia para o seu dirio A Verdade, porm jamais publicado, por motivos que oportunamente sero revelados  to fantsticos foram esses acontecimentos, que o Pe. Gerncio chegou a exclamar, dentro de seu templo, que aquilo era o comeo do Juzo Final. Nesse momento de susto e angstia coletiva, um ctico gaiato, desses que costumam menosprezar a terra onde nasceram e vivem, murmurou: A troco de qu Deus havia de comear o Juzo Final logo neste cafund onde Judas perdeu as botas?
    Bem, mas no convm antecipar fatos nem ditos. Melhor ser contar primeiro, de maneira to sucinta e imparcial quanto possvel, a histria de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idia mais clara do palco, do cenrio e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaxia, desse drama talvez indito nos anais da espcie humana.
    
    II
    O mais antigo documento escrito que se conhece referente ao lugar onde mais tarde viria a ser fundada essa comunidade da regio missioneira do Rio Grande do Sul, encontra-se no livro do naturalista francs Gaston Gontran dAuberville, intitulado Voyage Pittoresque au Sud du Brsil (1830-1831). Escreveu o ilustre cientista em seu dirio de viagem :
    24 de abril.  Cruzamos esta manh o Rio Uruguai, numa balsa, e entramos em territrio do Brasil. Estes campos verdes, duma beleza idlica, lembram os da nossa Provence. Aqui as pastagens so boas e o gado bovino, abundante. Os primeiros homens que encontramos, tanto os brancos como os ndios, me olham com uma curiosidade meio desconfiada, que acho justificvel, pois devem estranhar a minha indumentria, o meu aspecto fsico e principalmente a minha bagagem: as gaiolas em que trago os pssaros vivos que apanhei no Paraguai e na Argentina, e os sacos e caixas cheios das plantas e pedras que venho colecionando desde o momento em que pisei terras do Novo Mundo.
    Cerca das dez horas da manh, chegamos a um lugarejo pertencente  comarca de So Borja e conhecido como Povinho da Caveira, formado por uma escassa dzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio. A pouca distncia deles, situa-se a casa do proprietrio destas terras, que me recebeu com certa cortesia. E um homem ainda jovem, de compleio robusta, cabelos e barbas castanhos e pele clara. Tem um ar autoritrio, costuma falar muito alto, parece habituado a dar ordens e a ser obedecido. Chama-se Francisco Vacariano, nome provavelmente derivado da palavra vaca e que no me parece legtimo, mas adotado. A casa da estncia de gado do Sr. Vacariano  apenas um rancho maior que os outros da povoao. Comunico-me com esse senhor no meu -precrio espanhol, e ele me responde na mesma lngua mas usando, uma vez que outra, palavras portuguesas.
    Almoamos ao meio-dia e o estancieiro nos serviu, numa grande marmita de ferro, pedaos de carne seca (aqui chamada charque) com farinha de mandioca, tudo misturado com gordura animal. O Sr. Vacariano imaginava que eu era uma espcie de mascate. Ficou desapontado quando verificou que eu no trazia tabaco, acar nem sal, gneros de que carece no momento. Expliquei-lhe que sou um cientista e o meu hospedeiro pareceu no me dar crdito, pois acha impossvel que um homem empreenda uma to longa e penosa viagem apenas para apanhar bichos e juntar plantas e pedras.
    Percebi que o Sr. Vacariano no confia nos homens do outro lado do rio nem parece gostar deles. Tal coisa no  para estranhar-se, se levarmos em conta que recentemente o Brasil esteve envolvido numa guerra com a Argentina pela posse da chamada Banda Oriental.
    O meu guia, que  um homem loquaz e grande conhecedor desta regio e desta gente, duma margem e outra do rio, assegurou-me que o meu hospedeiro no s herdou as sesmarias que a Coroa de Portugal concedeu ao seu av, no incio do povoamento desta provncia, como tambm se apossou pela fora de algumas lguas de campo -pertencentes a outros estancieiros vizinhos, que ps em fuga, sob ameaas. Contou-me ainda o dito guia que boa parte do rebanho de gado que o Sr. Vacariano hoje possui  formado de descendentes dos bois e vacas que o seu pai roubou na Argentina, aproveitando a confuso de tempos de desordens e lutas intestinos no pas vizinho. O guia me pediu discrio absoluta, quanto a essas informaes, pois, ao que diz, o Sr. Vacariano  um homem violento e vingativo.
    Fui informado de que os ndios deste pouoado pensam que sou um feiticeiro, e que o capataz do meu hospedeiro est convencido de que no passo de um bispo disfarado que aqui veio, a mandado do Papa, para estudar a possibilidade do restabelecimento das redues jesuticas que outro-ra floresceram nesta regio. O que, porm, mais me perturbou foram as palavras que o prprio Sr. Vacariano pronunciou, ao fim de nosso almoo. Reproduzo-as aqui, verbatim: Sabe o que fiz com o ltimo lotador de impostos que apareceu nestas terras! Mandei mat-lo e atirei seu corpo no rio. Felizmente, depois dessa ameaa soltou uma risada, deu-me uma palmada cordial nas costas e declarou que era um homem de boa-f e portanto acreditava em que eu era mesmo um colecionador de plantas e passarinhos, pois cada louco tem a sua mania.
    Passei a tarde herborizando nos arredores do povoado. A hora de recolher, o Sr. Vacariano prometeu proporcionar-me, ao amanhecer do dia seguinte, um espetculo inesquecvel.
    Passei a noite quase sem dormir, por causa dos mosquitos.
    
    III
    25 de abril.  Antes do nascer do sol montamos a cavalo, meu hospedeiro e eu, e nos dirigimos para uma vrzea, a uma escassa lgua de sua estncia, e apeamos perto dum bosque, onde ficamos  espera do clarear do dia. Quando o sol apareceu, vi diante de mim uma plancie pantanosa cheia duma grande variedade de aves aquticas. Mal consegui esconder o meu pasmo e o meu jbilo, pois aquilo se me afigurava o sonho dourado dum naturalista. No primeiro relance, pude perceber ali graciosas garas, bis, grous, galinhas-dagua, patos, narcejas, alguns exemplares dum pssaro que,  distncia, me pareceu do gnero Francoli-nus, mas dum tamanho acima do comum. Tive im.pe.tos de correr na direo daquele congresso de aves e apanhar as que pudesse, mas o Sr. Vacariano me segurou o brao, di-zendo-me que esperasse, pois havia algo e spedar que me queria mostrar. Pouco depois apontou para uma rvore des-folhada, a uns vinte metros de onde estvamos, e eu vi, em-poleirada num dos seus galhos, uma gara dum alvor de neve, de linhas elegantes, e que em dado momento voltou a cabea na direo do sol nascente, perfilou-se, esticou o longo pescoo e soltou um assobio prolongado, duma suavidade indescritvel, a um tempo buclico e triste, lembrando o pfaro dum pastor. Era como se a ave estivesse cantando um hino ao dia nascente. Numa espcie de transe, eu pensava nas belezas que a imaginao criadora e dadivosa de Deus espalhou pelo universo, quando o Sr. Vacariano me disse que os ndios chamavam quela gara flauta do sol. (Tratava-se evidentemente de um exemplar da Ardea cyanoce-phala.)
    Voltamos para a estncia e durante o resto do dia colhi exemplares de graminceas e solanceas e outras plantas que encontrei naqueles prados paradisacos. O meu hospedeiro pareceu ter simpatizado comigo, pois quando lhe pedi emprestadas duas juntas de bois, para substituir os animais cansados que haviam puxado nossa carreta at ali, ele acedeu prontamente ao vieu pedido.
    A noite, depois do jantar, samos ambos a caminhar nos arredores da casa da estncia. Como para lhe pagar pelo formoso espetculo da manh, localizei no cu a constelao de Escorpio, que no hemisfrio austral comea a aparecer no horizonte, a leste, depois de 15 de abril, mostrei ao Sr. Vacariano a bela estrela chamada Antares, e disse-lhe que, embora no parecesse, ela era maior do que o Sol. O meu hospedeiro olhou para a estrela em silncio e mais tarde, quando chegamos a casa, murmurou: Antares.... Bonito nome. Para mim quer dizer lugar onde existem muitas antas, bem como nestas terras perto do rio. Pediu-me que escrevesse essa palavra, o que fiz, num pedacinho de papel, para o qual o Sr. Vacariano ficou olhando durante algum tempo, murmurando: Bonito nome para um povoado... melhor que Povinho da Caveira. Depois, guardando o papel no bolso, sorriu com seus fortes dentes de carnvoro e acrescentou: Mas no acredito que essa estrela seja mesmo maior que o Sol.

IV
    Outro documento, pouqussimo conhecido mas tambm importante, sobre o que se poderia chamar de pr-histria de Antares  uma carta escrita pelo P. Juan Bautista Otero, S. J., ao provincial de sua ordem, em Buenos Aires. Conta o missionrio nessa missiva, datada de 4 de dezembro de 1832, que cruzou o Rio Uruguai e chegou ao Povinho da Caveira onde pediu e obteve permisso do dono daquelas terras, um certo Sr. Francisco Bacariano (sic) para fazer casamentos e batizados. Eis um trecho da referida carta:
    Aqui vivem muitos ndios e ndias em estado de indi-gncia e, o que  ainda pior, em pecaminosa mancebia. Por outro lado, a ausncia de mulheres da raa branca neste aldeamento leva os homens de origem portuguesa a servirem-se dessas indgenas para a satisfao de sua luxria. O prprio Sr. Bacariano, segundo me informou pessoa digna de f,  pai de quase uma dezena de filhos naturais com vrias destas svcolas, mas no os batiza nem legitima. Horroriza-me a idia de que um dia quando adultas, essas criaturas venham, sem o saber, a cometer incesto. Este , porm, um problema que por ora temos de deixar nas mos misericordiosas de Deus. Assim, nestes ltimos trs dias tenho celebrado muitos casamentos e batizado grande nmero de pagos, no s crianas como tambm adultos. Ontem, domingo, rezei uma missa ao ar livre, com aprecivel concorrncia. O Sr. Bacariano no me parece ter muito respeito pela nossa religio ou por qualquer outra, mas apesar disso me tem tratado com considerao e at facilitado o meu trabalho apostolar. Perguntei-lhe, com o devido respeito, se no pretendia casar-se, e ele me respondeu que, dentro de poucos meses, iria a Alegrete para contrair npcias com uma moa, de nome Anglica, filha dum abastado estancieiro daquela localidade.
    
    V
    Que esse casamento se realizou,  fato fora de dvida, pois seu registro se encontra nos velhos livros da Matriz de Alegrete.
    Chico Vacariano teve com sua esposa legtima ao todo sete descendentes-, entre homens e mulheres. Para grande alegria sua, nasceu-lhe primeiro um filho macho, que recebeu o nome de Antnio Maria.
    Um ano aps o nascimento do primognito, teve Francisco Vacariano de enfrentar um longo perodo de dificuldades e agruras, durante o qual se viu mais de uma vez na iminncia de perder suas terras, seu gado e o resto de seus bens. Foi por ocasio da chamada Guerra dos Farrapos deflagrada por milhares de homens daquela provncia que se 3rgueram em armas contra o governo imperial, ento nas mos dum Regente, pois o prncipe Dom Pedro, herdeiro do trono, no atingira ainda a maioridade.
    Francisco Vacariano jamais tomou uma posio definida nessa luta. Se por um lado estava convencido da justia da causa revolucionria, por outro o fato de os rebeldes haverem proclamado a Repblica do Piratini lhe causava um certo desagrado, que ele exprimiu  sua mulher nestas palavras: Um imperador  uma espcie de pai que a gente tem. Numa repblica me parece que todo o mundo fica meio rfo....
    Assim, Chico Vacariano  como mais tarde viria a dizer com malcia um de seus inimigos  tratou de jogar com pau de dois bicos. Abrigava altemadamente em suas terras ora tropas revolucionrias ora tropas legalistas. Atendeu as requisies de cavalos, gado e mantimentos que lhe faziam ambas as faces. De resto, como poderia dizer no a maiorias armadas?
    O que muito o favoreceu nesse jogo dplice foi o fato de o Povinho da Caveira ser uma localidade de difcil acesso, pouco lembrada pela revoluo e completamente esquecida pelo resto do mundo. Mesmo assim, duma feita Chico Vacariano e seus familiares tiveram de cruzar o rio s pressas, refugiando-se durante mais de um ano na Argentina.
    A guerra civil durou quase um decnio inteiro. Vacariano costumava dizer que aquela campanha era a principal responsvel pelos seus primeiros cabelos brancos e pelas precoces rugas que lhe vincavam a face. Terminada definitivamente a luta, Chico voltou ao pago, reconstruiu a sua casa, que na sua ausncia quase virar tapera, e tratou de refazer aos poucos o seu rebanho bovino e recuperar o seu prestgio pessoal naquela regio. O tratado de paz entre os Farrapos e os Imperiais tinha sido firmado com tanta dignidade e patriotismo, de ambas as partes, que duma simples leitura de seus termos no se poderia deduzir quem tinha sido o vencedor e quem o vencido.
    Nunca ningum perguntou a Chico Vacariano, pelo menos cara a cara, de que lado havia ele pelejado durante a guerra civil. E esse foi um assunto que o senhor de Povinho da Caveira sempre evitou pelo resto de sua vida natural.
    O Povinho foi elevado a vila por alvar de 25 de maio de 1853, data em que recebeu oficialmente o nome de An-tares. Pouca gente entendeu a razo dessa mudana ou o sentido da nova denominao. Muitos, como Chico Vacariano, imaginavam que Antares significava lugar das antas. Houve at quem pensasse tratar-se do nome de um general brasileiro, heri de alguma daquelas muitas guerras contra os castelhanos.
    Durante mais de dez anos Francisco Vacariano  como havia j acontecido desde 1829 no primitivo Povinho  foi a autoridade suprema e inconteste na vila. Nem mesmo o governo provincial tentava intervir na vida daquela pequena comunidade ribeirinha, que ainda fazia parte do municpio de So Borja.
    
    VI
    No vero de 1860 chegou ao conhecimento de Chico Vacariano que um certo Anacleto Campolargo, criador de gado e homem de posses, natural de Uruguaiana, ia comprar terras nas proximidades de Antares. Murmurava-se que esses Campolargos eram descendentes por linha reta dum tropeiro paulista que entrara um dia numa furna do cerro do Jarau  talvez na famosa Salamanca da antiga lenda  encontrando l um fabuloso tesouro, pois de outro modo ningum podia explicar como um modesto negociante de mulas andasse sempre com a sua guaiaca cheia de onas de ouro, rutilantes como sis.
    Mesmo sem jamais ter visto a cara de Anacleto Campolargo, o senhor de Antares fez o possvel para que a transao no se consumasse. No quero intrusos por aqui!  dizia. Ora, essas terras que Campolargo queria adquirir pertenciam a um chefe poltico de So Borja, homem influente, amigo ntimo do governador da provncia. Chico Vacariano no teve outro remdio seno engolir o sapo, segundo uma expresso sua.
    Consumada a transao, Anacleto Campolargo mandou logo construir uma grande residncia de alvenaria em Antares, na praa do Imprio, naquele tempo pouco mais que um potreiro onde cavalos e vacas pastavam.
    A primeira vez em que Chico Vacariano e Anacleto Campolargo se defrontaram nessa praa, os homens que por ali se encontravam tiveram a impresso de que os dois estancieiros iam bater-se num duelo mortal. Foi um momento de trepidante expectativa. Os dois homens estacaram de repente, frente a frente, olharam-se, mediram-se da cabea aos ps, e foi dio  primeira vista. Chegaram ambos a levar a mo  cintura, como para arrancar as adagas. Nesse exato momento o vigrio surgiu  porta da igreja, exclamando: No! Pelo amor de Deus! No!
    Nenhum dos dois potentados parecia amar a Deus e muito menos ao vigrio. Contiveram-se, porm, cada qual uma secreta razo particular, e depois retomaram ambos seu caminho, seguindo em sentidos opostos.
    Foi assim que entre as duas dinastias antarenses, a dos Vacarianos e a dos Campolargos, comeou uma feroz rivalidade, que deveria durar quase sete decnios, com perodos de maior ou menor intensidade, ao sabor de acontecimentos de ordem poltica, econmica ou puramente pessoal.
    
    VII
    Pouco a pouco Anacleto Campolargo foi conquistando amigos e impondo-se ao respeito e  estima de boa parte da populao antarense. Era o primeiro homem na histria daquela comunidade que ousava enfrentar o Chico Vaca  como lhe chamavam pelas costas os seus desafetos. Agressivo, opinitico, autoritrio, o patriarca do cl dos Vacarianos era um sujeito sem tato. Suas palavras em geral soavam como chicotadas. O maioral dos Campolargos, porm, sinuoso e macio, cultivava o murmrio, sabia manipular suas emoes e modular o tom da voz de acordo com a sua convenincia e os seus propsitos. Tinha um ar paternal, freqentemente chamava o interlocutor de meu filho, se estava diante dum jovem, ou de meu chefe, se falava com um ancio. (J provou deste fumo? No?  especial. Tem palha? Pois faa um crioulo. Pode ficar com esse naco. Ora, obrigado por qu?)
    Homem de algumas letras, Anacleto Campolargo organizou na vila o Partido Conservador, o que bastou para que Chico Vacariano, at ento um tanto indiferente em matria de poltica, tratasse de organizar o Partido Liberal.
    Assim, Antares passou a ter dois senhores igualmente poderosos. Era exatamente essa igualdade de foras que impedia as duas faces de se empenharem em batalhas campais de extermnio. Continuando uma velha tradio, nas missas de domingo e dias santos, os conservadores sentavam-se nos bancos da direita,  frente do altar-mor, e os liberais nos da esquerda. Em seus sermes, pregados com voz trmula, o vigrio fazia acrobacias de retrica para no dizer nada que pudesse, mesmo de leve, descontentar qualquer dos dois grupos. Quando algum lhe perguntava em particular para qual dos dois proceres antarenses inclinavam-se as suas simpatias, o proco sussurrava, olhando dum lado para outro, a medo-, Deus  o meu nico chefe e a Igreja a minha nica poltica. Neutralidade, entretanto, era uma palavra inexistente no vocabulrio poltico e social de An-tares. O forasteiro que ali chegasse, mesmo para uma visita breve, era praticamente obrigado a tomar logo partido.
    Tanto os Campolargos como os Vacarianos eram criadores de gado e de cavalos. Foi, porm, o velho Anacleto o primeiro que comeou a criao de ovelhas naqueles campos. Chico Vaca havia muito possua lavouras de trigo, li-nho e arroz, razo por que era o mais rico senhor de escravos em toda a regio.
    
    VIII
    Quando o Brasil entrou em guerra com o Paraguai, Vacarianos e Campolargos enrolaram os seus estandartes tribais e,  sombra da bandeira do Imprio, lutaram juntos contra a indiada de Solano Lopes. Chico Vacariano queixou-se-. S no me agrada  que desta vez temos castelhanos peleando de nosso lado. Referia-se s foras da Argentina e da Repblica Oriental do Uruguai, que haviam formado com o Brasil a Trplice Aliana, para enfrentar o temvel ditador paraguaio.
    Como Anacleto e Francisco tivessem j passado da idade militar, cada um deles mandou dois de seus filhos alistarem-se como Voluntrios da Ptria.
    A guerra durou de 1865 a 1870. Foram tempos de tristeza, apreenses e durezas para os habitantes de Antares. S depois que a campanha terminou  que chegou  vila a notcia de que Antnio Maria, o primognito de Chico Va-cariano, havia tombado morto na batalha de Lomas Valen-tinas. Os dois Campolargos voltaram vivos mas estropiados. Benjamim, o mais velho, que havia perdido um olho num combate corpo a corpo, trazia as divisas de major e uma medalha militar. Seu irmo Gaudncio tivera de amputar um brao. Anto Vacariano, que deixara a mo esquerda enterrada em solo paraguaio, voltara feito coronel e tambm condecorado por atos de bravura.
    Foram esses trs antarenses recebidos em sua terra com honras de heris. Cada qual contava as suas estrias da campanha  algumas horripilantes, outras pitorescas e at jocosas. Num ponto, porm, Benjamim Campolargo e Anto Vacariano discordavam.  que cada um deles reclamava para si a dbia glria de ter matado com um pontao de lana o ditador Solano Lopes, na batalha de Cerro-Cor. A Histria, porm, desmentiu ambos.
    
    IX
    Graas aos bons ofcios e ao prestgio poltico de Ana-cleto Campolargo, amigo de figures do governo da provncia, Antares foi separada de So Borja e elevada  categoria de cidade e sede de municpio, por Lei Provincial de 15 de maio de 1878. Ora, esse fora sempre um dos projetos mais caros a Chico Vacariano, agora j prximo dos oitenta anos. A idia, porm, de que tudo se tinha conseguido por obra exclusiva de seu maior inimigo, deixou-o de tal maneira abalado que, uma semana antes de comearem os festejos com que se celebraria o grande evento, Chico Vaca caiu morto, fulminado pelo que um mdico de So Borja diagnosticou como um ataque de cabea dos brabos. Num gesto cavalheiresco, Anacleto transferiu os festejos para dezembro daquele ano, e at mandou em nome da famlia Cam-polargo uma coroa de flores para o defunto. Os Vacarianos recv saram a homenagem, vendo no gesto um intolervel debique.
    Dezembro chegou, a cidade preparava-se para as grandes comemoraes quando se espalhou a notcia de que o velho Campolargo, que estava na estncia, fora picado por uma jararaca, tendo morrido em menos de meia hora, apesar das benzeduras de suas negras velhas e das ervas e un-gentos de seu curandeiro bugre.
    Assim, quando entrou o ano de 1879, os dois grandes cls de Antares tinham  sua frente novos chefes. Benjamim, o caolho, era o patriarca dos Campolargos e Anto, o maneta, o maioral dos Vacarianos  dois quarentes na fora da vida. Ambos haviam jurado em silncio, junto aos cadveres paternos, continuar aquela luta de famlia at ao fim do Tempo.
    
    X
    Quando, anos mais tarde, a Princesa Isabel assinou o decreto em que se abolia a escravatura no Brasil, Anto Va-cariano disse a seus familiares que esse ato de loucura ia precipitar o fim do Imprio. Foi com relutncia que, pelo menos formalmente, liberou seus escravos. Ora, Benjamim Campolargo, que havia alguns anos fundara o Grmio Republicano de Antares, exultou com a notcia da Abolio, e mais tarde soltou vivas e foguetes ao saber que a Repblica fora finalmente proclamada no Brasil.
    Durante dias Antares esteve em p de guerra. Mulheres e crianas foram proibidas de sair  rua. Na praa trocaram-se insultos e tiros. As vidraas do prdio do Grmio Republicano foram partidas a pedradas e balaos por monarquistas enraivecidos. Um petardo explodiu contra a porta da residncia dos Vacarianos. Houve cabeas quebradas e outros ferimentos corporais, leves uns, graves outros; morte, porm, nenhuma.
    Fosse como fosse, o Imprio havia cado e os Vacaria-nos no tiveram outro remdio seno resignar-se. E, como faziam sempre que sofriam algum revs, fecharam a casa da cidade e refugiaram-se na estncia, onde curtiram a sua vergonha, o seu despeito e o seu rancor. Anto verteu s escondidas algumas lgrimas quando soube que os republicanos haviam mandado o velho imperador para o exlio. Este pas est perdido!  disse aos membros de sua famlia.  O remdio agora  esperar a hora de fazer uma revoluo e reconduzir o Velho ao trono. Xisto, o primeiro Vacariano na ordem de sucesso, resmungou: Essa repblica no se agenta nas pernas. Dizem que o barulho j comeou no Rio de Janeiro.
    Em 1890 a Matriz de Antares, cuja construo tinha sido iniciada havia vinte anos, foi inaugurada por ocasio da Festa do Divino Esprito Santo. Benjamim Campolargo, Imperador Festeiro, mandou carnear seis de suas reses para dar churrasco ao povo, organizou uma quermesse e fez queimar fogos de artifcio vindos da capital do Estado.
    Os Vacarianos, que tinham prometido dar um sino de bronze para o novo templo, recusaram cumprir a promessa. Quando o vigrio timidamente os interpelou, alegando que a Igreja nada tinha a ver com a poltica, Anto retrucou truculento: Padre, nesse assunto nem Deus pode se dar o luxo de ser neutro!
    
    XI
    Os historiadores de Antares, que no so muitos, at hoje temem lembrar certos fatos desagradveis da crnica desse municpio. Num ponto, porm, parecem todos de acordo. A revoluo federalista, que irrompeu em 1893, foi sem a menor dvida o mais cruel e sangrento perodo da luta hereditria entre as duas famlias antarenses rivais. Anto Vacariano e seus irmos, filhos, cunhados e sobrinhos, partidrios apaixonados do famoso tribuno do Imprio, Gaspar da Silveira Martins, tomaram o lado dos revolucionrios e, num golpe de surpresa, apossaram-se de Antares. Os Cam-polargos, porm, no tardaram a reagir e, ajudados por foras republicanas vindas de So Borja, retomaram a cidade. O combate travou-se ao anoitecer. A tropa dos Vacarianos retirou-se, com algumas baixas, e em desordem. Anto, que tinha ficado para trs comandando uma dzia de companheiros numa operao de retaguarda, para proteger a fuga do grosso de sua fora, foi feito prisioneiro. Trazido  presena de Benjamim Campolargo, trocou com este palavras e frases virulentas. O comandante vencedor, porm, recobrou a calma e disse:
     Sou um homem de bem. Respeito o direito dos prisioneiros de guerra. Vou poupar a sua vida, apesar de todas as barbaridades que voc e seus bandidos praticaram enquanto estavam de donos da cidade.
    Anto Vacariano encarou firme o adversrio e replicou :
     No peo nem aceito favor de nenhum caolho filho da puta! Me soltem, me devolvam a minha adaga e venham de um a um, que eu mostro quem  macho e quem no .
    Benjamim sacudiu a cabea e soltou a sua risadinha gutural.
     No sou prevalecido. No brigo com maneta. Como nica resposta Anto escarrou-lhe na cara. E
    neste ponto as verses divergem. Afirmam alguns cronistas que, cego de dio, Benjamim tirou sua faca da bainha, precipitou-se sobre o inimigo e sangrou-o ali mesmo. Outros dizem que mandou um de seus homens degolar o prisioneiro mais tarde, a frio. A verdade  que Anto Vacariano foi assassinado naquela noite, e seu corpo, envolto num lenol, enterrado no cemitrio local, numa sepultura rasa e sem marca.
    
    XII
    A vingana dos Vacarianos no tardou. Meses depois, as foras federalistas, comandadas por Xisto, retomaram Antares e conseguiram prender Terzio, o mais novo dos Campolargos.
    Xisto mandou reunir na praa os homens da cidade e ordenou que mulheres e crianas ficassem fechadas em suas casas. De mos amarradas s costas, Terzio foi trazido  sua presena, em meio de grave silncio. Ao redor dos dois adversrios agrupavam-se aqueles guerreiros barbudos, sujos, suados e alguns at com a pele e as vestes ensangentadas do ltimo combate.
      do conhecimento geral  bradou Xisto Vacariano  que os Campolargos assassinaram covardemente o meu mano Anto, que no teve nem o consolo de morrer como homem, peleando de arma na mo. Foi miseravelmente sangrado como um boi no matadouro. Pois agora chegou a nossa hora. Este Campolargo vai pagar pelos crimes do seu irmo e de todos os cachorros sarnentos de sua raa maldita!
    Terzio estava livido. Mal moveu os lbios quando disse:
     Guerra  guerra. No peo clemncia.
     No pedes nem te dou, corno filho duma gr-puta! Seguiu-se uma cena digna do pincel e da imaginao
    dum Hieronymus Bosch. Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendur-lo no galho duma rvore, com a cabea a poucos centmetros do solo. Depois acercou-se de sua vtima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou s cegas no nus, profundamente. Com a cara contrada de dor e vergonha, Terzio cerrou os dentes mas no deixou escapar o menor gemido.
    Nenhum daqueles homens parecia saber ao certo o que Xisto pretendia fazer. Um deles cochichou ao ouvido dum companheiro: Acho que o coronel vai dar uma lavagem de Pimenta e mostarda nesse pica-pau.
    Os planos de Xisto, porm, eram mais terrveis. Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: Tragam o tempero pra salada! e dois de seus homens, vindos do quintal do casaro dos Vacarianos, aproximaram-se, conduzindo com todo o cuidado, para no se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulio.
    O cu estava azul e limpo. Uma brisa de primavera boba nas folhas das rvores e nas rosas de todo o ano que cobriam a cerca, ao lado da residncia, agora deserta, dos Campolargos. Havia um grande silncio na praa ensolarada.
    Xisto murmurou: Sabes o que vou te fazer, sacri-panta? Te incendiar as tripas. A uma ordem sua, os dois homens comearam a despejar lentamente no funil todo o contedo da chaleira. Terzio Campolargo soltou um urro e comeou a estrebuchar.
    Apenas um homem, de todos quantos assistiam  cena, soltou uma risada. Os outros se mantiveram num silncio taciturno. Romualdo, o mais moo dos Vacarianos, acercou-se do chefe da famlia e protestou: Mas isso  uma barbaridade, mano! Sem desviar o olhar da vtima, que continuava a berrar e espernear como um porco que est sendo sangrado, replicou: Precisas aprender a lidar com o inimigo, menino. Se a coisa te faz mal ao estmago, toma um chzinho de erva-doce e vai pra casa te deitar.
    A agonia de Terzio foi de curta durao. Quando suas convulses cessaram, Xisto olhou para o cu, aliviado. Vieram contar-lhe ento que o vigrio, que estava na igreja, rezando, lhe pedia o corpo do jovem Campolargo para a encomendao e o sepultamento. Xisto sacudiu negativamente a cabea. Encomendar pra qu? Se esse pica-pau tinha mesmo alma, a esta hora ela j entrou nos quintos do inferno. Disse isto, voltou as costas para o cadver e tornou  sua casa, onde o esperava um assado de paleta de ovelha, que ele comeu com a tranqilidade dum justo.
    
    XIII
    Seis meses mais tarde os Campolargos retomaram An-tares num ataque de surpresa,  noite. Os Vacarianos retiraram-se com a sua tropa, deixando para trs, mortos ou feridos, vrios companheiros. E quando, horas depois do combate, Xisto conseguiu reunir os seus homens no topo duma coxilha e comeou a chamar pelos irmos, deu pela falta de Romualdo e ficou frio. Quem  que viu o Romualdo por ltimo? Ningum se lembrava. Xisto deu-o por perdido, encolheu os ombros e pensou: na guerra como na guerra...
    Mais tarde ficou-se sabendo que Romualdo na hora do inesperado ataque dos pica-paus estava na cama com uma china e, no tendo tempo de fugir, fora capturado.
    Benjamim Campolargo esfregou as mos num contentamento frentico. Tinha chegado a desejada hora de vingar a morte de Terzio.
    No dia seguinte, por volta das oito da manh (era j outono, dia frio e triste, cu cor de plo de capivara) Benjamim tratou de saber do vigrio em que rvore seu irmo havia sido torturado. O padre deu-lhe a informao, mas disse: Por tudo quanto existe de mais sagrado na vida, pelo amor de sua me e de seu falecido pai, eu lhe suplico que no sacrifique esse moo. No foi ele quem matou o Terzio.
    Benjamim sorriu: Padre  disse ele com brandura  eu lhe juro por Deus Nosso Senhor que no vou matar o Romualdo. O sacerdote arregalou os olhos, surpreso. Jura mesmo? O outro ergueu a voz: Juro! Aqui na frente dos meus companheiros! Pela honra da minha me, da minha mulher e das minhas irms, juro que vou soltar o moo, e vivo! O vigrio ficou pensativo, incrdulo ainda, mas nada disse. Lavou simbolicamente as mos e voltou para a igreja.
    Romualdo Vacariano foi trazido  presena de Benjamim Campolargo, que exclamou: Tirem toda a roupa desse sujeitinho! Trs de seus homens obedeceram  ordem. As botas tambm... Bom. Agora amarrem ele na mesma rvore onde penduraram o meu irmo. Assim no! Com a barriga contra o tronco, as pernas abertas... Isso!
    Um crculo duns cento e poucos homens formava uma espcie de muro ao redor da rvore. Como no dia da tortura e morte de Terzio, todas as mulheres e crianas tinham sido fechadas nas suas casas. Os companheiros entreolha-vam-se, sem saber ao certo o que seu chefe ia fazer. Benjamim chamou um dos seus companheiros, um negro alto e corpulento, e lhe disse:
     Elesbo, voc  quem vai fazer o servio no moo. O preto levou a mo  faca. Era um exmio degolador.
    Benjamim sacudiu negativamente a cabea.
     No. O instrumento no  esse, mas o que voc tem entre as pernas.
    Elesbo no entendeu imediatamente o que o seu comandante queria. Quando compreendeu, murmurou, constrangido :
     Ora, coronel, eu nunca fiz dessas coisas.
     Mas vai fazet agora. E uma ordem.
     Por que logo eu?
     Porque sim.
     Aqui na frente de todo o mundo?
      exatamente isso que eu quero: testemunhas. Elesbo olhou para o homem nu e depois para o seu comandante :
     Me prenda, coronel, me rebaixe de posto, mas uma coisa dessas eu no fao. Degolar  diferente...
    Num timo Benjamim examinou mentalmente a difcil conjuntura. Por um lado no podia ser desautorizado na frente dos seus prprios comandados; por outro, no queria castigar e talvez perder um companheiro do valor do Elesbo. Quem salvou a situao foi um caboclo parrudo e mal-encarado, o Polidoro, contumaz barranqueador de guas, que se apresentou voluntrio para executar a tarefa.
     Est bem  disse o chefe Campolargo.  Est na mesa. Sirva-se.
    E o caboclo violentou Romualdo. Uns trs ou quatro homens soltaram risadinhas. Outros, porm  a maioria  retiraram-se do local para no assistirem  cena degradante. Um capito bigodudo chegou a gritar: Isso no se faz a um macho, coronel! Por que no mata logo o miservel? Benjamim, que saboreava o espetculo, no deu a menor ateno ao protesto.
    Consumado o ato, gritou: Agora soltem a moa! Dois soldados desamarraram Romualdo, que deu alguns passos, cambaleante, como se estivesse bbedo, a cara aparvalhada. De repente soltou um urro, como um animal ferido de morte e, nu como estava, saiu a correr na direo do rio, atirou-se no cho, no alto da barranca, e rolou declive abaixo, at cair ngua. Ps-se a nadar, e, a uns trinta metros da margem, deixou-se afundar. Seu corpo jamais foi encontrado.
    Depois desses atos de violncia e perversidade ningum podia sequer imaginar que fosse um dia possvel para Va-carianos e Campolargos voltarem a viver na mesma cidade. Terminada a revoluo, com a vitria dos republicanos, Xisto Vacariano emigrou com todo o seu cl para a Argentina, onde permaneceu por dois anos. Durante essa longa ausncia, um amigo seu, homem de bem e neutro em poltica, tomou conta da estncia e dos outros negcios dos Vacarianos e, com o auxlio de amigos influentes, conseguiu evitar que os Campolargos se apossassem discriciona-riamente dos bens mveis, imveis e semoventes de seus velhos adversrios.
    
    XIV
    Em 1898 Xisto Vacarianotomou um vapor em Buenos Aires e viajou at ao Rio de Janeiro onde  conta-se  se avistou com o senador Pinheiro Machado, figura prestigiosa da poltica nacional. Eram velhos conhecidos. Havia alguns anos, o prcer republicano hospedara-se na estncia dos vacarianos e,  hora do jantar  conversa vai, conversa vem , acabaram descobrindo que Pinheiro Machado, que ?e alistara com apenas dezesseis anos como Voluntrio da ratria, durante a Guerra do Paraguai, havia servido no regimento de que Xisto Vacariano era oficial. Comemoraram a descoberta bebendo vinho do Porto e Xisto deu de presente ao futuro senador da Repblica um de seus cavalos de purosangue e um par de estribos de prata feitos na Blgica.
    Xisto valia-se agora desta amizade para tentar resolver a sua situao e a de toda a sua famlia. Pinheiro Machado escutou-o com ateno e prometeu amansar os Campolar-gos, pelos quais  confessou  no morria de amores, apesar de eles serem seus correligionrios. Mandou uma carta a Jlio de Castilhos  ento Presidente do Estado  explicando-lhe a situao e pedindo a sua intercesso no assunto. Castilhos escreveu a Benjamim Campolargo reco-mendando-lhe fizesse vista grossa ao reaparecimento dos seus inimigos Vacarianos em Antares.
    Benjamim levou alguns dias para digerir essa carta. Respondeu, porm, a ela declarando que faria como seu prezado chefe e amigo pedia. Tinha antes escrito ordenava mas passou a carta a limpo para trocar o verbo. Assim os Vacarianos foram voltando pouco a pouco para Antares. com todos os membros de suas famlias.
    Naquelas primeiras semanas aps a volta dos proscritos (termo usado por um jornalista republicano local) no s a populao de Antares como a prpria cidade  casas, muros, caladas, plantas, pedras  pareciam viver em estado de extrema tenso, na expectativa do primeiro encontro fsico entre um Campolargo e um Vacariano.
    Xisto e Benjamim defrontaram-se uma tarde  frente do Grmio Republicano. O primeiro pigarreou forte. O outro fuzilou o inimigo com um olhar de seu nico olho vlido. Nada disseram nem fizeram. Cada qual seguiu seu caminho e Antares e os antarenses respiraram desoprimidos.
    
    XV
    Antares celebrou com grandes festas a entrada do sculo xx. Armou-se no centro da praa um carrossel, de propriedade dum espanhol residente em Uruguaiana.  tarde houve Cavalhadas e  noite quermesse. Acenderam-se fogueiras onde se assaram batatas-doces e lingias. Num grande tablado erguido  frente da Matriz, houve danas a noite inteira, ao som de msicas tocadas pelos melhores san-foneiros da cidade e redondezas.  meia-noite em ponto o sino da igreja rompeu a badalar festivamente, homens davam tiros de pistola para o ar, foguetes de lgrimas espocavam nas alturas, derramando sobre os telhados e o rio chuveiros de estrelas multicores. Homens, mulheres e crianas abraavam-se gritando, chorando e rindo. Benjamim Campolar go, que assistia  festa da sacada de sua residncia, desce para a praa e confraternizou com o povo. Sentou-se con. a esposa  cabeceira duma mesa de cinqenta metros de comprimento, ali ao ar livre, e deu incio  grande ceia  carne de gado, ovelha e porco, galinhas e patos assados, pratarraos de arroz de carreteiro e, no firn, sobremesas feitas pelas melhores doceiras da cidade. E, a todas essas, d-lhe vinho, d-lhe cachaa, d-lhe cerveja...
    Os Vacarianos, esses celebraram o grande acontecimento em famlia, sem se misturarem com a canalha republicana.
    A pessoa escolhida pelo intendente para falar em nome da municipalidade  um professor  saudou o sculo xx como a era da Luz e do Progresso, a qual, merc das novas invenes e descobertas do saber humano, haver de proporcionar aos povos de todas as naes do Universo uma vida de conforto, fartara e harmonia, como nunca na Histria da Humanidade.
    J quase ao clarear do dia, intoxicados de bebidas alcolicas, dois machos do cl dos Campolargos  primos-irmos ainda na casa dos vinte  estranharam-se, trocaram primeiro palavres, depois bofetadas e finalmente facadas. Um deles recebeu um pontao de faca no ventre (superficial) e o outro deixou no cho da praa um naco de seu brao esquerdo. O velho Benjamim teve de intervir pessoalmente, ajudado por dois irmos, para evitar que o conflito se generalizasse num pega pra capar desastroso.
    Ao saber do incidente, no dia seguinte, Xisto Vacaria-no sorriu e disse: Comeou bem pra ns esse tal de sculo xx.
    
    XVI
    A esta altura da presente narrativa  natural que o leitor esteja inclinado a perguntar se no existiam em Antares homens de bem e de paz, com comportamento e sentimentos cristos. A pergunta  pertinente e a resposta, sem a menor dvida, afirmativa. Havia, sim, e muitos. Desgraadamente seus ditos, feitos e gestos no foram recolhidos pela histria oficial. Apenas uns poucos deles incorporaram-se  tradio oral da cidade e do municipio-, os restantes perderam-se para sempre no olvido.
    Os livros escolares, cujo objetivo  ensinar-nos a histria da nossa terra e do nosso povo, so em geral escritos num esprito maniquesta, seguindo as clssicas antteses  os bons e os maus, os heris e os covardes, os santos e os bandidos.
    Via de regra, no se empregam nesses compndios as cores intermedirias, pois os seus autores parecem desconhecer a virtude dos matizes e o truismo de que a Histria no pode ser escrita apenas em preto e branco.
    Por motivos puramente de economia de espao  uma vez que o objetivo desta narrativa  tecer um sumrio pano de fundo histrico contra o qual apresentar oportunamente os macabros eventos daquela sexta-feira 13 de dezembro do ano de 1963  estas pginas lamentavelmente tm seguido o esprito dos citados livros escolares, focando de preferncia as duas grandes oligarquias que em Antares, durante cerca de setenta anos, disputaram o predomnio poltico, social e econmico. Ficaram assim na penumbra do segundo, do terceiro e do ltimo plano todos aqueles que  para usar duma expresso de Spengler  no fazem mas sofrem a Histria, a saber: estancieiros menores, agricultores de minifndios, membros das profisses liberais e do magistrio e ministrio pblicos, funcionrios do governo, comerciantes, artesos e por fim essa massamorda humana composta de prias  brancos, caboclos, mulatos, pretos, curibocas, mamelucos  gente sem profisso certa, changadores, ndios vagos, mendigos, gentinha molambenta e descala, que vivia num plano mais vegetal ou animal do que humano, e cuja situao era em geral aceita pelos privilegiados como parte duma ordem natural, dum ato divino irrevogvel.
    
    XVII
    Tinha razo o editorialista do semanrio A Verdade (fundado em 1902) quando escreveu que o Progresso se aproximava de Antares com botas de sete lguas. Nos tempos em que a localidade era ainda conhecida pelo nome de Povinho da Caveira, Chico Vacariano, seu fundador, sempre que tinha de mandar um recado, verbal ou escrito, a uma pessoa que morasse longe, valia-se dum portador, dum chas-que, dum prprio. Em fins do sculo xix, Antares gozava j dos benefcios e facilidades do telgrafo, isso para no falar no servio postal.
    Estradas de ferro ligavam muitas cidades do Rio Grande do Sul umas s outras, e o apito de suas locomotivas assustava os bichos do campo e do mato, ao mesmo tempo que a fumaa de suas chamins sujava aqueles ares puros. No parecia otimismo exagerado esperar-se que dentro duns dez anos, no mximo, seus trilhos fossem estendidos at a Antares. Agora, na primeira dcada do novo sculo, surgia o telefone, que Xisto Vacariano afirmava ter sido inventado por Dom Pedro II, com a colaborao dum mecnico norte-americano, seu amigo particular. O primeiro a instalar na sua casa um desses aparelhos foi Benjamim Campolargo, que corria sempre na dianteira de seu rival, em matria de empreendimentos progressistas.
    Os prprios e os chasques continuavam ativos e uteis. As mulheres, as crianas e os velhos usavam como veculos de transporte a aranha, a diligncia e outras carruagens de trao animal. Carretas ainda rechinavam, ronceiras puxadas por bois lerdos, atravs daquelas campinas. Os antarenses em sua maioria achavam  e nisso no eram diferentes de outros campeiros do Rio Grande do Sul  que o nico meio de locomoo digno dum homem macho continuava a ser o cavalo. Em certos casos tinha-se a impresso de que esse animal era um prolongamento do corpo do cavaleiro, assim como a pistola ou o revlver faziam j parte da sua anatomia.
    Quando se instalou em Antares a primeira usina eltrica, Xisto Vacariano, sentado  cabeceira de sua mesa  hora do jantar, disse aos filhos: No Povinho, o av de vocs vivia muito bem se alumiando com lmpada de leo de peixe e vela de sebo. A mquina mais complicada que ele conhecia era o monjolo. Pra mim, lampio de querosene ou acetilene j  luxo demais. Ningum me convence de mandar botar na minha casa a tal de luz eltrica. Dizem que esse negcio d choque, pode at matar uma pessoa.
    Quando, no inverno de 1912, o intendente mandou instalar luz eltrica nas ruas da cidade, o velho Eusbio Reis, que durante mais de vinte e cinco anos exercera sozinho as funes de acendedor de lampies, caiu numa to grande depresso nervosa, que numa madrugada de julho enforcou-se num dos postes da iluminao moderna, e seu corpo amanheceu hirto, coberto de geada, balanando-se dum lado para outro, sacudido pelo vento gelado que soprava das bandas dos Andes.
    Para surpresa geral, foi um Vacariano quem, em 1911, trouxe para Antares o primeiro automvel, um Oldsmobile, que mandara vir de Buenos Aires. Depois de aprender a dirigir o veculo, um dos seus maiores prazeres era passear nele, de tolda arriada, pela cidade, apertando provocadora-mente na buzina de fonfom sempre que passava pela frente do solar dos Campolargos. Estes no tardaram em mandar buscar da Alemanha um automvel Benz.
    
    XVIII
    Como o Dr. Jlio de Castilhos estivesse seriamente enfermo, o bacharel em Direito Dr. Antnio Augusto Borges de Medeiros, que havia sido seu chefe de polcia, sucedera-o em 1898 como Presidente do Estado, bem como no de chefe do Partido Republicano gacho. Castilhos faleceu em 1903, durante a operao de garganta a que fora submetido. Benjamim Campolargo, acompanhado de dois de seus filhos, embarcou s pressas para Porto Alegre, a fim de assistir s exquias de seu chefe e amigo. Chegou tarde, mas aproveitou a oportunidade para visitar o Dr. Borges de Medeiros, que ainda no conhecia pessoalmente. Achou-o seco, formal mas digno. Ouviu, de vrias pessoas importantes da capital, os maiores elogios ao carter do presidente. Ningum mais probo, ningum mais justo, ningum mais sbio  dizia-se. Um verdadeiro varo de Plutarco  afirmavam os edtorialstas de A Federao, o rgo oficial do Partido Republicano Rio-Grandense. Benjamim Campolargo, graas talvez a uma autovacina, voltou para Antares incontami-nado pelas virtudes morais de seu chefe. Continuou a perseguir a oposio, a coagir juizes, promotores e jurados. Governava despoticamente o municpio de Antares, onde os maragatos eram minoria. Tornou-se assim, como tantos outros chefes polticos municipais do Rio Grande do Sul, uma espcie de prncipe eleitor. Reeleito em 1903, 1913 e 1918, Borges de Medeiros exerceu durante vinte anos a sua ditadura cientfica de inspirao positivista, fechado no palcio do governo e quase divinizado como um Lama do Tibete.
    Sem recursos humanos para enfrentar seus inimigos crnicos, os Vacarianos agora competiam com eles em outros terrenos que no o da poltica. Todos os fins de ano, quando se tratava de eleger uma nova diretoria para o Clube Comercial, a mais fina sociedade local, havia sempre uma chapa apresentada pelos Campolargos, a oficial, e outra pelos Vacarianos. O pleito era precedido de propaganda, cabala, presses de toda sorte, e at de suborno. No dia da eleio os eleitores compareciam  sede do clube armados de punhais e revlveres, e era raro o ano em que no houvesse bate-boca, troca de insultos, de bofetadas e at de tiros.
    Desde 1915 o futebol  o salutar esporte breto, segundo um redator de A Verdade  tornara-se popular em Antares. Os Campolargos haviam fundado o Esportivo Mis-sioneiro e os Vacarianos favoreciam o Fronteira F. C. No se tem notcia duma partida entre esses dois adversrios que no haja terminado sem luta corporal entre seus torcedores, isso para no falar nas trocas de caneladas e pe-chadas entre os jogadores, em disputa da bola. Conta-se a seguinte estria, que parece ter sido j incorporada ao folclore futebolstico gacho. O Fronteira e o Missioneiro defrontavam-se numa partida decisiva de campeonato, o jogo aproximava-se do final e nenhuma das duas esquadras conseguira ainda marcar um ponto sequer. No ltimo minuto do jogo, Pollito, atacante do Missioneiro  um argentino contrabandeado do outro lado do rio, a peso de ouro  driblou quase toda a defesa do Fronteira e ia na certa marcar um tento quando um Vacariano bombachudo que estava ali por perto saltou rpido para dentro do gramado, rebolou no ar o seu lao e pealou o castelhano, que caiu de costas, batendo com a nuca no cho. O goleiro do Fronteira saltou para agarrar a bola, mas um dos Campolargos alvejou-a com um tiro de revlver, e o balo se desinflou com um longo suspiro nas mos do keeper, que soltou um berro de horror. O pblico invadiu o campo e ento comeou uma verdadeira batalha campal que durou mais de meia hora, pois soldados da polcia municipal, chamados para impor a paz, acabaram tomando partido e participando do entrevero.
    
    XIX
    A Primeira Guerra Mundial chegou a Antares principalmente atravs das pginas rseas do Correio do Povo. Pela primeira vez em mais de cinqenta anos Campolargos e Vacarianos encontravam-se por assim dizer do mesmo lado, na mesma trincheira, alvejando simbolicamente um inimigo comum, os boches. Xisto e Benjamim admiravam a Frana, detestavam a Alemanha e consideravam o Kaiser um bandido desalmado, um brbaro. Papagaiando frases de jornais e folhetos de propaganda, ambos afirmavam que os
    Aliados deviam a qualquer preo salvar a Civilizao das garras sanguinrias dos hunos.
    A dcada de 20 trouxe para Antares muito progresso, tanto de ordem material como intelectual. Durante esse ps-guerra, o ritmo de construes de casas particulares acelerou-se. Os Vacarianos reformaram o seu casaro  uma simples meia-sola, disseram os seus desafetos. Os Campolargos construram um slido palacete de dois andares.
    Em 1924 uma firma norte-americana instalou um frigorfico nos arredores da cidade  o que levou o editorialista do dirio local a afirmar que Antares, at ento um municpio exclusivamente agropastoril, comeava auspiciosamente a industrializar-se.
    O telgrafo, o cinema, os jornais e revistas que vinham de fora, a estrada de ferro e, depois de 1925, o rdio  contriburam decisivamente para aproximar o mundo de Antares ou vice-versa. Forasteiros tambm muito faziam pelo progresso social e cultural da cidade: magistrados, promotores pblicos, funcionrios do governo estadual e federal, caixeiros-viajantes... Era, porm, de lamentar que Antares no possusse, como So Borja, uma guarnio militar federal, um batalho que fosse.
    Em 1925 os Vacarianos haviam comprado o primeiro sedan Chrysler que jamais sentou suas rodas nas ruas de Antares. Numa espcie de esperada represlia, os Campolargos no tardaram a adquirir na Argentina um Studeba-ker preto que, na opinio de seus rivais, tinha o aspecto dum carro fnebre.
    Foi tambm nesse ano de 1925 que a polcia descobriu e prendeu o primeiro comunista da histria de Antares, um certo Mrio Pinho, um tipgrafo, natural de Santiago do Boqueiro, homem plido e triste que se gabava de ter lido de fio a pavio, em traduo espanhola, O Capital de Karl Marx. O agente do olho de Moscou passou um ms na cadeia e, depois de solto, mudou-se para Santa Maria.
    Nos bailes do Clube Comercial moas e rapazes das Melhores famlias locais danavam o charleston, sob o olhar crtico das matronas. Num sarau de arte, no solar dos Cam-polargos, um forasteiro recitou versos modernos  que ningum entendeu  de Oswald e Mrio de Andrade. Antares, pois, atualizava-se, integrando-se na Era do jazz.
    
    XX
    Em 1923 os partidrios do Dr. Assis Brasil  aliana de maragatos com dissidentes do Partido Republicano  haviam feito a sua revoluo, protestando contra mais uma reeleio do Dr. Borges de Medeiros, confirmada pela Assemblia estadual, mas considerada pela oposio uma farsa fraudulenta, pois o candidato oficial republicano  alegavam seus inimigos  no obtivera os trs quartos da votao total exigidos nesse caso pela Constituio. 
    Xisto V acariano a princpio pensara em ficar sossegado em sua estncia (no tinha muita simpatia pessoal por Assis Brasil), mas como lhe tivesse chegado aos ouvidos o rumor de que Benjamim Campolargo ia mandar prender todos os Vacarianos machos, decidiu ir para a coxlha com os filhos, irmos, genros, netos, sobrinhos, amigos, pees e demais cumpinchas: cento e vinte homens ao todo. Embora j na quadra dos oitenta, Xisto mantinha-se ainda ereto em cima do cavalo, e sentia-se apto para enfrentar mais uma campanha em sua vida. Assim, os Vacarianos se juntaram s foras de Honrio Lemes. Evidenciara-se desde o primeiro momento da revoluo que o nmero de combatentes republicanos era consideravelmente maior e mais bem armado que o dos bandoleiros, pois o governo estadual, alm de seus partidrios civis que formavam as tropas irregulares, contava tambm com o apoio da sua Brigada Militar, fora bem armada e aguerrida.
    O velho Vacariano explicava aos seus comandados: O Gen. Honrio tem razo. O plano no  dar combate de frente aos chimangos, mas negacear, atacar de surpresa, fugir na hora do aperto e voltar depois quando menos nos esperarem. O nosso chefe conhece a Serra do Caver como a palma de suas mos. O inimigo no ousa atacar o homem no cho dele. Assim, vamos embromando esses borgistas para provocar uma interveno federal. O Presidente da Repblica no gosta do Borjoca. Est louco pra meter sua cucharra na nossa panela.
    No se teve notcia de nenhum combate, nem mesmo duma escaramua passageira, entre os guerreiros dos Vacarianos e os dos Campolargos.
    A interveno federal foi finalmente feita no Rio Grande do Sul e dela resultou um tratado de paz. Benjamim Campolargo cantou vitria, mas Xisto Vacariano disse: Bobagem desse caolho caduco! Quem ganhou a parada fomos ns. Com meia dzia de espingardas descalibradas, revlveres enferrujados e lanas de guajuvira, os assisistas conseguiram o que queriam: esse tratado que reforma a Constituio do Estado, que os castilhistas consideravam intocvel, e probe a reeleio do Chimango!
    
    XXI
    Em meados da dcada de 20 vrias mudanas eram j visveis e audveis no modo de vida tanto dos Campolargos como dos Vacarianos. No comeo do sculo, membros das geraes mais novas dessas duas poderosas famlias tinham sido mandados estudar em Porto Alegre. Muitos voltaram para casa depois de terminado pelo menos o curso ginasial, e alguns obtiveram at diplomas de doutor em Direito, Medicina ou Engenharia, embora poucos deles chegassem a exercer essas profisses. Fos%e como fosse, todos traziam para Antares uma viso mais larga do mundo e da vida, e uns poucos podiam at ser considerados, se no intelectuais, pelo menos intelectualizados. Haviam adquirido 0 hbito da leitura, da msica, do teatro e alguns deles  pouqussimos,  verdade  compravam pinturas para pendurar nas paredes de suas residncias, nas quais at ento s se viam tristes retratos de antepassados mortos, com solenes molduras douradas.
    Um jovem Campolargo de maneiras civilizadas chegou a publicar no jornal da terra um poema de sua autoria. (O velho Vacariano leu-o em voz alta e comentou, seco e certo: Esse menino  fresco.)
    Em maio de 1926 causou os comentrios mais desencontrados na cidade a notcia de que o herdeiro do trono dos Campolargos, Zzimo, tinha embarcado para Buenos Aires com sua esposa e prima-irm Quitria, para assistirem a alguns espetculos da temporada lrica do Teatro Coln.
    At fins do sculo anterior os Vacarianos e os Campolargos haviam cultivado deliberadamente a endogamia, no com a finalidade de manter a pureza de suas estirpes, mas por motivos prticos, principalmente de ordem econmica. Queriam evitar, no caso das heranas, no s a diviso das terras do cl como tambm complicaes nos inventrios. Esses casamentos entre primos e primas  quase sempre sem amor e nem mesmo desejo  eram no raro ajustados pelos pais dos jovens, em conclios familiares. Com raras excees, finda a minguada lua-de-mel, a mulher ficava em casa a engordar, a ter filhos e a cuidar (ou no) deles, ao passo que o marido passava boa parte da noite no Clube Comercial, jogando pquer, ou na casa da amante, com a qual, continuando uma tradio centenria, tambm tinha filhos, que no reconhecia legalmente. O advogado que, por morte dum Vacariano ou dum Campolargo, ousasse apresentar-se como patrono dum filho natural do falecido, arriscava levar um tiro ou uma surra exemplar.
    Durante a segunda dcada do novo sculo, porm, membros de outras famlias locais e at mesmo forasteiros, haviam comeado a entrar nas cidadelas dos Vacarianos e dos Campolargos, pela porta do casamento. O velho Benjamim observava alarmado a tendncia das novas geraes de sua tribo a produzir mais rebentos do sexo feminino que do masculino. Quando ele morresse, Zzimo  filho que lhe nascera quando ele tinha j 56 anos  ocuparia o seu lugar. Mas... e depois? Seu sucessor tinha apenas quatro filhas. Era o diacho. E o olho legtimo de Benjamim Campolargo entristecia quando ele pensava nessas coisas.
    Tanto ele como Xisto relutavam em aceitar a idia de que j no eram os senhores absolutos e discricionrios dentro de seus feudos. As geraes novas rebelavam-se contra as idias dos seus maiores em matria de costumes e rituais domsticos. Chegavam a criticar, por antiquados, os seus mtodos de trabalho campeiro, vejam s aonde chegamos!
    Assim, ao findar a dcada de 20 os dois senhores de Antares pareciam-se um pouco com os gliptodontes e os me-gatrios no fim do Pleistoceno, isto , eram dois representantes de espcies animais em processo de extino. Mas, como  de se supor tenha acontecido com os monstros ante-diluvianos, Xisto e Benjamim no pareciam ter conscincia de seu drama.
    
    XXII
    A revoluo militar irrompida em So Paulo, em 1924, contra o governo do Presidente Artur Bernardes, ecoou no Rio Grande do Sul em localidades muito prximas a Antares, como So Borja, So Lus e Santo ngelo, onde se revoltaram respectivamente dois regimentos de cavalaria e um batalho ferrovirio, este ltimo sob o comando dum capito de Engenharia, Lus Carlos Prestes. O velho Campolar-go chegou a organizar um corpo de voluntrios para defender a sua cidade, caso ela fosse atacada. Como, porm, os insurgentes de Prestes, depois de darem combate s foras legalistas, abandonaram o Estado, rumo de Catanduvas, onde deviam reunir-se aos rebeldes de So Paulo  Antares foi poupada aos desastres de mais uma guerra, e sua populao continuou a viver a vidinha de sempre.
    Um dia, no princpio do vero de 1925, apareceu sorrateiro em Antares um membro da prestigiosa famlia Vargas, de So Borja. Chamava-se Getlio, tinha quarenta e dois anos de idade, era bacharel em Direito e ocupava ento uma cadeira de deputado na Cmara Federal, como representante do Partido Republicano de seu Estado. Homem sereno, de feies e maneiras agradveis, sabia usar a cabea com lcida frieza e possua qualidades carismticas ainda no de todo reveladas plena e publicamente. Dizia pouco mas perguntava muito. Frio, solerte, sabia jogar com dois fatores importantes na vida: o tempo e as fraquezas humanas.
    Usou de artimanhas tais, que naquele dia conseguiu reunir Xisto Vacariano e Benjamim Campolargo na casa dum amigo comum, homem apolitico e geralmente benquis-to na cidade.
    Quando os dois strapas locais deram pela coisa, estavam j frente a frente, fechados a chave com o Dr. Getlio numa sala de visitas que o calor de janeiro transformava num forno aceso, com a colaborao de cortinas de veludo, guardanapos de croche e tapetes felpudos. Um ventilador girava e zumbia, incuo, em cima duma mesinha com tampo de mrmore, ao lado dum vaso de alabastro com flores artificiais.
    Os dois velhos inimigos naturalmente no se apertaram as mos e nem sequer rosnaram a menor palavra um para o outro. Estavam ambos meio desarvorados. Aquilo ento era coisa que se fizesse? Olhavam para Getlio Vargas com uma expresso de censura em que se mesclavam surpresa e zanga. O deputado de So Borja, abrindo o seu sorriso mais sedutor, de excelentes dentes, convidou-os a sentarem-se, perguntando-lhes se queriam beber alguma coisa gelada. Nenhum dos dois queria. Sentaram-se com uma certa relutncia pesada, cada qual na sua poltrona, separados por trs metros de tapete. Getlio Vargas acendeu com pachorra o seu charuto e por alguns instantes permaneceu silencioso a olhar, de um para outro, os dois velhos, como um rbitro que, no meio da arena, prepara-se para anunciar ao pblico a luta de boxe que se vai travar entre dois campees de peso-pesado.
     Perdoem-me pela traio  disse ele.  Quando os fins so bons, s vezes temos de fechar os olhos  natureza dos meios. Foi essa a nica maneira que encontrei para juntar numa mesma sala dois antigos adversrios pessoais e polticos.
    Fez uma pausa pontuada por baforadas da fumaa do charuto e ps-se a andar dum lado para outro.
     Estou aqui a mandado de meu pai. O velho Manuel me fez portador dum pedido ao senhor, Cel. Xisto, e ao senhor, Cel. Benjamim. Os amigos ho de concordar em que os tempos esto mudando. O mundo se encontra diante da porteira duma nova Era. Essas rivalidades entre maragatos e republicanos sero um dia coisas do passado. Precisamos pacificar definitivamente o Rio Grande para podermos enfrentar unidos o que vem por a...
    Nenhum dos dois chefes antarenses perguntou o que era que vinha por a. Mantiveram-se silenciosos e emburra-dos, bufando de calor. Getlio ergueu a cabea e soltou uma baforada de fumaa na direo do lustre de vidrilhos que pendia do centro do teto. Benjamim  que, por insistncia de seus familiares, consentira em usar um olho de vidro para substituir o que perdera na Guerra do Paraguai  com o olho natural fit iva obsessivamente a escarradeira de loua pintada que tinha a seus ps. Xisto tamborilava nervosamente com os dedos de ambas as mos nos braos da poltrona, enquanto seus lbios murchos e arroxeados se pre-gueavam, deixando escapar uma espcie de assobio que no passava duma ventosidade sem melodia.
     Pois o velho Manuel apela para os senhores  tornou a falar o emissrio de So Borja  para que faam as pazes, apertem-se as mos, esqueam as diferenas e os agravos do passado e daqui por diante trabalhem juntos pelo progresso e pela grandeza de nossa terra. No h nenhum desdouro nessa reconciliao, cuja iniciativa no partiu de nenhum dos prezados amigos aqui presentes. Foi um vizinho, um republicano, que se lembrou disso, com a melhor das intenes. Se no quiserem fazer as pazes em ateno ao meu pai ou a mim, reconciliem-se ento pelo amor ao Rio Grande.
    Getlio continuou a falar sem nfase oratria, macio e persuasivo. O Rio Grande estava destinado a cumprir no Brasil uma grande misso em prol da unidade nacional. Para isso, entretanto, era preciso primeiro recuperar a sua hegemonia poltica perdida aps o assassinio do Senador Pinheiro Machado.
    
    XXIII
    No passou despercebido ao jovem deputado o efeito mgico produzido pelo nome de Pinheiro Machado no Cel. Xisto, que, ao ouvi-lo, pigarreou enquanto a plpebra de seu olho esquerdo tremia nervosamente.
     Quem governa o Brasil  prosseguiu Getlio  so ora os mineiros ora os paulistas, a famosa frmula caf com leite.  Soltou uma risada.  No  justo que o chimarro tenha tambm a sua vez?
    Falou durante mais dez minutos, concluindo assim:
     Pois agora me digam sinceramente que  que ganham sendo inimigos? Quem perde  Antares e o Rio Grande.  Voltou-se para Xisto Vacariano.  Autorizo ao senhor, coronel, a dizer publicamente, a quem quiser, que foi meu pai, que fui eu, dois republicanos, que o procuraram para fazer esta proposta de paz. Que me diz, Cel. Benjamim?
    O maioral dos Campolargos parecia ainda hipnotizado pela escarradeira. Finalmente ergueu o olho bom para o moo de So Borja e murmurou: Ps ..., vago mas j meio inclinado ao sim. O cacique dos Vacarianos, que at ento estiver sentado meio de lado, mexeu-se na poltrona e transferiu o peso do busto para o outro hemisfrio das ndegas, e seu assobio sem msica foi substitudo por uma espcie de prolongado ronco, que tanto podia ser um princpio de assentimento como o rosnar do cachorro prestes a morder. Getlio tornou a fazer um apelo:
     Vamos, apertem-se as mos! O que passou, passou. Os dois ancios levantaram-se com certa m vontade, aproximaram-se um do outro com passos arrastados e lentos e, sem se olharem cara a cara, trocaram o simulacro dum aperto de mos. Getlio ento abraou-os a ambos, agradeceu-lhes e felicitou-os pelo gesto, em seu nome e no de seu pai.
    Seguiu-se um momento de constrangido silncio em que nenhum dos dois adversrios crnicos parecia querer ser o primeiro a dirigir a palavra ao outro. Por fim o Cel. Campolargo, fazendo um esforo sobre si mesmo, olhou enviesado para Xisto e murmurou:
     Como vai a sua patroa?
    Apanhado de surpresa, pois havia mais de sessenta anos que no trocava uma palavra sequer com aquele Campolargo, Xisto ficou meio estonteado, como se tivesse sido abruptamente agredido pelo outro. Mas, recompondo-se, respondeu automaticamente:
     Bem. E a sua?
     U... morreu o ano passado. No sabia? Benjamim encabulou. Tinha esquecido o bito por completo.
     Desculpe! Meus psames. Getlio Vargas interveio:
     Bom, vamos agora ao tratado de paz. Acho necessrio, indispensvel mesmo, que mandemos publicar no s no jornal local, como tambm no Correio do Povo, no Dirio do Interior de Santa Maria e no Correio do Sul de Bag uma declarao conjunta, assinada por ambos os amigos, explicando ao eleitorado do Rio Grande o motivo e o sentido desta reconciliao.  Levou a mo ao bolso interno do casaco.  Tenho aqui um manifesto j preparado. Vou ler para ver se os amigos esto de acordo com os seus termos ...
    
    XXIV
    Momentos depois os dois velhos estavam em suas respectivas casas. Vacariano refletia, desapontado: Acho que deixei me embrulhar por aquele deputadinho de borra. Deu  famlia reunida para ouvi-lo a sua verso do encontro. Afirmou que tinha relutado muito, imposto condies, deixado bem claro que aquilo no era casamento, e que ele continuava a ser federalista, corno sempre.
    Benjamim Campolargo no estava de todo descontente com o acordo que firmara. Getlio Vargas bem podia ser o homem j escolhido pelo Dr. Borges de Medeiros para substitu-lo no governo do Estado. Talvez ele, Benjamim, tivesse acabado de atender a um pedido do futuro presidente do Rio Grande do Sul. Em casa tambm mentiu, dando a sua verso do fato. Ao fim do relato disse: Me tragam lcool para eu me desinfetar. Toquei a mo dum Vacariano. Dizem que falta de vergonha  doena contagiosa.
    Pouco mais disse pelo resto de sua vida, que foi de apenas algumas horas, ^aquele mesmo dia teve um edema agudo de pulmo e faleceu ao anoitecer. Xisto, que logo aps a reunio se havia retirado para a estncia, morreu menos de uma semana mais tarde, com o ventre rasgado pela cornada dum boi xucro que seu leno vermelho provocara. Antares entrou assim no seu Eoceno poltico.
    Vacarianos e Campolargos  honrando o tratado de paz  trocaram-se condolncias e custosas coroas de flores. Tibrio fe ningum nunca ficou sabendo ao certo por que o velho Xisto dera ao seu primognito o nome dum imperador romano de to equvoca fama) assumiu a chefia da famlia. No houve problemas de inventrio. No apareceu nenhum advogado cabresteando filhos ou filhas naturais do velho Xisto, embora os houvesse s pencas.
    Quanto a Zzimo, o nico descendente macho do falecido Benjamim por linha reta, era um homem sem nenhuma vocao para a liderana. Tinha terminado o curso gi-nasial e feito dois anos de Direito. Gostava de ler, era meio indolente  homem de boa paz. Ficou desconcertado quando se viu feito patriarca do cl dos Campolargos. Respondeu a essa situao com elicas intestinais que duraram uma semana. Por sorte ou desgraa sua  e neste particular as opinies em Antares dividiam-se  sua mulher Quitria, uma Campolargo tanto por parte de pai como de me, era uma criatura enrgica e inteligente, senhora de razoveis leituras, e at duma certa astcia poltica, de maneira que, depois da morte do velho Benjamim, embora Zzimo empunhasse, sem o menor garbo, o cetro de patriarca, D. Quita  como ela gostava de ser chamada, pois detestava, por antigo, o nome avoengo que recebera em batismo  passara a ser a eminncia parda, o poder por trs do trono.
    Eram bastante cordiais suas relaes com a mulher de Tibrio Vacariano, D. Briolanja, conhecida na intimidade como Lanja  outra que tambm no gostava do prprio nome de sabor arcaico. Nunca haviam tido nenhum atrito. Visitavam-se. Estimavam-se at. Trocavam-se receitas de doces, bolos e tric. Lanja era o tipo da dona de casa, ocupada e preocupada com os filhos, os netos e os deveres domsticos, isso para no falar na sua devoo ao marido. Pode-se afirmar que as boas relaes humanas entre essas duas damas contriburam, mais que qualquer outro fator, para a consolidao da paz entre Campolargos e Vacarianos.
    
    XXV
    Quando em novembro de 1926 chegou a Antares a notcia de que Getlio Vargas havia sido feito Ministro da Fazenda do gabinete de Washington Lus, que sucedera Artur Bernardes na presidncia da Repblica, Tibrio Vacariano sorriu e, como se estivesse falando dum foguete, disse a um amigo: L se foi o Baixinho! Vai subir muito alto antes de estourar.
    No se enganava. Getlio Vargas foi eleito presidente de seu prprio Estado quando Borges de Medeiros chegou ao termo de seu quinto mandato. Graas ao seu esprito conciliatrio e  sua habilidade poltica, conseguiu o novo governante criar no Rio Grande um to ameno clima poltico, que tornou possvel a aliana de libertadores com republicanos numa Frente nica que apoiou a candidatura de Vargas  presidncia da Repblica, resultante duma desavena entre os polticos de So Paulo e os de Minas Gerais  pois estes no aceitavam o candidato que Washington Lus havia indicado intransigentemente para substitu-lo.
    Consumada a Aliana Liberal em todo o Brasil, maragatos e pica-paus, cerrando fileiras no Rio Grande do Sul, de braos dados, Tibrio Vacariano exclamou: Esse Get-lio nasceu mesmo com o rabo virado pra Lua! E atirou-se com entusiasmo  propaganda eleitoral do homenzinho de So Bor ja. (Que diria o falecido Xisto se me visse trabalhando pela candidatura dum republicano?)
    No dia das eleies nacionais ajudou os pica-paus a falsificar atas, fazendo todos os defuntos do cemitrio local votar no seu candidato. Andava de mesa eleitoral em mesa eleitoral, oferecendo sugestes no sentido de aumentar fraudulentamente o nmero de votos favorveis a Getlio Vargas. (Imaginem eu, um maragato, querendo ensinar o Padre-Nosso ao vigrio, brincava ele com os republicanos, mestres em fraudes daquela espcie.) Os fiscais do candidato oficial, em geral funcionrios pblicos federais que exerciam essa funo a contragosto, faziam vista grossa a todas essas bandalheiras.
    
    XXVI
    Quando em 1930 o Congresso Nacional proclamou a vitria eleitoral do candidato de Washington Lus, Tibrio Vacariano berrou na praa de Antares-. Fomos esbulhados! Esses ladres s nos podiam vencer em eleies fraudulentas! Agora s h um caminho: a revoluo!
    E aqueles meses durante os quais os jornais falavam com insistncia duma arrancada das foras do Rio Grande do Sul para derrubar o autocrata que ousava impor  nao um candidato prprio  foram tempos de impacincia, tanto para Campolargos como para Vacarianos, cavalos de guerra que mordiam o freio e escarvavam o cho. indoceis, e s no se precipitavam em pico galope rumo da capital federal porque suas rdeas estavam em mos indecisas. No Rio e em So Paulo j fazem troa de ns. Dizem que somos parlapates, que a nossa decantada bravura  pura farofa!
    Zzimo Campolargo, esse parecia j disposto a aceitar o fato consumado. De resto, o Dr. Borges de Medeiros, chefe de seu partido, no lhe parecia nada entusiasmado com a idia duma subverso da ordem. E Zzimo assim se deixou ficar na sua vidoca, lendo lenta e interminavelmente os jornais, indo de vez em quando ao cinema (gostava especialmente dos filmes de cow-boys), tomando o seu chi-marro habitual e relendo romances de Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e Ea de Queiroz.
    Tibrio, porm, no se conteve. Embarcou para Porto Alegre, confabulou com o prprio Getlio Vargas, achou-o vago, ambguo e ficou irritado: Mas como  o negcio, Presidente? Vamos ou no vamos? O Homem sorriu: Devagar com o andor, coronel. Tibrio voltou para Antares decepcionado. Depositava agora as suas esperanas blicas em Oswaldo Aranha, figura fascinante que lhe parecia mais gauchamente afoito que o precavido e manhoso poltico de So Borja.
    Em princpios de outubro daquele ano, quando lhes chegou finalmente a esperada senha telegrfica (O que  que h?) Tibrio tinha j organizado a sua tropa. E alegrava-lhe o corao ver entre seus soldados mais lenos vermelhos do que brancos.
    Um dia lhe chegou a ordem de marchar. E uma das maiores decepes de sua vida foi que a batalha campal de Itarar  que poderia ter sido uma das maiores da Histria do Brasil, no chegou a travar-se.
    Havia, porm, um Vacariano entre os membros da Legio Bento Gonalves que, depois da vitria da revoluo, amarraram seus cavalos no obelisco da Av. Rio Branco. Como observou algum, no bastara aos gachos derrubar o governo federal: era preciso tambm, numa afirmao de machismo guasca, ridicularizar aquele smbolo flico da cidade So Sebastio do Rio de Janeiro.
    
    XXVII
    Zzimo Campolargo seguira tambm rumo de Itarar com o Corpo Provisrio de Antares, comandado por Tibrio Vacariano. No levava a srio o seu uniforme caqui nem as suas divisas de major. No se considerava diminudo e, muito menos, engrandecido por servir sob as ordens dum Vacariano. Tudo aquilo lhe era indiferente. E que muito do que nele parecia pura apatia era um pouco ceticismo e um certo horror  teatralidade.
    Em 1932, quando os paulistas fizeram a sua revoluo, exigindo uma Constituio nova para o pas e eleies presidenciais  pois lhes parecia que o governo provisrio de Vargas estava ficando crnico  Tibrio Vacariano de novo formou seus batalhes, para defender a legalidade, segundo ele  para forrar o poncho, murmuravam  so-capa seus desafetos, que conheciam todas as tramias que o filho de Xisto fazia com as suas famosas requisies de guerra.
    Zzimo Campolargo, entretanto, simpatizava com a revoluo constitucionalista. Nada, porm, podia  nem mesmo queria  fazer de concreto a favor dela. Limitava-se a escutar s escondidas o noticirio sobre a guerra civil divulgado pelas estaes de rdio dos revoltosos.
    Entre os muitos bens e obrigaes que lhe haviam cabido por morte do pai, herdara tambm, embora a contragosto, a fidelidade poltica que o velho Benjamim votava ao Dr. Borges de Medeiros, e da qual ele, Zzimo, participava duma maneira apenas intelectual, morna e distante. Quando se divulgou a notcia de que o velho chefe republicano, num gesto simblico mas dum grande sentido moral, havia ido para a coxilha de armas na mo, cumprindo um compromisso assumido com os revolucionrios paulistas  Zzimo Campolargo, que gostava de imaginar-se um homem liberto de mitos e smbolos  julgou-se no dever de juntar-se ao dolo poltico de seu falecido pai. Preparou-se para isso, mas com to pouco entusiasmo e tamanho vagar, que na vspera de deixar Antares para ir ao encontro do pequeno grupo que acompanhava o Dr. Borges de Medeiros, chegou-lhe a notcia de que o histrico varo da propaganda republicana havia sido feito prisioneiro por tropas fiis a Getlio Vargas, depois do combate de Cerro Alegre.
    Como na cidade era bastante conhecida a sua posio ante aquela guerra civil, Zzimo Campolargo no hesitou em cruzar o rio, buscando asilo na Argentina. D. Quitria, porm, permaneceu em Antares, para tomar conta da famlia e de seus negcios, e de vez em quando ia a Buenos Aires visitar o marido. Tibrio Vacariano fazia vista grossa a essas idas e vindas. Gostava dos Campolargos. Dizia aos ntimos que nesse casal era a mulher quem carregava os cojones. Zzimo voltou para Antares em princpios de 1933. Quando ele e Tibrio se encontraram na rua pela primeira vez, apertaram-se as mos, abraaram-se e o Vacariano, com um risinho entre sarcstico e afetuoso, perguntou:
     U? Onde andou metido todo esse tempo? Na estncia?
    
    XXVIII
    Quando em 1934 o Brasil adotou uma nova Constituio e Getlio Vargas foi eleito Presidente da Repblica pela Assemblia Constituinte, por um perodo de quatro anos, Tibrio Vacariano fez sua primeira visita ao Rio de Janeiro. Teve um rpido colquio com o Presidente, que o recebeu com afabilidade, no Palcio do Catete, declarandc-lhe: O senhor, coronel,  o meu homem de confiana em Antares. Tibrio aproveitou a oportunidade para conseguir com o chefe da nao bons empregos em reparties pblicas federais para alguns de seus parentes e amigos. Fez esses pedidos como quem quer dar a entender que ele, Vacariano, no queria nada para si mesmo, pois Deus me livre, Prendente, de abusar duma amizade....
    Passou um ms na capital federal, conheceu-lhe a vida noturna, fez relaes, insinuou-se nos bastidores da poltica e ficou estonteado quando teve uma viso do mundo dos negcios e especialmente do submundo das negociatas. Guardou a impresso de que o Rio era como uma daquelas localidades do Far West americano  que ele conhecia de fitas de cinema  nos tempos da corrida para o ouro. Na capital do Brasil havia ouro  flor do solo. Os primeiros faiscadores  vindos de todos os quadrantes do pas  mexiam no cascalho das reparties pblicas e principalmente no dos ministrios. Alguns haviam j encontrado veios riqussimos. Era uma luta de apetites, choques de interesses, um torneio de prestgio, um jogo de pistoles. Muitos dos capites e soldados da revoluo que levara Vargas ao poder, cobravam agora o seu soldo de guerra. Um amigo de Tibrio, um gaucho cnico, que ganhara um lucrativo cartrio, lhe disse um dia, comentando aquele garimpo alucinado: Para conseguir o que quer, Tib, essa gente  capaz de tudo, at de usar meios decentes e legais.
    Tibrio Vacariano voltou para casa com a cabea cheia de planos efervescentes. Conclura que havia chegado a sua hora de tirar o p do lodo, isto , livrar-se por uns tempos da vidinha pacata, segura mas medocre e montona que levava em Antares. Afinal de contas um homem s vive uma vez. Tinha j entrado na quadra dos quarenta, sentia-se em pleno meio-dia da vida. O Rio de Janeiro fervia permanentemente de fmeas jovens e apetitosas, algumas delas fceis. Pela primeira vez Tibrio havia atentado na beleza do cenrio da grande metrpole. Ota cidade linda!  costumava dizer aos amigos.
    Em Antares encontrou tantos problemas e tarefas ato-caiados  sua espera, que se deixou envolver por eles e pela rotina, e acabou guardando seus projetos cariocas em alguma recndita gaveta de seu ser. Algumas vezes, porm, quando estava em cima dum cavalo, na estncia, parando rodeio ou simplesmente cruzando uma invernada, passavam-lhe pelo campo da memria imagens fugidias como essas que a gente mal v pela janela dum trem em movimento. O Corcovado... a pedra da Gvea... ondas batendo na pedra do Arpoador... as areias de Copacabana... caras, coxas, seios, pernas, ndegas de mulheres, sob pra-sis coloridos... peles reluzentes de leo de coco... e o sol e o mar e as montanhas... Pota que me pariu! Que  que eu estou fazendo aqui neste fim de mundo, fedendo a creolina e levando esta vida de baguai?
    Nessas ocasies Tib Vacariano entregava-se a algo que tinha todo o jeito duma saudade. Precisava voltar quela California!
    
    XXIX
    E voltou mesmo, em 1938, depois de proclamado o Estado Novo, que lhe pareceu um golpe genial do Baixinho para continuar no poder sem os trambolhos do Congresso e dos partidos polticos. Antes de embarcar, conversou longamente com Zzimo, que o escutou num silncio entre tristonho e constrangido:
     Precisas compreender, homem, que os tempos mudaram.  E, num tom quase de colegial lendo um editorial de jornal, acrescentou:   preciso reformar as velhas estruturas chamadas democrticas liberais. O Getlio compreendeu a coisa. Somos um pas subdesenvolvido de analfabetos e indolentes.  indispensvel unificar e organizar a nao com punho de ferro. V o caso da Itlia... O Mussolini acabou com a anarquia, implantando a ordem e o respeito  autoridade, e os trens j partem e chegam dentro do horrio.
     No sabia que tinhas aderido ao fascismo  sorriu Zzimo.
     Qual fascismo qual nada! Sou um realista e como tal simpatizo com os regimes autoritrios. Sempre simpatizei, tu sabes.
     Mesmo no tempo do Dr. Borges de Medeiros?
      homem, estamos na era do avio e do rdio e tu me vens com o borgismo! Naquela poca eu era pouco mais que um rapazola inexperiente. E se me meti na revoluo de 23 foi s para seguir o meu velho pai. Mas no desconverses. O Hitler reergueu a Alemanha, aboliu todos os partidos (menos o dele, naturalmente), botou pra fora do pas os judeus que, como se sabe, so os culpados dessas guerras e intrigas polticas e financeiras internacionais, homens gananciosos e sem ptria.
     Tambm no sabia que tinhas virado racista.
     Racista eu? Ora, no sejas bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retintos. Quando leio esses casos de dio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil a gente, graas a Deus, no tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar.
    Logo ao chegar ao Rio, em maio de 1938, a primeira coisa que Tibrio fez foi visitar Getlio Vargas e reafirmar-lhe a sua solidariedade pessoal e poltica. Nessa ocasio o ditador lhe disse: Pois me alegro de ver que o amigo compreendeu o esprito do Estado Novo, que no fundo  puro castilhismo. Tibrio, que havia herdado do pai uma antipatia invencvel pela figura de Jlio de Casthos e por suas idias polticas, limitou-se a dizer: Mas  claro, Presidente, s no v isso quem no quer!
    Naquele mesmo ano o chefe do cl dos Vacarianos comprou um apartamento na Av. Atlntica com o auxlio dum emprstimo conseguido rapidamente no Banco do Brasil, graas a um carto com umas palavrinhas do Homem. Pretendia dali por diante passar uma parte do ano no Rio e a outra em Antares, evitando assim  explicava  os invernos midos das barrancas do Uruguai, que j comeava a sentir nos ossos.
    
    XXX
    Em 1940 estava j funcionando a mquina que ele montara para ganhar dinheiro. Associado a um primo seu e amigo ntimo, formado em Direito, Tibrio abrira um escritrio de advocacia administrativa e comeara a vender a mais curiosamente abstrata das mercadorias: influncia. Era um negcio em que no empatava nenhum capital em dinheiro. Jogava com o seu prestgio pessoal, suas boas relaes com indivduos colocados em postos-chave na engrenagem governamental. Sabia-se que ele tinha trnsito livre no Catete e em vrios ministrios, e isso lhe valia boas comisses pagas com muito boa vontade por quem quer que estivesse interessado em movimentar requerimentos encalhados no mar de sargao das reparties pblicas.
    Esquentado, autoritrio  a princpio cometeu o erro de empregar nessas gestes o que ele chamava de sistema gacho e ir levando tudo e todos por diante a grito no mais.... O primo foi franco com ele: Olha, Tib, no te esqueas que no ests na tua estncia onde mandas e desmandas, gritas com os teus pees e eles baixam a cabea e te obedecem. Esse negcio de bancar o valento no d resultado aqui no Rio. Os nortistas, os nordestinos e os mineiros so, sem dvida alguma, to machos como ns e nos levam a vantagem de serem muito mais espertos e habilidosos. Ou tu mudas de ttica ou acabamos dando com os burros ngua.
    Tibrio no gostou da crtica mas procurou aproveitar a lio. Mudou de mtodo. Aos poucos aprendeu a pacienta, a blandcia, a sinuosidade. Recalcou suas cargas de cavalaria ancestrais. Pode-se at dizer que no Rio completou 0 seu aprendizado de pedestre. No esqueceu, entretanto, flue de vez em quando, em casos extremos, quando todos os outros recursos se esgotam, dava bom resultado segurar o sacripanta pelas lapelas, apert-lo contra uma parede e rosnar: Te quebro a cara, cafajeste! Gestos violentos como esse, porm, se foram tornando cada vez mais raros.
    Aos quarenta e dois anos, era Tibrio Vacariano um homem alto e corpulento, de cabea leonina, cara larga dum moreno claro, olhos meio enviesados e escuros, denunciando antepassados bugres, denncia essa confirmada pelos malares um pouco salientes e pela basta cabeleira negra e lisa. Trajava com essa elegncia da fronteira, de que era exemplo tpico o Dr. Jos Antnio Flores da Cunha  camisas e gravatas de seda, ternos de linho branco, chapu panama. Era um bom contador de causos. Suas anedotas e relatos picarescos, temperados aqui e ali com castelhanismos oportunos, faziam sucesso, contribuindo para que o filho do falecido Xisto Vacariano se tornasse uma figura popular em certos crculos sociais do Rio de Janeiro, onde era considerado um boa bola. Tinha fama de generoso, pois as pessoas no chegavam a perceber bem que suas ddivas eram mais verbais que concretas. Tibrio sabia administrar muito bem a sua generosidade, exercendo-a apenas com pessoas que lhe estavam sendo ou pudessem um dia vir a ser-lhe teis.
    Era visto com freqncia na madrugada dos cassinos, na companhia de belas mulheres. Jogava roleta com alguma sorte. Teve uma amante hngara, que acabou abandonando por cara.
    Alm da advocacia administrativa, ganhava dinheiro em transaes imobilirias e ocasionalmente no cmbio negro. A Segunda Guerra Mundial proporcionou-lhe oportunidades para bons negcios, uns lcitos, outros ilcitos. Habituara-se a viver  sombra do Banco do Brasil, do qual conseguia emprstimos para amigos e scios, e para si mesmo. E, como tantos de seus pares, j possua, num banco de Zurique, uma conta corrente numerada, cada vez mais gorda em dlares.
    Em 1931 entrara no que considerava um verdadeiro negcio da China. Estabeleceu uma fbrica de seda nos arredores de Antares. Constava ela apenas dum grande barraco de madeira s margens do Uruguai, sem nenhuma mquina, apenas com mesas e prateleiras, e uma porta que dava para o rio e trs na fachada.  noite vinham da margem argentina barcas carregadas de peas de seda, de origem vria, e que eram levadas para a fbrica, onde uns cinco ou seis empregados as enrolavam em rtulos Seda Flor da Fronteira  Indstria Nacional e depois as expediam para muitas partes do Estado e para Santa Catarina e Paran. Os guardas aduaneiros protegiam esse contrabando. Eram gente do Tib, todos bem remunerados pelo caudilho.
    Ano aps ano, mal entrava o ms de novembro, Tibrio punha-se a caminho do Rio Grande do Sul, de Antares e das suas terras, onde tornava a ser o estancieiro, o patro, o homem que manda, desmanda e grita. Aliviava assim o peito e a cabea de todos os improprios e mpetos agressivos reprimidos durante seus meses de atividade civilizada no Rio de Janeiro, no convvio com gente do asfalto e da areia da praia.
    De quando em vez, durante o vero, ia  cidade para conversar com seus amigos e prepostos. O prefeito de Antares era um primo-irmo seu, pois o interventor federal no nomeava ningum para cargos pblicos dentro daquele municpio sem antes consultar o seu cacique.
    Quando, em fins de abril ou princpios de maio de cada ano, embarcava de volta  capital federal, Tibrio Va-cariano, ao vestir a sua roupa de linho ou tropical, enver-gava tambm a sua personalidade carioca. J se habituara a esse tipo de vida, e achava at um sabor esquisito nessa duplicidade. D. Briolanja, que detestava o Rio de Janeiro com um provincianismo talvez animado por uma centelha de orgulho farroupilha, via com resignada apreenso as transformaes por que passava o marido. Nada dizia, porm. Tinha o hbito, que mais parecia um vcio, do silncio. Voltava-se inteira para os filhos e os sobrinhos e para as suas atividades de dona de casa. Sabia tambm que, se interpelasse o marido por causa daquela sua vida de cassinos e aventuras erticas (recebia s vezes cartas annimas) ele lhe perguntaria, como j fizera uma vez: Por acaso est te faltando alguma coisa, Lanja?
    
    XXXI
    Quando em 1943 um grupo de intelectuais e polticos mineiros publicou um manifesto pedindo a volta do Brasil ao regime democrtico, Tibrio Vacariano interpretou isso como a primeira fissura visvel no baluarte do Estado Novo, cujos fundamentos  sentia ele  estavam sendo aos poucos solapados pelo trabalho subterrneo de seus inimigos. A prpria Histria  como lhe havia dito um amigo de boas letras  conspirava contra o regime getulista, cujas contradies eram demasiado visveis e haviam ficado ainda mais gritantes quando, no ano seguinte, o Brasil mandou uma Fora Expedicionria  Itlia, para lutar ao lado dos americanos, em nome da democracia, contra o totalitarismo hitlerista, enquanto Getlio Vargas mantinha ern casa uma verso paternalista de fascismo.
    Foi com certa apreenso  e j pensando na sua retirada, caso houvesse uma radical mudana de ventos polticos  que Tibrio Vacariano viu entrar o ano de 1945. Em janeiro leu nos jornais a notcia de que se havia reunido o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, do qual resultar um memorial em que se reclamava publicamente a volta do pas ao regime democrtico. Tibrio era um inveterado ledor de jornais e de vez em quando lia livros  de preferncia biografias e crnicas polticas  mas em seu esprito, por alguma razo misteriosa, jamais tinha presente com clareza a relao existente entre livro e autor, como a de causa e efeito. Quando se referia a alguma pessoa incor-rigivelmente sonhadora, destituda de senso comum, costumava dizer: E um poeta! Estava j convencido de que os escritores em sua maioria inclinavam-se politicamente para a esquerda, sendo portanto uns chatos. Pois agora at esses escrevinhadores  que nem sequer constituam uma classe pois no tinham sindicato  haviam deitado manifesto, reclamando no s completa liberdade de expresso como tambm eleies presidenciais por sufrgio universal e com voto secreto!
    O que deu a Tibrio uma idia de como o Departamento de Imprensa e Propaganda  o famigerado D.I.P.  comeara a dormir nas palhas foi o ter ele permitido que os jornais publicassem uma entrevista com Jos Amrico de Almeida, e na qual o amigo do falecido Joo Pessoa se manifestava claramente favorvel  realizao de eleies presidenciais e declarava, com todas as letras, que nesse pleito dois homens havia no Brasil que no podiam ser candidatos: ele prprio e o Dr. Getlio Vargas.
    O ditador, que fazia muito andava silencioso, marom-bando, concedeu  imprensa uma entrevista coletiva na qual procurou justificar a sua discutida Constituio de 37, da autoria do Prof. Francisco Campos. Quando lhe perguntaram se pretendia ser candidato  reeleio, desconversou.
    Falava-se, pois, e escrevia-se livremente sobre a rede-mocratizao do Brasil. Os jornais aos quais o D.I.P. dera um dedinho de liberdade tomavam toda a mo, alguns j exigiam o brao e cedo a imprensa acabaria agarrando o corpo inteiro...
    Os universitrios, que tinham fundado a Unio Brasileira de Estudantes, realizaram no Rio um agitado comcio popular pr-democracia. Seus colegas no Recife fizeram idnticas demonstraes mas a polcia l reagira contra eles com grande violncia, matando um estudante e um operrio.
    
    XXXII
    Em abril de 1945 o governo de Getlio Vargas concedeu anistia a todos os presos polticos do pas, inclusive ao chefe comunista Lus Carlos Prestes, encarcerado havia quase nove anos.
    As eleies presidenciais haviam sido marcadas oficialmente para o dia 2 de dezembro daquele mesmo ano. Um dia um amigo liberalide de Tibrio encontrou-o no saguo de um dos ministrios e saudou-o de longe com um gesto de mo e estas palavras: A procisso est na rua, meu velho! Tibrio sacudiu a cabea, num assentimento, e ficou pensando: Que a procisso est na rua eu sei. S no sei ainda que santo, que irmandade vou seguir.
    Um dos candidatos  presidncia da nao j pblico e notrio era o Brig.ro Eduardo Gomes, com o qual Tibrio antipatizava por causa de sua reputao de homem impoluto, espcie de vestal do Exrcito e da Democracia. (A palavra democracia comeava a fazer-lhe mal ao estmago.) Um novo partido, a Unio Democrtica Nacional, formado principalmente por elementos antigetulistas, havia decidido adotar oficialmente a candidatura do Brigadeiro. Um segundo candidato surgira na pessoa do Gen. Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra do governo de Getlio Vargas, com cujo beneplcito  j publicamente anunciado pelo prprio ditador  ele contava. (Tibrio via nesse apoio um gesto de diablica habilidade poltica, ao mesmo tempo de sutil humorismo e, bem no fundo, de vingana, como se o Baixinho pensasse assim: Ah! Me acham ruim? Pois elejam o Dutra para ver o que  bom.)
    Para Tibrio o Gen. Dutra no cheirava nem fedia. Era sem dvida um cidado honrado. Mas quantos milhes de homens decentes existiriam no territrio nacional mas sem competncia para dirigir a nao? Outro aspecto da questo sucessria que impressionava o Cel. Vacariano era o fato de que o salafrrio do Getlio  e aqui o adjetivo salafrrio tinha uma conotao positiva e afetuosa  contava ainda com a estima e a admirao de grande parte do povo brasileiro.
    Um dia teve uma audincia de cinco minutos com o ditador e. depois de tratar do assunto que o levara at ele, perguntou-lhe de chofre: Presidente, por que o senhor no se candidata em dezembro? As massas esto do seu lado. A sua eleio seria uma barbada. O so-borjense mostrou os belos dentes no seu j lendrio sorriso despistador e murmurou: Quem sabe, coronel? E em seguida como que se sumiu, envolto na fumaa azulada de seu longo charuto. E no tocou mais no assunto.
    A Grande Guerra havia terminado. Hitler estava morto e o nazismo, aniquilado. A Fora Expedicionria Brasileira em breve comearia a voltar  ptria. O Partido Comunista Brasileiro agora funcionava legalmente e realizara j um grande comcio Os estudantes continuavam politicamente ativos. Os mineiros ainda conspiravam. A candidatura do Gen. Dutra contava com o apoio oficial do Partido Social Democrtico, formado de elementos conservadores, foras que at ento, dum modo ou de outro, haviam colaborado com Getlio Vargas em todo o pas, e que tinham grande fora nas pequenas cidades das zonas rurais.
    Talvez o mais certo  concluiu Tibrio, pensando na sabedoria dum ditado gacho  seria apostar no cavalo do comissrio, que nunca perde carreira.
    Em agosto daquele ano um amigo seu, getulista dos quatro costados, lhe disse:
     Coronel, acabamos de fundar o Partido Trabalhista Brasileiro. Vai ser o mais poderoso do Brasil, o partido das massas, do operariado, do homem comum, do povo. Seja um dos nossos! O P.T.B. vai lutar contra essa idia desastrosa das eleies presidenciais em dezembro. Queremos uma Constituinte com Getlio ainda no poder.
     Mas esse  o programa do Partido Comunista!
     E da? Se a idia  boa, por que no apoi-la?
     Com comunistas no vou nem pro Cu.
     Mas quem lhe disse que comunista entra no Cu?
     Queres que te fale com franqueza? As coisas esto de tal modo confusas que j no sei mais a quantas andamos. Depois que li nos jornais que o governo dos Estados Unidos permitiu que as tropas russas chegassem a Berlim primeiro que as deles, e depois que vi numa fotografia soldados soviticos e americanos confraternizando... bom, no duvido de mais nada. Se me disserem que Deus Nosso Senhor deu uma guinada para a esquerda, eu acredito... 
    Tibrio Vacariano via agora, para onde quer que se voltasse, cartazes e letreiros nas paredes e muros: Queremos Getlio!  Abaixo as Eleies de Dezembro!  Constituinte com Getlio. Os termos queremismo e queremista pareciam ter entrado definitivamente para o dicionrio poltico brasileiro.
    Por outro lado o Brigadeiro empolgava as chamadas elites, atraa os elementos intelectuais da nao, ao mesmo tempo que sua figura fsica e sua aurola de bom filho e bom catlico fascinava mulheres de todas as idades. A cara do Gen. Dutra  achava Tibrio  no ajudava o homem eleitoralmente. Mas um dia, por acaso, entreouviu um certo Dr. Fernando Carneiro, homem de aguda inteligncia, dizer numa roda: Ganha o Gen. Dutra.  que o eleitor brasileiro tem uma curiosa confiana e at uma certa predileo afetuosa pelos homens fisicamente feios. Quanto ao Baixinho, continuava calado, e muitos imaginavam que ele tinha escondida na manga uma carta  um s  que jogaria no momento oportuno.
    Tibrio Vacariano tratou de preparar cuidadosamente a sua retirada. Fazia j alguns anos que tinha fechado a sua fbrica de seda s margens do Rio Uruguai. No queimou propriamente pontes, mas queimou papis. Quando menino aprendera, em teatros mambembes e circos de cavalinhos, que existem principalmente dois tipos de mgicos: os sujos e os limpos. Os primeiros trabalhavam to mal, que seus truques ficavam visveis e risveis, e os pobres coitados eram vaiados pelo pblico. Os segundos tinham tal habilidade, tal destreza, que as suas prestidigita-es pareciam verdadeiros milagres. Tibrio gabava-se de ser um mgico limpo. Procurava fazer as suas trapaas sem ficar com o rabo preso na ratoeira. Por princpio jamais escrevia cartas ou mesmo bilhetes. Negava-se terminante-mente a assinar compromissos escritos, at mesmo os rigorosamente legais. Com ele era tudo no papo. Mesmo assim, encontrou documentos que precisava destruir, por perigosos.
    Quando em setembro daquele ano de 1945 voltou para Antares, ao v-lo chegar na maciota, antes do tempo, os maldizentes murmuraram: O navio deve estar mesmo afundando, pois os ratos j comearam a abandon-lo....
    
    XXXIII
    Tibrio Vacariano encontrava-se ainda na estncia em outubro de 1945 quando ouviu pelo rdio a notcia de que o Exrcito havia forado Getlio Vargas a renunciar. Escutou tambm, e com um risinho sardnico  murmurando de quando em quando: Pois sim...  Essa eu no engulo.  Agora  que vens nos contar isso?  a leitura da proclamao em que o Gen. Goes Monteiro justificava o golpe de Estado, assumindo plena responsabilidade por ele.
    No dia seguinte saiu para o campo, com uma coisa no peito. Sentia pena do Dr. Getlio. O baque devia ter sido duro para o seu amor-prprio...
    Um sobrinho seu veio da cidade para lhe comunicar que o ex-ditador j se encontrava no municpio de So Bor-ja, na sua estncia do Itu.
     O senhor vai visit-lo?  perguntou o rapaz. Tibrio lanou-lhe um olhar enviesado:
     No sei ainda.
    Estava em dvida. Sentia que a sua obrigao era ir ver o homem a quem tantos favores e atenes devia. Concluiu, entretanto, que numa conjuntura como aquela, o melhor era fazer como certos animais na hora do perigo: fingir de morto. Justificava-se perante si mesmo e os outros: O Dr. Getlio deve estar cercado de queremistas trabalhistas e sevandijas. Se eu visito o Homem agora, todo mundo vai pensar que isso  um ato de solidariedade poltica. Nessa eu no caio. Deixou-se ficar em suas terras.
    Voltou para Antares em meados de novembro e promoveu uma reunio do diretrio local do Partido Social Democrtico, do qual era presidente. Encontrou um dia Zzimo Campolargo na Praa da Repblica, abraaram-se, trocaram-se nacos de fumo em rama, prepararam os seus palhieiros e sentaram-se num banco,  sombra dum platano, para conversar e fumar.
     Sempre adversrios, hem, Zzimo?
     Pois . Me fizeram presidente do diretrio da U.D.N. Coisas da Quita, que continua uma grande politiqueira... E por falar em poltica, j foste visitar o Dr. Getlio?
     No. Por que perguntas?
     Ele no era teu amigo?
     Era e . Mas eu separo o homem do poltico. So duas coisas diferentes.
     Desde quando?  sorriu Zzimo.  Desde que ele caiu?
     Ora, vai-te  merda!
     Dela sairemos se o Brigadeiro for eleito.
     Mas no vai ser. Ganha o Gen. Dutra. Aposto um Poleango. (Era assim que Tibrio pronunciava, como muitos outros gachos, Polled Angus.)
     Ento  por isso que ests no P.S.D., no? Ou queres me fazer crer que  por convices polticas?
     Falar em convices polticas nesta altura dos acontecimentos  a maior bobagem deste mundo. Em matria de idias a tua U.D.N. e o meu P.S.D. so cavalos da mesma raa, filhos da mesma gua e do mesmo garanho, com o mesmo plo e as mesmas manhas, s que com nomes diferentes. E ou no ? Confessa.
    Zzimo sacudiu negativamente a cabea.
     A U.D.N.  vinho de outra pipa  replicou.  O P.S.D. est minado de getulistas e oportunistas. O Dr. Getlio est recomendando a seus partidrios que votem no Gen. Dutra, mas presta bem ateno, Tib, ele faz isso sem o menor entusiasmo. E ao mesmo tempo acertou a sua prpria candidatura ao Senado e  Cmara federais pelo P.T.B. e pelo P.S.D. E uma duplicidade indita na nossa vida poltica, acho.
    Tibrio, com o cigarro apertado entre os dentes, olhava fixamente para a Matriz, murmurando:
     . O Getlio nunca fecha as suas portas nem as suas janelas. Pelo menos com tranca.  um feiticeiro.
     Feiticeiro? No sei. Talvez a feitiaria dele esteja nas nossas fraquezas, ambies e supersties. Em qualquer caso, as urnas vo ter a ltima palavra. Acho que o teu amigo est politicamente liquidado.
     No sei... no sei... at o dia 2 de dezembro muita coisa pode ainda acontecer.
     Ests vendo? Isso  que eu chamo de superstio e fraqueza. No fundo s um queremista!
    De sbito, mudando o tom de voz, Tibrio Vacariano disse :
     O Pe. Gerncio me disse que a Matriz anda precisando duns consertos e duma pinturinha.
     O Brasil tambm, Tib, o Brasil tambm.
    
    XXXIV
    Quando a eleio do Gen. Eurico Gaspar Dutra foi confirmada pelo Congresso, muitos jornais em todo o pas reconheceram que o apoio de Getlio Vargas havia sido decisivo para essa vitria. O prprio ex-ditador fora eleito por expressivo nmero de votos no s deputado federal como tambm senador.
    Eu no me enganava  refletiu Tibrio Vacariano.  O prestgio do Homem  ainda uma coisa sria. Ele ainda  trunfo no baralho poltico. Pediu a um amigo comum que sondasse o Dr. Getlio para saber como ele receberia uma visita sua. A sondagem foi feita e a resposta veio, clara e curta. O Dr. Getlio Vargas no o receberia.
    Em fins de 1947, Tibrio um dia comentou entre amigos que o Gen. Dutra, na sua opinio, havia feito uma coisa certa e outra errada. A certa era ter posto o Partido Comunista Brasileiro fora da lei. A errada, ter proibido os jogos de azar em todo o territrio nacional. Algum objetou que o jogo, alm de ser uma imoralidade, era a perdio das criaturas. Tibrio fitou o moralista com os seus olhinhos malaios e disse: Olhe, moo, mais desgraa tem acontecido aos homens por causa de mulher do que por causa de jogo. Voc ento acha que devia haver uma lei proibindo homem de gostar de mulher, e vice-versa?
    Na volta de um de seus invernos cariocas Tibrio contou aos amigos que costumavam reunir-se todos os dias s dez da manh, na Farmcia Imaculada Conceio, de propriedade de um dos genros de Zzimo Campolargo, num grupo de chimarro conhecido na cidade como a rodinha da Imaculada:
     Vocs diziam que havia corrupo no tempo do Getlio, no ? Pois fiquem sabendo que as negociatas e as roubalheiras continuam neste governo do Gen. Dutra e dizem at que a coisa agora  pior, s que mais escondida. O Presidente, que  um homem de bem, no sabe da missa a metade. Durante a guerra acumulamos reservas em ouro na importncia de mais de setecentos milhes de dlares. J no temos quase mais nada. Gastamos tudo comprando sobras de guerra e outras porcarias que os Estados Unidos nos impingiram.
     Ora, coronel, isso  exagero.
     Exagero qual nada!  vociferou o Vacariano, segurando a cuia como uma granada de mo prestes a ser atirada contra a cambada de ladres que cercava o novo Presidente.  Nunca falta um sem-vergonha filho da me disposto a vender a ptria por trinta dinheiros. Nossa situao econmica e financeira  uma calamidade.
    Algum arriscou um resmungo:
     Afinal de contas, coronel, o general foi eleito pelo seu partido.
     Bom, mas com a gente do Brigadeiro a coisa ia ser ainda pior.
    Os outros freqentadores da rodinha da Imaculada entreolharam-se significativamente, mas em silncio. Todos conheciam muito bem o Cel. Tibrio Vacariano, flor do patriciado rural de Antares.
    
    XXXV
    Quando em 1950 Getlio Vargas aceitou a sua candidatura  presidncia da Repblica, o caso foi debatido s dez de certa manh pelos tomadores de mate da Farmcia Imaculada Conceio. Disse Zzimo Campolargo:
      uma loucura. O Getlio perdeu a noo da realidade. Nunca na Histria do Brasil ou de qualquer outro pas, que eu me lembre, um ditador expulso do poder pelo seu prprio exrcito voltou ao governo eleito pelo povo.
    Tibrio Vacariano escutou estas palavras sem dizer gua, amaciando esqurolas de fumo na palma da mo. Pouco depois, j de crioulo aceso entre os dentes, os olhos entrecerrados, murmurou: No sei... no sei... Acho que o Baixinho tem parte com o demnio. O eleitorado trabalhista est aumentando. Ali mesmo em Antares, s quase trs centenas de operrios do Frigorfico Pan-Americano somavam-se agora os trabalhadores da Cia. Franco-Brasilei-ra de Ls, estabelecida na periferia da cidade, fazia dois anos. Havia ainda o pessoal das indstrias menores. Calculava-se que pelo menos noventa por cento desse proletariado em idade eleitoral estava inscrito no P.T.B. e obedeciam todos  chefia dum tal Geminiano Ramos, homem de escassos trinta anos e que, alm de ter fama de marxista, usava bi-godes  Stalin. Como o Partido Comunista Brasileiro estivesse fora da lei, Geminiano  operrio de folha-corrida policial ainda limpa  infiltrara-se no Partido Trabalhista Que, no dizer de Tibrio, era uma espcie de sala de espera do comunismo.
    A Unio Democrtica Nacional tentava de novo a fortuna nas urnas com o nome do Brig.r Eduardo Gomes. O Partido Social Democrtico, por insistncia do Gen. Eurico Dutra, apresentara um candidato eleitoralmente inexpressivo, o Dr. Cristiano Machado, praticamente s conhecido em seu estado natal, Minas Gerais. Esse inocente vai ser jogado na fogueira!  profetizou Tibrio.
    Um dia na rodinha da Imaculada, poucas semanas antes da eleio, lanou um desafio geral:
     Aposto dois bois Poleangos com cada um de vocs como o Getlio ganha a eleio, e de rebenque erguido.
    No meio do silncio que se seguiu, Zzimo Campolargo falou sereno:
     No sou homem de apostas.
    Tib teve vontade de dizer-. No s homem de nada. Um gua-morna dominado pela mulher. Mas engoliu essas palavras com um sorvo quente de chimarro.
    
    
    XXXVI
    Uma noite, uma semana antes da eleio, da janela de seu palacete, mas invisvel para quem estivesse na rua, o patriarca dos Vacarianos assistiu ao ltimo comcio de propaganda do P.T.B., que se realizava na Praa da Repblica. Os oradores falaram de dentro do coreto da banda de msica. Alto-falantes colocados nos quatro ngulos da praa, ampliavam-lhes as vozes. Papai  disse uma das filhas de Tibrio  a praa est preta de gente. Ele sacudiu a cabea, num assentimento impaciente: Estou vendo, menina  disse. D. Lanja, procurando consol-lo, murmurou: , mas mais da metade dessa gente decerto no vota. So curiosos.
    O marido buscou consolo num palheiro, enquanto ouvia os oradores, papagaios queremistas que repetiam as promessas e crticas de seu candidato. Nos seus discursos durante toda a sua campanha presidencial, Getlio Vargas abstivera-se de atacar diretamente a figura respeitvel do Presidente da Repblica, mas dissera horrores dos desastrosos erros da poltica cambial de seu Ministro da Fazenda, que levava o pas  bancarrota. Como Vargas, os oradores daquele comcio apontavam os defeitos e injustias da democracia liberal capitalista e falavam at  como tinham mudado os tempos!  em democracia socialista de trabalhadores. O povo reagia a essas frases com o mais frentico entusiasmo: gritos, urros, aplausos, vivas e morras.
     Veja voc, Lnja  disse Tibrio, atirando uma baforada da acre fumaa de seu crioulo em pleno rosto da esposa.  Quem diria que eu ia viver para testemunhar uma cena dessas! Oradores na praa, na frente da minha casa, falando em democracia socialista e atacando o capitalismo. Tudo obra do Getlio! O mal que esse homenzinho tem feito ao Brasil com as suas leis sociais e as demagogias trabalhistas! Est tudo demudado. Meu pai e seus correligionrios federalistas nunca conseguiram fazer nesta cidade um miservel comcio durante os vinte e cinco anos da ditadura borgista.
    Na praa a turba bradava ritmadamente: Ge-t-lio! Ge-t-lio! Quando de novo se fez silncio para que outro orador falasse, Tibrio se deu o luxo duma reminiscncia em voz alta:
     Uma vez, em 1922, reunimos uns gatos-pingados nesta mesma praa pta fazer propaganda da candidatura do Dr. Assis Brasil, at que um pouco sem entusiasmo, porque meu pai no ia muito com a cara do homem de Pedras Altas. Pois bem. O velho Benjamim mandou seus capangas dissolverem o comcio a rabo-de-tatu e faco. Em poucos minutos a praa se esvaziou... Quando dei pela coisa, estava s com meu pai e uns trs ou quatro companheiros, de revlveres arrancados, no centro da praa, cercado pelos apaniguados do velho Campolargo. Se no fosse a interveno do juiz de comarca, na certa eles nos liquidavam, porque eram maioria e ns estvamos dispostos a morrer brigando. No entanto agora essa canalha est a atacando o regime, com todas as garantias legais. O Getlio entregou o Brasil pra eles numa bandeja de ouro.
    A vitria ser nossa!  gritava na praa o orador, o industririo Geminiano Ramos. Tibrio Vacariano fez um rapido exame de conscincia e achou-se culpado. Na realidade, no fizera nada pelo candidato de seu partido. Durante a campanha adotara a tcnica do corpo mole. Que diabo! Que entusiasmo a gente pode ter por um candidato desconhecido? Cristiano Machado ia ser sacrificado, espcie de Cristo poltico. Seu partido o havia abandonado quase por completo, pelo menos no Rio Grande do Sul. Mais uma vez se ia provar como era fantasticamente poderoso o fascnio que o homenzinho de So Borja exercia sobre muitos daqueles lderes do P.S.D.
    No dia das eleies, quando chegou a sua hora de votar, ele prprio, Tibrio Vacariano, hesitou por um instante dentro da cabina. (No se habituava com o voto secreto, que chamava de voto de covarde.) E para no embromar a marcha da eleio, soltou um que bosta! e, num impulso sentimental, votou em Getlio Vargas. Deixou a cabina meio desenxabido, como quem sai dum quarto de banho completamente nu para entrar inadvertidamente numa sala cheia de senhoras.
    
    XXXVII
    Getlio Vargas tomou posse do cargo de Presidente da Repblica em janeiro de 1951. No inverno desse mesmo ano Tibrio Vacariano foi ao Rio de Janeiro e tentou mais uma vez reaproximar-se do Homem. Viu, porm, todas as suas tentativas frustradas, tanto as diretas como as indiretas. Ante essa repulsa obstinada, teve as mais variadas reaes. A primeira foi de revolta: Pois o pitoco que se lixe! Posso viver muito bem sem a amizade dele! A segunda foi de estranheza: U! Dizem que o Getlio  um homem frio, sem rancores, perdoou at ao Joo Neves da Fontoura pelo Acuso... Que  isso comigo? Houve depois um momento em que se sentiu vtima duma injustia. (Andariam me intrigando com o Presidente?) A seguir consolou-se com a idia, ou esperana, de que um dia o Geg havia de precisar dele, Tibrio, e seria ento o primeiro a mandar-lhe emissrios de paz. A todas essas o senhor de Antares sentia-se ferido no seu amor-prprio, e arrependia-se de haver-se rebaixado a pedir a Getlio Vargas que o recebesse de novo. Isso produzia nele um constrangimento no s perante todos quantos sabiam da estria como tambm perante si mesmo. O diabo era que se ele, Tibrio, era indulgente e compreensivo consigo mesmo, os seus desafetos, ao contrrio, jamais lhe perdoavam os erros e alm disso tinham uma memria de elefante.
    Da janela de seu apartamento da Av. Atlntica s vezes ficava olhando para o mar, pata aquele belo mar com o qual, em todos os seus muitos anos de Rio de Janeiro, jamais tivera a menor intimidade. Gabava-se at, com um certo orgulho de campeiro, de nunca ter sequer molhado as pontas dos dedos dos ps na gua do oceano. Nascera e criara-se  beira do Uruguai, onde vezes sem conta nadara, pescara e navegara de caique. Nas suas terras no podia ver lagoa, aude, sanga ou arroio que no sentisse gana de pelar-se, atirar-se ngua e dar umas braadas ou uns mergulhos. Sou peixe de gua doce  costumava dizer. E agora que no era mais persona grata do governo, que deixara de ser vaqueano nos labirintos daqueles ministrios e reparties pblicas, chegava  concluso de que peixe de rio no pode mesmo viver em gua salgada.
    Poucos dias antes de voltar para casa, Tibrio Vacaria-no foi por puro acaso apresentado a um jovem industrial chins, recm-chegado dos Estados Unidos, um certo Mr. Chang Ling, que ele passou logo a chamar de seu Jango Lins. Tratava-se de um dos muitos homens de negcio que tinham conseguido fugir de Changai antes de esta cidade cair em poder dos comunistas. Trouxera consigo a famlia, os seus mveis mais preciosos, uma carta de crdito (possua no Chase Manhattan Bank de Nova Iorque uma conta Pessoal com um aprecivel saldo credor) e o seu know-how. Queria instalar no Brasil uma fbrica de leos comestveis de soja e amendoim.
    Mal viu na sua frente aquele homem franzino, baixo e amarelento Tibrio teve uma inspirao e convidou-o para almoar no Bife de Ouro, juntamente com o seu intrprete, um rapaz brasileiro que sabia ingls, e que andava pajeand Mr. Ling atravs do emaranhado da selva carioca. O primeiro prato no havia sido ainda servido e j o Cel. Vacariano, voltando-se para o intrprete, pedia:
     Diga a pro seu Lins que descobri o lugar ideal para a fbrica dele.
    A traduo foi feita. O chins sorriu e quis saber onde era.
     Conta pro moo  continuou o Cel. Tibrio  que sou meio dono duma cidade do Rio Grande do Sul que tem nome de estrela (ouvi dizer que chins gosta muito de estrela) nas barrancas do Rio Uruguai, justamente na zona da soja.
    Fez uma pausa para que o intrprete traduzisse as suas palavras para aquela lngua brbara. O chins continuava a sorrir.
     Diga tambm que sou plantador de soja, e da boa! E se ele quiser estabelecer o negcio dele em Antares, eu arrumo tudo: o terreno para a fbrica, material de construo a preo baixo e mais ainda: cinco anos de iseno de impostos municipais! O prefeito da cidade  meu sobrinho e eu tenho na mo a Cmara de Vereadores.
    O chins escutou, sacudindo de quando em quando a cabea, a enumerao de todas essas promessas e depois disse algo em voz baixa ao intrprete, que se voltou para o maioral de Antares :
     Mr. Ling quer saber das suas condies.
     As minhas condies? Ora, quero apenas contribuir para o progresso industrial da minha cidade, que diabo!
    Na realidade pretendia fazer o chin assinar oportunamente um compromisso de compra de toda a sua safra anual de soja, esperava vender-lhe um de seus prprios terrenos para a construo do edifcio da fbrica e, se possvel, ainda por cima ganhar de presente algumas aes da companhia, em troca de todos esses favores.
    Enquanto o tradutor falava, Mr. Chang Ling tomava notas numa pequena caderneta de capa azul, que depois guardou no bolso do casaco.
     Ento?  perguntou Tibrio Vacariano, olhando para o intrprete, que a seguir confabulou em voz baixa com o chins.
     Mr. Ling lhe agradece por tudo, inclusive pelo delicioso almoo, e declara que, quanto ao negcio, vai ainda pensar.
    Tibrio Vacariano pagou a conta do restaurante com a certeza de que havia perdido naquele encontro tempo e dinheiro. Enganava-se. Trs meses mais tarde Mr. Chang Ling apareceria em Antares com a mulher e seus cinco filhos e mais trs compatriotas seus, especialistas na fabricao de leos comestveis.
    Menos de um ano mais tarde inaugurava-se em Antares a Cia. de leos Sol do Pampa, da qual Tibrio Vacariano possua 500 aes que no lhe haviam custado um vintm. Conseguira impingir ao chins um de seus muitos terrenos situados na periferia da cidade. Tinha agora comprador certo para toda a sua produo de feijo-soja. Mas manda a verdade que se diga que cumpriu todas as promessas que fizera no Bife de Ouro ao seu Jango Lins.
    
    XXXVIII
    Em dezembro daquele ano de 1951, aconteceu a Tibrio algo que lhe mudou a vida por completo, fazendo-o esquecer as humilhaes a que o Presidente o submeteu.
    Um dia o telefone de sua casa tintou, e ele pegou o fone, j irritado, como sempre, pois no se havia habituado ainda quela engenhoca, pela qual tinha uma m vontade atvica.
     Pronto!  gritou como quem espera ouvir e dizer desaforos. 
       o Cel. Tibrio?  perguntou uma voz melflua de mulher.
     Quem deseja falar com ele?
     A Venusta.
    Ao ouvir o nome da caftina, Tibrio olhou instintivamente dum lado para outro para verificar se havia algum mais na sala ou proximidades. Pigarreou e disse-.
     Um momento.  Largou o fone e foi fechar a porta. No haveria perigo de outra pessoa escutar a conversao, pois aquele era o nico aparelho existente no casaro.  Pronto. Pronto!
      a Venusta.
     J ouvi! Mas voc no devia telefonar pra minha ca,sa, ora essa! J lhe disse isso mil vezes.
     No fique brabo, coronel.  um assunto importante. Tenho um presente de Natal pro senhor. ..
    Ele escutava, desconfiado. Aquilo s podia ser um subterfgio para um pedido de dinheiro. Havia anos ele ajudara Venusta, uma prostituta aposentada, a montar o bordel mais fino de Antares. emprestando-lhe dinheiro a juro baixo e prazo longo.
     Que negcio  esse de presente?  indagou, cauteloso.
     Eu no me esqueo do que o senhor fez por mim, Cel. Tibrio.
     Est bem, est bem, fale baixo. E no precisa pronunciar o meu nome.
     Estou sozinha aqui em casa. Descobri a rapariga mais linda do mundo. Dezessete aninhos, coronel! O senhor vai ficar maravilhado.
     Novinha, hem?  Soltou uma risada spera de ta-bagista.  E voc vai enrolar a menina em papel celofane e memandar por portador, hem? Quanto vai me custar essa brincadeira?
     No estou pensando em negcio.  Como Venusta ceceava, a palavra negcio soou quase como negfio.  No sou mal-agradecida.
     Como  a moa? Ruiva? Muito branca? Morocha?
     Morena jambo. Mas no adianta descrever pelo telefone. O senhor tem que ver ela pessoalmente.
     Onde est a bichinha?
     Aqui comigo, guardadinha no refrigerador  disse a alcoviteira com uma risadinha despudorada.  Olhe, coronel, a menina caiu na vida no faz nem uma semana.
    Logo que botei o olho nela pensei no senhor.  rf de pai e vivia com a me. Agora est comigo h dois dias e no foi mais pra cama com ningum. No deixei. Reservei ela pro senhor. Venha ver. Se no gostar, fica o dito pelo no dito.
     E se eu gostar?
      sua.
     Est bem. Hoje de noite apareo a.
    Ao jantar tomou apenas uma sopa leve. Depois disse  mulher que ia ao clube e provavelmente voltaria tarde. Saiu de casa a p, mas entrou num carro de aluguel do outro lado da praa e pediu ao motorista que o deixasse  esquina duma determinada rua, na parte baixa da cidade.
    O bordel da Venusta ficava numa ruela pouco iluminada e tinha nos fundos do seu pequeno quintal um porto que dava para um terreno baldio  espcie de entrada secreta ou pelo menos discreta, geralmente usada pelos senhores respeitveis da cidade que queriam entrar naquela casa de rendez-vous sem serem vistos. Tibrio apertou o boto da campainha da porta dos fundos. Venusta em pessoa veio receb-lo, recendente a Tabu, com um vestido de algodo estampado, a cara exageradamente pintada, os cabelos oxigenados de fresco. Era uma cinqentona de carnes balofas e muito alvas, que Tibrio tinha levado algumas vezes para a cama nos tempos em que ela era moa e no de todo destituda de atrativos. Subiram uma pequena escada e entraram num corredor estrategicamente mal-iluminado e por fim pararam diante da porta dum quarto.
     A menina est l dentro  sua espera, coronel. Ela j sabe quem o senhor  e est at meio nervosinha.
     Mas eu ainda no sei direito quem ela ...
     Ora, ningum de circunstncia. O pai era ferrovirio e morreu esmagado por um trem, h uns quatro anos... acho que o senhor se lembra do fato. A me costura pra fora. Gente muito pobre. Um caixeiro-viajante fez mal pra menina e desapareceu. A me descobriu a coisa e botou a boca no mundo. A moa ento veio pra c, mas ningum ainda sabe que ela est comigo. Acho que  fcil acomodar a velha com uns cobres. Deixe a coisa por minha conta.
     Essa estria est me cheirando mal. A menina  menor, a me pode me incomodar, fazer chantagem. No sei... Tenho muitos inimigos. No sei... Nunca falta um rbula filho da me pra pegar uma causa dessas e me extorquir dinheiro... No sei.
    Ficou ali na frente da porta murmurando no sei... no sei.... Mas seu corpo sabia, da cabea aos ps, sabia com uma intensidade que aumentava com o passar dos minutos, o sangue batendo-lhe com fora nas fontes, toda a sua virilidade j agressivamente esculpida, intumescida e latejante.
     Est bem  disse por fim, com voz opaca.  J no estou pensando mais com a cabea, mas com outra parte do corpo. Seja o que os anjos quiserem.
    Venusta abriu a porta e ele penetrou no quarto como um Mira que entra na arena.
    
    XXXIX
    Mais tarde, naquela mesma noite, no leito conjugai, com Lanja a seu lado, ressonando tranqilamente, Tibrio recordou a hora que passara com a rapariga. Que fmea mais bem-feita de corpo! Uma potranca de raa  cabocla de pele acetinada cor de areia mida, seios midos, quadris estreitos, delicada como uma flor... Em cima dela sentira-se com vinte anos menos. E, depois de descarregar a sua primeira e furiosa onda de desejo, ficara ofegante e feliz, deitado ao lado da criaturinha.
     Onde nasceste?
     No Cacequi.
     Como  o teu nome?
     Me chamo mesmo Cleopatra, mas me tratam por Cleo.
     Bonito nome, Cleo...
    E ento ele pusera-se a apalp-la devagarinho, para sentir nos dedos a contextura daquela epidemie, a elasticidade daqueles msculos, o desenho daquele corpo. Chegara a inventar um brinquedo:
     Nunca ouviste a estria da Salamanca do Jarau?
     Nunca.
     Pois era uma vez um campeiro, de nome Blau Nunes. Tinha aprendido com o fantasma dum padre renegado o caminho da furna do Jarau, onde existia um tesouro escondido, e guardado pelos bichos e assombraes mais horrveis. ..
     Credo!
     Faz de conta que aqui vai o Blau Nunes...
    Com os dedos indicador e mdio da mo direita imitou as pernas dum homem a caminhar. Blau Nunes percorreu o brao e o ombro de Cleo, devagarinho, pisando forte.
     De repente Blau avista um cerro...
    E os dedos de Tibrio escalam o seio direito de Cleo e quando chegam ao cume dessa macia elevao brincam com seu mamilo  Uma pedra?  e a rapariga se retorce, cosquenta. Ai! Ai! Ai!
     Ento Blau Nunes desce do cerro e comea a andar por uma linda vrzea...
    E agora os dedos de Tibrio caminham pelo ventre levemente cncavo da menina, com lenta volpia.
     De repente Blau Nunes avista um capo...
     No!
    E ela ergue as pernas, cruza as coxas, num movimento instintivo de defesa, procurando esconder sua furna. Mas Blau Nunes continua a andar... l dentro est a entrada da Salamanca, do tesouro...
    E os dedos de Tibrio  antes, as pernas de Blau Nunes  penetram no capo e encontram a boca da furna. Ai!  suspira ela.  Ai!. Blau Nunes est alucinado.
     Onas de ouro!  exclama Tibrio.  Dobres de ouro! Jias!
    E Cleo se retorce toda, rindo, excitada.
    Tibrio Vacariano levantou-se num prisco. Lanja acordou, alarmada.
    Que foi, Tib? Ests sentindo alguma coisa?
    Sentado na cama, meio ofegante, ele murmurou:
     No  nada. Perdi o sono.
     Decerto tornaste muito caf.
     Pois . O calor tambm est brabo. Mas no  nada, Lanja. Dorme. Eu me arranjo...
    Levantou-se, acendeu um cigarro, comeou a passear pela casa, de pijama, sem destino certo. A imagem de Cleo no lhe saa da mente. O cheiro dela estava nas suas narinas, nos seus dedos, na sua pele, entranhado em todo o seu corpo. Abriu a janela que dava para a praa e debruou-se nela. Vaga-lumes lucilavam por entre rvores e arbustos. Ti-brio olhou para o cu e viu o Cruzeiro do Sul bem por cima da Matriz. O vento morno chegava-lhe s narinas com um cheiro de campo queimado, de mistura com recordaes de infncia e adolescncia.
    Ali na janela o Cel. Vacariano pensou na sua idade. Cinqenta e sete na cacunda! No se podia dizer que fosse j um velho, mas moo, moo mesmo no era mais. Imaginou Cleo instalada na penso da Venusta, recebendo qualquer homem que tivesse dinheiro para pagar o preo que a caftina nedia pelo seu esplndido corpo. A idia lhe era intolervel.
    Voltou para a cama e s conseguiu adormecer madrugada alta. Levantou-se s oito horas, sentindo-se um tanto desmoralizado por ter queimado o assado, pois entre seus hbitos supersticiosos estava o de saltar da cama antes do sol nascer.
    A primeira imagem que lhe veio  cabea ao despertar foi a de Cleo, como a figura dum sonho bom.
    Tornou a procurar a rapariga na noite daquele dia. E noutra manh, barbeando-se no quarto de banho, conversou em silncio consigo mesmo, puteou-se afetuosamente, examinou a prpria cara no espelho, com um cuidado entre realista e tolerante. Bonito sei que no sou, mas  que diabo!  h no mundo gente mais feia que eu.
    Tudo aquilo que sentia com relao  moa  refletiu  devia ser conseqncia da idade crtica. Sim, os homens tinham tambm o seu climatrio. Ouvira esta palavra pela primeira vez da boca de seu mdico carioca. O seu climatrio finalmente chegara, e com que fora!
    Decidiu fazer de Cleo sua amante exclusiva, montar casa para ela. Convenceu a me da rapariga a vir morar com a filha, arranjou tudo com a colaborao da Venusta. Quando um novo ano entrou o Cel. Vacariano tinha o que em lngua de advogado se chama de mulher teda e man-teda. Sentia-se feliz e remoado. Se Lanja desconfiava de alguma coisa, pelo menos no dava nenhuma demonstrao disso.
    E agora, cada vez que Tibrio queria fazer amor com a amante, bastava dizer-lhe: Vamos brincar de Salamanca? Blau Nunes passou a ser uma personagem importante na vida de ambos. E muitas vezes Tibrio Vacariano pensou num remoto antepassado seu que, segundo uma lenda da famlia, tinha um dia entrado na furna encantada do Jarau e andava sempre com as guaiacas cheias de onas de ouro.
    
    XL
    Em meados do inverno de 1954, Tibrio Vacariano passou duas semanas no Rio, tratando de negcios. Revisitou o cenrio de suas aventuras estado-novistas, reencontrou amigos e conhecidos, ouviu boatos e confidencias em torno da situao poltica nacional, e um dia esteve a pique de quebrar a cara dum sujeitinho que fingiu no reconhec-lo na rua. (O calhorda devia-lhe favores!)
    De volta a Antares, contou as novidades aos amigos da roda de chimarro da Imaculada, e uma noite visitou com a mulher a casa dos Campolargos, pois pelo telefone prometera a Quita, sua inimiga ntima, um relatrio verbal sobre sua viagem  Corte, do ponto de vista poltico - que era o nico que realmente interessava a mulher de Zzimo.
    Quando estavam os dois casais acomodados na sala de visitas dos Campolargos, sob o olhar vigilante do falecido Benjamim, ali presente num retrato a leo de meio-corpo  os homens acenderam os seus palheiros, aps o caf, e as mulheres apanharam os seus trabalhos de tric, baixaram a cabea e puseram-se a movimentar as agulhas.
    Durante alguns minutos falou-se do rigor daquele inverno  a umidade agravava o reumatismo de D. Briolanja e no fazia nenhum bem  asma de D. Quitria  e depois cavou-se um silncio, seguido da esperada pergunta da senhora da casa:
     E ento... como vai o teu amigo?
    Tibrio, as mos tranadas contra o volumoso ventre, as pernas abertas, como se estivesse cavalgando a poltrona e no sentado nela, disse:
     O Getlio est jodido.
     Tib!  exclamou Lanja, erguendo brusca a cabea, as orelhas subitamente avermelhadas. Zzimo sorriu ca-nhestro. Quita, porm, soltou uma risadinha em que se notava um leve ronrom de gato. Costumava dizer a amigos e familiares que no tinha medo nem vergonha de palavras.
     Diga por que, Tib  pediu ela.  Mas no me venhas com potocas.
     U!? Por que eu havia de mentir?
     Sempre puxas brasa para a tua sardinha pessedista que, por sinal, j est podre.
    Tib sorriu, remexeu-se na cadeira, cocou disfarada-mente uma das virilhas e comeou:
     O governo est enfrentando uma crise brabssima. Acho que este vai ser ou, melhor, j est sendo o pior ano de toda a vida poltica do Getlio.
     Comeou com o manifesto dos coronis  disse Zzimo, enquanto Tib era sacudido por um repentino acesso de tosse bronqutica, que lhe tingiu a cara duma escura purpura, fazendo-o lacrimejar. Quando pde de novo falar, disse com voz meio apagada:
     Deve ter sido duro para o Homem demitir o seu filho poltico e espiritual do Ministrio do Trabalho. A oposio exigiu a cabea do Jango Goulart...
    Zzimo lembrou a campanha que desde o incio do ano fazia o Estado de So Paulo, que chamava Jango de alter ego de Getlio Vargas e acusava-o de chefe do peronismo brasileiro.
     E por acaso no ser?  perguntou Quita.  O Getlio e o Jango  que encorajam os operrios a fazerem greves e ameaas. No se tem mais sossego neste pas. E depois, onde se viu fazer um aumento de 100% nos salrios mnimos?
      Quita  interveio Zzimo, com sua habitual cordura.  Como  que os trabalhadores podem viver com esses salrios de fome?
     Vivem  replicou a esposa.  Deus  grande. Vivem e se reproduzem como coelhos.
     Bom  continuou Tibrio  o que a oposio afirma e certos jornais de responsabilidade glosam,  que o Getlio mesmo provoca toda essa inquietao social para criar um clima de confuso do qual ele pessoalmente possa tirar proveito. Dizem que est procurando pretextos para evitar as eleies presidenciais e continuar no poder.
    Quitria ergueu a cabea:
     A soluo mais decente, por legal, foi a que props na Cmara a bancada da U.D.N. O impeachment. E se a coisa no saiu foi porque os deputados do teu P.S.D., Tib, se juntaram com os do P.T.B. para derrotar a moo ude-nista. Te lembras da mensagem que o Getlio apresentou ao Congresso, em maro passado? Foi dum nacionalismo to exagerado, que assustou meio mundo. Com esse seu anti-americanismo, ele vai acabar levando o Brasil pro lado de Moscou...
     Esperem!  exclamou Tibrio.  Vocs no sabem do melhor... ou do pior. Sei de fonte segura que o Getlio anda aptico, desinteressado de tudo e de todos, mal l os papis que assina, cochila nas audincias e nas reunies do Ministrio. Enfim, no  o mesmo homem de outros tempos.
     Est velho...  murmurou Quita, de cabea baixa, como se dissesse um segredo s suas agulhas e ao seu fino o de l.
     No  isso  protestou Tibrio.  Afinal de contas ele tem s setenta e dois anos... que diabo! O que est acontecendo  que o Homem anda desiludido, desencantado. Descobriu finalmente que no tem amigos, que est cercadode aproveitadores sem escrpulos, com raras excees.
     Quem semeia ventos  sentenciou a dona da casa  colhe tempestades. O diabo  que nesse caso a tempestade cai sobre a cabea de todos os brasileiros.
     A U.D.N.  prosseguiu o Cel. Vacariano  desde o princpio do ano abriu as suas baterias contra o Catete. Vocs tm lido os artigos do Carlos Lacerda? Que panfletrio! Que mestre da violncia verbal! Seus escritos esto demolindo pouco a pouco o governo do Getlio. Palavra de honra, se esse moo tivesse dito na imprensa sobre a minha pessoa a metade do que disse sobre o Getlio, eu tomava um avio, ia ao Rio e metia-lhe um balao em cada olho, palavra.
    Sem erguer a cabea, Quita troou:
     Deixa de prosa, Tib. O Lacerda no ia gastar plvora em chimango.
     Mas no acredito  observou Zzimo  que o Getlio tenha obtido qualquer resultado financeiro pessoal com esses negcios de crdito irregulares do Banco do Brasil e essas outras indecncias de que est sendo acusado pela U.D.N.
    Tib reacendeu o palheiro e disse:
     Em matria de dinheiro o Getlio  um homem honesto. Mas finge que no v certas safadezas que se fazem a seu redor. A sua tcnica  a de corromper para governar. E nunca se roubou tanto, nunca se fez tanta negociata  sombra do Getlio e em nome dele como neste seu atual quatrinio. Parece que no Catete todo o mundo est danando uma espcie de galope final.
    Neste ponto Quitria ergueu os olhos sem mover a cabea, e esse seu gesto eqivalia a dizer: Olhem s quem est falando em negociatas...
    Tibrio pe-se de p, subitamente animado-.
     Ah! Ainda no contei o melhor a vocs. A grande figura desta Repblica  o negro Gregrio Fortunato, chefe da guarda pessoal do Getlio.
     Dizem que est rico...  murmurou Lanja.
     Milionrio  reforou Quita.  Que vergonha! Temos no Brasil uma Eminncia Negra!
     E nesta infeliz Repblica  prosseguiu Tibrio  o Gregrio tem mais fora que muito ministro. Escutem esta, que  muito boa... Um dia tive de ir ao Catete...
     No me digas que foste outra vez procurar o Ge-tlio pra fazer as pazes com ele!  interrompeu-o a dona da casa.
     Deixa o Tib falar, Quita  pediu Zzimo.
     Qual pazes qual nada! Vamos falar com franqueza. Se o governo do Homem est por um fio, a troco de que santo havia eu de entrar agora nessa canoa furada? Bom, mas  que precisei movimentar um requerimento e fui ao Catete me entender com um oficial de gabinete com quem tenho ainda boas relaes. Entrei no palcio, me meti por uns corredores meus velhos conhecidos e de repente, sem saber como. me vi na sala onde o Gregrio costuma dar as suas audincias... E que vejo? L estava o crioulo como um potentado africano, sentado numa cadeira, com uma toalha amarrada ao pescoo, um barbeiro escanhoando o rosto dele, uma manicura ao lado polindo as suas unhas... O negro estava cercado pelos seus pistoleiros, moos de recado, enfim, pelos membros da sua corte. Quando me viu entrar, nem se dignou a me dar bom dia. Tambm fingi que no tinha visto ele e fiz meia volta. Um de seus apaniguados estava dizendo qualquer coisa sobre o Joo Goulart e, antes de sair, ouvi o Gregrio dizer em voz alta, com um ar de superioridade: O Jango  um premrio!
    As mulheres pareciam mais entretidas nos seus trabalhos de agulha que nas estrias de Gregrio Fortunato. Mas Zzimo sacudiu a cabea dum lado para o outro, exprimindo a sua consternao ante tudo aquilo.
     E o- pior  continuou Tibrio   que senadores e outros figures da Repblica adulam o negro, mandam-lhe presentes e bilhetinhos com pedidos.
     Pobre do Dr. Getlio!  suspirou Lanja, que sem-pre tivera uma afeio quase maternal pelo homenzinho de So Bor ja.
    O olho bom do retrato de Benjamim Campolargo parecia contemplar o grupo que ali estava na sala, com a mesma fixidez meio perplexa com que, havia quase trinta anos, fitara uma escarradeira de loua pintada, no dia em que o jovem deputado Getlio Vargas, com sua lbia e a sua simpatia pessoal, persuadira-o a apertar a mo de seu arqui-inimigo, Xisto Vacariano. Como se tambm tivesse pensado nesse remoto acontecimento, Tibrio ergueu a cabea, mirou demoradamente o retrato do patriarca dos Campolargos e, sem tirar o cigarro da boca, disse: 
     Este mundo velho d cada voltai 
    Nenhum dos presentes contestou estas palavras.

XLI
	Foi na casa da amante que, em princpios daquele frio e chuvoso agosto, Tibrio Vacariano ouviu, pelo rdio que tinha sobre a mesinha de cabeceira, uma notcia urgente que o deixou estarrecido. No Rio de Janeiro dois desconhecidos haviam atentado contra a vida de Carlos Lacerda,  frente de sua casa, na Rua Toneleros, tendo assassinado um oficial da aeronutica, o Maj. Rubens Florentino Vaz, que estava em companhia do diretor da Tribuna da Imprensa. Lacerda recebera num dos ps um ferimento sem gravidade, e os assaltantes haviam fugido.
	Tibrio, que estava deitado ao lado de Cleo, conduzindo Blau Nunes numa das suas andanas ereto-anatmicas pelo corpo da rapariga, ergueu-se rpido, exclamando: A Ia fresca! A Ia fresca 1 E assim nu como estava, sentou-se na beira da cama para escutar o resto da notcia. Lacerda tinha visto ambos os assaltantes, que haviam escapado num automvel. O estpido crime causara indignao geral e havia j grande agitao nos meios polticos, militares e populares do Rio de Janeiro.
	 o fim do Getlio  refletiu Tibrio enqu?nto se vestia, depois duma excurso quase frustrada  furna do Jarau, da qual aquela vez trouxera no dobres de ouro, mas escassas moedas de cobre azinhavrado. Agora esto perdidos. . . Mexeram com os milicos. . .  o mesmo que bolir em casa de marimbondos. E o fim. E tocou para casa.
	No dia seguinte o assassinio do Maj. Vaz e o atentado contra a vida de Carlos Lacerda eram o assunto nico na rodinha da Imaculada. Mais notcias haviam chegado. Um dos telegramas resumia um editorial do jornal O Globo: Getlio Vargas atingiu ontem, pela fora dos imprevistos, um dos pontos decisivos da sua carreira poltica. Ou S. Ex.a reconhece com suas providenciais antenas esse clamor de justia que rompe de todas as bocas, no se fazendo nem por omisso cmplice de seus amigos ou com estes submerge na renncia aos deveres contrados com o povo nas urnas em 1950. No lhe restam seno poucas horas para optar.
	Os membros habituais da rodinha estavam excitados. Logo que Tibrio chegou  farmcia  o chimarro se tomava a um canto, no fundo do laboratrio  perguntas lhe foram atiradas, como dardos. Que era que ele pensava da situao? Quem tinha sido o mandante do atentado? Que aconteceria agora que dois mil oficiais aviadores se haviam reunido no Clube da Aeronutica para estudar o caso e tinham decidido conduzir um inqurito prprio, paralelamente ao que estava sendo feito pelo Ministrio da Justia?
	Tibrio sentou-se, pegou a cuia, procurou esquentar ao seu contato as mos enregeladas, deu o primeiro chupo na bomba de prata, provou o mate e finalmente disse com ar proftico :
	 Aposto como o Getlio no passa o prximo Natal no Rio. Antes de dezembro est de volta  estncia do Itu, deposto pelas Foras Armadas!
	 Mas achas que foi ele o mandante do atentado?
	 No. Conheo bem o Presidente. No seria capaz duma barbaridade dessas. Estou certo de que algum do seu grupo de ulicos mandou fazer o servio no Lacerda com a inteno de ser agradvel ao Velho. Um dos mandatrios errou a pontaria e matou o pobre do Maj. Vaz. Servio mui porco.
	O proprietrio da farmcia, que aviava uma receita, metido no seu imaculado guarda-p branco, disse em voz alta:
	 Deus escreve direito por linhas tortas.
	 Torta era a pontaria do bandido  retorquiu Tibrio.  E no vejo por qu Deus havia de ser mais do lado do Lacerda que do major. Reconheo que s vezes Deus tem tambm uma pontaria miservel, Ele que me perdoei
     Mas quem foi o mandante?  tornou a perguntar um dos amigos.
    Aventaram-se nomes. Benjamim Vargas? Gregrio Fortunato? Luter Vargas? Quem? Quem?
    Tibrio devolveu a cuia ao companheiro que estava perto da chaleira dgua quente, e, com um sorriso pcaro, improvisou:
     Hoje cedinho escrevi o nome do autor do atentado num pedacinho de papel que botei dentro dum envelope lacrado e depois fechei no cofre. Vou abrir esse envelope no dia em que o pessoal da Aeronutica agarrar os criminosos e descobrir o nome do mandante.
    Houve um silncio geral, pois as farsas do Tibrio eram demasiadamente conhecidas daquela companhia.
     Por que no nos dizes agora esse nome?  perguntou um dos mais assduos membros do grupo.
     Se vocs quiserem fazer uma aposta comigo, que cada um escreva um nome num papel, meta esse papel num envelope e depois entregamos todos os envelopes ao gerente do Banco da Provncia para serem abertos no dia em que a Justia divulgar a identidade do autor intelectual do atentado. Aposto com cada um de vocs dois bois Poleangos.
     Tu de novo com os teus Poleangos!  exclamou Zzimo, com ar cansado.  Aposto como ests blefando, isso sim. Mas no vou pagar pra ver.
    
    XLII
    Lucas Faia, diretor de A Verdade, tinha mandado instalar uma sereia  frente da redao de seu jornal. Sempre que havia uma notcia importante relativa ao crime, ele fazia funcionar essa sereia e em breve atraa uma pequena multido  frente do quadro-negro em que ele pregava um papel com os dizeres do ltimo telegrama recebido pelo jornal. Foi assim que a populao de Antares acompanhou dia a dia, quase hora a hora, o desenvolvimento das investigaes.
    Um membro da guarda pessoal do Presidente da Repblica tinha sido identificado como o chefe dos assaltantes. Os oficiais das Foras Areas haviam publicado uma nota violenta contra o governo. Na Cmara, deputados da oposio pronunciavam veementes discursos sugerindo o afastamento de Getlio Vargas da Presidncia da Repblica. A guarda pessoal do Presidente tinha sido dissolvida. O tenente Gregrio Fortunato havia sido submetido a um longo interrogatrio. As investigaes da Aeronutica continuavam numa fria febril mas metdica. Fora finalmente descoberto e preso o motorista do carro que dera fuga aos assaltantes logo aps o crime. Havia agitaes populares nas ruas do Rio de Janeiro. Tinha-se a impresso de que grande parte do povo responsabilizava indiretamente Getlio Vargas pelo crime.
    O noticirio de rdio do dia 12 reproduzia trechos do interrogatrio de Gregrio que, a certa altura, dissera: Doutor, eu sou um negro muito posudo. Sou muito esquisito e s me meto naquilo que me diz respeito.  pergunta Voc meteu a mo nisso, Gregrio? respondeu: No. Tenho matado peleando. No sou homem que possa ser assalariado para matar algum. O noticirio informava tambm que, nos intervalos do interrogatrio, Gregrio lia o Fouch de Stefan Zweig, o seu livro predileto.
     Alm de bandido, pernstico!  comentou Tibrio vacariano.
    Na tarde do dia 14, a sereia de A Verdade tornou a soar para anunciar a notcia de que o Gen. Eurico Gaspar Dutra achava aconselhvel a renncia de Vargas. Houve protestos da parte de populares getulistas  frente da redao do dirio antarense. Guardas da polcia municipal tiveram de intervir para separar um udenista e um trabalhista que, depois de se filho-da-putearem abundantemente, estavam j de revlver na mo.
    Passaram-se os dias. Pelos noticirios dos jornais e das estaes de rdio, ficava claro que as investigaes da polcia tinham recuado para um segundo plano e quem realmente conduzia a busca dos criminosos eram os oficiais das Foras Areas. Um dos suspeitos tinha sido localizado, caado e acuado como um animal, numa zona pantanosa, por cento e setenta membros da Aeronutica, e fora capturado vivo ao cabo de vinte horas de implacvel perseguio.
    Dentro em pouco chegava-se  concluso de que o mandante do atentado fora mesmo Gregrio Fortunato, o anjo da guarda negro do Presidente.
    Uivou a sereia de A Verdade e l estava no quadro-negro uma notcia sensacional. O Ministro da Aeronutica achava que os polticos tinham meios legais para obrigar o Presidente a deixar o poder. O Governador do Estado de Pernambuco manifestava-se tambm a favor da renncia de Getlio Vargas. O Ministro da Guerra havia determinado prontido rigorosa para o Exrcito. No Rio tinham curso os boatos mais desencontrados.
    Num discurso feito em Belo Horizonte, havia menos de duas semanas, Getlio Vargas declarara que no renunciaria, e que havia de cumprir o seu mandato at ao fim.
    No dia 22 de agosto um grupo de oficiais das Foras Areas encabeado pelo Brig.ro Eduardo Gomes publicou um manifesto em que se exigia a renncia do Presidente da Repblica.
    Getlio, porm, recusava abandonar o seu posto, dizendo-. Daqui s saio morto. Estou muito velho para ser desmoralizado e j no tenho, razes para temer a morte.
    
    XLIII
     Eu no disse?  exclamou Tibrio Vacariano certa manh, ao chegar  rodinha da Imaculada.  Eu ia ganhar a aposta. O mandante foi mesmo o negro Gregrio, como escrevi no papel. ..
    A notcia do resultado final do inqurito fora noticiada por todos os rdios e jornais da nao. A sereia de A Verdade gritava de instante a instante.
     O Getlio vai ser deposto pelas Foras Armadas  afirmou Tibrio entre dois goles dum chimarro quentssi-mo.  E a coisa no demora. E questo de dias ou mesmo de horas.
     No se esqueam  disse algum  que o Presidente declarou que do palcio s sair morto.
      o que vai acontecer  disse Zzimo, e todos olharam para ele surpresos.  O Getlio no  homem de se deixar depor pela segunda vez. Vai oferecer resistncia e morrer brigando de arma na mo.  meu inimigo poltico mas fao justia ao seu brio e  sua coragem.
    Vacariano, porm, ficou pensativo, olhando fixamente para o rtulo dum vidro de ludano que estava na prateleira do laboratrio, a seu lado. Depois sussurrou, como se contasse um segredo:
     Esse homenzinho  do diabo.  capaz de descobrir ainda uma sada. Por exemplo, dar a cabea do Gregrio e de outros  Aeronutica e  opinio pblica... e continuar no Catete... 
     Impossvel!  reagiu calorosamente um antigetu-lista.  O pai dos pobres foi h pouco vaiado pelo povo nas ruas do Rio. Vocs j esqueceram isso? O prestgio do Homem acabou-se. O pas inteiro est contra ele. O feitio finalmente virou contra o feiticeiro.
    Naquele exato instante um fregus entrou na farmcia e pediu um vidro de elixir paregrico. O sino da Matriz comeou a dobrar finados. Quem teria morrido? Um dos mateadores disse um nome vagamente conhecido dos membros do grupo. Coitado!  murmurou um destes, mais por automatismo que por verdadeira compaixo. E continuaram a discutir o destino de Getlio Vargas. E quando de novo se fez silncio, ouviu-se o uivo triste e agourento do vento de agosto.
    
    XLIV
    Naquela madrugada, como de hbito debruado numa das janelas do fundo de seu palacete, Tibrio Vacariano esperava o amanhecer. Lembrou-se dum dito canalha de sua infncia: O sol nasce todos os dias por detrs do cemitrio de Antares e ao anoitecer se pe na Argentina.
    Meio encolhido no seu pijama de pelcia, com uma manta de l enrolada no pescoo, era com um certo gosto de tropeiro que oferecia a cara  mordida gelada e mida do ar do alvorecer. Era bom sentir no cncavo da mo e nos dedos o calor da cuia de chimarro e mais saboroso ainda chupar a velha bomba que herdara do velho Xisto, reter na boca, meio queimando a lngua, o mate escaldante e depois deixar o amargo descer devagarinho, faringe e esfago abaixo, e ir aquecer-lhe o peito, como um poncho para uso interno.
    A geada branqueava os telhados. Galos cantavam em quintais prximos e distantes e, como sempre acontecia nessa hora, Tibrio pensou nas incontveis alvoradas de sua vida, na cidade e no campo, e por alguns instantes lhe passaram pela mente as imagens de seu pai, de seus irmos e de outros amigos mortos que estavam sepultados l em cima da coxilha e que no podiam mais ver a luz do dia. Essa era a nica hora em quj s vezes ele pensava na sua prpria morte, principalmente agora que tinha entrado na casa dos sessenta.
    Quando o sol j apontava acima dos telhados, Tibrio, seguindo um velho ritual, comeu na cozinha o seu pedao de churrasco gordo e o seu naco de lingia cobertos de farinha de mandioca, sob o olhar entre terno e crtico da cozinheira, a mulata Drusia, que estava com os Vacarianos havia mais de quarenta anos. Tibrio tomou uma xcara de caf preto, como aperitivo para o cigarro, preparou um palheiro com voluptuoso vagar e, pouco antes das sete horas, j de crioulo fumegante preso entre os dentes, dirigiu-se para o escritrio, acendeu o rdio, sentou-se diante dele e ficou  espera do primeiro noticirio da manh. Sabia que Getlio Vargas passara aquela madrugada no Palcio do Catete discutindo com o Ministrio e altas autoridades militares a sua situao, que se agravara depois que alguns generais e almirantes haviam aderido ao manifesto dos brigadeiros, exigindo a renncia do chefe da nao. A primeira notcia de que o Presidente havia aceito a imposio fora em breve desmentida. O Catete estava isolado. O Exrcito, ainda em prontido. Circulavam boatos de que Getlio Vargas ia mandar ao Congresso um pedido para o estabelecimento do estado de stio no pas. Havia j tumulto nas ruas: o povo exigia justia.
    Tibrio esfregava as mos com frentico vigor, movia os ps metidos em pantufas de l, pigarreava, resmungava, inspirava a fumaa do cigarro e depois a expelia pelo nariz com uma fora que dava uma idia do seu nervosismo. Ecoavam no casaro os primeiros rudos domsticos da manh. A criadagem comeava a pr-se em movimento. O dono da casa gritou Raspa daqui pra fora! quando viu uma das chinocas entrar no escritrio de espanador em punho.
    De repente soaram as fanfarras do Reprter Esso, e a voz bem timbrada do seu locutor fez-se ouvir, com entonao dramtica:
    Rio. Urgente. O Sr. Getlio Vargas acaba de licenciar-se da presidncia da Repblica pelo perodo de trs meses.
    O qu?  exclamou Tibrio. O locutor, porm, no lhe respondeu, continuando:
    No decorrer da dramtica reunio do Ministrio, esta madrugada, o Sr. Getlio Vargas repeliu a proposta de renncia que lhe foi transmitida pelo Gen. Zenbio da Costa, Ministro da Guerra, em nome dos chefes militares. Em certo momento, voltando-se para o Gen. Mascarenhas de Morais, o Presidente declarou com voz firme: J que os senhores no decidem, eu vou decidir. Desde que a situao se mantenha calma, eu pedirei uma licena. Entretanto, se os rebeldes vierem at  porta do Palcio do Catete, s me levaro morto. A notcia da licena do Presidente Getlio Vargas foi anunciada s quatro horas e quarenta e cinco minutos da manh de hoje. Assumir a chefia do governo o Vice-Presidente, Sr. ]oo Caf Filho.
    Tibrio andava agora dum lado para outro, diante de rdio, j desatento s palavras do locutor e murmurando: No  possvel! Licena de trs meses? Qual! Isso  sinnimo de renncia. O Getlio est liquidado. Ou ento tem algum plano diablico pra voltar ao Catete de novo nos braos do povo, contra o Exrcito, contra tudo!
    Desejou falar com algum. Dirigiu-se apressado para o seu quarto de dormir e verificou que Lanja ainda estava no bom do sono. No quis acord-la. Vestiu-se. Barbeou-se, mas com mo de tal modo incerta, que arranhou uma das faces. Do aparelho de rdio agora saam msicas alegres, entremeadas de anncios.
    
    XLV
    Quando, cerca das oito e meia da manh, tornou a soar a charanga do Reprter Esso, Tibrio teve um sobressalto e correu para junto do rdio, com um mau pressentimento a apertar-lhe o peito, diicultando-lhe a respirao. De novo a voz do locutor:
    Rio. Urgente. O Presidente Getlio Vargas acaba de suicidar-se com um tiro no corao, s oito horas e vinte e cinco minutos, em seus aposentos particulares do Palcio do Catete.
    Tibrio ficou estonteado. No conseguiu entender as palavras que a seguir o locutor pronunciou. Deu uma volta sobre si mesmo, deixando o cigarro cair. Teria ouvido direito? O Getlio tinha metido uma bala no corao... Santo Deus! Era o fim do mundo... Sentou-se, afrontado, esforando-se por escutar o reprter, que continuava a falar: ... foi encontrado um bilhete do prprio punho do Presidente: A saiha de meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de no ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que desejava.
    Lentas lgrimas escorriam pelo rosto do velho Tibrio Vacariano. Saiu a vaguear pela casa e acabou entrando outra vez no seu quarto. A mulher agora estava fechada no quarto de banho, em cuja porta ele bateu. Que ?  perguntou ela. Lanja, o Getlio se suicidou. Um grito: Qu? E ele: O Reprter Esso acaba de noticiar que o Dr. Getlio meteu uma bala de revlver no corao. Est morto. Curto silncio. Depois se ouviu um pranto convulsivo vindo de dentro do quarto de banho. Tibrio encaminhou-se para a cozinha.
    Olhou para a cozinheira e, quase como quem faz uma queixa, disse:
     Drusia, imagine que desgraa. O Dr. Getlio se suicidou. ..
     No pode ser!  reagiu ela, os olhos j assustados.  No pode ser! Ele no ia nos fazer uma coisa dessas.
     Mas fez. O rdio acaba de dar a notcia. Meteu uma bala no corao s oito e vinte e cinco da manh. No faz nem meia hora.
    Por alguns instantes a mulata ficou calada. Seus olhos aos poucos se foram enchendo de lgrimas. Depois, com voz quase inaudvel, disse:
     O corpo do Dr. Getlio deve estar ainda quente...  Ficou um instante como que estuporada.  Eu dava tudo na vida pra poder agora encostar a minha mo na testa dele...
    Tibrio j lhe tinha voltado as costas para sair da cozinha, quando ouviu Drusia perguntar a si mesma: E agora, que vai ser dos pobres?
    Sentiu um sbito e perverso despeito, que o levou a dizer, tambm baixinho, como se o cadver do Presidente estivesse na sua casa:
     Os pobres vo continuar to pobres como no tempo em que ele estava vivo.
    Foi nesse momento que o telefone tilintou. Correu para o aparelho, segurou o fone, levou-o ao ouvido e, sem a agressividade habitual, disse: Pronto.
      o Tibrio?
     ...
     Aqui  a Quita. Escutaste a notcia?
     Que barbaridade! Pr a mim foi como um coice de mula na boca do estmago. Ainda estou meio tararaca. Pobre pas!
     Pobre homem!
     Foi o que ele ganhou por no ter sabido escolher os seus amigos.
     Te lembras da frase do Getlio quando viu a prova de que o Gregrio, um simples capanga, tinha dinheiro para comprar uma estncia dum dos seus filhos? Tenho a impresso de que estou sobre um mar de lama. E a lama respingou o pobre do homem e ele, ento, quis se lavar no prprio sangue.
     Quando ouvi a notcia da licena, pensei c comigo: isso no fica assim. Imaginei que o Getlio ia recuar para dar um bote mais forte na hora oportuna. Te confesso que pensei em tudo, menos em suicdio.
     Isso mostra como a gente nunca chega a conhecer direito as pessoas. Mas Tib, uma coisa no me sai da cabea... Este  um dos momentos mais trgicos da vida do Brasil. A nossa Histria no  rica em dramas pessoais.
     O exlio do Imperador, talvez...
     Mas no! Dom Pedro II no governava propriamente. E, depois, tinha as suas distraes, olhava a Lua no seu telescpio, tinha as obras completas do Victor Hugo autografadas pelo autor. E privilgios, honrarias. Conheceste o quarto onde o Getlio vivia e agora se matou?
     Vi uma vez, rapidamente...
      a coisa mais impessoal e fria deste mundo. Nenhum quadro nas paredes. Nenhum vaso com flores. (S conheo o lugar por fotografias, mas  o quanto basta.) V bem, Tibrio, usa a imaginao. O Getlio passou a noite em claro. Assinou o pedido de licena e se recolheu aos seus aposentos, vestiu o pijama, e ficou sozinho, Tib, sozinho, andando dum lado para outro, decerto j compreendendo que no tinha sido licenciado, mas de novo deposto. Pra um homem de vergonha como ele isso deve ter sido urna coisa brutal... E o pior loi a sua desiluso de tudo e de todos. J imaginaste a hora em que ele escreveu o bilhete de despedida... o momento em que se vestiu... e se deitou... e pegou o revlver. . e encostou o cano no peito,  altura do corao... ? Para quem teria sido o seu ltimo pensamento?
     Uma barbaridade, Quita...
     Mas o que no me sai mesmo da cabea  a solido do Homem... passeando dum lado para outro, de madrugada, de pijama... sozinho naquele quarto horrvel... Nessa hora pagou todos, todos os seus pecados. ..
     Uma coisa brbara!
     Isso chega a parecer tragdia grega, Tib.
     O qu?
     Tragdia grega.
     Ah, pois ...
     O homem trado, desmoralizado, sem ningum... na rua o povo, pra quem ele era uma espcie de Deus, j meio virado contra ele... Tib, precisas consultar o teu mdico.
     Eu? Por que, mulher?
     Pelo telefone a gente percebe que a tua respirao no est nada boa. Sentes alguma dor no peito?
     Dor mesmo no sinto. Mas a notcia me deixou meio sem flego.
     Todo mundo ficou abafado. O Zzimo se sentiu mal quando ouviu o Reprter Esso. Botei ele na cama e dei-lhe um calmante. Como foi que a Lanja reagiu?
     Soltou o pranto.
     Pois . Parece que  assim que o Brasil inteiro est reagindo. Somos todos uns sentimentais, Tib. Um povo como o nosso adora as meias solues, as compressas dgua quente. Nada  srio mesmo, neste pas. Quando algum como o Getlio adota uma soluo final, irremedivel, todos perdem a cabea. No sei se ser um bem ou um mal. Seja como for, que Deus tenha piedade da alma do Presidente.
     Amm  murmurou Tibrio, automaticamente.
     Bueno. Vai tomar alguma coisa, homem. Consulta
    o teu veterinrio e pergunta o que  que ele te receita.
    Tua respirao est muito ruim. Lembranas pra Lanja!
    Depois eu telefono pra ela. No h de ser nada. Deus  grande e o Brasil tem de continuar.
     Tibrio reps o fone no lugar. Aquela conversa com a velha amiga no lhe tinha feito nenhum bem. Agora no lhe saa da cabea a imagem de Getlio, de pijama, as mos s costas, andando dum lado pra outro no seu quarto frio e triste. Sozinho, sozinho, na derradeira madrugada de sua vida.
    Nesse momento o uivo j agora agourento da sereia de A Verdade engolfou toda a cidade e foi tambm ouvido do outro lado do rio.
    
    XLVI
    Muitas vezes a sereia do dirio local soou durante aquele dia e o seguinte. E as notcias que seu redator afixava no quadro-negro tinham um carter quase apocalptico.
    Nas ruas da capital federal o povo amotinado pedia vingana pela morte de Getlio Vargas. Registravam-se choques entre a polcia e o povo. Soldados e tanques do Exrcito patrulhavam o centro da cidade.
    A pior situao, porm, era a de Porto Alegre. Mal se havia divulgado a notcia do suicdio do Presidente, seus adeptos  primeiro s centenas e mais tarde talvez aos milhares  reuniam-se em vrios pontos do centro da cidade, improvisando comcios cujos oradores incitavam o povo contra os partidos e jornais antigetulistas e contra os agentes do imperialismo ianque, responsabilizando-os todos pelo dramtico gesto do Chefe da Nao. Os manifestantes percorriam aos gritos as ruas do centro, empunhando retratos de Getlio Vargas e bandeiras nacionais. Os cinemas, cafs, bares e restaurantes haviam fechado as suas portas. A fria da multido atingiu seu paroxismo quando ela atacou a sede dos diretrios da U.D.N. e do P.S.D., arrombando-as. atirando para a rua seus mveis e utenslios, quebrando-os e prendendo-lhes fogo. O consulado americano e a filial do First National City Bank foram tambm invadidos e depredados. As instalaes do Dirio de Notcias e das Emissoras Associadas tinham sido igualmente destrudas e incendiadas. A mesma sorte tivera o jornal Estado do Rio Grande.
    Toda a casa comerciai onde se lesse o nome americano ou Amrica incitava a fria destruidora dos manifestantes, mesmo que se tratasse de firmas nacionais.
    O Governador do Estado entregou ao general comandante da Zona Militar do Sul o controle da situao. No momento em que um grupo de manifestantes destrua a sede do Partido Social Progressista, nos altos dum caf, uma patrulha do exrcito interveio. Quando, saqueada por completo a sede do P.S.P., comeava a destruio do prprio caf, um oficial interpelou um dos manifestantes e foi por este atacado e jogado ao cho. Alguns sargentos deram tiros com cartuchos de festim para assustar os amotinados, mas como estes continuassem ainda enfurecidos e agressivos, os soldados abriram fogo contra eles com balas de verdade, matando duas pessoas e ferindo dez.
    As ruas centrais de Porto Alegre apresentavam um espetculo impressionante, com a fumaa e as chamas dos incndios, o seu pavimento e as suas caladas cheias de mveis e papis incinerados  o lixo, em suma, daquelas brutalidades.
    Noticiava-se que tambm em So Paulo e Minas Gerais tinha havido depredaes e motins de rua.
    Sob ponchos e guarda-chuvas os antarenses liam essas notcias e depois iam para os cafs coment-las, beber e em muitos casos brigar. O delegado de polcia de Antares nessa noite mandou patrulhas com armas embaladas percorrerem as ruas da cidade, com recomendao de manter a ordem a qualquer preo.
    A sereia de A Verdade tornou a uivar s dez da noite. A notcia agora vinha do Rio e contava que desde as vinte e uma horas milhares de pessoas desfilavam pelo fretro de Getlio Vargas, que estava sendo velado no andar trreo do Palcio do Catete. Gente das mais variadas camadas sociais queria ver pela ltima vez o seu Presidente. Vestido de escuro, estava Getlio Vargas estendido dentro dum esquife com uma meia tampa de vidro que lhe deixava visvel a parte superior do corpo. Havia em seu semblante uma grande serenidade, e nos seus lbios uma expresso que chegava quase a parecer um sorriso. Algum lhe tinha posto entre dedos um rosrio, do qual pendia uma cruz. Notava-se uma grave tristeza na fisionomia de todos os que passavam pelo fretro, e os que no podiam beij-lo tentavam pelo menos toc-lo, nem que fosse apenas com a ponta dos dedos. Algumas pessoas romperam em crise de pranto. No poucas desfalecer am.
    Sabia-se agora com certeza que o corpo do Presidente ia ser sepultado no cemitrio de sua cidade natal, para onde seria transportado num avio especial na manh do dia seguinte.
    
    XLVII
    Nessa manh, passada a emoo das primeiras vinte e quatro horas que se haviam seguido  dramtica notcia, Tibrio Vacariano podia j analisar a situao com o seu olho frio de poltico. Compareceu como de costume  reunio das dez no laboratrio da Farmcia Imaculada Conceio, na qual, como era de se esperar, o assunto exclusivo era o suicdio do Presidente Vargas e as reaes que o fato provocara em todo o pas.
    Tibrio tirou do bolso um recorte de jornal que reproduzia na ntegra a j famosa carta testamento, da qual Getlio Vargas entregara uma cpia a Joo Goulart, logo aps assinar o seu pedido de licena.
     Vocs leram direito esta carta?  perguntou o Cel. Vacariano ao chegar  roda.   um documento infernal. Representa o ltimo e maior golpe poltico do Homem. Custou-lhe a vida,  verdade, mas foi mais uma vitria do mago de So Borja. Escutem...
    Ps os culos, pigarreou e leu a carta inteira, dando nfase especial  seguinte passagem: Lutei contra a espoliao do Brasil. Lutei contra a espoliao do povo. Tenho lutado de peito aberto. O dio, as infmias, a calnia no abateram o meu nimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereo a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida V& ra entrar na Histria.
    Tibrio Vacariano tornou a repor no bolso o recorte je jornal e os culos.
     Esto vendo?  disse.  O Getlio com esta carta varre a sua testada, salva-se como homem e como estadista, encontra uma sada honrosa para uma situao pessoal difcil, apresenta-se como um mrtir do povo, candidata-se  Histria, vinga-se dos inimigos atirando nos ombros e na conscincia deles o seu prprio cadver, e ao mesmo tempo (prestem bem ateno ao que estou dizendo!) ao mesmo tempo entrega ao Joo Goulart e ao P.T.B, um programa poltico e uma bandeira de guerra. E como tm fora essas bandeiras ensangentadas! J pensaram como o Jango vai explorar daqui por diante, em seu proveito, esse testamento? Porque podem dizer o que quiserem do herdeiro poltico do velho Getlio, mas burro ele no . E um zorro que aprendeu as artimanhas polticas de seu mestre e protetor.
    Poucos minutos mais tarde A Verdade recebia um telegrama do Rio de Janeiro. A maior massa humana jamais vista nas ruas da capital federal acompanhara aquela manh o esquife com o corpo de Getlio Vargas, do Palcio do Catete at ao Aeroporto Santos Dumont. O povo tinha insistido em empurrar, durante todo o trajeto, a carreta militar sobre a qual fora colocado o fretro.
    Um dos companheiros da roda de chimarro perguntou a Tibrio :
     Como ? Vais ou no vais ao enterro do Getlio?
     No sei ainda. Por que perguntas?
     O homem era teu amigo, no era?
     Era, mas...
    Calou-se, tirou a faca cuja bainha trazia presa na cava do colete, comeou a amaciar com sua lmina a palha para fazer um cigarro. O outro insistiu, com um brilho malicioso nos olhos :
     Mas qu... ?
      Olha  disse de repente o Cel. Vacariano, com as ventas j palpitantes.  V ou no v, no  da conta de ningum. Sou dono do meu nariz, fao o que entendo.
     Est bom, Tib. No precisas ficar brabo. Perguntei s por perguntar. Aceitas mais um amargo?
    Quando em casa a mulher lhe fez a mesma pergunta, ele foi franco:
     Talvez a minha obrigao seja ir, Lanja. Devo favores ao Dr. Getlio, gostaria de lhe prestar uma ltima homenagem. Mas estou pensando... Vamos que um dos parentes ou amigos do morto me veja, me desacate, me faa qualquer desfeita. Tu sabes que no sou homem de trazer desaforo pra casa. Vou ter de armar um forrobod e pode ser o diabo.
    No foi.  hora do almoo notou que havia nas doze pessoas sentadas  sua mesa  filhos, sobrinhos, cunhados
     um curioso silncio. Desconfiou que todos o miravam dum jeito meio esquisito. De repente resmoneou: Neste pas basta um homem morrer para logo ser promovido a santo. O Getlio tinha muitas qualidades mas tambm tinha muitos defeitos. O estrangeiro que examinar a situao do Brasil hoje ter a impresso de que nosso povo ficou de repente rfo de pai....
    O silncio continuou em torno da mesa patriarcal.
     Por amor de Deus!  exclamou o velho Vacariano.
     Quando eu morrer no me santifiquem. Sou um homem cheio de defeitos e de alguns deles at me orgulho. Quem duvidar que pergunte  Lanja...
    Pegou com ambas as mos uma costela de carneiro, meteu-lhe o dente e arrancou-lhe a carne, com pelanca e tudo, numa espcie de afirmao de autoridade e independncia. No silncio que se seguiu, ouviu-se a voz calma e terra-a-terra da matriarca dos Vacarianos:
     Ests com a cara toda respingada de farinha, Tib.
    
    XLVIII
    Em 1955 o P.S.D. e o P.T.B. elegeram Juscelno Ku-bitschek de Oliveira Presidente e Joo Belchior Goulart
    Vice-Presidente da Repblica. O Congresso Nacional reconheceu a validade dessas eleies, que se haviam efetuado com aprecivel regularidade.
    Tibrio Vacariano que, com escasso entusiasmo, acompanhara a faco dissidente de seu partido no apoio eleitoral ao Gen. Juarez Tvora, candidato da U.D.N.  apareceu certa noite na casa dos Campolargos numa espcie de visita de psames polticos. Zzimo recebeu-o com um aperto de mo chocho.
     Como vais, Tib?
    O velho Vacariano atirou o chapu para cima dum consolo e disse:
     Com os trabalhistas de novo no poder, estamos fritos.
    Quitria tricoteava na sala de visitas, sentada na sua cadeira de balano avoenga. Tibrio apertou-lhe a pequena mo carnuda, que sempre lhe dava a impresso dum passarinho gordo e morno. Sentou-se.
     Ento  perguntou a dona da casa  muito abatido?
    O Cel. Vacariano fez uma careta:
     Feliz no estou. Sabia que amos ser derrotados. Mineiro no perde parada.  Desatou um riso inaudvel mas visvel no movimento convulsivo dos ombros e do ventre, e na expresso picara da face.  A segunda aliana poltica da histria de Antares entre Campolargos e Vacaria-nos (pois a primeira foi em 30) fracassou...
     No h de ser nada  encorajo-o Quita.  Vamos ganhar a prxima eleio daqui a cinco anos.
     Estarei vivo at l?  perguntou Tib, com fingida dvida, pois estava certo de que chegaria  casa dos oitenta.
     Ora, Tib, para morrer basta estar vivo. Mas acho que para desgraa nossa ainda vais muito longe...
    Foi neste ponto da conversao que o Cel. Vacariano percebeu a palidez e o desnimo de Zzimo, que estava de p ao lado da cadeira da esposa, sempre na sua atitude de Prncipe consorte.
      homem, que  que h contigo?
    Antes que o marido abrisse a boca, Quitria respondeu-.
     Nada srio. O Dr. Falkenburg diz que  anemia.
     O Dr. Falkenburg  um charlato  retrucou Ti-brio.
     Tib, no recomece essa velha discusso. O Dr. Lzaro no  melhor que ele. Seja como for, o ms que vem vou levar o Zzimo a Buenos Aires ou ao Rio para um especialista tirar essa coisa toda a limpo. E no se fala mais nisso! Como vai a Lanja? Por que no veio?
     Ficou em casa com os netos.
    Fez-se um silncio, que Tibrio rompeu para dizer com ar e voz de conspirador:
     No sei se vocs j ouviram o boato...  Quitria tirou os culos e suas mos caram-lhe no regao.  Dizem que o golpe vem a...  sussurrou o visitante.
     Velho tramposo!  interrompeu-o Quitria.  No sabe perder.
     Confesso que no sei nem quero aprender.
    A voz to plida e cansada quanto a face, Zzimo interveio :
     No acredito nesses boatos.
     Na minha opinio esta  a hora certa para o golpe  afirmou Tibrio.
    Quitria ergueu os olhos para ele:
     Golpe de quem contra quem?
     Das Foras Armadas, para impedir que o Juscelino e o Jango tomem posse!
     Mas se eles foram eleitos pela maioria do povo e reconhecidos pelo Congresso! Estamos numa democracia, homem de Deus!
     Qual democracia!  replicou o Cel. Vacariano.  Vivemos numa cafajestocracia, isso  que . Se dependesse de mim, eu puxava na corrente da descarga para toda essa porcaria ir-se cano abaixo...
    Quitria tornou a baixar os olhos para o seu tric, murmurando:
     No te esqueas de ir junto... Tibrio soltou uma risada breve:
     Mas vocs no compreenderam ainda  replicou  que se no tomarmos o poder agora estamos perdidos?
    Quem vai governar mesmo no prximo qinqnio  o Jan-go e o maluco do cunhado dele, o Leonel Brizola. Os dois, mancomunados, continuaro manobrando os sindicatos, encorajando as greves, fazendo passar mais e mais leis favorveis aos seus eleitores e peiegos, aumentando o salrio mnimo, em suma, estrangulando cada vez mais as classes produtoras. Vamos acabar no socialismo!
     Que Deus nos livre  acrescentou, rpida, Quitria. Fez-se um silncio. Zzimo sentou-se e cerrou os olhos,
    como se tivesse sentido uma sbita tontura. Quitria ficou por um instante a observar o seu visitante e depois, sem tom polmico, tornou a falar:
     Sabes duma coisa, Tib? Ests ficando cada vez mais parecido com o velho Xisto. Principalmente de temperamento. Autoritrio e intolerante.
    Tibrio lanou um olhar oblquo para o retrato do velho Benjamim.
     O teu tio e sogro no era nenhuma flor que se cheirasse.
     Quando  que vais criar juzo, sossegar o pito e cuidar dos teus netos?
     Os netos no so meus, so da Lanja. E, depois, quem quer falar de mim! Quitria Campolargo, a maior politiqueira da zona missioneira!
     H poltica e poltica. Acho que  um dever cvico a gente ter um interesse ativo na poltica do seu pas. Mas tu, Tib, tu s um doente. Tens de estar sempre serrando de cima, mandando e desmandando, tramando intrigas...
     Tenho a poltica no sangue.
     Poltica e sfilis.
    Tibrio soltou uma risada bonachona. Sua amizade com a matriarca dos Campolargos alimentava-se desses insultos. Era com um ar de troa que se diziam duras verdades um sobre o outro.
    Fez-se um silncio. De cabea cada sobre o peito, Zzimo agora cochilava, e de sua boca entreaberta saa um leve ronco rascante. Tibrio olhou para o amigo e pensou: Aposto como esse no vai longe....
    Quando chegou a Antares a notcia de que as Foras Armadas, sob o comando do Ministro da Guerra, tinham acabado de dar um golpe de Estado, Tibrio Vacariano exultou, saiu para a rua, fez um comcio mirim na praa, e bravateou durante o chimarro das dez. O pas estava salvo!
    Sua alegria, porm, foi de curta durao, pois em breve se esclareceu que a finalidade daquele movimento militar fora a de garantir a posse dos candidatos eleitos. Tratava-se, em suma  alegavam os seus autores  dum golpe preventivo.
    Ao saber disso, Tibrio soltou um palavro, entrou no seu jipe e tocou para a estncia, onde passou o vero inteiro no convvio das vacas que  segundo ele prprio agora dizia  lhe mereciam mais confiana que os polticos e os generais.
    
    XLIX
    J nos primeiros meses do governo de Kubitschek o Cel. Vacariano pde verificar que no se realizava a sua previso de que o novo Presidente ia ser facilmente manobrado por Jango Goulart e Leonel Brizola, os herdeiros polticos de Getlio Vargas. Perdeu os seus Poleangos simblicos apostados na roda da Imaculada, sentiu-se ferido no seu orgulho de profeta poltico, mas no ntimo rejubilou-se por ver que J.K. no aceitava o freio e o bual petebistas. Quando, porm, Juscelino Kubitschek comeou a pr em prtica o slogan plataforma de sua campanha eleitoral  Cinqenta anos e desenvolvimento em cinco  Tibrio, arraigado conservador, ficou alarmado.
    Passou o resto daquele qinqnio a criticar o Presidente. Tudo quanto ele fazia parecia-lhe errado ou suprfluo. Falar mal de Juscelino Kubitschek e dos seus ministros e colaboradores passou a ser para o velho poltico an-tarense uma espcie de po de cada dia, do qual participava tambm a sua amiga Quitria Campolargo. Comunicavam-se quase diariamente pelo telefone:
      Quita, voc viu a ltima do Juscelino?
     Se vi. Esse mineiro vai levar o pas  runa. J estamos sentindo na carne e no bolso as conseqncias dos seus desatinos.
    Certa manh: depois de ler um editorial de A Verdade no qual Lucas Faia elogiava o Presidente Kubitschek por estar procurando incutir na nao brasileira a idia de que ela tinha um encontro marcado com o Destino, e um grande papel a representar no palco da Histria, Tibrio Vaca-riano tirou-se de seus cuidados e invadiu  o termo  exatamente este  invadiu a redao do jornal local, embara-fustou de chapu na cabea pelo escritrio de seu diretor e, sem dizer-lhe Bom dia nem o habitual Que tal?, vociferou: Voc tambm j se vendeu pro Juscelino? Quanto est recebendo dele? Qual encontro com o Destino qual nada! Estamos  com um encontro marcado com a inflao, a bancarrota, a misria e a anarquia!
    Lucas Faia levantou-se, mas sem perder o sorriso nem os bons modos:
     Sente-se, coronel. Vamos discutir o assunto tomando um cafezinho.
    Acercou-se da porta que dava para a sala da redao e gritou:
      Juc, manda trazer dois cafs bem bons. E depressa!
    Tibrio continuava de p, com o nmero de A Verdade na mo e dava-lhe repetidos tapas, como se quisesse castigar fisicamente o editorial.
     Nunca vi tanta besteira junta.  o teu pior escrito nestes ltimos vinte anos!
     Sente, por favor, coronel. No vamos brigar. O senhor est em sua casa.
    Tibrio sentou-se, mas sem tirar o chapu. Reacendeu o cigarro que tinha, morto, a um canto da boca e esse gesto de certo modo pareceu acalm-lo um pouco.
     O senhor sabe, coronel, como eu acato as suas opinies... Como forte acionista d A Verdade, o meu ilustre amigo tem todo o Direito de dizer o que est e o que no est certo na orientao do jornal. Ento acha que o Presidente Kubitschek est fazendo um mau governo?
     Mau? Pssimo. Perigosssimo. O pas no agenta as loucuras desse homem. Onde se viu construir uma capital a todo vapor, remetendo o material por via area? Ento voc acredita mesmo que ele vai inaugurar essa tal cidade antes do fim do mandato?
    Lucas Faia continuava aparentemente sereno.
     Coronel, eu acredito, mas posso estar errado. Agora, h algum que nunca se engana. S essa entidade poder dizer a ltima palavra no caso.
     Quem ?
     A Histria.
     No  pessoa das minhas relaes...
     Coisas que hoje parecem ousadia, loucura, amanh sero consideradas no s sensatas... como at (como direi?)... modestas, tmidas.
     Voc est doido. Mande examinar essa cabea o quanto antes.
    Veio o caf. Vacariano bebeu o seu em goles curtos e sfregos, ps a xcara em cima da mesa e disse, menos exaltado:
      o que acontece quando um bando de eleitores analfabetos leva  presidncia da Repblica um ex-mdico urologista da Fora Policial de Minas Gerais.
     Mais um cafezinho, coronel?
      Lucas, no me amole mais com esse caf, que por sinal estava requentado.
     O senhor est muito pessimista...  sorriu o jornalista. Tinha uma voz macia e vagamente nasalada, como num defluxo crnico.
    Tibrio lutava agora um pouco com a prpria respirao. O suor escorria-lhe pelas faces.
     Lucas, voc sabe que no sou pessimista. O que sou  um homem com as patas plantadas na terra. No vou com fantasias. E h uma coisa que j ficou bem clara nessa estria toda. Com esses seus negcios e empreendimentos do arcc-da-velha o Juscelino est dando a seus amigos, afilhados e scios a oportunidade de enriquecer ilicitamente.
    Lucas pensou nas grandes, incontveis patifarias que o homem que tinha na sua frente havia praticado na vida  a famosa fbrica de seda, as operaes de cmbio negro, o contrabando de pneumticos de automvel nos ltimos anos da Grande Guerra  e continuou a sorrir um falso sorriso de mau ator. No queria indispor-se com o velho, mesmo que tivesse coragem para tanto. Sem ser o melhor dos amigos, Tibrio Vacariano era o pior dos inimigos.
    
    L
    A 21 de abril de 1960, no ltimo ano de seu governo, o Presidente Kubitschek inaugurou Braslia oficialmente. Poucos dias depois, Zzimo Campolargo morreu de leucemia num hospital do Rio de Janeiro.
    Exatamente rs dias antes do falecimento do marido de Quitria, Tibrio Vacariano  que se encontrava ento na cidade que at ao fim de sua vida ele se obstinaria em chamar de capital federal  foi visitar o amigo na casa de sade onde ele estava internado havia meses.
    Tinha um horror supersticioso a hospitais, que considerava verdadeiras antecmaras da morte, com seus cheiros de desinfetantes e de febre, as suas brancuras frias e metlicas lembrando bisturis, a solido silenciosa dos corredores onde as pessoas pareciam j fantasmas de si mesmas. Costumava dizer: No me lembro de ter passado mais de um dia de cama em toda mi perra vida, mas se eu vier a adoecer gravemente, no rne levem pra nenhum hospital: quero morrer na minha casa, na cama onde meu pai me fez e a linha me me pariu.
    O quarto de Zzimo era imaculadamente limpo e ciato. O doente, agora de cabelos completamente encanecidos, detido num pijama branco, sumia-se plido no alvor das cpbertas e dos lenis, como um camaleo exangue. Quitria, vestida de negro, estava sentada ao lado da cama, fazendo tric com grossas agulhas brancas. A nica nota viva no ambiente era dada por um vaso cheio de rosas amarelas, em cima dumamesinha de cabeceira.
    Tibrio entrou meio desajeitado, com bovina lentido, e apertou a mo fria e flcida que o amigo lhe estendeu.
     Que  isso, homem? Querendo entregar a rapadura?
     E o fim; Tibrio. A ltima cena do ltimo ato.
     Qual fim, qual nada! E tu como vais, Quita?  Inclinou-se e abraou a amiga, beijando-lhe a testa.
     Vai-se indo como Deus quer  respondeu ela em voz baxa.  Senta o tund naquela cadeira. E tira o chapu, ir-al-educado!
    Ele obedeceu. Podia ver agora a paisagem, enquadrada pela janela: encostas de morros cobertas de ricos e variados verdes, manchadas aqui e ali pelo roxo das flores de quaresmeira. Era um dia claro, de cu limpo, e uma leve brisa trazia fragrncias silvestres para dentro do quarto.
    Que  que vou dizer?  pensava o visitante. Sabia que o amigo estava perdido. Sua morte era questo apenas de dias ou talvez mesmo de horas. Tibrio sentia que a voz se lhe trancava na garganta. Quitria salvou-o do embaraoso silncio.
     Como vai a campanha poltica?
     Acesa. A corrida vai ser braba em outubro.
     Vocs j se decidiram?
     O diretrio regional do P.S.D. do Rio Grande do Sul, como sabes, vai apoiar Jnio Quadros. No quero criar problemas para os meus correligionrios. Vou trabalhar por esse moo, mas sem entusiasmo. , . Nem conheo ele direito.
     Quem conhece direito os outros ou a si mesmo?  balbuciou o enfermo.
    Quitria encolheu os ombros:
     O Tibrio talvez prefira trabalhar pelo Ademar de Barros, que  lobo da sua alcatia...
    O Cel. Vacariano riu com os ombros e com o ventre, mas sua cara continuou sria e de sua boca no escapou o menor sonido. Pouco depois, disse:
     No quero nada com o Ademar, mas o Gen. Teixeira Lott me parece um homem decente.
     Parece e . Mas tem como Vice-Presidente na sua chapa o Jango Goulart. Os trabalhistas vo votar nos dois. E no  preciso ser muito inteligente para saber o que acontecer se essa chapa vencer. O Gen. Lott vai ser fatalmente dominado pelos nacionalistas do Brizola. E de novo teremos o P.T.B. no poder. Precisamos nos livrar duma vez por todas do espectro do Getlio. O Jnio Quadros me parece a nica sada... embora no me parea o candidato ideal.
     No sei...  murmurou o Cel. Vacariano.  O Jnio no ser tambm cria do Getlio?  um desconhecido, quero dizer, um poltico meio verde, sem experincia. H poucos anos era um modesto professor completamente desconhecido, depois conseguiu eleger-se vereador em So Paulo e parece que se distinguiu como bom galo de rinha. Mais tarde foi eleito deputado pelo Paran... Agora quer dar um pulo pra presidncia da Repblica. Ser que tem pernas pra tanto?
     Mas no esqueas a obra dele como governador de So Paulo.
     Ora, So Paulo  um Estado rico, relativamente fcil de governar. Basta ter um bom secretariado. E o Jnio teve... Mas no vamos discutir mais esse assunto. J prometi trabalhar pelo moo e vou cumprir a promessa.
    Zzimo ergueu o brao e apontou com o dedo para um jornal que estava em cima duma cadeira.
      Tib, voc leu o Correio da Manh de hoje? Traz uma reportagem muito interessante sobre Braslia.
    Tibrio olhou rpido para o jornal e depois para o amigo, dizendo:
     No li nem vou ler. Sou contra Braslia. Essa inaugurao foi fraudulenta como quase tudo quanto o Jusce-lino tem feito. A cidade no est nem nunca ficar pronta. Vai ser como a S de Braga. Nenhum Presidente poder governar o pas daquele cafund...
    Zzimo esboou um sorriso e Tibrio, confrangido, teve uma anteviso da caveira de seu amigo.
     Qual, Tib! No adianta a gente querer tapar o sol com uma peneira. Nosso tempo passou. Estamos velhos e atrasados.  Falava baixo, fazendo longas pausas respiratrias.  O mundo hoje  dos jovens... dos que tm coragem de fazer coisas, no apenas de conservar o que temos de bom ou de aceitvel. O Brasil, comparado com as outras naes,  um pas moo. Um potr que vai disparar... acho at que j disparou... Os da nossa gerao, Tib, no se agentam em cima dele nem agarrados no santo-antnio.
     Nunca na vida ca de cavalo. E sou domador.
     Era  zombou D. Quitria.
    Zzimo calou-se, fatigado, e permaneceu um instante de olhos cerrados. Quando tornou a falar, foi com voz to dbil, que Tibrio, para ouvi-lo melhor, teve de arrastar sua cadeira para perto do leito.
     Ns... ns l no Rio Grande no iremos... iremos nunca para diante... sem primeiro enterrar definitivamente certos cadveres simblicos... Gaspar Martins, Jlio de Castilhos, Borges de Medeiros... Getlio Vargas... e outros, outros...
    Tibrio, que no gostou da incluso do nome do conselheiro Gaspar Martins, dolo da sua juventude, entre os mitos que deviam ser esquecidos, protestou:
     Voc quer ento matar as nossas tradies?
     No. Eu quero que os homens da nossa... da nossa gerao compreendam que seu tempo passou... que no podemos continuar olhando para trs... recordando as nossas cargas de cavalaria... Sep Tiaraju... As califr-nias do Chico Pedro... Bento Gonalves... Tempos novos chegaram, esto sempre chegando... Pedem outra espcie de gente... gente capaz de ousar... de olhar para a frente, enxergar longe... homens com um p no presente e outro no futuro.
    O Cel. Vacariano voltou-se pra a amiga:
     Ests de acordo com o teu marido?
    Quitria Campolargo encolheu os ombros num gesto de dvida:
     No sei... acho que um passado como o nosso no se bota fora como a gua suja dum banho. Eu sou tradicionalista, o que no quer dizer que seja atrasada... O Zzimo e eu aqui sozinhos todos estes meses temos discutido muito esses problemas e outros.  Sorriu tristemente. 
    Foi preciso esse homem adoecer pra abrir o falador. Antes ele pagava para ficar calado.
     Tambm tu nunca deixavas o teu marido abrir a boca... 
     Pode ser. Mas agora estamos finalmente botando a nossa conversa em dia.
    Zzimo tornou a sorrir um sorriso que j parecia ter algo de alm-tmulo.
      que compreendi que tenho pouco tempo de vida pela frente. Depois... depois dessas transfuses todas, quando o sangue que me corre nas veias no  mais o meu velho sangue, mas o de centenas de doadores... acho que muitas outras pessoas, que nunca vi, esto falando agora pela minha boca...
    
    LI
    Por alguns instantes Tibrio quedou-se a contemplar uma das quaresmeiras que enfeitavam os morros, e lembrou-se com preguiosa saudade duma paineira que havia perto da casa de sua estncia, em Antares.
    -- Eu j preveni a Lanja, os meus filhos e o meu mdico. Se um dia por desgraa eu precisar duma transfuso, no quero que me metam nas veias sangue de negro, nem de judeu ou de comunista.
     Por que, velho burro? Que diferena faz?
     Eu c sei o que quero dentro deste corpo. E vou dizer outra coisa pra vocs dois. Eu c s me aposento depois de morto, e assim mesmo sob protesto. Sei que meu dia vai chegar. Deus me bota na compulsria e me leva para a invernada do Nunca Mais, que  uma campanha sem fim nem princpio. Mas enquanto eu estiver vivo, hei de espernear, gritar, queimar at o ltimo cartucho defendendo o que me pertence, o que herdei de meu pai (tanto terras e ttulos e gado, como tradies), o que meu pai herdou de seu pai, de seu bisav, trisav, etc., etc... Ningum pe a mo no que  meu sem a minha licena. No aceito essas idias modernas de socialismo, comunismo e sei l qu mais.
    Fez-se um novo silncio. De fora vinham vozes humanas. De vez em quando se ouvia o zumbido do elevador do hospital. Tombou uma ptala de uma das rosas. Quitria soltou um suspiro. Zzimo agora parecia adormecido. Ti-brio pensou em Cleo com uma saudade ttil.
     Neste quarto, Tib  disse Quitria  dentro destas quatro paredes o Zzimo e eu temos falado em assuntos em que nunca tnhamos tocado antes. Nossa morte, por exemplo...
     Pois no lhes gabo o gosto  resmungou Tibrio.
     Tib, tens fama de valente. Vives contando bravatas, proezas em revolues e duelos... patacoadas! No entanto tens medo de pensar na tua morte, tens horror a encarar a realidade.  Tirou os culos, limpou-lhes as lentes com um lencinho, e depois prosseguiu-.  Que esperas mais da vida? Os nossos filhos esto criados, no precisam mais de ns. Mais que isso: no querem saber de ns, de nossas idias, de nossas manias, de nossa maneira de pensar e viver. Acho que todo homem v sua cara todas as manhs no espelho, na hora de se barbear. Que  que o espelho diz? Diz que o tempo passa sem parar. E que essas manchas que a gente tem no rosto (tu, eu, o Zzimo, todos os que chegam  nossa idade), essas manchas pardas so bilheti-nhos que a Magra escreve na nossa pele. Eu leio todos os dias esses recados, mas tu, Tib, tu s analfabeto ou ento te fazes de desentendido.
    Zzimo escutava, de olhos cerrados e lbios entrea-bertos.
     O Zzimo no ignora o estado dele  continuou Quitria.  Nenhum de ns se faz iluses. Sabemos que todos um dia teremos de morrer. Gente melhor que ns tem morrido. A Virgem Maria, por exemplo, Napoleo Bonaparte. .. Morrer no  privilgio de ningum. Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estpidos. Uma das coisas que aprendi com a velhice foi fazer as pazes com a minha morte. Quando a Moura Torta bater na minha porta eu digo: Entre, comadre, tome um mate. Ah, no quer? Ento vamos embora.
    Fez uma pausa, olhou por alguns segundos o quadro que a janela emoldurava e depois, voltando-se para o amigo, disse:
     O que acontece  que tu s um homem sem f, sem religio. Eu acredito em Deus e na Outra Vida, que deve ser melhor que esta. Reconheo meus defeitos, mas no tenho sido a pior das esposas nem a pior das mes ou das sogras. Tenho feito as minhas caridades. Rezo todas as noites. Vou  missa todos os domingos e me confesso todas as semanas. Estou certa que, depois da nossa morte, o Zzimo e eu vamos nos encontrar de novo em algum lugar.
     Pobre homem!  exclamou Tibrio.  No vai se livrar de i nem na Eternidade.
    Quitria reps os culos e recomeou a movimentar as agulhas e o fio de l. Tibrio olhou para o doente e teve a impresso de que o seu peito no se movia mais. Estaria morto?
     Quita, o teu marido parece que est dormindo.  melhor eu ir embora...
    O enfermo abriu os olhos.
     No, Tib. Fica mais uns minutinhos... Este  o nosso ltimo encontro.
     Ora, homem!
     Sabes duma coisa curiosa? Aqui nesta cama... todos estes meses... tm-me acontecido coisas esquisitas... s vezes no sei se estou dormindo ou acordado... Esta fraqueza me deixa leve... leve, como uma sombra num sonho... s vezes volto ao tempo de menino... me vejo, me sinto pescando, nadando ou passeando de caique no nosso rio... ( sempre vero, com um sol daqueles da nossa infncia!) Ontem... ontem eu tinha doze anos... estava brincando na barranca do Uruguai quando ouvi um tiroteio... Era de tardezinha. Me escondi atrs do tronco de urna rvore e fiquei espiando um combate entre contrabandistas e guardas aduaneiros... Fiquei assustado, tremendo, o corao batendo mais depressa... um homem caiu ngua, baleado... a gua ficou vermelha de sangue... vi que ele ia morrer afogado, ento me atirei no rio... foi quando a
    Quita me segurou pelos ombros, me sacudiu... Eu estava j com os ps para fora da cama...
     Sonho  disse Tib.
     Sonho?  duvidou o doente.  Talvez. Mas eu acho que no cheguei a dormir de verdade... Fiquei assim no meio do caminho... entre dormindo e acordado... Um dia destes o velho Benjamim me apareceu, ficou sentado naquela cadeira, pitando o seu crioulo... cheguei at a sentir o cheiro da fumaa... vi o brilho de seu olho de vidro. .. Minha me tambm andou por aqui. Sonhos, tu di-zes. E... Talvez. Com todo esse sangue alheio no corpo, qualquer dia vou comear a sonhar sonhos de outras pessoas . ..
    Quita no levantava os olhos de seu tric. Fez-se novo silncio. Tib ergueu-se.
     Preciso ir andando. Tenho umas providncias a tomar.  Segurou a mo do amigo e disse-.  At qualquer dia, companheiro. Eu ainda volto aqui antes de ir embora.
     No. No voltes mais, Tib. O fim de um homem no  nenhum espetculo bonito.
    O Cel. Vacariano soltou um suspiro de relutante aquiescncia.
     Est bem.
     Podes dizer adeus. No vamos nos ver mais.
     Ests impossvel, Zzimo! Qualquer dia destes vou te levar de volta a Antares, e ainda havemos de tomar muitos chimarres.
    Zzimo Campolargo sacudiu a cabea dum lado para outro sem ergu-la do travesseiro.
     S volto para Antares dentro dum caixo...  sorriu tristemente.  Desta vez quem aposta dois Polean-gos sou eu.
    Lgrimas rebentaram subitamente nos olhos de Tib-rio Vacariano, que as enxugou desajeitadamente com os dedos grossos e de pontas manchadas de nicotina. Depois, sem se despedir de Quitria, precipitou-se, fungando, pelo longo corredor do hospital, rumo do elevador.
    
    LII
    Quitria Campolargo fretou um avio para levar para Antares o esquife com o corpo do marido. Tibrio Vacariano acompanhou-a na viagem.
    A viva de Zzimo manteve-se muito digna, a face impassvel, os olhos secos. Reprimiu a sua dor e no deu espetculo em sua casa, no velrio, no momento em que fecharam o caixo do companheiro. Algumas das pessoas que estavam na cmara ardente, e que de certo modo esperavam a cena, como se por fora duma tradio ou duma lei no escrita tivessem direito a presenciar essas exploses de dor, .como uma espcie de recompensa por terem comparecido  cerimnia  inconscientemente umas, consoiente-mente outras  sentiram-se ludibriadas. As quatro filhas de Zzimo, porm, de certo modo salvaram a situao fornecendo o elemento de tragdia que faltava quela cmara morturia. Beijaram desesperadamente o rosto do defunto, romperam em gritos, choros e exclamaes, uma delas desmaiou nos braos do Dr. Falkenburg e foi carregada para o seu quarto. Vendo tudo isso, algumas senhoras e at alguns cavalheiros encontraram um bom motivo para desatar o pranto, o que muito os reconfortou.
    Quitria acompanhou o cortejo fnebre at ao cemitrio. Diante do mausolu de granito negro da famlia, houve trs discursos: um do secretrio da prefeitura, em nome do prefeito e do povo de Antares, o outro do representante do diretrio local da U.D.N. e o terceiro do presidente do Clube Comercial, do qual Zzimo era scio fundador, benemrito e remido. Quitria manteve a cabea erguida e os olhos secos. O cu estava toldado, fazia um friozinho prematuro e o sudoeste  que os antarenses chamavam de vento castelhano, com um ressentimento mitolgico  soprava insistente, produzindo uma musiquinha crepitante nas folhas das coroas artificiais.
    
    LIII
    Em princpios de setembro, o Dr. Jnio Quadros, acompanhado de alguns prceres polticos da U.D.N. e do P.S.D. de Porto Alegre, fez uma visita de seis horas a Antares. Dois dias antes de sua chegada j se via em muros e paredes da cidade a frase que costumava preced-lo aonde quer que ele fosse.- Jnio vem a!
    A conselho de Tibrio Vacariano o candidato foi  manso dos Campolargos apresentar seus respeitos a D. Quit-ria, que estava de luto fechado, e manifestar seu pesar por no lhe ter conhecido o marido, de quem todos diziam to belas coisas. Referindo-se ao smbolo da campanha de Jnio Quadros, a viva disse:
     Doutor, o que este pas precisa mesmo  de ser varrido de toda a sua sujeira. Use a sua vassoura sem piedade. Ns estaremos aqui na retranca, apoiando o seu governo.
    Ao despedir-se, Jnio beijou-lhe respeitosamente a mo, o que muito sensibilizou a matrona dos Campolargos.  noite,  hora do comcio ela ficou sentada discretamente na sua sacada, olhando para a praa atopetada de gente. No s o largo, como as ruas e becos adjacentes, estavam tomados pelo pblico. Sentia-se na atmosfera, como emanaes eletrizantes, o entusiasmo daquele povo. Muitos haviam trazido vassouras, que agitavam acima de suas cabeas. Outros sacudiam lenos brancos. (Que saudade do Brigadeiro!  suspirou D. Quitria.) Quando Jnio Quadros subiu para dentro do coreto, de onde ia falar, cercado dos membros mais importantes de sua comitiva, a multido prorrom-peu em gritos: J-nio! J-nio! J-nio! O candidato ergueu os braos, a luz dum combustor refletiu-se nas lentes, de seus culos, dando a impresso de que ali estava um super-homem com olhos de fogo.
    Jnio Quadros fez um eloqente discurso, emocionando o pblico, que o interrompia a intervalos para aplaudir e gritar ritmadamente: J-nio! J-nio! Prometeu combater a inflao, a injustia, o nepotismo e a ineficincia burocrtica. Declarou que no tinha compromissos com nenhum partido poltico. Era um homem livre. Como Abrao Lincoln, se eleito, governaria com o povo, para o povo e pelo povo!
    
    LIV
    Mais tarde, duas horas antes de embarcarem de volta a Porto Alegre, Jnio Quadros e os membros da sua caravana foram recebidos no palacete do Cel. Vacariano. Houve um momento em que o dono da casa segurou o seu candidato pelo cotovelo e disse-lhe ao ouvido:
     Preciso ter um particular com o senhor. Jnio sorriu:
     Onde e quando?
     Agora. Vamos pro meu escritrio.
    Foram. Sentaram-se. Por alguns segundos Tibrio com um olho fechado e outro aberto cozinhou o seu candidato em gua fria. No tinha conseguido formar um juzo claro sobre aquele cidado. No fsico, na maneira de portar-se e nas idias ele no lembrava nenhum dos polticos que ele, Tibrio, tinha catalogados na galeria da memria. O velho chefe antarense tinha ainda as suas desconfianas e reservas com relao ao moo do Mato Grosso...
    Ouvira os mais inquitantes rumores a respeito do Dr. Jnio. Seus inimigos diziam-no um farsante, um demagogo, e havia at quem afirmasse que seu truque eleitoreiro preferido era o de fingir de homem humilde-, ia para os comcios com o colarinho desabotoado, frouxo o n da gravata, a roupa amassada e l pelas tantas puxava do bolso um sanduche embrulhado em papel e punha-se a com-lo em publico, tudo para dar uma impresso de simplicidade, como quem diz: No sou nenhum gr-fino, sou como vocs. Votem em mim. Contava-se tambm que, quando governador de So Paulo, sempre que no seu gabinete queria livrar-se dum importuno, da pergunta indiscreta dum reprter ou de qualquer outra situao embaraosa, Jnio Quadros simulava desmaio^, tonturas... Era um ator consumado  afirmava-se.
    Seria verdade tudo quanto se dizia dele? A cara do cristo  conclua Tibrio  no confirmava nem desmentia essas estrias. Com seus cabelos escuros e lisos, uma mecha a cair de vez em quando sobre a testa (coisa que ele parecia explorar teatralmente), o bigode, os culos de aros grandes e redondos, o homem tanto podia ser um caixeiro-viajante como um bancrio ou um fiscal do imposto de consumo. Tudo, menos um candidato  presidncia da Repblica. A Lanja tinha ficado encantada com o moo. Imagina, Tib, que ele fala bem como gacho. Parece at nascido e criado aqui na fronteira.. Deus queira que ele seja eleito! No sei  pensava o marido  no sei. O juiz de Direito de Antares afirmava que Jnio tinha carisma. E ele, Tibrio, nem sequer se dera o trabalho de ir procurar no dicionrio o significado dessa palavra, que jamais ouvira em toda a sua vida. Mas pelo tom com que o magistrado a pronunciara, a coisa parecia boa.
     Estou s suas ordens, coronel  disse o candidato, cruzando as pernas.
     Doutor, sou um homem de sessenta e sete anos e ando metido em poltica desde que me tenho por gente.
     Coronel, fique certo de que conheo muito bem sua biografia.
    Tibrio no conseguiu descobrir se essas palavras eram um elogio, um insulto ou uma ironia.
     Pois ... Tenho tido as maiores decepes com os candidatos em que votei. S espero que, se vencer, o senhor no nos desiluda, no seja como os outros,
    Jnio Quadros franziu a testa:
     No compreendo  disse, escandindo bem as slabas  maneira do falar quadrado da fronteira do Rio Grande do Sul.  No sei que  que o amigo quer dizer com isso.
     Vamos dar nomes aos bois. No caia nas garras do P. T. B. No se meta com os socialistas, com essa cambada da esquerda.
    Jnio sorriu enigmaticamente.
     Meu caro Cel. Vacariano, o senhor ouviu o meu discurso. Se eleito, pretendo cumprir  risca tudo quanto tenho prometido ao povo durante esta campanha memorvel.
     Pois , mas as pessoas quando chegam l em cima em geral mudam, esquecem as promessas feitas nos discursos e nas entrevistas. Noutras palavras, tenho medo de que o senhor atire a sua vassoura para um canto e no varra a casa.
     Pois, coronel, se o senhor pensa assim vai ter uma surpresa. Pretendo usar a vassoura, e com muito vigor. Agora, o meu caro amigo pode discordar de mim na definio da palavra sujeira. O que me parece sujo pode parecer-lhe limpo, e vice-versa. Mas duma coisa pode ficar certo: no meu governo no pretendo ter compadres nem afilhados. Pensarei com a minha cabea, governarei com as minhas idias e os meus ideais, serei senhor da minha vontade. No tenho compromissos com partidos polticos ou grupos econmicos ou financeiros.
     Pois se assim , no temos motivos para apreenses... no ? Mas eu gostaria que o senhor me fizesse umas promessas, agora.
    A coisa soava como um pedido de pagamento adiantado por um apoio eleitoral.
    Jnio mirou longamente o dono da casa e depois ergueu-se :
     Meu amigo, nenhum candidato que se preze pode fazer a quem quer que seja promessas particulares de ordem poltica, financeira, econmica ou de qualquer outra natureza. Meu compromisso  com o povo brasileiro, no s com os que me elegerem como tambm com os que votarem contra mim.
     O senhor pode me achar desconfiado, doutor, mas aqui na fronteira temos um ditado muito bom: O diabo sabe muito mais por velho do que por diabo.
     Conheo-o  replicou Jnio.  Mas o meu prezado companheiro no deve descontar a possibilidade da existncia dum diabo que tambm saiba coisas, apesar de jovem. ..
     Claro que no!  riu-se Tibrio.  H de tudo neste mundo velho.
     porta do escritrio, pouco antes de voltar  companhia dos outros convivas, o candidato encarou o anfitrio e disse;
     O que lhe posso garantir, coronel,  que, se assumir a presidncia da Repblica, eu no os decepecionarei.
    Tibrio deu-lhe uma palmadinha no ombro, sacudindo vagarosamente a cabea e murmurando: Muito bem, muito bem... . E continuou sem saber o que pensar daquele singular espcime humano.
    
    LV
    O Cel. Vacariano mandou soltar foguetes  frente da sede do diretrio do P.S.D. quando as estaes de rdio confirmaram a vitria de Jnio Quadros nas eleies presidenciais, com quase seis milhes de votos  o mais cabal triunfo eleitoral da histria da Repblica dos Estados Unidos do Brasil, como afirmaria Lucas Faia no editorial de A Verdade no nmero do dia seguinte.
    Os estrondos dos foguetes ainda atroavam os ares de Antares quando Tibrio Vacariano saiu de casa, trocando abraos e parabns com os amigos que encontrava na praa, e foi fazer uma visita especial  sua amiga Quitria Cam-polargo.
     Estamos finalmente no poder, Quita!  exclamou ao v-la sentada na sua cadeira de balano, manipulando com a sua habitual destreza as agulhas de tric.
    Deu-lhe efusivas palmadinhas nas costas. A viva de Zzimo mal ergueu a cabea e no interrompeu nem por um segundo o seu trabalho.
     Mas que  isso, menina? No ests contente?
     No sei, Tib.
     Que bicho te mordeu?
     Primeiro, o Jango Goulart foi eleito vice-presidente na chapa do Jnio. Isso quer dizer que os getulistas continuam ainda mandando...
     Mas o Jnio  um homem de autoridade. O Jango no tira farinha com ele. Queres apostar?
     Dois Poleangos? No aposto nada. Mas escuta. Em segundo lugar... no sei, esse tal de Jnio Quadros no princpio me entusiasmou, mas depois comecei a notar nele umas coisas esquisitas.
     Como por exemplo...
     Umas bobagens que disse em entrevistas. Depois, aquela viagem a Cuba, ao Fidel Castro, quando j era candidato. Isso me deixou de p atrs... E, agora, trs meses antes da posse, em vez de ficar no pas compondo o seu ministrio, o homem vai se tocar pra Europa. Acho que esse sujeito  um demagogo da pior espcie.
     Mas est eleito, e com o nosso voto.
     Pacincia. Queres um cafezinho?
     Que pergunta! Temos de comemorar de algum jeito a nossa vitria. No fim de contas, no devemos ser to pessimistas.
    Veio o caf em pequenas xcaras douradas, e ambos cr tomaram lentamente, recordando frases do falecido Zzimo.
    Tibrio estava de tal modo entusiasmado com a vitria de seu candidato que, para pasmo geral da famlia e dos amigos, resolveu dar um pulo a Braslia para assistir  posse do Presidente que ajudara a eleger. Passou trs dias na chamada nova capital. Quando voltou para Antares, um dos filhos lhe perguntou:
     Que tal Braslia?
     Uma bosta. No sei por que escolheram aquele lu-gar pra essa tal de Novacap. Decerto muita gente andou ganhando dinheiro por baixo do poncho na transao. No vi nada que justificasse a escolha. Naquelas paragens s existem arbustos minguados, nenhuma rvore de mrito.
    Terra porosa.  como se Braslia tivesse sido construda em cima dum cupim. E sabem duma coisa? Naquele deserto nem passarinho tem!
     E que nos diz do Jnio?
     Temos que primeiro esperar, para ver o que o homem faz.
    No contou que vinha j desiludido com o seu candidato. Tentara apertar-lhe a mo, dizer-lhe duas palavrinhas mas no conseguira aproximar-se nem trinta metros do Homem. Tivera a impresso de que o ex-vereador de So Paulo j estava com o rei na barriga. Disse em voz alta aos familiares :
     Vou dar ao novo Presidente um crdito a prazo longo e juro baixo.
     Quantos meses?  perguntou um dos sobrinhos.
     Bueno, sou um homem generoso. Dou-lhe um ano. No lhe passou sequer pela cabea a suspeita de que o novo governo nacional no ia durar nem sete meses.
    
    LVI
    No dia 25 de agosto de 1961, exatamente sete anos e um dia depois do suicdio de Getlio Vargas, chegou a An-tares a notcia de que Jnio Quadros acabava de apresentar ao Congresso Nacional a sua renncia ao cargo de Presidente da Repblica. D. Briolanja Vacariano, com palpita-es de corao, fez o que nunca jamais fizera em toda a sua vida de esposa exemplar: acordou o marido da sesta vinte minutos antes da hora marcada e deu-lhe a notcia. Sentado na cama, estremunhado, olhos piscos, cara aparvalhada, Tibrio pediu a repetio da estria. Ficou depois olhando fixamente para os dedos dos ps e de sbito ergueu-se soltando um grito: No! No pode seri  boatot No pode ser! E rompeu a andar estonteado pelo quarto, no seu pijama de pelcia azul-celeste. No  possvel!  o fim do mundo! O homem est doido varrido!
    Vestiu-se s pressas, meio dispnico, e saiu para a rua. A Praa da Repblica fervilhava de gente, grupinhos aqui e ali, todos comentando a renncia. Havia uma espcie de estupor geral. Por que foi? Por que no foi? Pode ser mentira. No, no , todas as estaes de rdio de Porto Alegre esto divulgando o fato. Algum informou que a Radio El Mundo de Buenos Aires acabava de dar a notcia em carter urgente.
    Tiberio Vacariano estava perturbado. Agora temos de engolir o Jango Goulart como Presidente  pensava.   o fim da picada!  o fim da picada! E repetindo esta frase ele atravessou a praa em diagonal e entrou na sede do diretrio do P.S.D., onde s encontrou caras alarmadas e in-terrogativas. Um de seus correligionrios disse: Segundo a Constituio o Jango tem de assumir. A Constituio que v pro diabo!No podemos deixar o herdeiro do Getlio tomar de novo o poderi Algum falou em legalidade e Ti-brio, apalpando o revlver na cintura, disse por entre dentes: A legalidade est aqui. A um canto algum murmurou-. Acho que o Carlos Lacerda derrubou mais um Presidente. E em pleno vo...  acrescentou outro.  Que pontaria infernal!
    Realmente, havia algum tempo, Lacerda, alarmado ante o perigoso comportamento de Jnio Quadros, comeara a atac-lo pela imprensa, pelo rdio e pela televiso.
    A sereia de A Verdade soava a intervalos, e ondas de populares aproximavam-se da redao do dirio local para ler a ltima. Os Ministros militares pareciam atnitos ante o gesto de Jnio Quadros, que apresentara a sua renncia cedo, pela manh, e j s onze horas embarcava para So Paulo com a famlia.
    Que pretendia o Homem da Vassoura com essa demisso? Por que havia confiado a carta de renncia a seu Ministro da Justia, com a recomendao de que o explosivo documento no devia ser entregue ao Congresso antes das trs da tarde?
    Nasciam em Antares os boatos mais desencontrados. Ora, um boato  uma espcie de enjeitadinho que aparece  soleira duma porta, num canto de muro ou mesmo no meio duma rua ou duma calada, ali abandonado no se sabe por
    quem em suma, um recm-nascido de genitores ignorados.
    Um popular acha-o engraadinho ou monstruoso, toma-o nos braos, nina-o, passa-o depois ao primeiro conhecido que encontra, o qual por sua vez entrega o inocente ao cuidado de outro ou outros e assim o bastardinho vai sendo ama-mentado de seio em seio ou, melhor, de imaginao em imaginao, e em poucos minutos cresce, fica adulto  to substancial e dramtico  o leite da fantasia popular  comea a caminhar pelas prprias pernas, a falar com a prpria voz e, perdida a inocncia, a pensar com a prpria cabea desvairada, e h um momento em que se transforma num gigante, maior que os mais altos edifcios da cidade, causando temores e s vezes at pnico entre a populao, apavorando at mesmo aquele que inadvertidamente o gerou.
    
    LVII
    No dia seguinte, no seu editorial assinado, em A Verdade, Lucas Faia escreveu que a inesperada notcia da renncia de Jnio Quadros causara em Antare.s um impacto quase to violento como o produzido pela primeira bomba atmica, a que explodira sobre Hiroxima em agosto de 1945. Embora muitas pessoas de bom-senso achassem que o jornalista tinha sido um tanto exagerado na comparao, dum modo geral reconhecia-se que, depois do suicdio de Get-lio Vargas  ocorrido num outro agosto, ms de desgosto  a renncia de Jnio era o acontecimento mais sensacional e dramtico da vida poltica brasileira dos ltimos tempos.
    Um pormenor que dava um tempero folhetinesco  situao era o fato de que o Vice-Presidente da Repblica, Dr. Joo Belchior Goulart, se encontrava ento ausente do Brasil, pois havia sido mandado pelo Presidente Quadros  China Comunista, numa importante misso econmica.
    J se conhecia a ntegra da mensagem que o Chefe de Estado demissionrio dirigira ao povo brasileiro. Tibrio
    Vacariano leu-a na sede do diretrio local do P.S.D., no nmero do Correio do Povo chegado naquele dia. Achou-a fraca, chocha, nada convincente.
     No tem grandeza!  exclamou, dando uma palmada na pgina do jornal que tinha estendido sobre a mesa,  sua frente.  No tem drama e, pior que isso, no tem p nem cabea.
    O secretrio do diretrio, um homem de meia-idade, todo em tons de cinzento  os olhos, os cabelos, a roupa e at a pele  disse:
     O Jnio sempre me pareceu um poltico sem convices ideolgicas: uma espcie de rfo da tempestade no nosso mundo poltico.
    Outros correligionrios foram aos poucos chegando e reunindo-se ao grupo que cercava o Cel. Vacariano, que continuava a comentar o manifesto.
     Ouam esta frase. Fui vencido pela reao e assim deixo o governo. Que significa isto? Que reao? Por que no fala claro? Nestes sete meses cumpri o meu dever... Bolas! No fez mais do que a sua obrigao. Tenho-o cumprido dia e noite.
     Dia e noite?  repetiu o vice-presidente do diretrio, que entrava na sala naquele exato momento, encolhido dentro dum sobretudo cor de chumbo, uma manta de l enrolada no pescoo, as faces cobertas por uma barba grisalha de dois dias, os olhos lacrimejantes, pois acabava de deixar a cama onde uma gripe filha da me o mantivera durante quase uma semana.  Dia e noite?  repetiu, desenrolan do a manta e revelando a camisa de pelcia, sem gravata  Ouvi dizer que ultimamente o Jnio vivia metido no cinema do palcio, com uma garrafa de usque ao lado, e ali ficava horas e horas, bebendo e vendo filmes de Far West, um em cima do outro. Um louco!  voltou a cabea na direo da copa.   Iibrio! Me traz uma cachacinha com mel e suco de limo. Ainda estou com a maldita gripe no corpo. Bom dia para todos!
    Tibrio Vacariano continuava a olhar para o jornal, co-mo que hipnotizado pelo manifesto. O secretrio cinzento murmurou :
     A coisa toda no pode ser to simples assim. H muita invencionice, muita inveja, muita mentira no meio de tudo isso. Digam o que disserem, nesses sete meses o Jnio se imps ao respeito da nao. Tinha presena, tinha autoridade. Ningum batia na barriga dele. Mantinha seus subordinados e at os seus ministros a uma distncia respeitosa.
    Tibrio deu outra palmada no Correio do Povo, bradando:
     Mas um Ministro de Estado no  um moo de recados!  Leu:  Foras terrveis se levantaram contra mim e me infamam ou me intrigam, at com a desculpa de colaborao. Mas que foras so essas? Por que no diz claro ou se cala para sempre?
    O homem do sobretudo cor de chumbo bebeu um gole da batida que o Librio acabava de lhe trazer, estralou os beios e disse:
     Eu c ningum me tira da cabea que foram os Ministros militares que foraram o homem a renunciar. E sabe qual foi a gota que fez o copo transbordar? A Ordem do Cruzeiro do Sul que o Jnio deu ao cubano barbudo... como  mesmo o nome dele? O Che Guevara!
     Outras boas razes tinham as foras armadas para botar esse psicopata no olho da rua  disse Tibrio.  Mas escutem o que escreve o mrtir: Saio com um agradecimento aos amigos que comigo lutaram e me sustentaram dentro e fora do governo e de forma especial s foras armadas, cuja conduta exemplar em todos os instantes e oportunidades no canso de proclamar. Agora me digam, depois desta declarao, em que ficamos?
    O convalescente da gripe disse com voz ainda encatar-rada :
     Ficamos com o Dr. Joo Belchior Goulart na presidncia da Repblica dos Estados Unidos do Brasil.
    Tibrio deu outra palmada no jornal.
     Essa  que no! O Jango como nosso Presidente? Nncaras!
     Mas qual  a alternativa?  perguntou um homem gordo, que limpava as unhas com a ponta dum canivete.
     Uma nova eleio  disse o coronel.  Ou a guerra civil, se os janguistas se opuserem  soluo eleitoral.
    Um curto silncio. Tibrio acendeu um palheiro. O homem cinzento murmurou:
     Palavra que o sujeito me iludiu!
     Qual!  exclamou o gripado.  Percebi logo que ele era bolado dos cascos. Onde se viu um Presidente andar com aquela camisa indiana para fora das calas e obrigar seus auxiliares a usar no. trabalho esse uniforme ridculo?
     Ora, isso no tinha a menor importncia. Podiam andar at pelados no palcio, contanto que fizessem boas coisas. E fizeram. Nossa burocracia pela primeira vez estremeceu desde que se proclamou a Repblica. A inflao estava sendo pela primeira vez combatida a srio.
     Mas onde se viu governar com bilhetinhos?  perguntou Tibrio.  E depois vocs devem convir que o Jnio fez um mundo de besteiras. Por exemplo, andou pelo Egito e veio de l elogiando o nasserismo. Queria que a China Comunista fosse admitida na O.N.U. Inventou que o Brasil precisava de reatar suas relaes com a Rssia Sovitica. Estava to voltado para a esquerda que os nacionalistas e os comunistas, que no votaram nele, j estavam elogiando a sua poltica...
    O homem que limpava as unhas sorriu quase sonhadoramente ao dizer:
     Eu at que simpatizava com essa poltica externa independente que o Jnio procurou seguir, que diabo!
     Poltica independente?  exclamou Tibrio Vaca-riano.  O Brasil est endividado at aos gorgomilos, praticamente hipotecado aos Estados Unidos e ainda queria dar-se o luxo de fazer parte desse tal de Terceiro Mundo. Chegamos a namorar at essas novas republiquetas africanas. Redculo!
     E...  concordou o homem do sobretudo cor de chumbo  o Jnio fez muitas bobagens. Por exemplo, essa estria de proibir o uso de biqunis nas praias... e corridas de cavalos nos dias de semana.
      E rinhas de galo...  acrescentou Tibrio, tossin-do estas palavras com baforadas de fumaa.
    O gripado soltou uma risada rouca.
     Isso foi o que mais te enfureceu, hem, Tib? Alm de aficionado do esporte, s o maior criador de galos de briga em todo o Estado. Esse decreto te doeu no bolso.
    -- No  isso <, replicou o patriarca dos Vacarianos.  A roisa toda  dum redculo de matar. O pas devendo dois bilhes de dlares e o homem l em cima fantasiado de indiano, vendo fitas de cow-boy, bebendo usque e se preocupando com miudezas...
     Como se explica ento a renncia?  perguntou o gordo do canivete.
    Tibrio Vacariano ergueu-se, deu alguns passos ao redor da mesa e depois interpretou:
     Bom, no meu entender a coisa toda no passou duma farsa mal representada... O Jnio arquitetou um golpe. .. No podia governar com minoria no Congresso, sentia-se de mos amarradas. Escreveu ento a carta de renncia... que no era pra valer. Vai ento entrega a carta ao seuMinistro da Justia pra ele apresentar o documento ao Congresso de tal jeito que ela no pudesse ser submetida aos deputados e por eles julgada em definitivo, no mesmo dia. Depois chamou os Ministros, militares e disse: Fechem ou amordacem esse Congresso de borra, me dem poderes extraordinrios seno eu renuncio e vocs tero de engolir o Jango Goulart. Mas, como se viu, a coisa no funcionou como ele esperava. O Congresso pegou o pio na unha. Aceitou logo a renncia e fechou a questo. O Jnio ficou no aercporto de Cumbica esperando que o povo brasileiro se erguesse e o levasse de volta ao governo, de charola... No apareceu ningum.
     O tiro lhe saiu pela culatra.
     Isso nem foi tiro de verdade. Jnio usou uma dessas pistolinhas de brinquedo que a gente aperta no gatilho e em vez de tiro sai um leque colorido que se abre. Uma palhaada que vai custar muito caro ao Brasil.
    O homem de tons cinzentos sacudiu a cabea.
     No. Tudo isso  simples demais para ser verdade. Acho que to cedo no vamos saber o que realmente aconteceu ... Daqui a uns cinqenta anos... talvez.
    E ento o homem de sobretudo cor de chumbo pediu mais uma cachacinha com mel. Tibrio cuspiu no cho o seu toco de cigarro. E a sereia de A Verdade comeou a uivar.
    
    LVIII
    Nos dez dias que se seguiram, a sereia do jornal local soou repetidamente, fazendo a cidade vibrar de expectativa, apreenso, curiosidade, temor ou esperana  no dizer de Lucas Faia.
    Durante esse tempo realmente a situao poltica nacional tornou-se muito tensa, e a guerra civil parecia iminente. As foras armadas de terra e ar mantinham-se em rigorosa prontido.
    O presidente da Cmara dos Deputados assumiu provisoriamente a chefia da nao, horas depois da renncia de Jnio Quadros, e um de seus primeiros atos foi o de mandar uma lacnica mensagem ao Congresso, comunicando aos representantes do povo que, por motivos de segurana nacional, os Ministros militares se opunham  volta de Joo Goulart ao Brasil.
    Foi decretado o estado de stio para todo o territrio brasileiro, para evitar as demonstraes pblicas. Manifestaes houve, porm, e muitas, principalmente em Porto Alegre, que estava em p de guerra, o Palcio do Governo transformado em fortaleza, guarnecido por soldados da Brigada Militar e cercado por trincheiras de sacos de areia. O Governador Leonel Brizola, cunhado de Joo Goulart, dramaticamente de metralhadora porttil a tiracolo, fazia as suas proclamaes por intermdio da imprensa e duma cadeia de estaes de rdio, afirmando repetida e categoricamente  nao que no aceitaria nenhum golpe, e que ele estava decidido a resistir pelas armas.
    Quitria Campolargo ouvia-o ou lia-o e depois comenta-va O diabo da subverso e da desordem de repente se transformou no ermito da legalidade e da democracia.
    No dia 27 de agosto, ao tomar um vapor rumo de Londres, Jnio Quadros, fortemente emocionado, disse: Fui obrigado a renunciar. Um dia voltarei, como Getlio. Tib-rio Vacariano limitou sua crtica a essa frase a uma nica palavra: Fiteiro! Depois procurou sintonizar no seu rdio uma estao que no pertencesse  Cadeia da Legalidade, de Brizola. Como no conseguisse, apagou o aparelho e saiu para a rua.
    Sabia-se que srias discusses e consultas se processavam em segredo nos meios militares. Se por um lado os Ministros da Guerra, da Aeronutica e da Marinha no queriam dar posse ao vice-presidente, por outro nada podiam fazer de drstico e definitivo porque no contavam com o apoio de todos os comandos militares do pas e nem mesmo com a maioria no Congresso. A opinio nacional estava dividida. Criara-se um impasse perigoso que talvez s pudesse ser resolvido por meios violentos.
    No palacete dos Vacarianos as velas do velho oratrio agora estavam sempre acesas e D. Lan ja rezava duas vezes por dia para a santa de sua devoo, pedindo-lhe que intercedesse junto a Deus para que o Todo-Poderoso no permitisse que mais uma guerra entre irmos fosse deflagrada no Brasil. No adianta rezar  disse-lhe o marido.  Deus, me palpita que  neutro nessa questo da legalidade, mas acho que a opinio dos santos, como a dos nossos comandantes militares, est dividida. Te digo ainda mais, Lanja, desconfio que j existe infiltrao comunista na Corte Celeste.
    Disse estas palavras, acendeu o rdio e ento os sons dum dos dobrados marciais de Brizola encheram-lhe a casa, vibrantes e insolentes, e o velho Vacariano berrou um palavro e em seguida tocou-se para o diretrio do P.S.D., onde teve o dissabor de encontrar muitos companheiros favorveis  tese da legalidade da posse de Goulart.
     Tenho horror a esse homem  explicou um deles.  Mas precisamos ser coerentes, Tib. Quando nos convm, invocamos a Constituio. Quando no convm, estamos prontos a rasg-la.
    Tibrio ficou a olhar por alguns instantes para a cara do companheiro e depois, sem descerrar os dentes que apertavam o cigarro, resmungou: Pois eu, meu velho, j vou comear a reunir gente. Acho que dessa enrascada s samos a bala. A guerra civil  inevitvel!
    Cinco dias depois no tinha conseguido juntar nem sequer cinqenta homens. Ficou desapontado e esse desapontamento transformou-se em irritao quando leu no jornal local que os janguistas de Antares tinham oferecido a Leonel Brizola, para a defesa da Legalidade, um contingente de setecentos e cinqenta homens, que s esperavam armas, munies e ordens de combate.
     Os tempos mudaram, Tib  disse-lhe uma noite com triste resignao um seu correligionrio.  H muitos anos que estamos em minoria. J no temos a fora e o prestgio de antigamente. Um mundo novo est nascendo e os velhos como ns esto sobrando.
     Fresco mundo!  replicou o patriarca dos Vacarianos.
    Voltou para casa, ligeiramente cabisbaixo. A Praa da Repblica, como de costume naqueles dias agitados, estava cheia de gente, principalmente homens e  o que era pior  em sua quase totalidade, partidrios do P.T.B. Tibrio avistou o lder proletrio Geminiano Ramos falando alto e gesticulando a uma esquina, no meio duns dez ou doze companheiros. Apalpou o revlver que trazia  cintura e pensou: Se algum felho da pota me fizer qualquer provocao, traco-lhe bala. Em vez de seguir o trajeto mais curto para a sua casa, fez acintosamente uma volta a fim de passar bem junto do grupo onde o Geminiano pontificava. Cruzou pelos inimigos a passo lento esperando, chegando at a desejar que algum lhe desse alguma indireta ou soltasse alguma risadinha debochada. Nada disso, porm, aconteceu. Geminiano, ao v-lo, saudou-o: Boa noite, coronel! O Primeiro mpeto de Tibrio foi o de levar a mo ao revlver. Conteve-se, porm, em tempo e bateu com dois dedos na aba do chapu, e respondeu  saudao com um ronco. E continuou o seu caminho, meio derrotado.
    
    LIX
    Quando, dias mais tarde, noticiou-se que chefes polticos e militares haviam encontrado uma soluo para a crise nacional na adoo do sistema parlamentar para o Brasil, com Jango Goulart na presidncia, D. Quitria Campolargo exclamou:  pior a emenda que o soneto!
     Mas est se vendo que isso  um ardil dos dois cunhados para tomarem o governo. O parlamentarismo com gente dessa laia no pode funcionar direito.
    Como quem acompanha os episdios duma novela de aventuras, o povo de Antares seguiu pelo noticirio da imprensa e das estaes de rdio, o complexo e cauteloso itinerrio da volta de Jango Goulart da China Comunista. De Singapura, onde recebera a notcia da renncia de Jnio Quadros, o Vice-Presidente voou para Paris, onde se encontrou com a comisso parlamentar brasileira que para l viajara s pressas para lhe expor a frmula conciliatria, que Joo Goulart estudou e finalmente aceitou. De Paris o filho espiritual de Getlio Vargas e seus assessores voaram para Nova Iorque, de onde seguiram, via costa do Pacfico, para Montevidu e finalmente para Porto Alegre. O zorro  desconfiado como o mestre dele  comentou um libertador.  Pelas dvidas, entrou no Brasil pelo Rio Grande.
    No dia 7 de setembro de 1961 o Dr. Joo Belchior Goulart prestava juramento como Presidente da Repblica e o Brasil adotava o regime parlamentar. O novo Presidente nomeou o seu primeiro-ministro, que por sua vez formou o seu primeiro gabinete.
    Algum em Antares disse a Tibrio:
     Como antigo maragato, deves estar satisfeito. Tuas idias parlamentaristas finalmente triunfaram.
    O velho Vacariano mirou-o longamente, com o crioulo preso entre os dentes amarelados, e no tomou conhecimento da ironia.
     A esta hora  disse  os restos do conselheiro Gaspar Martins devem estar se revolvendo na tumba. Aposto dois Poleangos como daqui por diante o Jango no descansa enquanto no levar este pobre pas de volta ao presidencialismo.
    No se enganava. A 6 de janeiro de 1963 um plebiscito popular devolveu a Jango Goulart plenos poderes presidenciais. A experincia parlamentar no Brasil durara escassamente dezesseis meses e fora um fracasso.
    
    LX
    Que tipo de cidade era Antares e que espcie de gente a habitava e governava ao tempo em que ocorreu o macabro incidente que em breve se vai narrar? Os estudiosos talvez encontrem respostas satisfatrias a essas perguntas na obra intitulada Anatomia duma Cidade Gacha de Fronteira, da autoria dum grupo de professores e alunos do Centro de Pesquisas Sociais, da Universidade do Rio Grande- do Sul, publicado em forma de livro em 1965 mas baseado, todo ele, em dados colhidos entre a segunda semana de fevereiro e meados de maro de 1963.  que, embora a comunidade estudada aparea na monografia sob o nome imaginrio de Ribeira, trata-se na realidade de Antares. Esse trabalho, que foi financiado pela Ford Foundation, teve como diretor e orientador o professor de Sociologia Martim Francisco Terra, da U.R.G.S., ajudado por um especialista em Cincias Polticas, um outro em Estatstica e um terceiro em Economia. A equipe de pesquisadores era mista, num total de onze pessoas, em sua maioria alunos do ltimo ano de Cincias Sociais, e contava com um apndice no acadmico  um fotgrafo profissional.
    Conta-se que  embora no haja nenhuma prova certa de que isso tenha realmente acontecido  quando a equi-pe se reuniu para escolher a comunidade fronteiria que ia ser objeto do aludido estudo, arrolaram-se os nomes de seis cidades gachas de nossa fronteira com o Uruguai e a Argentina, e discutiram-se os prs e os contras de cada uma delas, Duas foram consideradas demasiadamente estagnadas e logo postas de lado. Outras duas foram eliminadas por parecerem um tanto sofisticadas e por isso pouco representativas da sua regio. Assim, restaram na competio apenas So Borja e Antares. O fato de a primeira dessas comunidades ser o feudo da famlia Vargas, tendo portanto implicaes polticas delicadas, determinou sua excluso, de sorte que Antares permaneceu sozinha na arena. Nenhum membro do grupo ficou mais feliz com isso do que Xisto, neto do Cel. Tibrio Vacariano, e um dos discpulos mais dedicados do Prof. Terra.
     Bom  disse um dia o diretor do projeto  comearemos o nosso trabalho de campo a partir da segunda semana de fevereiro prximo. Esses meses de vero no s coincidem com as nossas frias como tambm com as dos estudantes de Antares que freqentam universidades aqui em Porto Alegre, em So Paulo ou no Rio. Acho que esses jovens, em geral filhos de estancieiros ricos, so to importantes como transmissores de idias, atitudes morais e hbitos novos quanto... digamos, os pssaros e o vento no processo de polinizao.
    Olhou em torno e, vendo faces com expresses maliciosas, sorriu:
     Sei que acabo de dizer um enorme lugar-comum. Mas... que diabo! Esse  um direito que a Constituio no nega nem ao Presidente da Repblica.
    Tirou os culos de grossos aros escuros, bafejou-lhes as lentes e ps-se a limp-las cuidadosamente com a ponta da gravata. Era esse um hbito seu muito conhecido dos amigos e alunos. O que estes ltimos mais admiravam naquele mestre de quarenta e cinco anos era a sua honestidade intelectual, o seu humor em tom menor, e o seu saudvel ceticismo quanto  exatido cientfica das chamadas Cincias Sociais. Fumador de cachimbo, Martim Francisco costumava dizer que cachimbar era para ele mais um gesto que propriamente um vcio ou um prazer, pois o ato de preparar o cachimbo, ench-lo de fumo, acend-lo lentamente com o isqueiro, tirar as primeiras baforadas fornecia pausas providenciais em situaes difceis, tanto durante as aulas como em dilogos na vida social. Era uma maneira de encher certos silncios embaraosos que de vez em quando se abrem como buracos inesperados no meio das conversaes. Oferecia outra hiptese: o seu fascnio pelo cachimbo no seria uma reminiscncia nostlgica e bovarista de sua adolescncia de leitor das proezas de Sherlock Hohnes?
    
    LXI
    Xisto Vacariano Neto voltou a Antares em dezembro daquele agitado ano de 1961 incumbido de preparar o esprito de seus conterrneos para o estudo a que iam ser submetidos. Conversou com o pai e depois com o av, conseguindo convenc-los de que aquela pesquisa ia dar uma certa notoriedade a Antares. O Cel. Vacariano confabulou com o prefeito, que ficou alvoroado, imaginando a publicidade que o projeto forosamente ia trazer para a sua comuna e  claro  tambm para sua prpria pessoa. A Cmara de Vereadores aprovou unanimemente a idia de facilitar tudo  equipe universitria. Os clubes Rotary e Lions ofereceram espontaneamente a sua colaborao.  a diretoria da Associao Comercial como que se embandeirou em arco, pensando nos possveis resultados econmicos que todo aquele barulho ia propiciar direta ou indiretamente a Antares.
    Assim, na segunda semana de fevereiro do ano seguinte, chegaram  Jia do Uruguai  cognome inventado por Lucas Faia para a sua cidade  os membros do grupo do Prof. Martim Francisco Terra. A princpio foram todos foco da ateno popular, olhados com curiosidade  simpatica, desconfiada ou neutra  seguidos na rua, examinados obliquamente nos cafs e restaurantes, encarados abertamente nas ruas ou espiados furtivamente por frestas de janelas e portas... Como era de se esperar, no tardaram os antarenses a dar aos forasteiros uma alcunha: os gafanhotos. Por qu? Ora, vinham em bando, no vero, em tempo de seca e com um jeito de praga. Diga-se, porm, a favor de boa parte daquela populao, que ela tratou os membros do Centro de Pesquisas Sociais com a sua jamais desmentida hospitalidade, no dizer do diretor de A Verdade, que dedicou uma pgina inteira de seu jornal  simptica caravana acadmica. O Clube Comercial abriu s suas tradicionais portas a todos os professores e pesquisadores da equipe, isto , todos menos o estudante de sociologia negro. (Os senhores compreendem, no  por mal, no somos racistas, Deus nos livre!, mas  que durante toda a histria desta sociedade nunca entrou em sua sede nenhuma pessoa de cor.) Ao saberem dessa exceo, os gafanhotos recusaram terminantemente pr os ps no clube, at mesmo para uma rpida visita.
    Com a ajuda de seu cachimbo e de seu discpulo Xisto, o chefe do grupo conseguiu matar no nascedouro o baile e o banquete com que a sociedade local pretendia homenage-los. Convenceu os prceres locais de que a maior homenagem que os antarenses poderiam prestar ao seu grupo seria, primeiro, tratar os seus membros como gente de casa; segundo, responder com a maior franqueza e pacincia ao questionrio que lhes ia ser apresentado. Nada mais.
    Numa reunio informal, a que compareceram os grandes da terra, o Prof. Martim Francisco explicou (Lucas Faia mandou taquigrafar a fala do professor e reproduzi-la integralmente no nmero de A Verdade do dia seguinte) que a inteno da equipe era a mais sria e honesta possvel, e que o estudo seria feito de acordo com as tcnicas estatsticas mais modernas de amostragem, baseadas na teoria da probabilidade.
     Mas afinal de contas  perguntou um dos prceres  que  que os senhores desejam mesmo descobrir?
     Bom  hesitou Martim Francisco  queremos saber que tipo de cidade  Antares, como vive a sua populao, qual o seu nvel econmico, cultural e social, os seus hbitos, gostos, opinies polticas, crenas religiosas, as suas... vamos dizer, supersties, em suma... tudo!
    Tibrio lanou na cara do socilogo uma dessas perguntas desnorteantes que ele costumava chamar de pealo seco:
     Pra qu?
     Ora, coronel...  sorriu Martim Francisco. E antes de falar encheu o bojo do cachimbo de fumo, apertou-o com o polegar e depois ficou por algum tempo aparentemente entretido na operao de acend-lo, mas na realidade pensando numa resposta  pergunta do soba de Antares.
    
    LXII
    O trabalho dos universitrios comeou no dia seguinte. O falatrio na cidade, a respeito deles, esse tinha j comeado havia alguns dias. Cartas annimas andavam j a circular em aprecivel quantidade. Certo dia a cidade amanheceu cheia de boletins verdes, postos debaixo de portas, atirados de sacadas sobre as caladas, distribudos por meninos e meninas, de mo em mo, nas ruas e nas casas de comrcio. Povo de Antares! Pais e mes de familial Alerta! Os inimigos esto j dentro de nossos muros! Protegei a vossa intimidade. Fechai as vossas portas e os vossos coraes a esses forasteiros curiosos e indiscretos, agentes do comunismo internacional ateu e dissolvente. O Prof Martim Francisco Terra, o chefe dessa quadrilha vermelha disfarada, est fichado no D.O.P.S. como marxista confesso. Defendamos a nossa crena em Deus, na Ptria, na Famlia e na Propriedade! Assinava esse apelo Um Patriota.
    Um dos mais antigos comunistas da cidade disse um dia numa roda de correligionrios: O projeto est sendo financiado pela Fundao Ford. Est claro que nesse negcio todo anda o dedo da C.I.A. No devemos colaborar com esses lacaios do Departamento de Estado. Um comerciante encontrou na rua um colega e murmurou-lhe ao ouvido: Abre o olho, ch! Cuidado com os gafanhotos. Eles andam fazendo perguntas sobre preos, lucros, impostos, etc... Est claro que so espies do pessoal do imposto de renda. A mim ningum engana, que no nasci ontem.
    Ao fim de cada dia de trabalho toda a equipe se reunia numa sala que havia alugado para ser seu quartel-general, num edifcio de apartamentos,  Rua do Comrcio, e ento cada pesquisador contava das vicissitudes do dia, da desconfiada resistncia de alguns antarenses ante o questionrio. O que finalmente os convencia a fazer o que os membros da equipe lhe pediam era o fato de eles no serem obrigados a assinar seus nomes depois de preencherem o formulrio. Nessas reunies dirias, um que outro pesquisador mostrava Uma carta annima recebida naquele dia  ameaas veladas ou claras, denncias, insinuaes maldosas, insultos... A carta era lida em voz alta, provocando risos e comentrios humorsticos.
     Pacincia, meus filhos!  dizia Martim Francisco. E em seguida determinava as atividades para o dia seguinte.
    E assim, durante cerca de cinco semanas, os pesquisadores conseguiram uma rica amostragem, de acordo com seus planos. Responderam ao questionrio representantes da alta burguesia e da chamada aristocracia rural; comerciantes, funcionrios pblicos, donas de casa, estudantes, barbeiros, artesos, garons de cafs, bares e restaurantes, membros das profisses liberais, professores, empregados do comrcio, motoristas de caminhes e automveis de aluguel, etc... Xisto Vacariano, por conta prpria e com a permisso de Martim Francisco, entregou-se a uma pesquisa secreta em torno dos hbitos sexuais da populao de Antares, mas com um cuidado particular, pois o assunto era melindroso. Foi de incio repelido por umas duas ou trs senhoras de suas relaes, que ficaram escandalizadas e ofendidas ante suas perguntas indecentes. Mas uma noite, conversando com Venusta, no seu bordel elegante, Xisto, o neto do velho Tibrio, pediu champanha e comeou a beber com a caftina, que congregou a seu redor algumas de suas meninas, &s quais, devidamente estimuladas pela bebida, abriram o bico e contaram das peculiaridades sexuais de seus clientes  posies e estmulos preferidos, extravagncias, perverses ... Xisto anotou tudo e depois levou as suas amostras a Martini Francisco, que sorriu, dizendo: Excelente! Mas no podemos usar este material no nosso estudo. Causaramos um escndalo dos diabos. Sugiro que escrevas um livro: O Kamasutra de Antares. Te garanto que vai ser um best-seller! Teu av poderia escrever o prefcio!
    
    LXIII
    Independentemente de suas atividades profissionais, os gafanhotos faziam relaes no plano humano com os habitantes de Antares, eram convidados para almoar, jantar ou para festnhas em muitas casas de famlia. Um dos professores  solteiro e jovem  comeou um namoro com a filha dum estancieiro. Uma das investigadoras teve uma proposta de casamento dum comerciante vivo, cin-qento, calvo e rico. (No aceitou.) Quanto aos namoros e namoricos, era to pronunciada a predileo das moas antarenses pelos forasteiros, que momento houve em que o chefe do projeto temeu que os rapazes da terra se reunissem para linchar e expulsar da cidade os competidores indesejveis.
    Nas suas horas de folga Martim Francisco costumava conversar com o Pe. Pedro-Paulo, o jovem capelo da Vila Operria, com quem fizera boas relaes. Ficaram muitas vezes sentados num banco da Praa da Repblica, na calma do entardecer,  hora em que os pardais comeavam a sua algazarra dentro e em torno dum alto pltano,  frente da Matriz. Falavam na vida e na morte, em Deus, em livros, poltica nacional e internacional, pssaros, rvores, pinturas e outra vez no problema da finitude humana. Quase todas as noites, antes de ir para a cama, registrava de me-mna no seu jornal ntimo aqueles dilogos, bem como as estrias que ouvira sobre as pessoas mais interessantes que ia conhecendo na cidade. O que ele no sabia era que o Pe. Pedro-Paulo tambm mantinha um dirio em que o nome dele, Martim Francisco Terra, agora comeava a aparecer com freqncia, e sob a mais favorvel das luzes. A primeira nota que o sacerdote fez no seu jornal sobre o professor comeava assim: Creio que hoje descobri um irmo
    Os pltanos e os cinamomos comeavam j a perder suas folhas amareladas e as paineiras estavam em plena florao, quando o trabalho de campo da equipe universitria terminou e os seus componentes se prepararam para deixar Antares. Dessa vez os gafanhotos no conseguiram nem mesmo tentaram livrar-se dum baile de despedida no Clube Caixeiral  que admitia em sua sede gente de cor  e dos almoos do Lions e do Rotary.
    No dia do embarque da equipe, os moos que formavam o que Lucas Faia chamava de jeunesse dore antaren-se exultaram. Muitas meninas, porm, ficaram tristes. E o Anjo da Verdade, que assinava algumas das cartas annimas que circulavam na cidade, mandou um bilhete ao diretor de A Verdade revelando que duas ou trs mocinhas da nossa comunidade tinham sido engravidadas e outras tantas defloradas e prostitudas pelos gafanhotos vermelhos.
    Xisto Vacariano, que, depois que os companheiros se foram, permaneceu em Antares por mais uma semana, viu essa carta e comentou sorrindo: Pelo que vejo, o Anjo da Verdade foi contaminado pelo esprito estatstico da nossa equipe.
    
    LXIV
    Todos os dados colhidos em Antares foram processados pelo Prof. Martim Francisco, ajudado por dois colegas, no computador eletrnico da Universidade de So Paulo. E durante todo o resto daquele ano de 1962 a equipe entregou-se  redao final do estudo, com a colaborao especial dum antroplogo  este ltimo um tanto relutante por causa duma velha querela pessoal com a Sociologia, que ele considerava apenas uma modesta ancila da Antropologia.
    O grupo encarregado de dar forma definitiva  obra a conselho de seu diretor tratou de eliminar todas as enxun-dias estilsticas dos manuscritos semifinais, a fim de que o resultado fosse um livro magro.  primeira edio em lngua portuguesa devia seguir-se outra em lngua inglesa.
    Quando o Prof. Martim Francisco entregou os originais da Anatomia duma Cidade Gacha de Fronteira ao representante da Ford Foundation no Brasil, surgiu uma dificuldade que ps em perigo a publicao desse trabalho em forma de livro. O Prof. Terra foi acusado anonimamente de comunista militante s autoridades policiais do Rio Grande do Sul, o que na opinio de muitos tornava a sua amostragem suspeita de parcialidade. Fizeram-se as investigaes de rotina. Chamado ao Departamento de Ordem Poltica e Social, Martim Francisco teve a ocasio de verificar que a suspeita mais sria que havia contra sua pessoa baseava-se no fato de ele ter pronunciado na Universidade Federal, havia dois anos, uma srie de conferncias sob o ttulo geral de Marxismo e Humanismo. Num memorial dirigido ao governador do Estado, ao general comandante do Terceiro Exrcito, ao reitor da Universidade do Rio Grande do Sul e ao representante da Ford Foundation, vrios prceres de Antares manifestaram a sua apreenso quanto aos possveis resultados dum estudo planejado e dirigido por um indivduo de tendncias esquerdistas e portanto suspeito de parcialidade partidria, pois seu objetivo naturalmente era o de, por todos os meios, legtimos ou ilegtimos, desacreditar o sistema capitalista vigente na nossa comunidade. Os signatrios do memorial aproveitaram a oportunidade para em benefcio da verdade, reforar a denncia feita contra o diretor do aludido projeto, recordando atitudes, frases e idias do Prof. Martim Francisco Terra, testemunhadas por anta-renses da maior idoneidade morar. O fato que mais despertara a suspeita dos habitantes de Antares quanto s verdadeiras intenes do Prof. Terra fora o interesse exagerado que ele demonstrava pela favela conhecida popularmente pelo nome de Babilnia, e que fora incontveis vezes visitada por ele prprio e seus colaboradores, estudada e fotografada de todos os ngulos, tendo sido dezenas dos marginais nela residentes submetidos a questionrios verbais que haviam sido gravados em fitas magnticas.
    A publicao dos resultados da amostragem foi sustada enquanto duraram essas investigaes de natureza policial. Martim Francisco no perdeu a serenidade nem o bom-hu-mor. Escreveu uma carta ao reitor de sua universidade com cpias para o comandante do Terceiro Exrcito, o representante da Ford Foundation e o prefeito de Antares. Eis um trecho da missiva: O computador que utilizamos para o processamento de todos os dados que colhemos em Antares (que no livro aparece sob o nome de Ribeira)  de fabricao americana e portanto acima de qualquer suspeita de es-querdismo. Considero tambm absolutamente insuspeitos os meus colegas e os estudantes que tomaram parte nessas pesquisas. E eu, que no sou americano nem russo nem comunista nem paranico, estou disposto a consentir que meu nome seja omitido por completo do corpo do livro, no s como diretor como at como colaborador do trabalho, pois o que na minha opinio realmente importa  que ele seja publicado sem mais delongas. O reitor da universidade considerou a carta insolente. O prefeito e outras pessoas gradas de Antares acharam-na cnica. No se conhece a opinio do Terceiro Exrcito, mas o representante da Ford Foundation, amigo pessoal e admirador de Martim Francisco, riu-se de toda aquela farsa e mandou os originais para o prelo.
    
    LXV
    Em maro de 1963 a verso original da Anatomia foi lanada no Brasil.  quando no ano seguinte Martim Francisco recebeu o primeiro exemplar da traduo americana, o governo de Joo Goulart havia sido derrubado e os militares estavam no poder.
    Certa manh em sua casa,  hora do caf, o professor folheou o volume, cheirou-lhe as pginas  hbito muito seu  e depois entregou-o a Matilde, sua mulher, que estava sentada  mesma mesa, e continuou a leitura do jornal, que a chegada do livro interrompera. Havia na ltima pgina do matutino uma notcia informando que desde a irrupo da revoluo vitoriosa de 31 de maro, 378 pessoas tinham tdo seus direitos polticos suspensos, 10 000 funcionrios haviam sido demitidos ou obrigados a se demitirem e que estavam em processo cerca de 5 000 investigaes que envolviam umas 40 000 pessoas em todo o territrio nacional. Martim Francisco releu a notcia para a mulher, dessa vez em voz alta. Ela ficou um instante pen-sativa, olhando para o marido, e depois perguntou:
     E tu... no estars tambm sendo investigado?
      possvel e at provvel  murmurou ele sem tirar o cachimbo da boca nem desviar o olhar da pgina do jornal.
     E falas com essa calma...
     Que queres que eu faa? Que saia para rua gritando e chorando? Ou que meta uma bala na cabea? No cometi nenhum crime.
    Ela sorriu, sacudindo lentamente a cabea. Conhecia o marido e a sua fleuma. Tornou a olhar para a capa do livro.
     Que te parece agora esse trabalho?  perguntou.
     Graficamente  um doce. Bom papel, boa impresso, boa capa. Quanto ao contedo, bem... acho que tem tabelas e grficos demais. Fiz o possvel para dar um certo frmito de vida a esse estudo, mas tive de ceder muito terreno  estatstica e  econometria.
    Ela se ergueu, acercou-se do marido e comeou a passar a mo pelos seus cabelos. Como o amava, habituara-se a gostar da fragrncia de guaco da fumaa de seu cachimbo. Sempre acariciando a cabea de seu homem, tornou a olhar para o volume:
     Sinceramente, achas que Antares est retratada fielmente nas pginas dessa Anatomia?
     Matilde, minha querida, queres que te fale com franqueza? Esse livro est para a Antares de verdade assim como um passarinho empalhado est para um passarinho vivo.
    O professor ps-se de p e enfiou o casaco. Olhou o relgio: tinha vinte minutos para fazer a p o percurso at  universidade.
    Beijou a mulher, tornou a apalpar e cheirar o volume recm-chegado e depois disse, sorrindo:
     E a verdade  que hoje sou persona non grata em Antares.
    
    LXVI
    Como era de se esperar, os pr-homens de Antares haviam detestado o livro que, no ano anterior, fora discutido a portas fechadas numa reunio convocada pelo prefeito especialmente para esse fim.
     Abusaram da nossa hospitalidade!  exclamou o Maj. Vivaldino batendo na mesa com o punho cerrado.  Foram tratados a vela de libra, entraram nas nossas casas, na nossa intimidade e depois nos apunhalaram pelas costas. Temos de fazer alguma coisa, no acha, Cel. Vacariano?
    O velho encolheu os ombros. Era o nico daquela ilustre companhia que no parecia preocupado com as concluses da Anatomia.
     Que importncia pode ter um livro?  perguntou.  Andei folheando essa droga. No entendi nem a metade do que eles escreveram a... Essas tabelas, esses nmeros, essas palavras arrevesadas so de morte. Quem  que vai ler essa bosta?
     Mas a obra  observou o Prof. Lbindo Olivares, diretor do Ginsio Nacional  vai ser distribuda pela Fundao Ford a todas as bibliotecas do Brasil, dos Estados Unidos e possivelmente de muitos outros pases da Amrica Latina.
     Ora, eles falam a de Ribeira e no da nossa cidade!
     Bem, coronel, foi amplamente divulgado pelos jornais, pelo rdio e pela televiso que Ribeira  uma espcie de pseudnimo de Antares.
    Lucas Faia sugeriu:
     Devamos mandar publicar em todos os jornais importantes do pas um memorial rebatendo essas infmias sobre a nossa terra e a nossa gente.
     Vamos, vamos!  disse, conciliador, o Dr. Paiva, o novo advogado da prefeitura.  No se trata propriamente de infmias. E essas concluses foram tiradas dos questionrios...
    Os trs exemplares da Anatomia que haviam chegado a Antares andavam agora  roda, de mo em mo.
     Vejam a pgina 165  pediu o Mendes, secretrio do prefeito.  Somos apresentados como uma cidade prosaica, opaca (este  o termo que eles usam), como um povo sem imaginao e, alm de tudo, desconfiado, sempre com um p atrs. Numa nota ao p da pgina se explica que esta expresso foi encontrada em 10% do total dos questionrios.
    O velho Vacariano desatou a rir:
     Imaginem se eles tivessem publicado a coisa que o meu neto, o Xistinho, escreveu sobre os hbitos sexuais dos homens de Antares. Imaginem que o felho da pota tinha l umas amostras que, pelos sinais, se referiam a gente muito nossa conhecida...
    O diretor de A Verdade chamou a ateno dos presentes para outro trecho do livro:
     Pgina 230. Observem o tom de ironia deste captulo intitulado O Boi e a Mquina em que se pretende estudar o impacto que uma indstria incipiente est produzindo num municpio agropastoril.
    O prefeito tirou o livro das mos de Lucas Faia, um tanto abruptamente, abriu-o numa outra pgina e disse:
     No captulo Hbitos e Tabus Alimentares esses canalhas criticam a maneira como ns comemos em Antares. Prestem bem a ateno nesta tirada e me digam se no  coisa de comunista: Os pobres no comem porque no tm dinheiro para comprar gneros alimentcios. Os remediados comem pouco e mal. Os ricos comem demais e errado. 
    O dedo indicador de Vivaldino Brazo percorria a pgina.  Ah! Aqui est a frase que eu procurava: Durante o forte do vero, nos dias de maior calor, devoram feijoadas completas. Pois isso  comigo, senhores. Num gesto de boa vontade convidei o Prof. Martim Francisco para almoar na minha casa e lhe ofereci uma feijoada. E o ingrato se valeu disso para me ridicularizar.  Dr. Lzaro!
    O homenzinho que estava sentado a um canto da sala, quase a cochilar, teve um sobressalto:
     Pronto, major!
     E esse negcio de colesterol de que eles falam aqui  certo mesmo?
     No li ainda o livro, major. Mas todo alimento que contm gordura animal tende a aumentar o colesterol no nosso sangue, produzindo a artriosclrose. Vivo dizendo isso aos meus clientes, inclusive ao senhor, mas ningum me leva a srio.
     Ah!  riu seco o Cel. Vacariano.  O meu pai s comia carne gorda e coisas fritas em banha de porco. No entanto morreu com mais de oitenta e cinco anos, no de enfarto, mas da chifrada dum touro xucro.
    O prefeito umedeceu a ponta do indicador na lngua e ps-se a folhear rapidamente o livro infame, at encontrar o que procurava.
     E agora, meu amigos, chegamos ao trecho desta obra que mais me irritou.  o captulo dedicado  Babilnia (por sinal enorme, desproporcional ao resto do volume). E ilustrado com fotografias horrorosas! No tiveram nem o cuidado de inventar outro nome para a favela. Vejam esta descrio apaixonada, parcial e eu diria at poltica: Homens, mulheres e crianas aqui vivem  se a isto se pode chamar viver  na mais terrvel promiscuidade, num plano mais animal do que humano, em malocas feitas com pedaos de caixotes e de latas... sem o mais elementar servio sanitrio... bebendo a gua poluda duma lagoa prxima ... pisando nas prprias fezes... etc... etc... e comendo o que catam nos monturos de lixo da cidade. Ah! Ouam agora esta: O visitante que se aproxima desse arraial da misria e da desesperana sente de longe o fedor que dele se exala, mesmo nos dias sem vento... Vamos ver mais adiante... aquil No vero as crianas dessa aldeia fantasma morrem como moscas, de disenteria e desidratao. Encontram-se aqui, entre os grandes e os pequenos, casos crnicos de tuberculose e outras doenas propiciadas pela subnutrio. D pena ver os olhos entre espantados e tris-tonhos dessas criaturinhas esquelticas que, quase todas, sofrem de ancilostomase. . sempre cercadas de enxames de moscas, precoces candidatas  vala comum. Senhores, no parece que estamos lendo a descrio da aldeia mais miservel da ndia ou da Bolvia? E isto deve ter sido escrito pessoalmente pelo prprio Prof. Terra, o comunista!
     Mas isso  literatura e no sociologia!  exclamou o Prof. Libindo.
     E literatura barata  acrescentou Lucas Faia.  Estilo indigente.
     E demaggico  disse o Dr. Paiva.
    O Pe. Gerncio sacudiu lentamente a cabea dum lado para outro, os olhos baixos.
     E viram o que os ordinrios disseram da religio em Ribeira?  perguntou o Mendes.  Afirmaram com grficos estatsticos que a nossa igreja catlica est perdendo terreno para o espiritismo e para os cultos afro-brasilei-ros, principalmente para a Linha Branca de Umbanda.
    
    LXVII
    Comentaram-se outros trechos do livro. Um gerente de banco achou baixo demais o rendimento per capita dos habitantes de Antares indicado pela amostragem. Um comerciante considerou insultuoso o que se escreveu sobre a arquitetura da cidade e sobre os seus hbitos sociais.
      Mendes. Me faa o favor de ler o que est na pgina 340, na parte de cima.
    O secretrio leu:
     O que mais impressiona o forasteiro nos habitantes de Ribeira  uma ntida tendncia para o prosaismo, isto , uma certa pobreza de imaginao e fantasia. O mau gosto que se nota na decorao das casas das famlias remediadas e mesmo das abastadas  flagrante.
     Mais adiante!
     Um jovem estudante, filho de tradicional famlia do municpio, assim opina sobre a sua terra e a sua gente: O Rio Grande do Sul  o Estado mais reacionrio do Brasil, e Ribeira a cidade mais reacionria do Rio Grande do Suf. Tornamos a perguntar: Refere-se s ao reacionarismo poltico?. E o rapaz: No. Reacionarismo em tudo. Veneramos morbidamente um passado e uma tradio j mortos, se  que de fato um dia existiram mesmo, e somos incapazes de sair dos trilhos da rotina e erguer a cara para o sol do futuro. Um outro declara: Ainda se cultua entre ns o machismo como se mantivssemos no Brasil o monoplio da coragem e da virilidade.
    O Dr. Paiva observou:
     Isso me cheira a frase inventada por um dos professores.
    O prefeito de novo agarrou o volume, procurou uma pgina, achou-a e disse:
     Vou mandar chamar o Britinho da Livraria Excelsior e passar um pito nele. S pode ter sido esse idiota quem disse as inconvenincias que aparecem no captulo intitulado Livros e Literatura. Ouam: Conversamos longamente com o nico livreiro da cidade, que nos confessa estar  beira da falncia comercial. Disse-nos ele, textualmente, pois suas palavras foram gravadas em tape, com a sua permisso: Nosso povo no tem o hbito da leitura. Os que aqui gostam de ler no tm dinheiro para comprar livros, e quando compram custam a pagar ou no pagam nunca. Os que tm dinheiro em geral no gostam de ler. H por a uns intelectualides que quando precisam de livros mandam busc-los diretamente de Buenos Aires, do Rio de Janeiro e at de Paris. O que a maioria de nosso povo aprecia mesmo so as revistas com estrias de quadrinhos e as novelas de rdio. Se o livro desaparecesse da face da Terra acho que o povo de Antares nem chegaria a dar pela coisa.
     Essa obra tambm afirma  disse Lucas Faia  que no temos arte popular.
     O que  verdade...  murmurou o juiz de Direito.
     Mas em quantas regies do Rio Grande  perguntou o Prof. Iibindo  encontramos boa arte popular? Por que havia de Antares aparecer agora nessa monografia como sendo, por assim dizer, a nica cidade do nosso Estado pobre em expresses folclricas?
    O presidente do Clube Comercial pediu a ateno dos presentes para o captulo dedicado  vida social de Antares ou, melhor, de Ribeira.
     Afirmam esses senhores que o nosso clube  um reduto fechado do patriciado rural e da alta burguesia. Chegam a insinuar que somos racistas, que no aceitamos como scios pessoas de cor nem judeus.
     O que  verdade  replicou Mendes. O prefeito franziu a testa para o seu secretario, censurando-o paternalmente pela sua interveno infeliz.
     Segue-se um estudo  continuou o presidente do Clube Comercial  sobre o que eles chamam sementes de racismo. No h dvida: esse tal Prof. Martim Francisco Terra  mesmo um lacaio de Moscou.
     E dizer-se que lhe corre nas veias o sangue dos Terras de Santa F!  suspirou o Pe. Gerncio.  Um dia esse moo me visitou e eu lhe mostrei a rvore genealgica dos Terras Cambars, fundadores de Santa F. O Prof. Martim Francisco vem a ser tataraneto de Horcio Terra, que em fins do sculo XVIII afastou-se do tronco da famlia, estabeleceu-se em Rio Pardo, casou-se com uma moa da vila e l formou um forte e frutuoso ramo da rvore dos Terras. Contei tudo isto ao professor e ele no me pareceu muito entusiasmado. Nunca ouviu falar na velha Ana Terra, que at hoje  venerada em Santa F, a cidade que ela ajudou a fundar. Era uma pioneira na acepo exata do termo, mulher corajosa, de virtudes altssimas. Pois o nosso socilogo ficou frio diante de tudo isso!
     Comunista no se importa com genealogia  sentenciou o Mendes.
     Nem com tradio  acrescentou o prefeito.  H nessa droga de livro um captulo em que se descreve o nosso Centro de Tradies Gachas Chimarro da Saudade.
    Ou eu me engano ou esses universitrios fizeram ironia com o nosso tradicionalismo.  um desaforo.
    Quem tinha um livro aberto agora era Lucas Faia:
     E esta? Diz aqui que o portugus que se fala em Ribeira, como acontece alis em maior ou menor grau nas nossas cidades da fronteira com a Argentina e o Uruguai, est inado de castelhanismos. O falar ribeirense  seco e quadrado (deps e ps em vez de depois e pois, etc). Buenas  uma saudao comum, assim como o ciao italiano, este de uso mais recente. Aqui muitas vezes se agradece dizendo gracias! Para o ribeirense acender  prender, como em espanhol. E o emprego da interjeio ch est muito generalizado aqui .
    O prefeito fechou o seu volume com violncia, produzindo um rudo fofo, e atirou-o com desprezo e rancor em cima de sua mesa de trabalho. Olhou em torno e perguntou:
     Em resumo, na opinio dos ilustres amigos, que devemos fazer diante de todas essas... esses... insultos e mentiras? Aprovam a idia de publicarmos um protesto nos jornais?
     No  disse o Dr. Paiva.  Seria chamar a ateno e o interesse de muita gente sobre esse livro que, de outro modo, passaria completamente despercebido. Qualquer coisa que divulgarmos a respeito na imprensa escrita, no rdio ou na televiso serviria de propaganda para essa obra. Por outro lado no temos bases para processar judicialmente seus autores porque, vejam bem, nessas quase quinhentas pginas no se menciona uma vez sequer o nome Antares. Itaqui, Quarai, Livramento, So Borja e Uruguaiana tambm poderiam muito bem vestir a carapua...
    Houve um silncio curto, cortado de pigarros, tosses, arrastar de ps e ranger de cadeiras. Lucas Faia falou:
     Bom, senhores, como diretor e redator-chefe de A Verdade no posso deixar de escrever um artigo veemente contra esses caluniadores, sob pena de passar por covarde ou indiferente E vou pedir aos nossos leitores que boicotem esse livro, e evitem at tocar com a ponta dos dedos a sua capa... que alis est unu beleza, diga-se de passagem.
    O prefeito ergueu-se, deu um puxo nas pontas do casaco, e disse:
     Proponho que o Prof. Martim Francisco Terra e os demais membros de sua equipe sejam declarados oficialmente pessoas no gratas a An tares.
    A moo foi secundada pelo juiz e aprovada por unanimidade. O Maj. Vivaldino declarou a sesso encerrada e, ao despedir-se dos amigos  porta de seu gabinete, sugeriu
     No seria m idia comprar uns trinta. ou vinte... ou mesmo dez exemplares desse livro e queim-los todos numa solenidade em praa pblica, numa manifestao de protesto contra as mentiras que ele contm,
    O Mendes tocou com a ponta dos dedos os carnudos ombros do seu chefe:
     Major, seria um auto-de-f muito caro. O senhor viu o preo de cada volume? E, de resto, no temos verba.
    O vigrio, consultado, no concordou com a idia do prefeito.
     Castiguemos esses moos com o nosso perdo  disse evangelicamente.
    
    LXVIII
    Em Porto Alegre, numa tarde de maio do ano de 1964, Martim Francisco e Xisto saram juntos do edifcio da universidade em uma de cujas salas se havia reunido toda a equipe que trabalhara na Anatomia, para que cada um apresentasse a sua crtica ao produto acabado. Dirigiram-se ambos para o parque, nesse tipo de passo lento e descom-promissado de quem no tem hora marcada para nada nem destino certo, e que, fatalmente, acaba levando a confidencias. Havia alguns dias Xisto Vacariano submetera  apreciao de seu mestre um ensaio de sua autoria intitulado A Hora do Tecnocrata.
    Meninos e meninas brincavam perto de um dos lagos. Muitos deles passavam pedalando suas bicicletas. Um balo amarelo, perseguido por uma criana de seus dois anos. caiu perto de Martim Francisco, que no resistiu  tentao de bater nele, de leve, com o p.
     A propsito,  disse o professor, embora no tivesse visto no balo ou na criana nenhuma relao direta com o que ia dizer  li o teu ensaio. Gostei. .. mas com uma reserva.
    Xisto sorriu, baixou a cabea para no ser atingido por um bumerangue lanado por um adolescente de camiseta vermelha.
     Pode me dizer qual  a reserva?
     Ora, nada srio. O ensaio me pareceu muito bem craniado. S notei que ests demasiadamente fascinado pela tecnologia. Da a aceitar sem reservas a tecnocracia  um passo muito curto.
     E que mal h nisso, num pas em processo de desenvolvimento como o nosso? O Brasil precisa mais de cientistas e tcnicos do que de helenistas, latinistas e estetas ...
     De acordo, at certo ponto... Mas deixa tambm um lugarzinho na tua Sociedade Nova para os humanistas. A Filosofia no  to intil como parece. E o homem necessita de msica, de poesia e  que diabo!  precisa tambm aprender a usar bem o lazer que um dia a cincia, ajudada pela tcnica, lhe h de proporcionar. Em suma, a tcnica nos fornece os meios. O humanismo nos orienta quanto aos fins. E no concebo humanismo sem cincia.
     Mas no haver muita conversa fiada em torno de humanismo?
     H conversa fiada em torno de tudo. At (e principalmente) de Deus.
    Martim Francisco fez a sua proverbial pausa para acender lentamente o cachimbo. Depois retomou a palavra.
     Te dou um exemplo de muita tecnocracia e nenhum humanismo: Hitler e a sua camarilha, que causaram talvez a maior mortandade e destruio da Histria. Durante a era hitlerista os humanistas alemes emigraram. Os tecnocratas ficaram com as mos e as patas livres.
     Bom, espero que o mundo tenha aprendido a lio. ..
     Qual, Xisto! No aprendeu. A gente esquece com facilidade. As geraes se sucedem. Cada governo escreve a Histria de acordo com as suas convenincias. E eu acho, meu caro, que cada um de ns tem nas suas mais remotas cavernas interiores um troglodita adormecido que, submetido a um certo tipo de estmulo, vem rapidamente  tona de nosso ser e se transforma num dspota totalitrio capaz de todas as bestialidades. E nunca faltar um falso humanista para inventai uma teoria filosfica com o objetivo de coonestar todas as monstruosidades cometidas pelo homem das cavernas.
     No sou assim to pessimista.
     Mas escuta... Quando o Presidente Truman e os generais do Pentgono se reuniram, no maior sigilo, para decidir se lanavam ou no a primeira bomba atmica sobre uma cidade japonesa aberta... imaginas que eles convidaram para essa reunio algum humanista, artista, cientista, escritor ou sacerdote?
    Xisto replicou:
     Eu tinha apenas quatro anos quando a Grande Guerra terminou. Mas est claro que tenho lido muito a respeito. Vou lhe responder... Quem ordenou o bombardeio de saturao de Dresden, cidade aberta, sem instalaes militares, durante essa mesma guerra (e nesse bombardeio est provado que morreu mais gente do que no de Hiroxima) no foi um tecnocrata nem mesmo o Estado Maior do exrcito britnico, mas sim Sir Winston Churchill em pessoa, um humanista. Sua justificativa foi a de acelerar a guerra psicolgica.
     Bom, Sir Winston no  exatamente a minha idia de humanista. E decerto ordenou o bombardeio de Dresden Para apressar a queda do nazismo e assim salvar o humanismo. E c estamos enredados em palavras...
    
    LXIX
    Sentaram-se num banco, sob uma prgula, tornaram a recordar pessoas e cenas de Antares, comentaram a reao desfavorvel dos antarenses  Anatomia e por fim Xisto indagou :
     E agora... quais so os seus planos?
     Talvez emigrar...
     Como? Est falando srio?  Martim Francisco sacudiu a cabea numa lenta afirmativa.  Mas por qu?
     Voc leu com ateno o Ato Institucional do novo governo?
     Sim... quero dizer, com relativa ateno.
     E as notcias de hoje nos jornais?
     Por alto. Mas... emigrar por qu?
     J li a inscrio na parede. Estamos (e os prprios responsveis pelo novo governo no negam) num regime autoritrio. Esta pode bem ser a oportunidade para corrigir alguns de nossos muitos defeitos polticos, econmicos e sociais mas (veja bem) tambm pode ser a hora do mons-trinho das cavernas... dum lado e de outro.
     Aaah! Acho que o senhor est dramatizando demais a situao.
     Pode ser. Mas pelo rumo que as coisas polticas esto tomando,  de se esperar que mais tarde ou mais cedo eu esteja no nmero dos professores que, sob os mais variados pretextos ou sem nenhum pretexto, sero afastados da universidade por algum Ato Adicional ou decreto, sei l!
     Afastados? Mas por qu?
     Suspeitos de esquerdismo ou de no colaborao voluntria com o movimento de 31 de maro... A mim no me perdoaro jamais por ter feito aquela srie de conferncias em torno dos aspectos humanistas dos primeiros escritos de Marx. Como sabes, no vivo em odor de santidade poltica: sou o que muitos chamam de liberal es-querdizante. Ou simplesmente de comunista mascarado.
     Mas  ridculo!
     Pense na Histria e me diga quando, em que tempo o ridculo no andou de brao dado com o sublime. Acho que vamos entrar numa era de denncias. Ser a hora do dedo duro. Teremos uma caa s bruxas. E eu sou geralmente considerado uma bruxa!
     No acredito. A situao poltica que essa revoluo derrubou era catica e perigosamente permissiva.
     De acordo, mas ela admitia, tolerava a discusso livre, e eu tinha a esperana de que um ponto de vista liberal prevalecesse um dia, estabelecendo a sua ordem.
     Mas... por que emigrar? O senhor poder continuar trabalhando no Brasil. H outras universidades e colgios.
     Um dia teremos todos os caminhos barrados. Tudo indica que essa revoluo, que j est sendo contestada, continuar a encontrar uma resistncia cada vez mais forte. E  natural que a contestao provoque a represso e a represso mais contestao. Lamentarei mas no me surpreenderei se qualquer dia entrarmos numa era de terrorismo.
     No Brasil? No acredito.
     E por que no? Chegamos ao fim de nossa adolescncia nacional. Somos o nico pas da Amrica Latina com jeito e possibilidade de vir a ser mesmo uma nao de importncia mundial. A festa acabou. Temos de tomar nosso destino em nossas prprias mos com a maior seriedade e deciso. No seremos mais tratados como meninos irresponsveis, mas como adultos. Ningum nos dar mais presentes. O preo de ficar adulto  bastante alto, no nos iludamos ...
    Fez-se um silncio. Xisto olhava para o Auditrio. Martini Francisco tinha em seus pensamentos Matilde e suas duas filhas.
     Mas emigrar para onde?  perguntou o discpulo.
     No sei. Eu gostaria de ir para a Europa, mas vejo mais possibilidade de trabalho e tenho melhores relaes humanas nos Estados Unidos.
     Sim, e l existe plena liberdade de pensamento e expresso.
	 At quando?
	Xisto atirou no cho o seu cigarro e apagou-o com a sola do sapato, num gesto um tanto impaciente.
	 Ser que um dia no vai haver mais em toda a Terra um lugar em que um homem possa ser dono pelo menos do seu nariz, dizer o que pensa, ter uma quota razovel de liberdade? Talvez em alguma ilha deserta do Pacfico.. .
	 No te iludas. Nem numa ilha deserta poderemos fugir  Histria. Um dia quando estiveres estendido na areia, nu e comendo a tua banana gratuita, um pas qualquer que est querendo entrar para a famlia nuclear, testar uma bomba atmica e te levar pelos ares em pedaos. . .
	 Nunca vi o senhor to trgico. 
	Martim Francisco sorriu:
	 Os pessimistas, meu caro, esto muito mais protegidos neste mundo que os otimistas. Divertem-se menos, concordo. Mas vamos embora. A Matilde est me esperando com as meninas no lago dos barcos.
	Ergueram-se ambos e comearam a caminhar lentamente para as bandas do zoolgico.
	 Sabe duma coisa, professor? Eu gostaria de um dia, se possvel, ler o jornal que o senhor manteve durante sua estada em Antares.
	 Ser publicado somente cinqenta anos aps a minha morte  replicou Martim Francisco, com fingida solenidade.  Mas, falando srio,  um dirio desalinhavado, superficial e redigido sem muita preocupao com a forma. O que me levou a escrev-lo foi o fato de que, no fundo, o que eu sou mesmo  um romancista frustrado.
	 Pois eu dava um brao para poder ler esse dirio.
	 No vale a pena perder um fio de cabelo por to pouca coisa. Te asseguro que esse jornal no tem nada de extraordinrio. . .

	Sim, o chamado Jornal de Antares, do Prof. Martim Francisco Terra, na realidade nada tem de extraordinrio. Como, porm, menciona ou comenta pessoas e lugares que viriam a ser envolvidos no controvertido incidente de 13 de dezembro de 1963, ser interessante transcrever a seguir, em itlico, algumas de suas pginas.

LXX
	Antares. O nome me encanta e intriga. Como se explica que, nesta regio onde outrora foram as redues jesu-ticas, encontra-se hoje uma cidade com nome de estrela e no de santo? Na opinio do P.e Gerncio, o velho vigrio da Matriz local, a denominao deste lugar vem possivelmente de terem existido aqui antigamente muitas antas, que vinham beber gua no rio, e que a semelhana entre o nome deste lugar e o da estrela da constelao de Escorpio  pura coincidncia. A explicao no me convence. Acho que por aqui passou ou aqui viveu h mais de cem anos algum, talvez algum estrangeiro, que tinha noes de Astronomia.
	Tenho a impresso de que j vivi nesta cidade: o dj vu. Numa outra vida? Tolice. Nasci no Rio Pardo e l passei a minha infncia e parte da adolescncia. Descubro parecenas entre ambas essas comunidades ribeirinhas. Isso explica tudo.

	A Associao Comercial de Antares afirma que a sede do municpio tem 20 000 habitantes, aos quais o prefeito acrescenta, com ardor cvico, mais cinco mil. Creio que tudo isso  bairrismo estatstico. No creio que a cidade de Antares tenha mais de 15 000 almas, quando muito. Desde a sua fundao este foi um municpio agropastoril. Comeou a industrializar-se no faz muito.
	Sinto j ccegas nos dedos para escrever e usar na Anatomia um captulo intitulado A Vaca e a Mquina, mostrando os possveis atritos entre a pecuria e a indstria. Imagino uma vaca passeando pelas dependncias do Frigorifico Pan-Americano e observando como se transformam os animais de sua espcie em corned beef, caldos concentrados, etc. Talvez um dilogo entre essa vaca falante e pensante e o gerente do frigorfico (um americano de quase dois metros de altura, que conheci esta manh). Ou da vaca com as mquinas. Exponho a idia a um de meus colegas, que responde: Isso no  sociologia, mas fantasia. Creio que ele tem razo. Mas assim mesmo vou tentar o captulo.  preciso amenizar o estudo. Penso tambm no choque de interesses polticos e sociais trazidos pela indstria. Os partidos de centro aqui j perdem para o trabalhista em nmero de eleitores.
    Curioso: o romancista semi-anestesiado dentro de mim desperta em Antares. O que me tem impedido at hoje de cometer um romance  que, bom e vido leitor de livros desse genero, geralmente me achico (como se diz por aqui) diante dos gigantes da fico e ponho o meu romancista interior de novo a dormir. Humildade ou orgulho s avessas?
    Quando moo escrevi contos. Relendo-os, conveno-me de que o mundo no perdeu nenhum grande criador de fic-es. Mas a verdade  que esta cidade, esta gente, este ritmo de vida me esto acordando e avivando a paixo espria. Encontro na rua, no cinema, nos restaurantes e cafs tipos que por assim dizer se me oferecem como personagens.no-velescas. O esquisito que mora no andar superior do so-bradinho com fachada de azulejo, numa das quadras da praa, e que toca no piano coisas de Beethoven e Chopin. O meu barbeiro, um siciliano retaco, mal-encarado mas amvel, e que tem o sugestivo nome de Jesualdo Aspromon-te. Um teuto-brasileiro, Egon Sturm, ex-campeo gacho de tiro ao alvo, e que, pelo que me contam dele, tem muito de paranico; uma espcie de Fuehrer potencial. A rica figura do chefo do vasto cl dos Vacarianos, fundadores da cidade, e que se chama Tibrio. (Seu pai no devia conhecer muito bem a biografia dos imperadores de Roma.) A velha Quitria, matriarca dos Campolargos.
    A cidade mesma poderia ser uma personagem. Feioca mas com uma certa graa antiga e missioneira. Seu forte, na minha opinio, so os telhados de telha colonial, cobertos de liquens dourados ou duma prata esverdeada, formando desenhos e combinaes de cores que lembram telas de pintores abstracionistas. E tambm as suas incontveis (o nosso estatstico protestaria com boa razo contra a palavra incontvel, pois todo objeto pode ser contado) meiguas de fachada caiada, janelas e portas com ombreiras de madeira cinzenta meio rodas de cupim. E as ruas, os becos, todos calados de pedra-ferro irregular e com nomes saborosos (os antigos, pois os modernos so de pessoas) como Beco das Almas, Travessa do Contrabando, Rua do Salso, Rua das Camlias, Largo do Jasmim, etc...
    Como toda cidade pequena que se preza, Antares tem a sua Rua do Comrcio e a sua Voluntrios da Ptria. E duas praas, uma delas a enteada da famlia, a gata borralhei-ra, fica na extremidade norte,  mal cuidada, cercada de casas velhas e baixas, o cho de terra entregue s formigas, s urtigas e s guanxumas. Mas a outra, a da Repblica, a filha dileta da comunidade  com lagos artificiais, belas rvores e flores, canteiros de relva, um coreto no centro  essa  considerada a sala de visitas da cidade. As ruas a seu redor tm pavimento de cimento asfltico. Neste largo ficam as residncias e edifcios mais importantes da cidade: os palacetes dos Vacarianos e Campolargos, manses de dois pisos, enormes, com muitas janelas e com platibandas ornamentadas de compoteiras, esculturas e guirlandas em alto e baixo-relevo. Em torno da Praa da Repblica vemos tambm a Matriz, de construo relativamente recente mas de risco antigo, e de sabor colonial portugus. E nessa praa tambm que se erguem  cada qual com a sua cara  o edifcio da prefeitura municipal, o do cinema, o do Clube Comercial c uma das duas mais importantes casas de comrcio locais.
    Nosso fotgrafo tem andado por a a apanhar flagrantes de rua e figuras humanas. Pedi-lhe que fotografasse em cores a fachada de algumas casas, particularmente a do so-bradinho de azulejos que, por alguma razo misteriosa, no s me agrada como tambm me enternece.
    
    LXXI
    Mal chegamos a Antares e j nos querem envolver nas brigas locais. Esta cidade em matria de rivalidades tem um carter -por assim dizer binrio. No futebol ou se  do Fronteira F. C. ou do S. C. Missioneiro, e no h como escapar. Na vida social, ou se  do Clube Comercial ou do Clube Caixeiral. J me perguntaram se perteno ao grupo do Dr. Lzaro Bertioga ou ao do Dr. Erwin Falkenburg, os dois mdicos mais importantes e antigos da terra, inimigos de morte um do outro. Cada um deles tem grande nmero de clientes devotados que de certo modo so tambm soldados duma legio, a qual, se necessrio,  capaz de ir  guerra contra a faco inimiga.
    Conheci pessoalmente o Dr. Lzaro, um homenzinho baixo, calvo, com cabelos grisalhos, penteados cuidadosamente a escova, nos lados da cabea, rosto redondo e rosado, sempre sorridente. Um sujeito amvel, desses de quem se costuma dizer que so serviais. Seus clientes o adoram, no s porque acreditam nas suas qualidades de mdico, como tambm porque se sentem protegidos pelos seus ares carinhosamente patentais. Algum me diz que o Dr. Lzaro goza duma espcie de santidade leiga, que lhe foi conferida pela sua clientela. Ele prprio parece carregar com um certo orgulho satisfeito esse halo de santidade.  proprietrio do maior hospital da cidade, o Salvator Mundi, que conta com uma pequena ala para indigentes, subvencionada vela prefeitura.
    Quanto ao Dr. Erwin Falkenburg  proprietrio do Hospital Repouso  conheo-o apenas de longe.  um tipo empertigado, que lembra um oficial prussiano reformado. Usa pince-nez, tem um cachao ndio, olhos verdoengos e metlicos, e um sorriso de canto de boca que me parece de desdm ou ironia. D. Quitria o adora, deposita nele uma confiana ilimitada e costuma dizer que, acima do Dr. Falkenburg, s Deus. Seus inimigos pem em dvida a legitimidade de seu diploma. E o que contribui para que alguns desconfiem ainda mais do doutor teuto-brasileiro  o fato de ele usar o hipnotismo no tratamento de certas molstias nervosas.
    Pitoresca figura, a do velho Yaroslav, o fotgrafo Iam-be-lambe que faz ponto perto do coreto da Praa da Repblica. Entre 65 e 70 anos. Estatura mediana, faces rubicun-das, pra curta e pontuda, olhos claros e um nariz que lembra o do av no famoso quadro de Ghirlandaio que est hoje no Museu do Louvre.  natural da Tcheco-Eslovquia, est no Brasil h cinqenta anos e em Antares h vinte e cinco. A sua cmara  uma caixa velhssima, relquia da infncia da fotografia. Descubro que Yaroslav tem um grande orgulho profissional. Quando travo relaes com ele, acha-se comigo o fotgrafo da nossa equipe. O lambe-lambe no demonstra o menor interesse pela modernssima objetiva alem que o nosso colaborador traz a tiracolo.
    O velho tcheco  conhecido na cidade como o Rei dos Passarinhos. Vem sempre para a praa com os bolsos cheios de alpiste e migalhas, que espalha a seu redor e ali fica esperando que os pssaros venham bic-los. Pombas pousam-lhe na cabea, no ombro, e comem das suas mos de dedos corrodos de cido. Yaroslav sorri, feliz. Parece conhecer pessoalmente cada uma das aves que freqentam esta praa.
     vegetariano e isso talvez explique os vagos verdes que imagino ver na sua pra, nos seus cabelos e nos seus olhos, que sugerem distncias de tempo e espao. Yaroslav no  nada loquaz, mas sinto uma misteriosa riqueza nos seus silncios. Confessa que odeia os italianos em geral e o Jesualdo Aspromonte em particular. Mas por qu?  que-ro saber. Ele explica: Porque os italianos, esses brbaros, comem passarinhos. E o Jesualdo tem canrios, pintassilgos e cardeais presos em gaiolas. O lambe-lambe me mostra al-guns de seus pequenos amigos alados. Tem as suas noes de ornitologia. Pergunto-lhe que pensa de Antares e por que se encontra aqui h tanto tempo. Encolhe os ombros e murmura: H navios que andam por todos os mares da Terra mas um dia encalham, enferrujam e se resignam a no continuar a viagem. Quer tirar um retrato?
    Meu fotgrafo e eu nos recostamos nas grades do coreto, Yaroslav ajusta a sua cmara, mete a cabea debaixo do pano preto, diz Ateno, aciona o obturador e Pronto!  grita. Cinco minutos depois mostra-nos a fotografia. Quero pagar-lhe pelo postal. Ele sacode a cabea numa enrgica negativa, dizendo: Vai por conta da casa.
    Insisto-.
     Mas voc no me disse o que pensa de Antares... Por algum tempo o lambe-lambe fica pensativo. Depois responde, vago:
     Ora,  um banco de areia como qualquer outro. Navio encalhado no pode ter luxos...
    Apertamo-nos as mos. Creio que ficamos amigos.
    
    LXXII
    O Maj. Vivaldino Brazo, prefeito municipal, convidou-me para almoar em sua casa. Mai cheguei (um domingo mormacento) o anfitrio me anunciou, iluminado: Vamos ter uma feijoada completa! Meu estmago contraiu-se em pnico. Sorri amarelo. Balbuciei um ahi de mal fingido entusiasmo.
    Residncia decorada com um mau gosto de novo-rco. Espcie de barroco antarense. Sou o nico convidado e isso me alarma um pouco, pois sinto que vou ser muito vigiado, muito visado pelas atenes dos donos da casa. Transpiro profusamente. O prefeito tira o casaco e me convida a fazer o mesmo. Fao. Vamos para a mesa e eu enfrento o primeiro prato: uma salada de peixe e batatas coberta por uma grossa camada de -maionese feita em casa e na qual deve ter sido empregada pelo menos uma dzia de ovos.
    D. Solange, a anfitrioa,  uma mulher alta e corpulenta, de cabelos evidentemente oxigenados, rosto pintado corn exagero.  simptica mas me trata com excessiva cerimnia-
    O marido toma a palavra e entra numa espcie de delrio autobiogrfico, sem a menor provocao de minha parte. Quinto filho duma famlia de lavradores de Passo Fundo. Aos dezoito anos sentou praa na Brigada Militar do Estado e serviu em Porto Alegre. Breve foi promovido a cabo, depois o. terceiro, segundo e finalmente primeiro-sargento. Fez todos os cursos preparatrios e entrou para a Faculdade de Agronomia e Veterinria, onde obteve com paixo um diploma. Deixou a B. A., andou trabalhando em vrias estncias, juntou uns cobres, casou-se com uma moa pobre (o pai de D. Solange era coletor estadual em Osrio e tinha oito filhos). Apaixonado pela poltica, Vivaldino acabou eleito deputado estadual pelo P.S.D. de Antares, sob a proteo do Cel. Tibrio Vacariano   hoje, o amigo v, tenho a minha casa, a minha posio e, afinal de contas, modstia  parte, ser prefeito de Antares no  to pouca coisa....
    Sacudo a cabea, concordando. O peixe est excessivamente salgado e a maionese tem vinagre demais. Moscas esvoaam em torno dos pratos, colam-se no meu rosto, nas minhas mos. O calor aumenta. Um bochorno adormenta a cidade.
     Um pouco de vinho, doutor?  pergunta a anfitrioa.   chileno, no . Vivi?
    Aceito o vinho. Fazemos um brinde, batemos os clices.
    O Maj. Vivaldino aparenta uns quarenta e oito anos, estatura abaixo da mediana, duma gordura musculosa muito encontradia em motoristas de caminhes de carga. Cara carnuda, pele clara, bochechas coradas, bigode castanho, cabelos j ralos, uma voz atenorada e um par de olhos vivos, disseram-me que  homem de grande coragem pessoal. Sabe usar com oportunidade  j notei  o que eu chamaria de a sua risada de galpo  uma risada de garganta, em h aspirado, franca, cascateante, espcie de chocalho folga-zo, com um certo qu de debochado, no sentido em que esta palavra  usada popularmente entre ns.
    A senhora do prefeito faz tudo para ser a perfeita dona de casa. D ordens  copeira mulata, que est uniformizada Vem a terrina cuja tampa a D. Solange levanta, tendo o cuidado de enristar refinadamente o dedo mnimo quando lhe segura a asa. Um vapor sobe da terrina, daquele nearo daos de lingia de porco, de charque e sei l qu mais. Que fazer? Se como dessa feijoada vou ficar fora de combate durante dois dias no mnimo. Reno toda a coragem cvica de que disponho, e digo: A senhora no repare, D. Solange, mas sou um desses infelizes a quem Deus deu uma vescula preguiosa. Entre as comidas que meu mdico me probe est a feijoada. Infelizmente (menti) porque este  o meu prato predileto.
     Que lastimai  exclamou o anfitrio.  Mas coma um pouquinho s para provar, professor. Dizem que o que  bom nunca faz mal. (De novo a risadinha de galpo.)
     Vou mandar lhe fazer um bife na chapa, doutor  diz D. Solange.  Bem passado, mal passado ou ao ponto!
     No se incomode  replico.  Vou comer arroz com um pouco de caldo da feijoada.
    Mas o bife vem em poucos minutos. O prefeito felizmente esquece a minha presena por alguns instantes e se pe a comer feijoada com o belo e saudvel apetite de quem deixou l fora o seu caminho carregado de madeira, aps uma viagem de seis horas ininterruptas.
     Se o Vivaldino me tivesse dito que o senhor no podia comer feijoada  queixa-se D. Solange, segurando o seu garfo com o mindinho sempre em riste  eu tinha mandado fazer uma galinhazinha com ervilhas ou um pato com ma.
     Ora, D. Solange, o bife est excelente. E o que importa mesmo  a companhia.
     Por falar em companhia  diz o prefeito, com o bigode reluzente de caldo de feijoada  a prefeitura est pensando em contratar os servios duma firma...
    E entra na descrio dum interminvel projeto de melhoramentos urbanos ao qual no presto a menor ateno porque a cabea comea a me doer e latejar. Sinto o suor escorrer-me em verdadeiros rios pelas bacias tropicais de meu peito e das minhas costas.
    Durante cerca de trinta minutos o prefeito de Antares enumera as boas coisas que sua administrao tem feito e est fazendo na cidade. Compreendo, ento, que o homem est tentando influenciar o diretor do projeto de amostragem, e talvez candidatando-se a personagem dessa espcie de romance coletivo para o qual a minha equipe est comeando a colher dados.
    Vivaldino Brazo s se cala quando vem a sobremesa.
     A Solange  uma doceira de mo cheia  diz, esfregando as mos, e com os olhinhos animados duma gula meio infantil.
    Papos-de-anjo nadam em calda espessa, crivados de cravos. Os doces de laranja lembram dorsos de elefantes. Os quindins so dum amarelo de Van Gogh nos seus dias de maior alucinao. E a criada traz um flan moreno feito com leite condensado.
     No me diga que tambm no come doce!  exclama o major.
    Sirvo-me dum quindim. Depois da sobremesa o dono da casa me diz:
     Agora vou lhe mostrar uma coisa. J lhe contaram que sou um orquidfilo amador?
    Respondo que no. Levantamo-nos. O major me toma do brao e me leva para o seu orquidrio, um pavilho de teto abobadado e paredes de vidro, nos fundos da casa. Vejo orqudeas em profuso, em vasos, em cima de prateleiras, ou pendentes do teto. Vivaldino parece um sacerdote na sua catedral. O homem que devorou uma tonelada de feijoada e que ainda tem partculas de quindins e papos-de-anjo no bigode agora se transfigura, como um mstico, e vai me mostrando as suas orqudeas mais raras, como quem mostra relquias sagradas. Fala em voz baixa, como temendo despertar suas flores desta sesta de vero. Passo aqui as tardes de sbado e os domingos inteiros, fazendo os meus enxertos, meus cruzamentos. A coisa  mesmo que um jogo. A gente fica curioso para ver o resultado, a cara com que a nova flor vai sair. Olhe esta aqui. E um exemplar rars-simo. Me custou um dinheiro. Sabe donde veio? Da ndia. Sim senhor, da ndia. J empatei uma fortuna neste orquidrio. A Solange s vezes me pergunta que lucro tiro com estas orqudeas. Respondo que o lucro  o meu prazer. Uns fazem versos. Outros pintam. Outros compem msica. Eu
    coleciono orqudeas, brinco com elas, fao esses cruzamentos. . 
    Estou to surpreso que no sei que dizer. O meu sonho, professor  continua o prefeito de Antares  o meu ideal  visitar a Colmbia e o Himalaia, que so os lugares do mundo onde xiste a maior variedade de orqudeas. Muda de tom: O Prof. Libindo me garante que a palavra orqudea vem do grego e significa testculo.  verdade mesmo? Respondo que . Vivaldino exclama: Que barbaridade! Uma flor to delicada com um nome dessesl
    O orquidfilo amador me conduz para um outro setor de seu orquidrio. Aqui esto as espcies brasileiras. Aquela ali  uma catlia. A outra, uma lli. A seguinte... no, a outra... essa!  a brassavola, conhecida popularmente como rabo-de-rato. Esta aqui  a rabo-de-tatu, mas o nome cientfico dela  cyrtopodium. Ah! Veja ali aquela outra beleza! Nome cientfico oncidium, mas prefiro o popular: chuva-de-ouro. Pois, amigo Terra, este orquidrio  a minha vida. No tenho filhos. C para ns, confidencialmente, o Solange tem tero infantil. ] levei-a aos melhores mdicos de Buenos Aires. No tem remdio. Ento, como compensao, fao as minhas orqudeas terem filhos, promovo casamentos entre elas. Sou av de quase todas estas flores que o amigo est vendo aquir
    
    LXXIII
    Visito com Xisto a redao e as oficinas de A Verdade. O diretor do jornal  um tipo curioso. D uma impresso de fluidez,  um homem que, como os lquidos, toma a forma do vaso que os contm, isto , da pessoa com quem fala ou a quem serve. Meia-idade, alto (em termos brasileiros) moreno, calvo, pele oleosa, vaselina na voz, nos gestos e nas idias. Sua alcunha na cidade  Lucas Lesma porque  explicam  a lesma  um animal capaz de arrastar-se sobre o fio duma navalha sem se cortar e sem cair para um lado nem vara outro. Conta-se aue Lucas F aia tem vassado a vida a rastejar inclume sobre o gume da espada afiadssi-jna da poltica e de mil outras contendas municipais. Um molusco  dizem os seus inimigos. Um esprito conciliador  corrigem os seus amigos. Um puhal  opina Barcelona, agudo como a sua sovela de sapateiro.
    Lucas recebe-nos festivamente, com os maiores elogios  nossa equipe e ao trabalho de beneditinos que estamos realizando, etc... etc...
    Mostra-nos a sua linotipo nova, a sua impressora plana e apresenta-nos o seu brao direito e o seu brao esquerdo. O direito  o Ferreirinha, pau para toda obra, e que exerce as funes de secretrio-geral, redator, revisor e, quando necessrio, paginador.  um homenzinho franzino, gris, angu-loso e asmtico que ganha um salrio de misria.
    O brao sinistro de Lucas  o prncipe do jornal, um dos rapazes.mais adulados da cidade. Chama-se Vitorio Natal e  cronista social. Sua crnica diria, a Passarela,  geralmente muito lida e apreciada. As mulheres do caf society local enchem o colunista de presentes e mimos: gravatas, perfumes franceses, abotoaduras de punho, pratos de doce, camisas, calas, sapatos... Seu telefone  o mais ativo da redao. Funciona o dia inteiro. Olha, Vitorio, tu sabes que vamos a Buenos Aires este ms fazer compras? Pois . Se quiseres dar uma noticiazinha...  Voltei ontem do Rio e comprei dois modelos bacanas do Dener.  Vamos receber amanh para jantar aqui em casa o Embaixador Gouvea. Conheces? Te esperamos s oito e meia. Trajo de passeio, mas escuro. Vitorio, que me parece um sujeito inteligente e malicioso, diverte-se com as damas locais. Todos os anos seleciona as Dez Mais Elegantes da sociedade antarense e organiza tambm um concurso para eleger o Brotinho do Ano.
    Tem gestos adamados e usa calas Lee apertadas que lhe modelam as ndegas redondas e inquietas. Conta-nos: Quando est se aproximando a data em que escolho as Oez Mais, comeo a receber dessas gr-finas insinuaes Pelo telefone ou em bilhetinhos... e presentinhos, docinhos, o diabo!  uma graa! Quando o jornal publica a minha lis-ta das Dez, s falta as escolhidas me botarem no colo e me beijocarem. Sou o maior! As no escolhidas me viram a cara na rua, me cortam o cumprimento, me mandam cartas annimas, um inferno. Mas eu me divirto. Porque am dia elas voltam s boas e o carrossel continua a girar, porque elas precisam de mim. Umas ridculas!
    Pergunto-lhe que pensa de Antares e ele me responde com uma de suas rabanadas:
     Olha, filho, isto aqui  pura vrzea. Gente sem classe. Temos uns meninos que estudam em Porto Alegre ou So Paulo, bebem usque Chivas Regai, dizem que lem Proust e Kafka, tm carros ingleses ou alemes e vo de vez em quando a Buenos Aires. O resto (perdoem a minha cadelice), o resto  pecurio.
    O cronista tem preso ao pescoo, por uma corrente dourada, uma medalha de metal com o seu smbolo astrol-gico, o escorpio. Percebendo a direo de meu olhar, ele pega a medalha e diz:
      o meu signo. Assino a minha coluna com o pseudnimo de Scorpio. Dizem que sou venenoso.
    Xisto se abre num sorriso moleque:
     E tu sabes onde o escorpio guarda o veneno1}  pergunta.
    O cronista responde rpido:
     No rabo. Tu deves saber to bem como eu porque tambm s escorpio.
     Mas macho  retruca o meu amigo. Vitorio solta uma risadinha musical:
     Nunca se sabe, meu querido, nunca se sabe. E sempre  tempo pra mudar cuando Ia dicha es buena.
    O Ferreirinha lana um olhar enviesado para o cronista social, e julgo ver um dio assassino em seus olhos levemente estrbicos.
    Quando samos da redao, Scorpio de sbito me aperta o brao.
     Olhe s aquela morena...
    Olho na direo que ele me indica. Uma vistosa fmea est descendo de seu carro para a calada. Pele creme, cabelos muito negros, e os olhos (percebo quando passa a dois passos de mim) verdes. Que mulher ao!  murmura Xisto. E ficamos os quatro ali parados a olhar para a morena que se afasta rebolando as ancas e  aposto!  consciente de que a estamos observando. Quem ?  pergunto.
     Essa mulata  diz Scorpio  no me d confiana. No l a minha coluna. Tambm... no sabe portugus.
     Mas quem ?
     Chama-se Dominique,  haitiana, casada com M. Du-plessis, gerente da Cia. Franco-Brasileira de Ls.
    Penso no estudo que Moreau de St. Mry, escritor francs do sculo xvni, fez da mistura de sangue europeu e africano no Haiti e concluo que acabo de ver o que ele chama de sang-ml, isto , uma mulher com um oitavo de sangue negro.
     Sabe da melhor?  pergunta-me o cronista social.  Um dia essa senhora quis porque quis ver uma sesso de macumba aqui em Antares. O marido relutou mas acabou indo. L pelas tantas, excitada pelos cantos e pelo batuque, Mme Duplessis tirou os sapatos, soltou os cabelos, entrou na roda e, menino, foi um escndalo, o santo desceu sobre a haitiana e ela comeou a gritar, a estrebuchar e a tirar a roupa... Se o marido no interviesse a tempo e no arrastasse a bichinha para fora, ela acabava nuinha no terreiro. Depois disso a melhor sociedade local isolou a crioula.
     E voc contou essa estria na sua coluna?  perguntou Xisto.
     Tentei, mas aqui o meu chefe no deixou sair a notinha.
    Lucas resmungou:
     Pois sim que eu ia perder os anncios da Franco-Brasileira!
    
    LXXIV
    Descobri ontem que j conhecia (como se conhece uma figura de lenda) o morador do andar superior do sobradinho de azulejos da Praa da Repblica, o maestro Menandro Olinda. H vrios anos, quando eu era ainda estudante universitrio e costumava visitar sanatrios vara doentes mentais, fiz boas relaes com um conhecido psiquiatra, que um dia me mostrou a singular criatura que passeava sozinha, falando consigo mesma, pelos jardins da instituio, e tocando algo com suas mos longas num piano invisvel. O mdico me contou  pedindo-me a mxima reserva  o caso desse paciente, cujo nome no me quis revelar, mas que mais tarde vim a descobrir.
    Se algum dia algum escrever a histria do Teatro So Pedro, de Porto Alegre, desde a sua inaugurao at aos nossos dias, certamente ver na noite da estria do pianista Menandro Olinda um dos seus episdios mais dramticos. E agora aqui em Antares vou anotando as coisas que me contam sobre esse solitrio. Quem me fala dele com conhecimento de causa  ]esualdo Aspromonte, proprietrio da bar-bearia Bela Sicilia, instalada no andar trreo do sobradinho. Outro que tambm me fornece subsdios preciosos a respeito  o sapateiro Barcelona, verdadeira enciclopdia de conhecimentos antarenses passados, presentes e principalmente secretos. Preencho as lacunas da estria usando a imaginao, mas com rdea curta.
    Filho nico e serdio dum casal da classe mdia. O pai vivia do arrendamento de um campo seu. A me, uma rgida professora pblica. Ele manso e terno, desses tipos que vivem em surdina. Ela uma disciplinadora autoritria e quase uma fantica religiosa. Ambos apaixonados pelo filho.
    Desde os seis anos Menandro revelou grande talento pianistico. Quando completou o oitavo aniversrio, um professor de msica local declarou-o excepcional e comeou a dar-lhe lies de piano. Quando o aluno completou quatorze anos o mestre antarense aconselhou os Olindas a mandarem o filho estudar em Porto Alegre. O casal mudou-se para a capital do Estado e matriculou o rapaz no Conservatrio de Msica. Um dia o diretor do Conservatrio aconselhou os Olindas a levarem o prodgio  ento com dezoito anos  para aperfeioar-se com um grande mestre, em Buenos Aires. O pai de Menandro vendeu o seu campo para apurar o dinheiro de que necessitava para as despesas de viagem e a permanncia no estrangeiro. E assim passaram os trs cerca de cinco anos na capital da Argentina.
    Finalmente, com vinte e trs anos completos, Menan-dro preparou-se para o seu concerto de estria no Teatro So Pedro de Porto Alegre. Seu forte eram os romnticos. Seu preferido, Beethoven. Seu cavalo de batalha, a Appassionata. Durante um ano inteiro estudou exaustivamente o seu programa, fechado em casa, a me sentada numa cadeira perto do piano, como um co de fila. Quando ele parava, cansado, ela insistia: Outra vez! Vamos, Nandinho! O rapaz no tinha amigos.  noitinha costumava sair sozinho a caminhar pela praa e a conversar com seus fantasmas. No dia seguinte, s seis da manh, a me o despertava, servia-lhe o caf e dizia: Para o piano! Muitos dos vizinhos costumavam despertar todas as manhs ao som de estudos de Chopin ou mesmo dos belos acordes iniciais da Appassionata. O barbeiro Jesualdo, que tem bom ouvido, j sabia de cor  podia at assobiar  trechos do programa do virtuoso, composto de estudos, preldios e noturnos de Chopin, sonatas de Schubert e Schumann e da Appassionata. A um reprter de A Verdade que ento o entrevistou, Me-nandro Olinda confiou seus planos. Faria a sua estria no So Pedro em setembro de 1935  durante as comemoraes do Centenrio da Guerra dos Farrapos  numa homenagem ao velho teatro,  capital de seu Estado e  memria do Gen. Bento Gonalves com o qual (sua me lhe assegurava) os Olindas tinham um remoto mas honroso parentesco. E depois, maestro? Bom, depois ele daria um concerto no Rio, outro em Montevidu e outro em Buenos Aires. Comearia ento a ser conhecido mundialmente. A sua grande meta eram os grandes centros da Europa: Paris, Roma, Viena, Londres, Amsterdam...
    A imprensa de Porto Alegre comeava j a escrever sobre o novo gnio musical gacho, o jovem Paderewsky (segundo um jornal) o novo Brailovsky (segundo outro). Um cronista de arte, a quem Menandro deu uma audio priva-<fa da Appassionata, declarou que sua interpretao dessa Pea de Beethoven era to perfeita quanto a de Backhaus.
    Chegou a noite do concerto de estria. (Visualizo a ce-na.) O So Pedro completamente lotado, com cadeiras ex-tras colocadas nos corredores da platia. O Gen. Flores da Cunha e outros membros do seu governo no camarote oficial. O artista, envergando pela primeira vez uma casaca feita pelo melhor alfaiate da cidade, entra no palco, nervosssimo, as mos geladas e midas dum suor frio que tambm lhe goteja da testa, lhe escorre pelo rosto e ao longo da espinha.  recebido com fortes aplausos. Senta-se ao piano, ajeita o banco, enxuga as mos com um leno, espera que os aplausos cessem e os retardatrios se acomodem nos seus lugares. Cerra os olhos por alguns segundos, e quando os abre avista a sua me sentada numa cadeira, nos bastidores,  sua frente, bem como nos tempos em que ele era adolescente e ela o obrigava a tocar escalas a tarde inteira, sob sua vigilncia implacvel.
    Menandro sente de sbito a memria bloqueada, como se nunca em sua vida tivesse tocado o primeiro nmero daquele programa  um estudo de Chopin. Ele  agora um menino de treze anos, est fechado no seu quarto, ouve passos no corredor e estremece, corre para a porta a fim de certificar-se de que est realmente fechada a chave.
    Comea a tocar, mas to afobado, que no consegue interpretar o estudo com a pureza habitual. Quando d o ltimo acorde, os aplausos so fracos. Menandro olha de novo para a me. As escalas, Nandinhol Depois podes ir brincar com as tuas bonecas. As escalas. No! Dal capo... Isso!
    Interpreta Schumann um pouco melhor do que tocou o primeiro nmero. Os aplausos continuam frios. O corao de Menandro bate descompassado, um espasmo cerra-lhe a garganta. Que se estar passando com os seus dedos, com as suas mos, com os seus pulsos? Chega ao fim da primeira parte do programa e se retira do palco, no com o. dignidade habitual, mas depressa, quase a correr, como quem foge. Seu mdico vai procur-lo no camarim, d-lhe um calmante. Mas l est a sua me, abrindo a porta do quarto do menino solitrio: Vamos, Nandinho. Est na hora da missa. Cruzam a praa. O pai, que caminha encur-vado e devagar, arrastando os ps, fica dois passos para trs. A me pergunta: Ontem confessaste todos os teus pecados ao vigrio? Confessei, mame. Todos mesmo? Ele sente um caloro nas orelhas e no pescoo, um formigueiro no corpo. Quem toma comunho sem estar limpo de pecados, meu filho, vai para o inferno.
    Menandro agora ali no camarim decide cancelar o resto do concerto. Devolvam ao pblico o dinheiro dos ingressos! Faam o que entenderem, mas eu no vou tocar mais! O empresrio lhe replica que isso  impossvel, que ele, Menandro, tem de continuar, que tudo vai sair bem... O pianista ergue-se, trmulo, encaminha-se para o palco, onde  recebido com raros aplausos. Torna a sentar-se ao piano. Olha para os bastidores e l est sua me, que lhe faz sinais coma cabea, tentando encoraj-lo.
    Uma sonatina de Schubert, clara e alegre. Ele a executa passavelmente bem e isso lhe d um pouco de coragem. Mas agora vem a Appassionata! Menandro volta a cabea na direo da platia e sente uma vertigem. Depois olha para as prprias mos j pousadas sobre o teclado. Mas naquele dia ele tinha esquecido de fechar a porta, e sua me usava em casa pantufas de l... A porta se abriu de repente. Minha Nossa Senhora! O que  que ests fazendo, meu fi-Iho7 Que horror! Que vergonha! Que pecado! Deus vai te castigar, fazer secar esses dedos, paralisar essas mos! E ele se revolvia na cama, a sua seiva a esguichar-lhe do corpo num estertor de prazer misturado com susto e vergonha.
    A me desatou num choro convulsivo: O meu filho! O meu filhinho que eu pensei que era inocente e puro! Ai que vergonha! Deus vai te castigar! Fez meia volta e se foi batendo com a porta. E ele, Menandro, rompeu a chorar, pensou em suicidar-se, fugir de casa... Como ia ter coragem de encarar de novo a me... o pai?
    O pblico espera, impaciente. Menandro ataca a Appassionata. Sente, porm, que suas. mos esto agora paralisadas, que seus dedos no obedecem ao seu crebro. Ergue-se de sbito, derrubando a banqueta, e sai quase a correr do palco e no camarim pe-se a chorar, a soluar e a dizer incoerncias. Dois dias depois, a conselho do mdico, os pais 0 internaram num sanatrio para doenas mentais, onde ete permaneceu trs anos. Durante esse tempo a sua me morreu. O pai continuou em Porto Alegre, visitava-o todas as semanas, conversavam sentados num banco do jardim do sanatrio, falavam em flores, na casa de Antares, e Menandro jamais perguntava pela me, cujo falecimento ignorava.
    Quando o mdico lhe deu alta, ele voltou para Antares, em companhia do pai. L estava, na sua sala, o piano que ele no ousou abrir por muito tempo. Ningum na cidade lhe falava no concerto nem no fato de ele ter passado todos aqueles anos num hospcio.
    Seu pai morreu em 1942. A casa ainda lhe pertencia, de sorte que Menandro a herdou. Comeou a dar lies de piano e passou a viver disso e do aluguel do andar trreo de seu sobradinho. Tornou-se um dos tipos populares da cidade. Nunca, porm, esqueceu o fracasso de seu concerto de estria. Continuou a estudar piano, preparando a sua volta.
     um homem de ordinrio silencioso e retrado, mas pode dum momento para outro tornar-se loquaz e gregario: confia  primeira pessoa pue encontra o seu projeto de fazer ainda uma carreira de concertista, retornar aos palcos do mundo, honrar o nome de Antares e do Brasil. Alguns o escutam com pacincia e o tratam at com bondade. A maioria, porm, foge dele. Muitos o ridicularizam. E, corno nos velhos tempos, ainda hoje,  tardinha, o professor de piano faz a sua caminhada solitria pela praa, olha os passarinios, contempla as flores, troca duas palavras com o fotgrafo ambulante, entra na igreja, ajoelha-se, reza, torna a sair e volta para casa.
    
    LXXV
    Quem me leva  residncia de Menandro Olinda  o Pe Pedro-Paulo. Disse ao maestro que eu queria conhec-lo pessoalmente e o pobre homem ficou lisonjeado. Subimos o velha e estreita escada que cheira a mofo de poro, e cujos degraus rangem ao peso dos que sobem ou descem. O professor nos recebe  sua porta, abraa-me como a um velho amigo, mas quando lhe quero apertar a mo ele sacode a cabea negativamente: Desculpe, mas no costumo apertar a mo de ningum. Tenho de poup-las. So a minha fortuna. Com elas quero ainda conquistar o mundo. D-me outro abrao apertado do qual suas mos no participam. Entrem. Sentem-se. Esta  a vossa casa. Desculpem a desordem.  a caverna dum eremita.
    Curioso. Conheo esta sala. Talvez duma pea de teatro. Ou dum romance. Cheiro de bolor e tempo. -O tapete, de tipo persa, muito podo e desbotado. Mveis antigos. O piano de cauda a um canto. Retratos de gente morta nas paredes. Um par de daguerretipos. A mscara de gesso de Beethoven, cpia da de bronze que est na escultura de Fernando Corona, na Praa da Matriz de Porto Alegre. Poeira nos mveis. Num ngulo da sala, uma pilha de partituras para piano. Uma estante de tipo art nouveau com livros. Um diva com uma coberta de veludo gren. Velhas cadeiras estofadas de brocado cor de ouro velho, mas j muito seboso e esfiapado.
     Venha ver a vista aqui da sacada!  convida-me o professor. Aproximo-me dele. Um rano de suor muitas vezes dormido exala-se do corpo deste homem alto e descarnado, de rosto longo, testa olmpica e pele alva. Seus cabelos, com grandes entradas, so ralos, j meio grisalhos, compridos e esfarripados.
    Avisto a Praa da Repblica, as paineiras floridas, as torres da Matriz, gente andando pelas caladas, namorados sentados nos bancos, o fotgrafo lambe-lambe postado perto do coreto.
    Voltamos para a sala. Os olhos do professor esto fitos em. mim, como se ele estivesse procurando avaliar-me, tentando descobrir que espcie de homem sou.
     Ento  diz  o senhor e seus alunos esto estudando a nossa cidade e o nosso povo, hem? Muito bem. Muito bem. Muito bem. Admiro a cultura. Mas acho que no pode haver cultura onde no houver tambm msica, a rainha das artes.
     Professor, o senhor ser tambm entrevistado opor-tunamente. Esta visita  (digamos assim) social.
     Muito obrigado, muito obrigado. Sou um homem pouco visitado. Todo mundo me evita nesta terra. Aqui o nosso amigo o Pe. Pedro-Paulo  e ao pronunciar estas palavras ele pousa de leve as mos nos ombros do capelo da Vila Operria   dos poucos que tm pacincia comigo.
     Ora  protesta o padre.  Por que pacincia? Sou seu amigo.
     No sou to luntico  diz o maestro  que no perceba que o povo de Antares me onsidera um... luntico. Sinto isso no jeito como me olham e falam comigo. Tenho um ouvido muito agudo, ouo at os cochichos das pessoas quando passo. Riem-se de mim. Trocam dichotes a meu respeito.
    Pedro-Paulo e eu estamos sentados, mas o professor caminha na nossa frente, dum lado para outro, em passadas largas e pausadas, as mos guardadas nos bolsos do casaco.
     Mantenho c minhas conversas com Beethoven. Um dilogo muito antigo, que comeou na minha adolescncia. Ele era tambm um solitrio. E dizem que intratvel. Mas eu no sou intratvel, sou, padre? Mas... li tudo quanto se tem escrito sobre o Mestre. Conheo a vida dele melhor do que a minha prpria. O senhor no vai acreditar, doutor, mas uma das biografias de Beethoven que li me impressionou tanto, que quando cheguei ao captulo em que ele percebe que est surdo (dou-lhe minha palavra de honra como isto  verdade!) passei quase um ms surdo tambm. Tive de consultar um especialista. Era surdez completa. No podia nem ouvir as coisas que eu mesmo tocava nesse piano. Os senhores acreditam?
    Encara-me:
     O senhor naturalmente conhece o meu drama... Fico sem saber que dizer, mas Menandro Olinda prossegue:
     Tive uma crise nervosa durante o meu primeiro concerto. Minhas mos ficaram de repente paralisadas. Coisa puramente psquica. O doutor me explicou que foi um trauma de infncia. Imagine, em pleno palco do Teatro So Pedro, na noite de meu primeiro concerto l Praga da minha me. Bom, mas isso no vem ao caso. O importante  que estou me preparando para uma volta. Para um coming back, como se diz em ingls, um retour, compreende?
    Pedro-Paulo e eu nos entreolhamos furtivamente. Pergunto:
     Quando pretende dar o seu prximo concerto?
     Tem de ser o ano que vem, o mais tardar. J entrei na casa dos cinqenta... bom, mas isso no  velhice quando a gente pensa num Rubinstein. Estudo dez horas por dia. Minha pice de rsistence  a Appassionata. A paixo da minha vida. Quero triunfar exatamente no mesmo palco em que fracassei. E com a mesma pea. Tenho escrito vrias cartas ao administrador do So Pedro, pedindo uma data para a minha rentre. No me responde. Escrevi tambm ao diretor da Escola de Belas-Artes. Ningum responde. Neste pas ningum escreve cartas, depois todos culpam o servio postal. Mas vou mudar o programa. Incluir alguma coisa do nosso Villa-Lobos, por exemplo. Mas insisto na Appassionata, que vai ser o fecho de ouro do concerto. Questo de amor-prprio. Sim, e de amor  sonata tambm.
    Faz-se um silncio. Sinto-me constrangido, com uma grande pena do pobre homem. S agora atento bem nas suas mos. Em geral um ser humano possui mos, ps, cabea, braos. No caso de Menandro Olinda tem-se a impresso de que as mos so partes mveis de sua anatomia: so objetos que ele carrega consigo, com o maior cuidado, como jias que  noite, antes de ir para a cama, guarda num estojo.
     Se eu no conseguir voltar  diz ele com voz fosca
     minha vida est acabada, sem sentido.  Encara-me.  Doutor, isto  uma cidade sem alma, sem msica. Ningum gosta da boa msica em Antares. Ponha isso no seu estudo.
     Faz um silncio, olha para as prprias mos e murmura:  Vou dar-lhes a oportunidade de se reabilitarem.
     Para Napoleo Bonaparte  diz o Pe. Pedro-Paulo
     a msica no passava dum rudo como outro qualquer.
     Esto vendo? Isso prova a minha velha teoria. Quem no gosta de msica no pode ter bom corao. Napoleo no gostava... e era um paranico, um assassino.
    Como estou examinando com curiosidade os daguerre-tipos, Menandro resolve mostrar-me fotografias de seus pais, num lbum com capa de v eludo e fecho prateado.
     Essa  a minha me quando solteira...  Eu volto lentamente as pginas de papelo onde esto colados retratos antigos em tom de spia.  Este  o meu velho. Ao lado dele, a minha me de novo, logo depois de casada. Aqui est ela quando grvida. O senhor deve estar notando que os olhos de todas as fotografias da minha genitora esto furados. Eu lhe explico. Foi uma travessura minha quando tinha treze anos. Peguei um prego... bom, mas isso no vem ao caso. Era uma bela mulher, no?
    
    LXXVI
    Visitei a Matriz, na esperana de l ver alguma imagem ou outra qualquer pea de escultura feita nas redues jesuticas. No encontrei nada. O que no foi trocado ou vendido  dizem  foi roubado. Uma pena!
    Quando o vigrio me avistou dentro do templo, veio ao meu encontro, levou-me  casa paroquial e aproveitou a oportunidade para me mostrar os seus estudos histricos, escritos a mo com pena de ao em papel almao. Leu-me trechos de seus ensaios biogrficos sobre figuras histricas do Rio Grande do Sul. Tudo muito ingnuo e convencional.
    Quando deixei a igreja o velho me acompanhou at ao centro da praa.  um homem de setenta e poucos anos, embora aparente mais idade na sua magreza plida, nos olhos lquidos, nas costas encurvadas e no caminhar hesitante. Apia-se no meu brao, faz perguntas sobre meus ttulos acadmicos, o trabalho da minha equipe, e quer saber da verdadeira finalidade do nosso estudo. Falamos depois no problema do mal e do pecado no mundo moderno, e na situao atual da Igreja Catlica. O P. Gerncio diz que respeita e estima Joo XXIII  um verdadeiro candidato  canonizao  mas acha (Deus me perdoe!) que no seu pontificado a Igreja avanou demais em suas reformas.
     Meu caro professor  diz o proco com a sua voz dbil  igreja sem latim, sem o velho ritual e com todas essas novidades... padre sem batina, msica profana. .. no, no  mais a Igreja de Cristo. Vamos acabar na nudez seca do protestantismo. E  uma tristeza! O Pe. Pedro-Paulo (o senhor o conhece porque j os vi juntos)  desses sacerdotes jovens, pra frente, como diz o vulgo. Imagine, permite que uns meninos bomios e esquisitos toquevi msica de jazz nas suas missas. Pois . Onde vamos parar com essas modernices? E c para ns (conto com a sua discrio) para o meu gosto, o Pe. Pedro-Paulo preocupa-se demais com poltica. J leu at Marx e Lnine, isso para no falar em outros comunistas ateus.  um bom moo, reconheo, dedicado  sua parquia, muito querido dos operrios, no nego. Mas acho que est deslumbrado com todas essas reformas da nossa Madre Igreja. Agora me diga, doutor, ser que. ele e os outros que pensam do mesmo jeito esto certos e eu errado, por velho e casmurro? No sei. No sei.
    Falamos na dissoluo dos costumes e eu lhe digo que nossa equipe est estudando tambm esse fenmeno em Antares.
     O problema  universal  murmura o proco.  A coisa vem de Sodoma e Gomorra. Qual! Vem de mais longe ainda. Onde est o homem est o diabo e o pecado. Mas reconheo que tem havido perodos da Histria, por exemplo, a Idade Mdia, em que as criaturas se preocupavam mais com o destino da sua alma e com o temor e o respeito ao Criador.
     Acha Antares em matria de imoralidade pior que outras comunidades que conhece?  indago.
     Ao contrrio, acho melhor que muitas. Nasci em So Borja, depois que fui ordenado o meu bispo me mandou para c. Tenho passado longos perodos fora daqui, em outras parquias, tanto na zona da campanha como na da serra. Mas volto sempre para c.
    Estvamos agora no centro da praa, junto do coreto. O velho apontou para as bandas do nascente:
     A minha prxima parquia ser a que est l em cima da coxilha, professor. L repousaro os meus restos mortais. E ento a Outra Vida, a vida de verdade, comear para a minha alma.  Olhou-me nos olhos com uma expresso de desconfiana.  O senhor parece que no  um crente...
     No, no sou, padre.
    Bateu-me afetuosamente no brao e sussurrou:
     Vou rezar pelo senhor. Seja caridoso para com os antarenses nesse seu estudo. Ningum  perfeito.
    Apertou-me a mo longamente, fez meia volta e se foi, de volta para a casa paroquial.
    
    LXXVII
    Travei conhecimento com mais uma personagem, o Prof. Libindo Olivares, diretor do Ginsio Nacional. Tem fama de grande helenista, latinista, matemtico e filsofo. Uma espcie de sbio local. Cinqento, alto e magro como um Quixote sem bigodes nem barbicha, mas j com uma bar-riguinha volumosa que d a impresso de que no foi projetada para o seu arcabouo de magro. Depreendo de nossa conversa em sua casa, ontem, e do que j me contaram dele, que se trata dum mitmano cujas mentiras tendem sempre a um auto-engrandecimento social e principalmente cultural. Gosta que os otitros acreditem que  ntimo de celebridades mundiais. Afirma ter correspondncia com Jean-Paul Sartre de quem  faz questo de afirmar  diverge poltica e filosoficamente, o que no prejudica em nada a nossa amizade e mtua admirao. Trocou cartas com Joo XXIII. Franois Mauriac  seu amigo do peito e comea sempre as suas cartas com um mon trs cher ami Libindo. Quando algum pede para ver qualquer dessas cartas, o Prof. Olivares alega que elas esto guardadas na caixa-forte dum banco local ou nas mos dum encadernador, em Porto Alegre, que as est enfeixando todas num volume com capei de couro e letras de ouro.
    O professor  solteiro, vive numa pequena casa da Rua das Misses. Existem suspeitas quanto  sua heteros-sexualidade.
    Visitei-o anteontem  tardinha. Ele me mostrou seus livros e me exps a sua filosofia  curiosa mescla de neopositivismo, neo-hegelianismo, e neoplatonismo, se tal neo-coquetel  possvel e vivel.
     Quase todas as noites  contou-me ele  tenho aqui a meus ps dezenas de rapazes. So meus discpulos. Vm pedir-me conselhos, orientao cultural, fazer-me confidencias. E eu lhes empresto livros, dou-lhes idias... Gosto de viver entre os moos. So argila que, devidamente trabalhada, poder transformar-se um dia em urnas, vasos e nfo-ras de grande beleza.
     Professor, o senhor sabe que estamos fazendo um levantamento social, poltico e econmico de Antares... no?
     Sei, mas permita-me dizer que no acredito muito nesse sistema de amostragem. Nem na econometria.
     Respeito a sua opinio, mas gostaramos de ter um de nossos questionrios preenchidos pelo senhor.
     Poderei fazer isso, no me custa. Acontece, porm, que no sou uma pessoa representativa de nenhum grupo. Sou aqui considerado um. .. como direi? Um original, um solitrio, um homem de idias prprias.
     De acordo  respondo.  Estive olhando as lombadas de seus livros e estou admirado ante o ecletismo de suas leituras. A nessas prateleiras vejo at obras sobre ocultismo, cabala, zen-budismo, parapsicologia.
    Sua boca rasgada e de desenho incerto move-se num sorriso de satisfao.
     Sou o que o vulgo chama um curioso. Homo sum; nihil humani a me alienum puto. Aqui muito em segredo, tenho feito experincias com isso que os americanos conhecem pelas iniciais E.S.P.: percepo extra-sensorial.
     Com bons resultados?
     Excelentes!
     Publicou alguma monografia a respeito?
     No, meu caro. Pouca gente sabe que me dedico a essas coisas. Nesta terra tudo que sai da rea catlica ou protestante  considerado espiritismo ou macumba. Temo que acabem pensando que sou uma espcie de feiticeiro, reputao pssima para o diretor do Ginsio Nacional. Sobre E.S.P. tenho um livro j pronto,  espera de editor. Como o senhor sabe, o Brasil no tem editores  boa maneira europia. Temos apenas uma indstria de livros, quero dizer, mercadores cujo nico objetivo  ganhar dinheiro, jamais ajudar a cultura. Possuo tambm outras obras inditas em fundos de gaveta. Um estudo sobre Scrates, outro sobre o Sculo de Ouro da Grcia. E um longo ensaio sobre Plato. E por falar em editores, a Livraria Gallimard de Paris me pediu para ver os originais desse meu estudo sobre Plato. E por falar em Gallimard, meu caro Prof. Terra, quando mocinho li Marcel Proust completo. Escrevi-lhe um dia, em francs, uma carta apaixonada de f e recebi dele uma resposta muito simptica. Pauvre Marcel! O que eu daria para ter podido beijar as mos que escreveram  la Recherche du Temps Perdu.
    Fao as contas mentalmente e apanho o Prof. Libindo numa colossal mentira. Se ele tem apenas cinqenta anos como diz e aparenta, e se Proust morreu em 1922, o Libin-dinho leu a obra de seu dolo e lhe escreveu essa carta quando tinha apenas nove anos
    Esta manh um de meus pesquisadores (22 anos) entrevistou o Prof. Libindo, que o esperou com uma de suas encenaes. O estudante foi introduzido na casa por um mulatinho efeminado, de grandes olhos brilhantes e negros, que o levou at  porta da casa que d para um ptio interno. No faa barulho, moo, que o patro est meditando.
    Sentado no cho, de pernas cruzadas  maneira oriental, os braos em xis sobre o peito, Libindo estava imvel, olhando intensamente para um pessegueiro. O meu colaborador esperou com pacincia (contou-me ele) uns bons dez minutos. Por fim tossiu timidamente, Libindo teve um estremecimento e pareceu acordar de seu transe zen-budista, voltou-se brusco para a porta, ergueu-se dizendo: ah!, e veio apertar a mo do visitante. Tinha a sua nudez coberta por um manto branco, possivelmente um lenol. Levou o meu colaborador para a sua sala de visitas, explicando:
     Eu estava tentando identificar-me com o pesseguei-ro ser o pessegueiro, transformar-me nessa rvore, integrar-me na sua natureza.
     Interessante. Conseguiu?
     Quase. Estava na ltima etapa. A sua tosse me chamou a isto que se convencionou chamar de realidade.
     Sinto muito, professor.
     No tem importncia,  Manezinho! Traga-nos limonadas geladas. Ou o amigo prefere cerveja. .. ou mesmo caf? No? Mas... como eu dizia,  possvel pelo mtodo zen-budista a gente identificar-se com as coisas inanimadas. s pessoas em sua maioria no acreditam nisso. O meu amiguinho acredita?
     Ora, professor, tudo  possvel.
     Tenho correspondncia com um dos mais notveis zen-budistas do Japo.
     O senhor sabe japons?
     Alguma coisa. Correspondemo-nos ora em francs ora em ingls.  Solta uma risada curta.  O homenzi-nho se confessa encantado por trocar cartas com algum que vive nestes confins do Brasil, numa cidade com nome de estrela.
    Apanhou o questionrio, leu algumas das perguntas, fazendo de quando em quando humt e sorrindo s com um canto da boca.
     Esta pergunta sobre religio, meu caro, no pode ser respondida com um sim ou com um no... nem com sinais. Eu teria de escrever um longo ensaio, um livro inteiro para explicar o meu conceito vertical de religio: primeiro definir o vocbulo, depois ir s mais profundas fontes do sentimento religioso. Sou um ecltico. Em tudo, sim, no se escandalize, inclusive em sexo. Como moo inteligente que , o senhor deve j ter lido alguma coisa sobre os andrginos. Nunca leu Plato? Fedro? O Banquete? E o Gorydon de Gide?
    Nesse exato momento sentou-se subitamente ao lado do Pesquisador, que, lembrando-se de certas estrias que ouvira sobre o diretor do Ginsio Nacional, achou de bom aviso erguer-se e olhar o relgio:
     Bom, Prof. Libindo. Tenho um compromisso... e o senhor  um homem ocupado. Talvez queira voltar para a sua meditao. Deixo-lhe o questionrio... preencha-o quando tiver tempo.
    E bateu em retirada.
    
    LXXVIII
    D. Quitria Campulargo convidou-me para tomar ch na sua manso. Uma das grandes damas da cidade. Anda a pelos setenta anos. Baixinha, gordota, pele dum moreno carregado e fosco, parece-se de vulto com a Rainha Vitria. Quanto ao rosto, achatado, mido, e de nariz curto, lembra o focinho dum cachorrinho pequins: no lhe falta nem o ar entre azedo e pugnaz desses pequenos animais. Mas D. Quita  como  conhecida entre os ntimos  comeou a falar. Tem uma voz autoritria mas melodiosa, que sabe fazer-se envolvente e aliciante quando ela quer. No tardei a sentir-me como diante duma das muitas tias que tenho em Rio Pardo e que visito de trs em trs anos.
    D. Quitria  uma mulher lcida e bem informada sobre poltica estadual, nacional e internacional. Tem uma admirao ilimitada pelo Presidente John F. Kennedy, cujo retrato autografado vejo numa moldura de prata em cima dum piano de cauda, a dois passos de onde estou sentado. Quero bem a esse menino  diz D. Quita  como se ele fosse de meu sangue. Quem me dera ele fosse meu genro... pelo menos. (Contaram-me que esta senhora que tem quatro filhas e nenhum filho, e que detesta os genros, apesar [ou por causa] disso exige que eles vivam, cada qual com sua famlia, no casaro onde a matriarca dos Campolargos reina desptica.) Meu consolo so os netos  exulta ela, quando a criada entra com a bandeja de ch e uns pratos cheios de bolinhos e biscoitos.  Tenho quinze. Estremeon interiormente. Imagino quinze crianas de vrias idades correndo e gritando dentro deste casaro, num dia de chuva. Esto todos agora na estncia, onde costumam passar o vero. Sirva-se desses biscoitos. Recomendo-lhe os bolinhos de coalhada. Gosta? Ento coma. E uma velha receita de famlia
    Bolinho de coalhada... Dou uma dentada num deles, mastigo, degusto e ento o milagre proustiano da madeleine  que importa seja uma pardia?  se opera. Je portait  mes lvres une cuillere du th o javais laiss samoller un morceau de madeleine... Certes ce qui palpite ainsi au fond de moi, ce doit tre limage, le souvenir visuel, que, li  cette saveur, tente la suivre, jusqu  moi...
    Tenho treze anos, frias de vero, estou orgulhoso porque fiz a minha primeira viagem de trem sozinho. Vim do Rio Pardo a Santa F para visitar os meus parentes Terra Cambar. Tia Maria Valria agora me aparece (onde estava escondido dentro de mim este fantasma magro, de voz seca e olhos de azeviche...).Em que gaveta do meu ser, em que sto da minha memria inconsciente, em que arca secreta estariam armazenadas, apanhando o p do tempo e da vida, todas estas lembranas? Mastigo e engulo o bolinho de D. Quita, e imagens do sobrado dos Cambars me afloram  conscincia  cheiro de frituras vindo da cozinha do sobrado, o vulto duma mulher bonita e triste (Slvia?) casada no me lembro com que parente meu... o bafo de mofo do poro da casa... a estria que algum (quem?) me contou do cadver dum recm-nascido, que, durante a revoluo de 93, teve de ser sepultado na terra do poro porque o Sobrado estava sitiado pelos maragatos... E a velha Maria Valria dizendo: Coma mais um bolinho de coalhada, voc bem que precisa de mais uns quilos! E aquela gua-furtada onde eu me refugiava s vezes quando me atacava a saudade de casa e um dia atocaiei a bugrinha que fazia a limpeza matinal daquela parte do casaro.
    Tenho a impresso de que todas essas imagens com s respectivos sons, cheiros, impresses tteis me passaram Pela cabea em poucos segundos.
    D. Quita fala ento nas indecncias de nossa poca. Est escandalizada e alarmada ante a licenciosidade dos tempos modernos, a rebeldia da juventude, e a expanso da pornografia em revistas, livros, filmes, peas de teatro..,
     Sei que a senhora gosta de ler  digo.
     Muito. No se ria se eu lhe disser que o romance mais bonito que li em toda a minha vida foi a Joana Eira da Cariota Bronte. Conhece? Uma jia. Acho que li esse livro umas vinte vezes. Devorei tambm todo o Walter Scott e o Alexandre Dumas. Nunca suportei o Zola nem o Flaubert. Mas gostava do Tolstoi. Ahi leio tambm os modernos. Estrangeiros e nacionais, naturalmente.
     J leu Jorge Amado?
     Por alto.  bandalho e comunista.
     E o nosso Erico Verssimo?
     Nosso? Pode ser seu, meu no . Li um romance dele que fala a respeito do Rio Grande de antigamente. O Zzimo, meu falecido marido, costumava dizer que por esse livro se via que o autor no conhece direito a vida campei-ra,  bicho de cidade. H uns anos o Verssimo andou por aqui, a convite dos estudantes, e fez uma conferncia no teatro. Fui, porque o Zzimo insistiu. No gostei, mas podia ter sido pior. Quem v a cara sria desse homem no  capaz de imaginar as sujeiras e despautrios que ele bota nos livros dele.
     A senhora diria que ele tambm  comunista?
    D. Quitria, que mastigava uma broinha de milho  e mais que nunca parecia um pequins  ficou pensativa por um instante.
     O Prof. Libindo costuma dizer que, em matria de poltica, o Erico Verissimo  um inocente til.
    Voltamos a falar na dissoluo dos costumes.
     Essas idias modernas me assustam um pouco, mas no sou dessas velhas que vivem dizendo que a gente antiga era toda santa. Se era, como  que o senhor explica todos esses filhos naturais que andam por a?  que hoje em dia as coisas so feitas s claras,  luz do sol, debaixo do nariz da gente. Essas moas, mesmo em Antares, que  uma cidade pequena, parece que perderam por computo o pudor.
     Sei que a senhora  presidente duma sociedade chamada Legionrios da Cruz...
     Sou. Depois que o ]ango Goulart fez esse plebiscito indecente e obrigou o pas a voltar ao presidencialismo... e o Comando Geral dos Trabalhadores comeou a instigar greves, e esses estudantes esquerdistas da U.N.E., em vez de estudarem, andam por a viajando para Cuba, para a China Comunista e para os pases do outro lado da Cortina de Ferro, aprendendo a tcnica de agitao e das guerrilhas, enfim, depois de tudo isso achei que devamos reagir de algum modo. Todos os dias tapo o nariz e leio nos jornais os discursos e entrevistas do Leonel Brizola, que repete como um disco quebrado essa coisa de remessa dos lucros das empresas estrangeiras, espoliao, reforma agrria, entre-guismo, etcetera e tal... Bom, um dia pensei assim: o povo brasileiro no  de esquerda, mas de centro. Ora, acontece que a maioria de nossa populao  acomodatcia, preguiosa e vai se deixando levar, E no dia em que a gente abrir bem os olhos isto aqui j virou repblica sovitica, o senhor no acha... ou tambm  da esquerda?
    Limito-me a sorrir. E ela continua:
     Vai ento convoquei uma reunio de amigas e amigos, pessoas que podiam ajudar no empreendimento. Fizemos depois uma reunio grande, no teatro, com as autoridades, pessoas gradas, etcetera e tal. Mais um pouquinho de ch?
    Aceito. Sirvo-me. Como outro bolinho de coalhada e penso que, daqui a uns anos, quando tornar a sentir este gosto, possivelmente vou me lembrar de D. Quita sentadinha na sua cadeira de balano, nesta tarde de vero, abanando-se com um leque recendente a sndalo.
     O senhor no imagina as discusses que houve nessa primeira reunio  diz ela, sorrindo e deixando aparecer por entre os lbios arroxeados um dente pontudo e cor de marfim velho.  Sempre que o nosso juiz de Direito, o Dr. Quintiliano, e o Prof. Libindo se encontram, acabam atracados numa discusso. No se fumam. Um embirra com o outro e cada qual quer ser mais sabicho e levar sempre a melhor. No estou aborrecendo o senhor com essas estrias?
     Mas qual, D. Quita! Ao contrrio.
     Pois . Depois que vi todos sentados expus a finalidade da iiossa sociedade... clube, grupo ou coisa que o valha. Fui logo dizendo que no propunha a criao dum centro recreativo, mas duma frente ativa de luta, dum corpo militante para enfrentar no s os pelegos do Jango e do Brizola como tambm todos os tipos de esquerdismo, viessem de onde viessem...
     Compreendo.
     ... e que a nossa guerra no era s poltica como religiosa e moral. Precisvamos combater tambm a dissoluo de costumes.
     Como foi recebida a idia?
     Ora, o senhor sabe como  cidade pequena. A coisa toda fica muito na conversa fiada. Perde-se tempo em detalhes sem importncia. Todos aceitaram a minha sugesto para o nome do grupo: Legionrios da Cruz. Nosso lema (segundo a proposta no me lembro de quem) devia ser Deus, Ptria e Famlia... o que no  nenhuma novidade. O Dr. Quintiliano ento se levantou e pediu que acrescentssemos Lei e Ordem. O Cel. Tibrio pulou e gritou: E Propriedade! Vi que ia comear a inana. Ora, o Prof. Li-bindo, que estava esperando uma oportunidade para dar um quinau no juiz, disse com aquele jeito suficiente dele: Meu caro magistrado, quem defende a Ptria defende precipuamente a Lei e a Ordem, contidas ambas no vocbulo ocenico Ptria. (Me lembro direitinho das palavras que ele usou, tenho boa memria.) O Dr. Quintiliano, vermelho como um camaro, no se entregou: Pois se a coisa  assim  disse  bastaria ento que no lema dos Legionrios da Cruz se falasse apenas em Deus, pois a idia de Deus, na sua universalidade incomensurvel, abrange tudo: Ele prprio, as suas leis, a sua ordem csmica e moral, a Ptria, a Famlia, a Humanidade. E o Tibrio berrou de novo: E a Propriedadef
    D. Quitria soltou uma risadinha que lhe saiu da boca com um borrifo de broinha esfarinhada:
    Depositei minha taa vazia em cima da mesinha, a meu lado.
     O senhor j ouviu dizer que daqui a trs semanas o Leonel Brizola vai discursar num comcio trabalhista e nacionalista aqui na Praa da Repblica? Pois . Vai. Mas tome nota das minhas palavras. Nesse dia todas as mulheres catlicas de Antares, tendo  frente as Legionras da Cruz, vo dissolver esse comcio!
     Dissolver?  estranhei.  Mas a senhora j pensou no que -pode acontecer! Estamos numa democracia... defeituosa, reconheo, mas  que diabo!  democracia. Cada partido tem o direito de fazer propaganda de suas idias.
    D. Quitra empertigou-se na sua cadeira, como que -procurando crescer em estatura fsica.
     Sim, mas o direito e a liberdade tm limites, moo. Um lder poltico pode fazer a sua propaganda mas no pregar abertamente a subverso da ordem, o fechamento do Congresso, o socialismo, a reforma agrria!
    Percebi que tinha mexido num ninho de marimbondos.
     Mas que  que as Legionrias pretendem fazer de concreto se esse comcio trabalhista se realizar?
     Sairemos da igreja para a praa cantando com toda a fora de nossos pulmes o Queremos Deus. Vamos fazer tanto barulho, que ningum poder ouvir o Brizola e os outros oradores!
     Mas eles provavelmente falaro com o auxlio de microfones e amplificadores...
     Quebraremos o microfone e os alto-falantes. Mandaremos apagar as luzes da praa. A cidade ficar s escuras. Temos gente nossa na usina eltrica...
     Mas vai ser uma guerra, D. Quitria!  disse eu, esforandotne para ficar srio.
     Vai ser mais um combate, doutor. A guerra mesmo, essa comeou no dia em que o Jango Goulart assumiu a presidncia da Repblica.
     Mas as senhoras esto preparadas para... digamos, para enfrentar a reao no s verbal como tambm fsica dos trabalhistas?
     Estamos por tudo. Se nos desacatarem, levam com rosrios e cruzes e estandartes na cabea... e em outras partes.
    Dessa vez no pude evitar uma risada. E a velha, as narinas palpitantes, a respirao acelerada, continuou:
     Nossos maridos, nossos filhos, nossos homens, enfim estaro armados ao nosso lado, prontos para o entrev-lo. Tome nota do que estou lhe dizendo.  o que vai acontecer se o Brizola tiver o topete de fazer sua pregao comu-no-nacionalista na frente da casa dos Campolargos e da Matriz!
    Ps a mo espalmada no peito arfante, depois abriu uma caixinha de metal dourado, tirou dela um comprimido cor de chocolate e p-lo debaixo da lngua.
     No pense que sou uma reacionria, moo  disse, pouco depois, em voz mais baixa e serena.  Sei que os tempos mudaram e que vo mudar ainda mais. As contradies esto liquidando aos poucos a nossa classe. E a indstria, como bem disse o outro dia o Dr. Falkenburg, o meu mdico, e a tal de tecnologia esto mudando a face da vida e at da moral. Dia vir em que teremos de dividir nossas terras, eu sei. Mas no h de ser a demagogia do Jango ou do Brizola que vai nos assustar. A coisa tem de ser feita direito, quando a sua hora for chegada. No sou dessas que gostam do dinheiro pelo dinheiro. Resta-me pouco tempo de vida. Deus nunca me deu filho macho. Tenho quatro filhas. Sei que os maridos delas esto esperando a minha morte para agarrarem a minha fortuna, e se soltarem no mundo, cada qual para o seu lado. Que me importa? Meu corpo estar ento no mavsolu da famlia, minha alma com Deus.
    No resisti  tentao de fazer uma pergunta maliciosa.
      verdade que o Cel. Tibrio Vacariano  o presidente de honra dos Legionrie da Cruz?
     , mas foi eleito contra o meu voto. O Tib e a pobre da Lanja, mulher dele, so meus velhos amigos, apesar de nossos antepassados terem sido inimigos de morte durante mais de sessenta anos. Olhe, moo, eu lhe probo de fazer uso pblico do que eu lhe disse hoje nesta sala, ouviu1? O Tibrio  um velho chineiro e dsfrutvel. Viveu metido em negociatas durante o Estado Novo e os outros Estados que se seguiram. Tem duas mulheres, o salafrrio, a legtima e a amante. No entanto aceitou cinicamente a presidncia de honra dos Legionrios.  como eu lhe digo. Essas contradies vo acabar destruindo a nossa sociedade. Acendemos uma vela a Deus e outra ao diabo. Mas o senhor no acredita em Deus nem. no diabo, no?
     No, D. Quita, sinto muito, mas no acredito.
     Pois devia. Eles existem. E c entre ns, que ningum nos oua, eles no residem, como se diz, Deus no Cu e o Tinhoso no inferno. Eles esto tambm aqui embaixo junto com a gente, a todas as horas do dia e da noite. Tome nota do que estou lhe dizendo.
    (Dilogo transcrito de memria, mas creio que com passvel exatido.)
    
    LXXIX
    Visitei ontem o Pe. Pedro-Paulo na Vila Operria. Fui logo dizendo: No venho em carter profissional. No tenho nenhum gravador escondido nos bolsos. No trago formulrios. Dou revista...
    Ele sorri. Apertamo-nos as mos. Quantos anos ter este homem? Perto de trinta, creio. Ou trinta j feitos. Estatura pouco acima da mediana. Moreno, mas com uns olhos dum azul de cobalto. No Rio Grande do Sul creio que os padres em sua maioria (os estatsticos que me perdoem esta sbita invaso de seu territrio) vm da zona colonial, e so de sangue italiano ou alemo. O Pe. Pedro-Paulo tem por um lado avs lituanos, o que explica a cor de seus olhos e certos traos de seu rosto  perigosamente bonitos para um padre. A cabeleira basta e negra e a cor da tez lhe vieram de sua av ndia  conforme ele me explica. Sei que este jovem padre faz sucesso cam as mulheres, que, ao v-lo passar, murmuram: Que po! Que pena ele ser padre! Que desperdcio!
    Pedro-Paulo me mostra a Vila, a capela, o campo de esportes, a escola primria, o ginsio, o Centro Social, com a sua j razoavelmente boa biblioteca. O padre est em mangas de camisa, com calas de brim caqui e sandlias.
    Depois da visita ficamos conversando sentados em cadeiras preguiosas  sombra de rvores, bebendo refrescos e comendo figos gelados. Falamos em livros, poltica nacional e internacional. Puxo a conversa para os problemas atuais da Igreja Catlica.
     S agora a Igreja est voltando s suas origens  diz o sacerdote  isto ,  sua pureza original. Por muitos sculos ps prncipes da Santa Madre cortejavam e serviam reis, duques, presidentes, ministros, senadores, generais, milionrios. Voltamos as costas ao povo. Conservamos um rano medieval. Por um lado dizamos que nosso reino no era deste mundo mas por outro nos apegvamos a tesouros e pompas terrenos. Tratvamos de convencer os pobres de que era necessrio contentarem-se com a m sorte que Deus lhes dera na terra a fim de merecerem o reino dos cus e receberem, com juros, a sua recompensa por tantos anos de sofrimentos e de necessidades neste vale de lgrimas.
    Descascando um figo, ele conclui:
     Daqui a muitos anos os historiadores talvez possam dizer que as reformas por que a nossa Igreja est passando agora foram to (ou mais) importantes do que as da Reforma protestante.
      possvel.  E quase sem pausa de transio digo:  Tu naturalmente sabes que s conhecido em Antares como o Padre Vermelho.
     Sei, e isso at me diverte. Assim tambm era chamado Vivaldi, o meu compositor favorito. Il prete rosso. .. embora no caso dele o rosso se referisse  cor de seus cabelos. Eu sei que em Antares sou considerado um comunista por causa de meu interesse pela causa dos operrios... e tarn-bm pelas minhas leituras e opinies.
     Como so tuas relaes com o Pe. Gerando?
     Boas, mas meio cerimoniosas. Gosto do velho.  uma boa alma, mas tem horror a mudanas, de qualquer natureza. Um amigo meu oferece uma boa explicao metafrica para pessoas desse tipo. So como cegos (diz ele) que aprenderam durante anos e anos a topografia da casa onde moram, a posio de cada mvel, de cada objeto e assim podem mover-se com facilidade, sem colises, como se pudessem ver claro. Um dia surge um sujeito... um maluco, diro eles, e comea a renovar a casa, mudar a posio dos mveis e dos utenslios, abrir novas portas e janelas, e quando o nosso pobre cego tenta fazer suas caminhadas habituais, comea a chocar-se com obstculos inesperados, a ferir-se, a sentir perigosas correntes de ar. .. e fica tomado de pnico ou de um sentimento de revolta. Esse  o caso de muitos escritores e pensadores catlicos da atualidade no s no Brasil como no resto do mundo. E veja bem: os mveis da Igreja, a sua decorao, tinham para esses cegos um carter sagrado, intocvel.
     O vigrio sabe que os jovens te procuram para confessar-se e pedir conselhos. E que muitos habitantes da cidade preferem as missas aqui na tua capela s da Matriz. Estou informado de que o bispo desta diocese, e possivelmente o arcebispo metropolitano, j receberam uma das famosas cartas annimas de Antares denunciando o padre comunista.
     Ah! Quanto a isso no tenho a menor dvida. Estou j com o esprito preparado para o que der e vier. Dia vir em que me mandaro cantar noutra freguesia... na pior que puderem encontrar...
     Que pensas de Antares? Esta pergunta tem. um tom um tanto profissional... mas v!
     No  diferente da maioria das outras cidades pequenas do nosso Estado. Vocs, com a pesquisa que esto fazendo,  que podero dizer alguma coisa que no seja mera avaliao a olho nu. O que me impressiona aqui  a enorme defasagem que existe, por exemplo, entre os estancieiros ricos e a gente descala e subalimentada. Fiquei feliz quando me disseram que voc e o seu grupo esto dando muita ateno a essa horrenda favela chamada Babilnia. Acha sinceramente que poder publicar em liuro todas as fotos desse lugar e seus habitantes?
     Claro que sim. A Ford Foundation me deu luz verde. Do contrrio eu me negaria a levar para diante esta amostragem. Mas... que me dizes da tua gente, quero dizer, dos habitantes desta vila?
     Boa, dum modo geral. Claro, temos de tudo... os nossos problemas, as nossas diferenas, rivalidades pessoais e de grupo. Mas nada srio. A maioria pertence ao P.T.B. H alguns elementos bastante politizados. Outros apenas votam e se consideram membros do partido trabalhista.
     E  natural que vejam em ti uma figura paterna.
     Bom... creio que  o caso, e isso me assusta um pouco. Para ser honesto devo confessar que no estou preparado, amadurecido para essa funo paterna.
     Quem est?
     s vezes tenho um trabalho danado para conter os mais exaltados em assuntos polticos. Em breve o Brizola vem fazer um comcio na Praa da Repblica e outro aqui na Vila. S de pensar nisso estremeo. Est claro que ele vai falar contra a remessa de lucros e contra os entreguis-tas... e contra a espoliao da nossa economia... E, acima de tudo, a favor da reforma agrria. Pessoalmente nada tenho contra essas idias. Mas no esquea que quem manda aqui so ainda os estancieiros, o chamado patriciado rural.
     O velho Tibrio (ele prprio me confessou isso claramente)  a favor duma ditadura militar como ltimo recurso para salvar o que ele chama de democracia brasileira. Diz que estamos precisando, mais que nunca, da espada de Caxias. Perguntou-me se eu no estava de acordo com ele. Respondi que se as Foras Armadas usassem a espada do Pacificador corriam o risco de, por engano, acabar cometendo haraquiri.
     E o velho Vacariano sabe o que  haraquiri?
     No. Nem me dei o trabalho de lhe explicar...
     Pois o delegado de Antares, Inocncio Pigaro, que  um homem cruel, um torturador de prisioneiros polticos, costuma dizer que o Jango e o Brizola esto cutucando o drago com vara curta.
     Acho que o delegado tem razo. Se esse drago despertar e resolver entrar em ao... bom, muita coisa vai acontecer. Nossos polticos profissionais, gente pela qual no tenho a menor simpatia, costumam apelar periodicamente ao Exrcito a fim de tomarem o poder. Os militares os ajudam e depois se encolhem.  possvel que desta vez o drago resolva ficar no poder e devorar no s as esquerdas como os prprios polticos profissionais do centro. As carnes destes na minha opinio esto podres... mas o drago deve ter um estmago de ao...
    No sei como, a conversa envereda para rumos filosficos. Discutimos o carter predatrio do homem, a sua tremenda capacidade de agresso. Lembro ao padre o troglodita adormecido dentro de cada um de ns. Ele sacode negativamente a cabea e diz:
     E no haver sempre ao lado do troglodita um anjo? Um Calib e um Ariel? Sou otimista com relao ao homem. No penso em Hitler sem me lembrar tambm de Mozart. Acho que o homem  um animal agressivo, no h dvida, mas a diferena entre ele e o lobo  que a criatura humana pensa,  ao mesmo tempo sujeito e objeto, tem a capacidade de ver o seu lado negativo e deplor-lo. No ignora que tem um futuro. Tem tambm a conscincia de sua finitude.   salvo as aberraes  capaz de compaixo, de contrio e de amor. E a crise do mundo moderno no ser principalmente a falta de amor?
    Como mais um figo e de repente me sinto com dez anos no quintal da casa paterna em Rio Pardo, e moscar-dos zumbem no ar, e da cozinha vem um cheiro doce de melado e eu penso, feliz, que bom! esto fazendo rapa-durinhas de coco.
     Me diga uma coisa, professor. Embora o senhor seja ainda um homem moo, nossa diferena de idade  duns quinze anos pelo menos. Sei que visitou a Europa e os Estados Unidos, e que suas leituras so mais variadas e sistemticas que as minhas. Vou lhe fazer uma pergunta que lhe pode parecer tola. Ao cabo de quarenta e cinco anos de vida, de conviver com tantas pessoas em tantos pases diferentes, a que concluses filosficas chegou... quero di zer, que  que pensa da vida? Se achar a pergunta pueril, no responda...
     Olha, o que eu sou mesmo... digamos assim,  ainda um aprendiz perplexo. Mas acho que pelo menos descobri as coisas de que gosto e as que detesto ou me deixam indiferente. E isso no  pouco.
     Por exemplo...
     Prefiro a sade  doena, o amor ao dio, a liberdade  escravido, a persuaso  violncia. Sei que esta no  uma resposta completa... mas que diabo!
     Imagino que no acredita em Deus...
     Sou um agnstico. Detesto esta palavra, que a rigor no exprime nada. Trata-se duma espcie de neutralidade de que muitas pessoas se orgulham mas que a mim me constrange.
     Mas  um cristo, isso se pode ver.
     Serre a menor dvida. O Cristo homem  uma das minhas figuras favoritas da Histria.
     Isso! O importante  ser cristo. Mas dum cristianismo militante e no apenas terico, simpatizante. Sempre digo ao vigrio da Matriz de Antares: Padre, continue rezando pelos seus mortos que eu continuarei lutando pelos nossos vivos. Nossa Igreja  tambm deste mundo.
    Olho para o rosto enrgico do padre, que est com a testa franzida, os punhos cerrados, e tenho a impresso de que tem o sangue muito quente.
     Posso te fazer uma pergunta pessoal?
     Por que no? Seja o que for.
     Eu gostaria de saber se a tua f em Deus e na Igreja  realmente forte e permanente. No tens dias ou horas de dvida?
    Ele sorri, fica alguns segundos em silncio e depois responde:
     Sou um homem, e portanto cheio de defeitos e fraquezas. Minha carne com muita freqncia grita de fome, s vezes com uma fora que me estonteia. Claro, muitas vezes tenho as minhas dvidas. No faz muito atravessei um perodo de to forte crise espiritual que escrevi uma longa carta a um monsenhor que admiro e estimo, contando-lhe tudo. Usei nessa carta confessional a expresso: sinto que minha f est presa apenas por um fio. Sabe o que ele me respondeu? Que se regozijava por saber que a coisa era assim, pois no confiava muito nas chamadas fs inabalveis dessas que julgam poder deslocar montanhas. So demasiadamente teatrais para serem profundas  escreveu o monsenhor. O fio que prende a sua f deve ser do melhor ao e portanto resistente e ao mesmo tempo flexvel. F sem flexibilidade, f sem dvida pode acabar em fanatismo. Terminou a carta assim: Reze a Deus, pea-lhe para que faa esse fio resplandecer sempre na Sua luz.
    

  segunda parte
  O INCIDENTE
    
I
    Pouco depois da meia-noite, naquela quarta-feira, 11 de dezembro de 1963, Tibrio Vacariano entrou no centro telefnico de Antares para tentar comunicar-se diretamente com o Palcio do Governo, em Porto Alegre.
     Tem defeito na linha, coronel  informou-lhe a operadora.
     Eu espero. No saio daqui sem falar com o governador.
    Mandou buscar em casa cuia, bomba, erva, chaleira, fogareiro  aboletou-se na melhor cadeira da agncia, preparou um mate e ali ficou, a chimarrear e a fumar palheiros, durante horas e horas, resmungando coisas para si mesmo e de vez em quando esporeando a moa com frases assim: Continue tentando.  Esse negcio sai ou no sai? _ No durma!
    O tempo passava. A operadora cabeceava de sono. A intervalos quase regulres o coronel ia at ao fundo da casa pata esvaziar a bexiga, deixando na parede traseira do prdio efmeras pinturas murais. s trs da madrugada j&andou buscar em casa um caf preto e forte, para ajud-10 a vencer a prpria sonolncia.
    Pouco aps o raiar do dia a operadora teve um estremecimento.
     Porto Alegre est atendendo!  exclamou.  Al! Aqui  Antares. Tenho um chamado urgente para o Palcio do Governo. Al? Eu sei que so cinco da manh, mas tente a ligao, pelo amor de Deus!
    Tibrio Vacariano, que cabeceava de sono, ficou de repente desperto e ergueu-se lpido. A telefonista voltou para ele um olhar turvo, emoldurado por plpebras intumescidas.
     O Palcio est respondendo  disse com a voz era-pastada de sono.  Pegue aquele telefone, coronel. ..
    Tibrio agarrou sofregamente o fone do aparelho indicado, levou-o ao ouvido e gritou:
     Al! Palcio do Governo? Hem? No estou ouvindo nada... Al? Aqui  o Cel. Tibrio Vacariano. Preciso falar com a maior urgncia com o governador... Hem? Eu sei que o homem est dormindo. Mas acorde ele.  uma questo de vida ou de morte. Qu? Fale mais alto. J disse que  o Cel. Vacariano, chefe poltico de Antares... Me responsabilizo pelo que acontecer. Depressa, homem!
    Ficou esperando alguns minutos, impaciente, chupando o cigarro apagado, de quando em quando lanando para as pernas da telefonista  que agora dormia sentada, os braos sobre a mesa, a cabea aninhada neles  um olhar quase to morto como o fogo do seu palheiro. Ouviu confusos rumores longnquos, cortados de zumbidos e assobios. Finalmente, uma voz humana.
      o governador. E a quem fala?
     O Cel. Tibrio Vacariano, de Antares. Desculpe le tirar da cama a esta hora, governador, mas a situao  muito sria.
     Que  que h, coronel?
     Hoje ao meio-dia vai ser declarada uma greve geral em Antares: indstria, comrcio, transportes, fora eltrica, servios... tudo! A cidade vai parar por completol
     L ontem alguma coisa a esse respeito no Correio do Povo.
    Vacariano cuspiu longe o toco de cigarro, num borrifo de saliva. Cuspia simbolicamente nas bochechas daquele governador de ordinrio pachorrento e agora, ainda por cima de tudo, estonteado de sono.
     Mas, doutor, estamos diante duma calamidadeI J imaginou uma cidade parada, sem luz, sem gua, sem transportes? Greve gerall
     Pois ... Sinto muito.
     Precisamos agir sem demora.
     De que jeito? A nossa Constituio reconhece o direito dos trabalhadores  greve.
     Mas isso no  mais uma greve e sim um princpio de revoluo, parte duma conspirao poltica esquerdista para tomar o poder pela fora.
    Fez-se uma pausa na conversao, como se a ligao tivesse sido subitamente cortada. De novo, porm, Vacaria-no ouviu a voz grave que o sono tornava mais espessa:
     No h nada que meu governo possa fazer dentro da legalidade.
     Pois ento faa fora da legalidade.
     Al? Fale mais alto, coronel.
     Mande a legalidade pro diabo!  vociferou Tibrio.  Envie tropas da Brigada Militar para Antares e obrigue esses, mequetrefes a voltarem ao trabalho. O aumento que eles pedem  absurdo. A greve  dos trabalhadores das indstrias locais. Os outros apenas se solidarizaram com eles. Coisas que os chefes do P.T.B. e os comunas meteram na cabea dos operrios.
     Coronel, o senhor esquece que estamos numa democracia.
     Democracia qual nada, governador I O que temos no Brasil  uma merdocracia.
     Al?! A ligao est pssima.
     Eu disse que estamos numa mer-do-cra-ci-a, entendeu?
    Novo hiato na conversao. A telefonista ressonava.
     O senhor est muito excitado, coronel  veio de novo a voz.  O governo federal  trabalhista. Estamos em niinoria.
     Minoria coisa nenhuma! O que nos falta  cojones, como dizem os castelhanos.
     Calma, meu amigo. As coisas podem resolver-se duma hora para outra dentro da lei. Prometo-lhe conversar hoje mesmo com o Ministro do Trabalho e...
     A situao no  mais para conversas, mas para ao. Quer que eu fale com franqueza? Chegou a hora do Exrcito Nacional entrar em cena, empolgar o poder em nome do povo, da tranqilidade geral e da justia. O Brasil neste momento  um trem sem freios que se precipita a toda a velocidade para o abismo. E o pior  que o maqui-nista e o foguista esto loucos, loucos varridos!
    Houve um silncio, ouviu-se um pigarro distante. Por fim ficou mais clara a voz do governador:
     H certos assuntos, coronel, que a gente no pode tratar por telefone. Passe muito bem!
    Tibrio reps o fone no lugar com tanta fria, que a telefonista despertou num sobressalto, pisca-piscando.
     Conseguiu falar, coronel?
    Tibrio no respondeu. Enquanto metia num saco de lona os petrechos de chimarro, resmungava: Garanto como ele agora volta pra cama e vai dormir at s oito. Quando acordar para o caf vai pensar que este telefonema foi um sonho. Enquanto isso os comunas, os brizolistas e os pelegos do Jango Goulart esto se preparando para tomar conta da nossa cidade.  o fim da picada!
    Precipitou-se para fora do centro telefnico sem sequer agradecer  operadora.
    
    II
    Ao meio-dia em ponto a greve geral comeou. Os operrios do Frigorfico Pan-Americano, os da Cia. Franco-Brasileira de Ls e os da Cia. de leos Comestveis Sol do Pampa abandonaram como de costume seus postos para o almoo, mas no voltaram para o turno da tarde. O mesmo aconteceu com os encarregados da Usina Termoeltrica Municipal, que cortaram a luz da cidade, com exceo dados cabos que forneciam energia aos dois hospitais. Bancrios, empregados de hotis, cafs, bares e restaurantes, bem como caixeiros de casas comerciais, recusaram-se a retornar ao trabalho, solidarizando-se com os industririos, embora eles prprios no tivessem no momento reivindicaes salariais especficas. Os motoristas que dirigiam carros de propriedade alheia, abandonaram-nos na rua quando ouviram o sino da Matriz bater as primeiras badaladas do meio-dia.
    Desde havia trs dias as donas de casa tinham acorrido aos supermercados, aos mercadinhos, s mercearias, s padarias e s fiambrerias para comprar mantimentos, pre-venindo-se contra a carncia de alimentos que fatalmente viria com a greve geral. Antares, em suma, parecia uma cidade prestes a ser sitiada por um inimigo implacvel.
    Ali pelas duas da tarde, nas vias centrais e na Praa da Repblica, notava-se um movimento humano desusado para o dia e a hora. A greve geral era o assunto quase exclusivo das conversas. Comadres trocavam impresses das janelas de suas casas, dum lado para outro da rua. Formavam-se grupos s esquinas e no meio das quadras, nas caladas ou nos sendeiros da praa, cujos bancos estavam todos ocupados. Velhos e velhas, debruados nas janelas de suas casas, mostravam nas faces  principalmente nos olhos  o pavor de antigas revolues, a lembrana de imemoriais degolamentos. Ningum parecia sentir o calor abafado da tarde. Ficavam sob o olho ardente do sol a discutir e gesticular. Um vereador do P.S.D. atracou-se a socos com um colega seu do P.T.B. Rara era a janela das casas residenciais que no emoldurasse um ou dois vultos humanos que observavam a rua e trocavam impresses com os que passavam pela calada.
    Duplas de guardas municipais andavam dum lado para outro, atentos, procurando evitar brigas ou intervindo quando elas irrompiam e, tentando, mas sem resultado, evitar que se formassem aglomeraes que pudessem degenerar perigosamente em comcios polticos. Perto da Matriz um homem gritava, de dedo erguido e revlver na cintura: Se as autoridades tivessem um pingo de vergonha e coragem, elas acabavam essa greve de borra em dois tempos, a rabo-de-tatu ou a bala! A igreja aos poucos se enchia de fiis  quase todos do sexo feminino  que vinham orar e fazer promessas aos santos ou santas de sua devoo. Uma devota de Santa Rita de Cssia prometeu jejuar durante trs dias inteiros se a greve geral abortasse.
    Pesava sobre a cidade uma- atmosfera de princpio de fim de mundo.
    
    III
    Na redao de A Verdade, s quatro da tarde, Lucas Faia preparava o seu editorial para o prximo nmero, em cuja primeira pgina negrejaria uma manchete em caixa aita e tipo grosso: Greve Geral em Antares.
    Lucas Lesma passava repetidamente os dedos pela calva reluzente, mordia a caneta. Que dizer da greve? Em que termos coment-la? Atacar os grevistas por terem agredido to violentamente a cidade, trazendo o desconforto e a inquietao para seus habitantes? Esse fora o seu primeiro impulso. Sabia que as classes produtoras de Antares haviam de aplaudir seu editorial... Mas a idia de que os trabalhadores pudessem empastelar a redao de seu jornal fazia-o hesitar. Lucas Lesma suava copiosamente, de quando em quando passava pela face acobreada de caboclo o leno en-cardido. Mas... se os militares dessem um golpe de Estado e derrubassem o governo de Goulart... em que posio ia ele ficar por no se ter manifestado no devido tempo contra aquela greve? Diabo de profisso!
    Fazia vrios minutos que estava ali sentado  sua mesa, sem casaco, olhando para o ventilador parado, a caneta esferogrfica entre os dedos longos, de unhas rodas. O mais que havia conseguido escrever at ento fora o ttulo do editorial, Greve Geral. (Podia fazer uma aliterao -.Grave Greve Geral.) Contentava-se com fazer bordados nas letras do ttulo, sombre-las, dando-lhe uma ilusria terceira dimenso, como se com esses arabescos pudesse resolver o seu impasse. Talvez o mais sbio fosse redigir um editorial objetivo  equidistante em matria ideolgica tanto dos operrios como dos patres, um editorial andino, nem contra nem a favor da greve...
    Uma voz aflautada interrompeu a confusa corrente de seus pensamentos:
      seu Lucas, minha Passarela sai ou no sai no nmero de amanh?
     Voc  quem sabe, filho.
    O cronista social, que alisava a longa cabeleira e de quando em quando ajeitava a camisa cor de salmo, explicou:
      que com todo esse negcio da greve acho que ningum estar muito interessado nas fofoquinhas da nossa society. E como vamos imprimir o jornal sem fora eltrica?
     Voc  quem sabe...  repetiu o diretor, desinteressado, sem olhar para Scorpio.
    Este, porm, deu uma rabanada e aproximou-se da mesa do chefe, quase num passo de bale.
     Ah! Eu sabia que tinha uma boa para lhe contar...
     Depois..,
     No, seu Lucas, escute esta, que vale a pena. Bufando de calor, irritado, Lucas largou a caneta e
    olhou para o cronista:
     Conte, ento, mas depressa.
     Ontem  tarde encontrei no supermercado uma das nossas gr-finas fazendo o rancho para enfrentar a greve geral. Estava toda assustadinha, sem jias, sem pintura, mal vestida, parecia at uma cozinheira. .. O ano passado eu a coloquei entre as Dez Mais de Antares. Quando me viu, s faltou me abraar e beijar. Me puxou para um lado e me contou que cancelou a viagem que ia fazer a Buenos Aires em maio... e que resolveu no fazer festa de debutante para a filha, que completa quinze anos em janeiro... E que vai entrar para o grupo de damas do Comercial que esto fazendo casaquinhos e meias de l para as criancinhas pobres da Babilnia... ah!... e que vai obrigar o marido a vender um dos carros da famlia... E sabe por que toda essa transformao?
    Lucas Lesma, que ainda pensava no editorial, sacudiu negativamente a cabea.
     Est assustadssima com esse movimento brizolista, janguista e nacionalista e sei l mais qu. Acha que vem a um governo socialista. Chegou a me dizer que se fizerem a reforma agrria e se os ricos tiverem de perder o que possuem ser muito triste... mas que  que se vai fazer? E me disse, quase chorando, que  prefervel que se vo os anis, mas que fiquem os dedos...
    Nesse momento veio do fundo da sala da redao a voz apocalptica do Ferreirinha, que sofria um de seus piores dias de asma:
     Nem os dedos ficaro, menino!
    Lucas Faia, agoniado, amassou o papel que tinha em cima da mesa e jogou-o com raiva dentro do cesto, a seus ps.
    
    IV
    O prefeito convocou uma reunio especial da Cmara Municipal, que era formada de mais de um tero de vereadores trabalhistas. A greve geral foi discutida. Houve alter-cao, muita gente falando ao mesmo tempo, trocas de desaforos, tiradas demaggicas e  como era de se esperar  nenhum resultado prtico. O presidente encerrou a sesso.
    s cinco da tarde daquele mesmo dia, o Maj. Vivaldino Brazo recebeu no seu gabinete, no edifcio da prefeitura, uma delegao formada de trs operrios, encabeada por Geminiano Ramos, e que devia encontrar-se com os gerentes das trs companhias atingidas em cheio pela greve. Estavam estes ltimos sentados no mesmo sof: Mr. Jefferson Monroe III, com as longas pernas estendidas, fumava um L&M. O prefeito de vez em quando lanava um olhar fascinado para os sapatos ciclpicos do americano, conhecidos na cidade como a frota americana do Alto Uruguai-
    Ao lado do diretor do frigorfico encontrava-se M. Jean-Franois Duplessis, da Franco-Brasileira, o qual, na opinio do Maj. Vivaldino, estava com o jeito um tanto debochado, como se no estivesse levando aquela reunio a srio. O colarinho desabotoado, o n da gravata frouxo, as meias sbeiadas dobradas sobre os sapatos empoeirados, o francs fumava com ar entediado um Gauloise de pontas babadas e quase desfeito, e de vez em quando bocejava musicalmente.  sua esquerda, corretamente vestido, muito escovado e limpo, Mr. Chang Ling parecia um aluno comportado sentado em sua carteira escolar, os olhos oblquos e escuros fitos no professor, isto , no prefeito. No podia, porm, disfarar a sua inquietao ante a maneira como s vezes o francs esgrimia no ar o seu cigarro, espalhando cinzas ao seu redor.
     Senhores  disse Vivaldino Brazo, quando viu gregos e troianos sentados frente a frente, em silncio  a situao  extremamente grave. A nossa cidade no pode suportar sem prejuzos talvez irreparveis as conseqncias duma greve geral prolongada... 
    Calou-se, olhou em torno, escrutou as faces. A do americano rosada, juvenil, escoteira, os cabelos em crew cut, os olhos dum azul limpo e vazio. A do francs sardenta e aborrecida. A do chins lembrando uma mscara asitica com um sorriso inefvel de imagem arcaica. E esses trs semblantes estavam voltados para o dele. Quanto aos operrios, Vivaldino no olhava muito para as suas caras, demasiadamente conhecidas em Antares.
     Assim sendo  prosseguiu  fao um apelo aos senhores representantes das indstrias e aos senhores delegados dos grevistas aqui presentes, para que entrem o mais depressa possvel num acordo, a fim de que mulheres, crianas e velhos no venham a sofrer os desastres duma greve geral, isso para no falar nos ruinosos efeitos que essa greve vai causar  economia do nosso municpio.
    Novo silncio. Seis pares de olhos focados no prefeito. O francs teve um acesso de tosse bronqutica de tabagista. O americano encolheu-se instintivamente e voltou o rosto para fugir aos micrbios glicos. O chins limitou-se a ali-sar o friso das calas.
    Geminiano ergueu-se. Era apenas uns cinco centmetros mais baixo do que o americano, porm mais corpulento. Sua cabeorra de abundantes cabelos castanhos e crespos lembrava a de certos mercadores ricos da Amsterdam do sculo xvn que tinham retratos pintados por artistas como Franz Hals: rosto carnudo e rubicundo, olhos empapuados, dum cinzento mineral, lbios vermelhos e polpudos, sugerindo sensualidade. O prefeito detestava aquele lder operrio insolente e autoritrio que, apesar de viver pregando democracia e igualdade social, tinha uma indisfarvel vocao para ditador.
     Como todo mundo sabe  disse Geminiano com o vozeiro que era de se esperar daquela boca flamenga  esta greve  dos trabalhadores do frigorfico a do mister (e fez com a cabea um sinal na direo do americano), dos operrios da Franco-Brasileira e do pessoal da Cia. de leos Comestveis do seu Changue. Todos os outros companheiros aderiram ao movimento num gesto de solidariedade de classe. Bueno, para no encompridar demais a conversa, os cavalheiros que esto sentados nesse sof receberam h semanas um documento contendo as nossas reivindicaes salariais bem claras. Pedimos um aumento que nos parece mais que justo, em vista da inflao galopante. A resposta que recebemos foi um no redondo. Dias depois esses senhores quiseram negociar. Nos sentamos em roda duma mesa e a contraproposta que eles nos fizeram foi ridcula. Assim sendo, entramos em greve e s voltaremos ao trabalho depois que nossas condies forem aceitas. J recebemos telegramas de solidariedade irrestrita tanto do Comando Geral Trabalhista como da Unio Nacional de Estudantes.
    O prefeito suspirou fundo, pensou nas suas orqudeas, em cuja companhia talvez no pudesse passar aquele fim-de-semana, se a maldita greve se prolongasse.
    Jefferson Monroe III movimentou as pernas, e os dois encouraados negros pareceram tomar uma formao de combate.
     Eu... aaa...  gaguejou, buscando a palavra que queria  aaa...
    O francs, que no conseguia esconder a sua impacincia, cruzava e descruzava as pernas. De repente tirou o cigarro da boca, num gesto brusco, polvilhando de cinza a lapela esquerda do casaco de Mr. ling, que a limpou discretamente com seus finos dedos de mandarim.
     Os senhores sabem muito bem  disse M. Duplessis  que, a no ser Mr. Chang, que  o proprietrio nico de sua indstria, ns, Mr. Monroe e eu, somos apenas gerentes de filiais.
    Jefferson Monroe III pareceu recuperar a voz:
     Quando hemos recebido vosso memorial, consultamos imediatamente nossa matriz em So Paulo, e a resposta que ganhamos foi negativa. O aumento demandado pelos operrios  demasiadamente alto.
     Precisamente  reforou o francs, passando os dedos por entre os seus j ralos cabelos cor de cenoura.  Os senhores leram as respostas de nossos superiores. Personalmente nada podemos fazer.
    O chins continuou refugiado atrs da sua trincheira de silncio. Ainda de p, Geminiano lanou um olhar, primeiro na direo de seus dois companheiros, e depois voltou-se para o prefeito, dizendo:
     Major, nossa deciso foi tomada e no voltaremos atrs. A greve vai continuar at ao momento em que obtermos  corrigiu-se em seguida  obtivermos o aumento e as outras vantagens que pedimos em nosso memorial.
    Um pensamento esvoaou como uma borboleta colorida na cabea do prefeito. Na Sibria existe uma espcie de orqudea chamada calypso bulbosa. Olhou para Geminiano:
     Voc deve estar lembrado de que eu lhe aconselhei tentar primeiro o dissdio coletivo. Teria sido mais prtico e mais justo.
     E o major se lembra de que nossa resposta foi negativa. Estamos cansados de panos quentes.
    Em que parte do mundo se encontraria aquela orqudea completamente escarlate que ele vira reproduzida numa enciclopdia, em cores? Sophronites grandeflora. As orqudeas no falavam nem faziam greve. Vivaldino olhava fixamente para o rosto de Geminiano. No havia dvida, aquele operrio tinha envergadura de chefe, era inteligente, obstinado e atrevido. Lembrou-se de que nos tempos de rapazote, quando ainda um entusiasta de Stalin, Geminiano usava um basto bigodo, que havia mandado rapar depois que o ditador russo fora expurgado post-mortem por Nikita Kruschev.
     Cavalheiros  disse o prefeito, procurando dar  voz um tom de grave autoridade paternal  em nome das vinte e cinco mil almas que vivem em Antares, fao um apelo aos representantes patronais e lderes operrios aqui presentes para que entrem em acordo dentro do mais curto prazo possvel.  Dirigiu o olhar para os homens do sof.  Os senhores me faam a fineza de consultar mais uma vez, e com urgncia, vossas matrizes, pondo-as ao corrente da calamitosa situao desta comunidade. E aos trabalhadores (e neste momento Vivaldino olhou para a cara polpuda de Geminiano e esbofeteou-a em pensamentos) peco boa vontade e esprito comunitrio, para que possamos pr fim a este impasse... Quanto a mim, prometo entrar hoje mesmo em comunicao com o Governador do Estado e, se possvel, com o Ministro do Trabalho.
     De que jeito?  exclamou Geminiano, glorioso.  A estao de rdio no funciona por falta de fora eltrica...
     No se preocupe  replicou o prefeito, j vermelho de clera.  O problema e meu!
    Ergueu-se, puxando num gesto decidido as abas do casaco e dando assim a entender que a reunio estava terminada. Quando os visitantes comearam a erguer-se, Vivaldino Brazo satisfez mais uma vez seus pruridos oratrios:
     Quero que todos saibam que o governo municipal est preparado para repelir com energia qualquer tentativa de subverso da ordem, qualquer ato de violncia, venha ele de onde vier. Tenho foras suficientes para fazer cumprir a lei, mas seria para mim o dia mais triste da minha vida aquele em que ,eu tivesse de mandar fazer fogo contra os meus concidados. Creio que estamos entendidos.
     Senhor maior  disse Jefferson Monroe HI.  Estamos num verdadeiro quandrio. (Existe esta palavra em portugus?) Well, sei que meus chefes no podem aceitar as demandas exageradas de nossos operrios. Creio que vamos ter greve por muito tempo, sinto muito dizer. Mas prometo fazer o meu melhor...
     Faa, mister, faa, por favor.
    Ao apertar a mo do prefeito, o francs murmurou:
     Vosso Presidente sendo o chefe trabalhista  M. Duplessis soltou uma interjeio pneumtica tipicamente francesa: pff!  no vejo como a balana possa pender para o nosso lado...
     Mas faa o que puder, monsieur.
    O Maj. Brazo deteve por um instante o chins  porta do gabinete, para lhe perguntar, com certa ternura na voz:
     Me diga uma coisa, Mr. Chang, existem muitas variedades de orqudeas na China?
    
    V
    Cerca das quatro da tarde, ao despertar duma prolongada sesta, pesado e azedo, Tibrio Vacariano deu com D. Briolanja ao lado da cama, toda desfeita em pranto.
     Que foi que houve, mulher?
    Os olhos injetados, o rosto tumefato, D. Lan ja balbu-ciou:
     A Quita teve um ataque do corao. Est malssi-ma. Uma das meninas me telefonou indagorinha dizendo que a me comeou a sentir umas pontadas no peito logo depois que ouviu a notcia de que a greve geral tinha estourado ... 
    Tibrio sentou-se na cama, bocejou, e comeou a calar os sapatos, taciturno.
     A primeira vtima...  murmurou.  E no ser a ltima. Canalhas!
     A coisa  to sria, Tib, que o Dr. Falkenburg chegou ao ponto de chamar o Dr. Lzaro para uma conferncia mdica.
     Ento o negcio est mesmo preto. Temos que ir at l imediatamente. Aqueles genros da Quita so umas bestas sem iniciativa e as mulheres deles umas dbeis mentais.
    Terminou de vestir-se, botou o revlver no coldre, preso ao cinto, enfiou o chapu na cabea, com a aba puxada sobre os olhos  mau sinal 1  pegou a mulher pelo brao d disse: Vamos embora!
    A praa fervilhava de gente, mais que nas manhs de domingo,  hora da sada da missa das onze. Tibrio caminhava olhando firme para a frente, mal respondendo aos cumprimentos que vinham dum lado e de outro. Levava na boca o fel da pesada sesta, no peito a tristeza que lhe causava a doena da velha amiga, e no corpo inteiro um dio suficientemente intenso para abranger todas as formas de esquerdismo imaginveis. De vez em quando, de lbios apertados, sussurrava: Felhos da pota.
    Estava o casal Vacariano j quase junto do coreto da praa quando o Dr. Lzaro lhe surgiu pela frente.
     Ento, doutor?  perguntou Tibrio.  Como vai a Quita?
    O mdico baixou tristemente a cabea.
     Sinto muito ter de dar-lhes uma tristssima notcia. D. Quitria acaba de expirar. Fizemos o possvel, o Dr. Falkenburg e eu. Enfarto do miocrdio.
    Agarrada ao brao do marido, D. Lanja rompeu a chorar em soluos convulsivos.
     Nada de espetculo  disse-lhe o marido.  Se voc tivesse morrido, garanto que a Quita saberia portar-se como uma dama. Pelo menos em pblico...
     Sabe duma coisa esquisita, coronel?  disse o Dr. Lzaro.  D. Quitria  a sexta pessoa que morre hoje na cidade.
     No diga! Quais foram as outras?
    O mdico fez com a cabea um sinal na direo do sobradinho de azulejos.
     O Prof. Menandro suicidou-se esta madrugada.
     Enforcou-se?
     No. Cortou as veias dos pulsos.
     Engraado, para mim ele sempre teve cara de quem ia se enforcar... Mas como  que ainda no me tinham contado?
     O corpo s foi encontrado h meia hora...
     E quem so os outros?
     O Barcelona  um deles...
     Esse vai em boa hora. Deus  grande. Quem mais?
     Os restantes so gentinha, com exceo do Joozi-nho Paz, que faleceu no hospital. Fui eu quem assinou o atestado de bito.
    D. Lanja olhou para a igreja e murmurou:
     Santo Deus, que est acontecendo com a nossa cidade? Seis mortos num s dia.
    Tibrio encolheu os ombros:
     Meu pai me contou que na revoluo de 93 s num dia morreram quinze pessoas num combate, aqui mesmo nesta praa. E durante a gripe espanhola, em 18, houve um dia em que dez antarenses bateram as botas...
    O Dr. Lzaro despediu-se do casal, dizendo que ia para casa dormir um pouco, pois havia passado a noite em claro atendendo a vrios de seus pacientes que no passavam bem.
    Os Vacarianos continuaram a andar na direo do pa-lacete dos Campolargos, diante do qual comeavam a formar-se grupos de curiosos e de amigos da famlia enlutada.
     Erga a cabea  sussurrou Tibrio  mulher.  Voc no  catlica? Pois ento. Imagine a Quita no Cu, entre os anjos, mais feliz que ns nesta terra entregues ao Jango Goulart, ao Leonel Brizola e aos seus pelegos...
    Entraram no prdio que, daquele momento em diante, para o reprter de A Verdade passaria a ser a casa morturia. D. Lanja dirigiu-se imediatamente para o quarto da morta. Queria ajudar as meninas a prepararem a sua amiga Quita para a Grande Viagem. Tibrio deixou-se ficar na sala de visitas, abraando e dando psames, frio e de m vontade, aos pastranas dos genros da defunta, que apresentavam aos visitantes caras tristonhas, mas que no fundo  sabia Tibrio  deviam estar felizes, pois, com a morte da velha no s se livrariam da ditadura da sogra como tambm entrariam na posse de todos os bens materiais do mais rico ramo da rvore dos Campolargos.
    
    VI
    Na opinio dos mais antigos habitantes de Antares, o velrio de D. Quitria foi o mais concorrido de quantos havia memria na crnica da cidade. As salas do primeiro andar do casaro passaram as primeiras horas da noite de quarta-feira abarrotadas de gente. Quando os galos comearam a cantar, anunciando um novo dia, grande ainda, excepcional mesmo, era o nmero de pessoas que mantinham a viglia. Segundo um dos genros da defunta, dentista de profisso e estatstico amador, a criadagem do palacete serviu durante toda a noite oitocentas e quatro xcaras pequenas de caf, cento e cinqenta e duas taas de ch, trezentos e oitenta sanduches de presunto e queijo, trinta bandejas de doces, e cento e cinco tigelinhas com sorvete (abacaxi e limo). Ao raiar do dia, dois pees da estncia vieram preparar churrascos para o ltimo peloto.
    Tibrio e Lanja estavam entre os amigos fiis que viram a primeira luz do novo dia entrar pelas janelas escancaradas para o nascente e iluminar a face de sombria cera da morta, que l estava no seu caixo forrado de seda branca.
    Durante aquela noite, a intervalos, Tibrio aproximara-se do esquife e ab se deixara ficar, olhando longamente para a velha amiga defunta. De vez em quando tocava-lhe a testa fria com as pontas dos dedos. Depois saa, em busca de ar fresco, ia caminhar no jardim dos fundos da casa. Fazia um calor opressivo na cmara ardente, onde umas velhotas da gerao de Quitria Campolargo mantinham-se sentadas em cadeiras enfileiradas contra uma das paredes, formando uma espcie de friso mvel e falante.
    A romaria  manso dos Campolargos havia comeado ao anoitecer. Os quatro genros andavam dum lado para outro, solcitos, recebendo abraos de psames, mas j assustados, pensando nos perigos daquela aglomerao de homens e mulheres  alguns de pouca ou nenhuma intimidade da famlia, outros completamente desconhecidos  naquela manso cheia de objetos finos, raros e caros, estatuetas, relgios de ouro e prata, vasos, camafeus, medalhas, cinzeiros. Tinha sido um erro imperdovel no terem escondido todas aquelas preciosidades antes que comeasse a romaria. Os quatro genros, porm, foram pouco a pouco metendo alguns desses objetos nos bolsos e levando-os das salas da frente para as dos fundos, e fechando-os a chave em arcas e cmodas.
    Houve, porm, um momento em que tiveram de interromper esse trabalho, pois mal se livravam dum abrao j eram envolvidos por outro. O genro veterinrio estava consolando um velho amigo de D. Quita, que chorava no seu ombro, quando viu entrar na cmara ardente D. Filadlfia, a mais notria cleptmana municipal, trazendo como sempre pendente dum brao a sua famosa bolsa de pano bordado, o terror dos proprietrios de lojas da cidade. Descendia essa senhora duma famlia antarense tradicional e era casada com um coletor federal aposentado, homem srio e pacato, a quem a doena dela causava freqentes vexames.
    O veterinrio desvencilhou-se do velho carpidor e foi prevenir discretamente os cunhados: Alerta  cochichou.  D. Filadlfia acaba de chegar.  preciso ficar de olho nela. Lembrou-se da medalha militar que o velho Benjamim Campolargo ganhara na Guerra do Paraguai e que estava no seu estojo de veludo roxo, dentro dum armrio de vidro, cercado de camafeus. O dentista lembrou-se, num susto, de que esse armrio se achava aberto, pois sua chave havia desaparecido inexplicavelmente.
    A cleptmana abriu caminho por entre a massa humana suarenta aglomerada na sala, aproximou-se duma mesi-nha com tampo de mrmore, onde havia vrios objetos decorativos, abriu a bolsa, deu um piparote numa colher, cujo bojo era feito duma moeda de prata do tempo do Imprio, fazendo-a cair dentro da bolsa entreaberta. Olhou dum lado para outro para verificar se algum lhe havia percebido o gesto... Com outro piparote fez tombar dentro-- da bolsa um pequeno cinzeiro de ncar. Nesse instante algum em algum lugar da sala bateu com o cotovelo num vaso de cermica, que caiu e se partiu em cacos. Algumas pessoas estremeceram. Pela primeira vez em toda a sua vida Quitaria
    Campolargo no fez o menor movimento de susto ou irritao, como acontecia sempre que ouvia em casa o rudo de vidro ou loua que se parte. Continuou quietinha no seu caixo de pau-marfim com ornamentos de bronze, que mandara fazer para si mesma na melhor casa de pompas fnebres de Antares, pouco depois da morte do marido. Ao redor do esquife as coroas e os ramilhetes de flores se iam acumulando aos poucos.
     meia-noite D. Filadlfia empalmou uma caixa de rape de loua pintada que, assegurava o dentista, era austraca e datava de 1810. Depois ficou junto do caixo contemplando com olhos midos e tristes a face da falecida.
    
    VII
    Tibrio Vacariano achava-se no jardim, sentado a uma mesa de ferro, sozinho, pensando em coisas... A noite estava morna, o ar quedo e impregnado da fragrncia das madres-silvas e dos jasmineiros. Tibrio chamou uma das mulati-nhas da casa e pediu-lhe uma xcara de caf, enquanto em pensamentos lhe acariciava os seios pontudos. (Que estaria fazendo a Cleo quela hora?) O caf veio sem demora. Tomou um gole e fez uma careta. Requentado! Acendeu um palheiro, tragou a fumaa, soltou-a pelo nariz. Havia no jardim outros homens, que conversavam, alguns em voz alta, contando estrias alegres. Um deles aproximou-se do coronel, que o espantou com sua cara amarrada e o seu silncio. Estava irritado, infeliz. Sentia a morte da amiga. Com quem  que ia agora brigar com gosto? Quitria era a nica pessoa em toda Antares que tinha a coragem de dizer-lhe verdades e de contradiz-lo. Alm de tudo ele sentia aquela greve geral como um insulto dirigido  sua pessoa,  sua autoridade,  sua fazenda. E as suspeitas de que Cleo pudesse quela hora estar na cama com outro homem  possivelmente um rapazola  causavam-lhe um sentimento de frustrao, de revolta misturada com vergonha.
    Cerca das onze e meia da noite, o Maj. Vivaldino Brazo desceu para o jardim dos Campolargos e aproximou-se de Tibrio. Trazia uma cara de mau agouro. Sentou-se pesadamente junto do amigo e fitou nele o olhar entre espantado e triste.
     Aposto como me trazes ms notcias. Desembucha logo.
     O Ccero Branco morreu.
     Qu?  Vacariano entesou o busto, como que galvanizado, e com um gesto brusco do brao jogou longe a xcara e o pires, que se partiram nas lajes.
     No pode ser!  exclamou.  Faz menos de duas horas que eu vi o Ccero aqui no velrio, olhando o corpo da Quita. Ele at falou comigo. Me lembro bem das palavras dele. Antares perdeu uma grande dama.  Vivaldino, voc est brincando, no est?
    O prefeito sacudiu a cabea numa negativa desalentada, ao mesmo tempo em que passava o leno pelo rosto reluzente de suor.
     Coronel, com essas coisas a gente no brinca. Estou lhe dizendo que o Ccero Branco morreu. No faz nem meia hora. O corpo ainda deve estar quente.
     Mas como foi isso, homem de Deus?
     Quando ele saiu daqui, foi direito pra casa e no meio da praa teve um troo e caiu de repente. A mulher, que ia com ele, comeou a gritar. Umas pessoas que andavam por ali botaram o Ccero dentro dum auto e levaram ele para o hospital, aonde o corpo chegou j sem vida.
     Corao?
     Derrame cerebral. Fulminante.  a stima pessoa que morre hoje em Antares.
    Os dois homens ficaram a mirar-se num silncio omi-noso.
     E ele lhe entregou a letra?  indagou Vacariano, temendo j a resposta que ia ouvir.
     Tinha prometido entregar hoje de manh...
     Mas entregou ou no?
     No.
     Mas por qu?
     Porque teve de ir inesperadamente a So Borja tratar de negcios. Voltou ao anoitecer e disse que nos entregava o documento amanh de manh.
     Estamos jodidos e mal pagos  murmurou Tibrio.
     E judicialmente a gente no pode fazer nada sem se comprometer.
     Isso eu sei, homem. Mas precisamos resolver logo esse problema. Eu vou ter um particular com a viva, o quanto antes. Ela precisa saber que do dinheiro que o marido tem nos bancos no nome dele, mais de um tero nos pertence.
     Mas acha que ela vai querer perder essa bolada?
     D-se um jeito. O importante  agir antes que um advogado se meta no assunto. Temos conosco aquele documento assinado pelo Ccero declarando que  nosso scio e que essas promissrias, etc etc... voc sabe bem como  a coisa.
     Acho perigoso revelar tudo isso  viva.
     Quem tem medo de perigo  retrucou Tibrio, entre duro e jocoso  no tem o direito de estar vivo.
    Novo silncio. Vaga-lumes pontilhavam de verde o ar da noite. Tibrio Vacariano comeou a falar baixinho, como para si mesmo:
     1963... Ano mpar, ano de azar. No rima mas  verdade.
     No acredito nessas coisas, coronel, como no acredito em almas do outro mundo.
     Melhor pra voc. Eu meio que acredito em nmeros. Meu pai morreu em 25. Em 35 perdi uma tropa inteira naquele desastre da ponte... Minha me faleceu em 1921. Meu irmo Porfrio, em 1923. Sofri daquela elica de rim em 1939. O Jnio Quadros renunciou em 1961. E agora tudo isso... A morte da Quita, do Ccero, a greve geral, as loucuras do Jango e do Brizola... toda essa anarquia nacional...
    
    VIII
    s dez da manh do dia seguinte a cidade inteira j sabia que, desde o nascer do sol, o cemitrio local estava interditado pelos grevistas, os quais, formando uma barreira humana  uns trezentos e cinqenta ou quatrocentos homens de braos dados  no tinham permitido que fossem enterradas as cinco pessoas falecidas na vspera.
    Mas que pretendem eles com essa atitude to antiptica?  perguntava-se. A resposta era, quase invariavelmente: Fazer presso sobre os- patres para conseguir o que querem.
    Inocncio Pigaro, delegado de polcia de Antares, queria romper a linha dos grevistas a bala. O prefeito, porm, repeliu a idia. No s procurava evitar derramamento de sangue, como tambm sabia que o municpio no dispunha de guardas em nmero suficiente para enfrentar os pare-distas.
     Que se faz ento?  quis saber o delegado.  Parlamentar com os desordeiros? No contem comigo para essa palhaada.
     No  respondeu Vivaldino Brazo.  Vamos esperar. Estou certo de que os operrios no tero o topete de impedir o sepultamento duma dama como D. Quitria Cam-polargo. A prova dos nove portanto vai ser tirada hoje de tarde,  hora do enterro da velha.
    s quatro horas da tarde o fretro de Quitria Campo-largo foi conduzido a pulso de sua casa at  Matriz e colocado em cima dum catafalco,  frente do altar-mor. Nesse curto trajeto dezenas de pessoas das mais representativas de Antares disputaram a honra de segurar-lhe as alas ou pelo menos de toc-las, num gesto simblico. Rezou-se uma missa de corpo presente. No dizer de D. Briolanja Vacariano a igreja estava to cheia que no cabia nela nem mais um suspiro. Todos os assentos estavam ocupados, e havia gente de p nos corredores entre as duas fileiras de bancos, e ainda nos espaos laterais, sob as naves, e tambm no fundo do templo.
    Encostado numa coluna, mas vestido de escuro,  burguesa  fatiota completa com colarinho e gravata  o cronista social de A verdade tomava mentalmente nota da maneira como estavam vestidas as figuras mais destacadas do caf society de Antares presentes quela cerimnia fnebre. Junto da pia batismal, logo  entrada da igreja, dois senhores calvos, de meia-idade, discutiam em cochichos a legtima de D. Quitria: concordavam quanto  extenso e  qualidade dos campos das estncias, a quantidade aproximada de gado bovino e de cavalos, tinham dvidas quanto ao valor dos ttulos que a falecida possua e discrepavam quanto aos imveis de propriedade da defunta. Ambos, porm, estavam de perfeito acordo num ponto: os quatro genros, em matria de dinheiro, podiam ficar despreocupados pelo resto de suas vidas, os felizardos!
    Com lgrimas nos olhos e na voz, o Pe. Gerncio Albuquerque fez o elogio da defunta  a mais fiel das esposas, a mais extremosa das mes, a mais dedicada das amigas: incomparvel dama de caridade, grande patriota, protetora dos pobres e dos desamparados  e encomendou sua alma a Deus.
    Terminada a missa, o caixo, coberto com a bandeira dos Legionrios da Cruz, foi carregado para fora da Matriz pelos parentes mais chegados da defunta e colocado no carro fnebre. Havia tanta gente  frente da igreja que os guardas municipais tiveram de intervir, a fim de abrir alas para as damas e os cavalheiros que se encaminhavam para os seus carros. Vendo aquela multido de criaturas humildes que se acotovelavam no af de se aproximarem do caixo de Quitria Campolargo, para toc-lo nem que fosse apenas com a ponta dos dedos, como se se tratasse dos restos mortais duma santa  um ancio que descia as escadas do templo amparado no brao da filha, murmurou, os lbios trementes: Que consagrao!
    Formou-se finalmente o cortejo.  frente ia a Banda Municipal Carlos Gomes, vinte e dois msicos que, a um sinal do Lucas Faia  encarregado pelo prefeito e pela famlia enlutada de dirigir a procisso  romperam a tocar algo que poucos na multido conseguiram identificar como a Marcha Fnebre de Chopin, pois, embora as duas clarinetas e os dois pistons conseguissem emitir sons que se pareciam com o da conhecida composio, uns trombones alucinados tomavam a liberdade de enxertar notas que o compositor jamais escrevera para aquela pea, um flautim frentico entrava em tremolos desesperados, talvez com a louvvel inteno de simular soluos, enquanto uma tuba roncava como um animal ferido no fundo duma toca, e um tambor surdo, coberto de crepe, tentava, mas em vo, marcar a cadncia da marcha. Lucas Faia aproximou-se do maestro e recomendou: Devagar, chefe, para o povo poder acompanhar a p o enterro!
    A poucos metros atrs da banda, vinham trinta e trs garbosos cavalarianos, escolhidos a dedo, e pertencentes ao Centro de Tradies Gachas Chimarro da Saudade, do qual D. Quita havia sido scia fundadora, alm de mecenas e prenda honorria. Comandava o grupo o Nico, sobrinho-neto de Tibrio Vacariano, rapaz melenudo de nariz grande, cara pequena e bastos bigodes negros, que lhe desciam espessos pelos cantos da boca, dando-lhe ares dum faanhudo guerreiro trtaro. Estava ele ladeado por dois companheiros, um dos quais empunhava a bandeira brasileira presa a um mastro de guajuvira e o outro uma bandeira do Rio Grande do Sul amarrada  lana que o av de D. Quitria usara na Guerra dos Farrapos.
    Os outros cavalarianos formavam seis filas de cinco centauros cada uma. Pareciam um museu vivo da indumentria gauchesca. Viam-se no grupo campeiros do Rio Grande do Sul trajados no s  maneira de princpios do sculo passado, lembrando gravuras antigas (xirips coloridos, ce-roulas de renda de crivo, botas de anca de potr, vinchas ao redor das cabeas) como tambm gachos de pocas mais recentes, de bombachas, botas de fole e chapus de abas largas. Estavam todos bem montados, em belos cava-los aperados a capricho  e suas facas, pistolas, estribos e esporas reluziam ao sol daquela tarde de vero.
    Poucos metros atrs dos rapazes tradicionalistas rodava o coche fnebre, seguido de dois outros carros abertos atestados de coroas de flores naturais e artificiais. Seguiam-se, em solene lentido, os automveis que traziam autoridades municipais, estancieiros, comerciantes, industriais e outros membros da alta burguesia local: Mercedes, Impalas, Cadillacs, Oldsmobiles. Chryslers e outros carros caros. Lucas Faia tivera o cuidado de colocar todas essas viaturas na sua ordem hierrquica, pois as menores, de origem inglesa, francesa e principalmente os Volkswagen, eram os ltimos da longa fileira. Fechava o cortejo a massa humana que se arrastava annima e a p. (Os pesquisadores do Prof. Mar-tim Francisco Terra que, fazia poucos meses, tinham estudado a anatomia de Antares, na certa no deixariam de anotar aquele escalonamento social em termos de veculos.)
    
    IX
    O cortejo fez a volta da praa, e depois entrou na Rua Voluntrios da Ptria, que o levaria em linha reta e em suave aclive, at ao topo da colina onde se achava a cidade dos mortos.
    Era uma tarde luminosa. Uma brisa morna trazia at  cidade o cheiro acre de macegas queimadas. D. Filadlfia, sentada ao lado do marido, no Chevrolet da famlia, olhou para o firmamento azul e lmpido e suspirou: Que beleza de cu! Parece uma taa de porcelana. O ex-coletor, amargurado por causa do comportamento indigno da esposa no velrio de Quitria Campolargo, murmurou: Graas ao bom Deus essa taa no cabe na tua bolsa.
    Quando o cortejo se achava j prximo do cume da colina, o Pe. Gerncio olhou para a esquerda, avistou o casario pardo da Babilnia e choramingou: Os pobres de Antares perderam a sua mezinha. Isso bastou para que D. Lanja desatasse de novo o pranto.
    Tibrio remexia-se, inquieto, esticando o pescoo para enxergar o caminho por cima dos ombros do chofer, pro- curando ver se os operrios continuavam a bloquear a entrada do cemitrio. Estava armado, pronto para o que desse e viesse.
    De repente o cortejo estacou. Tibrio viu o Nico trazer seu cavalo a galope at junto do carro do prefeito.
     Que  que h, moo?  perguntou este ltimo.
     Os grevistas continuam fechando o cemitrio. Esto formados numa fila dupla. Calculo que so uns quatrocentos... ou mais.
    As ruas que partiam do corao da cidade, colina acima, terminavam todas numa esplanada, no centro da qual ficava a necrpole. Muitos prefeitos haviam prometido transformar aquele espao num parque ou num jardim, mas at agora o planalto continuava abandonado s ervas daninhas e s formigas.
     Quais so as ordens?  perguntou o patro do C.T.G.
     Tocar pra diante!  disse o prefeito.  Os homens descem na frente do cemitrio, mas as mulheres devem ficar nos carros.  Olhou para o moo crinudo:  Leve os seus gachos e forme com eles uma fila simples na frente dos grevistas... mas no muito perto. Digamos... uns cinqenta ou sessenta metros. Se houver provocao, que no parta da nossa gente. Entendido?
     Entendido  respondeu o rapaz, dando de rdea e voltando a galope para retomar o comando do seu piquete.
    O cortejo continuou a marcha.
     Que foi que houve?  perguntou D. Briolanja ao marido.
     Nada!  respondeu Tibrio, seco.  Fique quieta e pare de chorar.
     Minha Nossa Senhora!  exclamou ela.  Deus parece que se esqueceu de Antares.
     Nada de pnico!  repreendeu-a o marido, cujas narinas palpitavam na excitante expectativa dum entrevero. - E o senhor, vigrio, tambm no se alarme. Acho melhor no descer do carro. Fique com as damas.
     Ora essa, coronel, no sou nenhum covarde.
     Desculpe. Como o senhor ainda usa saia eu me enganei. Ento venha.
    O cortejo de novo parou, dessa vez j na esplanada, a uma quadra do cemitrio. Vacariano abriu a porta do seu carro e precipitou-se para o grupo que se formara junto da carruagem frlebre: os quatro genros da morta, o prsfeito, o juiz de Direito, o Prof. Libindo, o Dr. Lzaro, o Dr. Falkenburg, o Lucas Faia e outras pessoas representativas da sociedade local. Agora podiam ver melhor os grevistas, que estavam mesmo de braos enlaados, formando uma cadeia, e err. fila dupla, em toda a extenso do muro fronteiro do cemitrio. Nico calculara certo: seriam uns quatrocentos e poucos homens. Tibrio reconheceu,  frente deles, o vulto imponente de Geminiano Ramos, ladeado por dois companheiros.
    O delegado Inocncio Pigaro aproximou-se do Maj. Vivaldino, seguido por vinte guardas da polcia municipal.
     Me d luz verde  disse  e eu arrebento essa linha a bala!
    O prefeito, o juiz. Tibrio Vacariano e o vigrio entreo-lharam-se, em silncio. Os quatro genros de Quitria Cam-polejgo, a curta distncia do grupo das autoridades, estavam encolhidos e plidos de medo.
     No  disse o Maj. Brazo.  Nada de violncia, delegado. Vamos tirar o caixo do carro e caminhar para o cemitrio como se nada de anormal estivesse acontecendo. .Agiremos depois de acordo com as circunstncias.
    Os outros concordaram com acenos de cabea. Vacariano de instante a instante apalpava o revlver que trazia agora no bolso direito do casaco.
     E voc, Inocncio  acrescentou o prefeito  voc nos siga com seus homens, mas no faam nem digam nada sem ordem minha. No me desobedeam!
    O delegado, com um brilho mau nos olhos, no disse palavra, voltou as costas para o major e foi dar instrues aos seus guardas. Os quatro genros, atemorizados, pegaram nas alas do caixo da sogra e puxaram-no do carro fnebre e, aps um instante de hesitao, comearam a andar, muito devagar, na direo da entrada da necrpole. O povinho que acompanhara o cortejo fnebre, estava agora tambm na esplanada  frente do cemitrio, formando um semi-crculo irregular, espcie de anfiteatro em cuja arena estava por se representar o que o Prof. Libindo Olivares imaginava pudesse ser uma rstica tragdia grega e Lucas Faia, uma comdia provinciana macabra.
    Geminiano e seus companheiros comearam a movimentar-se na direo das autoridades. (Que alvo!  pensou Tibrio, olhando para o vulto do chefe dos grevistas.  Que alvo! Um tiro naquela pana era fcil de acertar...)
    Os genros caminhavam em passadas cada vez mais lentas e hesitantes. Geminiano ergueu o brao:
     Alto l, minha gente! Faam o favor de largar no cho esse esquife, que a nossa conversa vai ser meio demorada.
    Vivaldino estacou, abriu as pernas, ps as mos nos quadris, ergueu a cabea, autoritrio, e bradou:
     Com ordem de quem... ?
     Epa l, major!  interrompeu-o o vozeiro de Geminiano.  No nos venha com gritos e bravatas. O melhor  a gente discutir a coisa direitinho na calma. Para principiar, no precisamos licena de ningum pra parar na frente do cemitrio.
    Os genros depositaram o fretro da sogra no cho, esmagando algumas formigas que ali caminhavam em fila dupla, na mesma direo mas em sentido contrrio, e na mais rigorosa neutralidade.
     Mas, afinal de contas, que  que vocs querem?  indagou o prefeito.
     O cemitrio est fechado. Este cadver no pode ser sepultado.
     Mas isso  uma barbaridade! O cemitrio pertence ao municpio!
     Os coveiros esto em greve.
     Ridculo! So empregados pblicos. E onde est o zelador do cemitrio?
     Em casa e em greve tambm.
    Tibrio Vacariano, j respirando acelerado, continha-se a custo. Queria precipitar-se sobre Geminiano e esbofe-te-lo. Mas o Dr. Lzaro segurou-lhe o brao e disse:
     Calma, coronel. Tenha pacincia. No perca as estribeiras. Pense no seu corao.
     Nesta hora o nico rgo que funciona no meu corpo so os testculos.
     Onde esto os coveiros?  perguntou o prefeito. Geminiano voltou a cabea para trs e fez um sinal
    com a mo. Trs vultos destacaram-se da fileira de grevistas e deram alguns passos  frente. Vinha com eles um homem moo, vestido de alpaca cinzenta, com colarinho clerical. Era o Pe. Pedro-Paulo, capelo da Vila Operria. Va-cariano voltou-se para o velho vigrio, que estava a poucos passos atrs dele, e resmungou: Est vendo quem vem vindo l... quem est do lado dos grevistas? O safado do Padre Vermelho. Esse comunista filho duma grandessssima... Engasgou-se antes de terminar o insulto. Calma, coronel  murmurou o Dr. Lzaro.
    Os trs coveiros aproximaram-se de Geminiano e permaneceram a seu lado. Eram homens magros de pele e vestes encardidas, em mangas de camisa e calas remendadas. Recendiam a suor muitas vezes dormido. Um deles estava de ps no cho e os outros dois calavam velhas alpargatas.
     Eis os seus funcionrios, Maj. Vivaldino. Esto em trajo de gala, como todos podem ver.
     Mas que negcio  esse?  perguntou o major, dirigindo-se aos coveiros.  Vocs so empregados da prefeitura. Abram j-j a porta do cemitrio e sepultem o caixo da D. Quitria Campolargo. E uma ordem do prefeito!
    Os trs homens olhavam para o cho, sem coragem de encarar seu chefe.
     Eles tambm querem um aumento  disse o Pe. Pedro-Paulo.  Vivem com um salrio de fome. Todos os trs tm famlias numerosas. H anos que ganham o mesmo ordenado miservel.
     E isso ser da sua conta?  gritou o Cel. Vacariano, olhando com rancor para o jovem padre.
     Isso  da conta de toda a populao de Antares  replicou Pedro-Paulo.
    O prefeito continuava a encarar o lder grevista-.
     Mas que  que vocs industririos tm a ver com os coveiros?
     Eles aderiram  nossa greve. Ns os protegeremos at o fim.
     No acredito!  exclamou Tibrio.  Esses homens esto sendo forados a se meterem na greve. Eles nem sequer sabem direito o significado dessa palavra.
     Sabem melhor do que voc!  retrucou Geminiano.
    Tibrio Vacariano desvencilhou-se de seu mdico, atirou-se contra o lder grevista, j de revlver em punho. Geminiano quebrou o corpo, segurou a mo direita de seu agressor, ergueu-a para o ar e em poucos segundos desarmou-o. Depois, sem dizer palavra, encostou-lhe na cara a mo espalmada e empurrou-o com fora, fazendo-o cair sentado no cho. O delegado de polcia avanou, tambm de pistola na mo, seguido do patro do Chimarro da Saudade, mas o prefeito os conteve com gritos e gestos. O chapu cado no solo, a seu lado, ofegante, babando-se de dio, Tibrio Vacariano olhava para Geminiano que, com a maior pachorra, tirava as balas do seu revlver  relquia paterna, companheiro de incontveis pelejas, jamais cado em mos inimigas. O jornalista, o professor e o juiz procuravam conter o delegado e o patro do C.T.G., que insistiam em investir contra Geminiano e seus companheiros, fosse como fosse. Pedro-Paulo continuava ao lado dos coveiros.
    Geminiano meteu as balas no bolso e depois atirou a arma aos ps do patriarca da famlia Vacariano, que j agora se erguia, ajudado pelo seu mdico.
     Guarde essa porcaria, velho bobo! E convena-se de que os tempos mudaram. Antares no  mais propriedade sua.  Voltou-se para o prefeito.  E agora vamos conversar como gente grande. E de igual pra igual. Os senhores j viram que no temos medo de caretas.
     Major  gritava Inocncio  d a ordem e ns abriremos caminho a bala!
     Essa eu pago pra ver!  sorriu o chefe dos grevistas.  Somos uns quatrocentos aqui, e estamos armados. Temos mais gente na cidade tambm armada e disposta a tudo.
      uma sedio!  exclamou o juiz de Direito.
    O delegado reps sua arma no coldre, com certa relu-tncia. O patro do C.T.G. aproximou-se do prefeito e disse-lhe ao ouvido:
     Meus cavalarianos esto dispostos a fazer uma carga contra os grevistas. S esperamos uma ordem sua.
    Um companheiro que lhe seguira no encalo, atirou-lhe gua fria no entusiasmo:
     Escuta, ch, te lembra que nossos revlveres esto descarregados. E alguns companheiros trazem garruchas que no funcionam h quase cem anos.
     Pois ento  replicou o Nico  vamos de adaga, faca, pata de cavalo e rebenque.
    O Prof. Iibindo segurou-lhe o brao:
     Calma, calma. Com violncia no arranjamos nada. E citou uma frase latina.
     Mas estamos sendo desmoralizados na frente do povo de Antares!  exclamou o rapaz.
     Espere  disse o prefeito  a razo est do nosso lado.
    O Dr. Lzaro tentou levar o Cel. Tibrio de volta para o seu automvel, mas no conseguiu. O velho pedia balas, de calibre 38  quem tinha balas para lhe dar? Quem tinha vergonha na cara para reagir?
    Por um instante uma orqudea passou grcil e veloz pelo pensamento de Vivaldino Brazo.
     Mas, afinal de contas, que pretendem os senhores grevistas com essa atitude inslita?  perguntou o juiz de Direito.
     Aumentar nossa presso sobre os patres e fazer triunfar a nossa causa.
    O magistrado fez um sinal na direo do esquife.
     Mas que  que essa senhora tem a ver com a greve?
     Com a nossa, nada. Mas com a dos coveiros, muito. Foi nesse momento que o Prof. Libindo, que andara
    aflito dum lado para outro acalmando os nimos com citaes de Goethe, Confcio e Plato, interveio:
     Est bem. Senhor prefeito, sugiro que s dispensem os coveiros. Ns mesmos sepultaremos D. Quitaria.
    Geminiano sacudiu vigorosamente a cabea flamenga.
     Nada feito! Resolvemos em assemblia geral, anteontem, que s permitiremos o sepultamento, seja de quem for, depois que os patres atenderem s reivindicaes salariais de todos ns.
     Mas isso  uma chantagem, alm dum acinte, duma vergonha!  reagiu o prefeito.
    Pedro-Paulo apontou para o nascente, na direo da Babilnia.
     Acinte? Vergonha? E aquela favela que ? O orgulho de Antares?
    Tibrio Vacariano, que havia recobrado flego, olhou colrico para o capelo da Vila Operria:
     Um sacerdote de Deus metido com comunistas 1
     Eles no so comunistas, coronel, so grevistas  disse Pedro-Paulo.
    Tibrio voltou-se para o Ps Gerncio, que estava de cabea baixa como que atento  marcha das formigas:
     Vigrio, envie uma denncia ao bispo desta diocese e consiga que mandem esse padre subversivo para longe daqui!
     O senhor bispo  respondeu o vigrio em voz baixa  est bem informado das atividades e idias do Pe. Pedro-Paulo.
     Pois eu j no confio mais nos bispos. ..  retrucou Vacariano.  Nem no Papa. Esto todos a soldo de Moscou !
    
    X
    O juiz de Direito olhou para Pedro-Paulo:
      estranho que o senhor tenha concordado com a deciso que os grevistas tomaram de impedir os sepultamen-tos.  um ato sacrilego.
     Eu no concordei, ao contrrio!  explicou o capelo.  Estou ao lado dos grevistas nas suas reivindicaes trabalhistas. Fiz o que pude para evitar... isto. Mas no consegui convenc-los. Sinto muito.
    O Pe. Gerncio olhava agora tristemente para o esqui-fe, murmurando:
     Todos os mortos merecem o nosso respeito. Ricos e pobres. Brancos e pretos. Devemos venerar os mortos.
      curioso  retrucou Pedro-Paulo  estranho que haja tanto respeito pelos mortos e to pouco pelos vivos.  Encolheu os ombros.  Claro!  fcil ser justo e compreensivo para com os que morrem. Basta enterr-los... e eles nos deixam em paz. Agora,  difcil compreender e ajudar os vivos vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano, ano aps ano...
    O sol caa para as bandas do grande rio e sua luz aos poucos se abrandava.
    O prefeito olhou firme para Geminiano :
     Fao-lhes mais um apelo. Deixem-nos sepultar essa santa senhora.
     Nossa resposta  no. J temos cinco caixes en-fileirados diante do cemitrio. Num deles est o corpo dum proletrio, dum velho companheiro de luta. Como vem no abrimos exceo para ningum.
     Essa  a sua ltima palavra?
     E, Pedra e cal.
     Mas a soluo para a greve pode demorar  observou o Prof. Libindo.  Esses cadveres no podem permanecer tanto tempo insepultos.  um perigo.
     Podem, sim  replicou Geminiano.  Os mortos no reclamam. Os mortos tm uma pacincia inesgotvel.
    O prefeito reuniu seus companheiros  o Cel. Tibrio, o juiz, o padre, o jornalista, o professor e algumas pessoas gradas, inclusive os quatro genros da defunta  e confa-bulo com eles. Depois de alguns minutos voltou-se para Geminiano, dizendo em voz alta, como se estivesse discursando para a multido:
     Senhoras e senhores, resolvemos, sob protesto, levar o esquife de D. Quitria de volta para a cidade e esperar o desenvolvimento dos acontecimentos. E desde j responsabilizo os grevistas, na pessoa do Sr. Geminiano Ramos, pelo que possa acontecer em conseqncia de toda essa loucura inaudita. (O prefeito disse inaudita.)
    Geminiano sorriu com malcia:
     Eu j esperava esse truque. Nossa resposta  negativa. Vocs levam o esquife pra cidade e enterram ele noutra parte... na estncia da finada, por exemplo. O caixo vai ficar  aqui com os outros cinco. Guardaremos o corpo de D. Quita como refm.
    Houve entre os pr-homens de Antares um fundo silncio de espanto e indignao. O Pe Pedro-Paulo aproximou-se do lder operrio:
     Gemini ano, quem sabe podemos chegar a um acordo menos...
     Nada disso, padre! Temos de dar duro. O senhor no conhece direito essa gente.
     Pense na impopularidade que essa atitude dos grevistas vai trazer para a causa da greve.
     Estou cumprindo as decises da assemblia geral. O senhor estava na reunio e ouviu tudo. A idia no foi minha. Nem sua. Foi da maioria. E vai ser cumprida.
    
    XI
    O povo seguia a cena num silncio ominoso.
    Lucas Faia, postado entre Geminiano e Vivaldino, discursou:
     Distintas autoridades! Senhores! Amigos! Temos que usar do bom-senso numa situao como esta. As recri-minaes ficam para depois. Ou para nunca. Somos todos irmos. Ningum  perfeito. O importante, me parece,  evitar o sangue e a violncia. Assim, proponho que deixemos o esquife de D. Quitria aqui esta noite sob a custdia dos grevistas, a cuja dignidade apelamos.  possvel que amanh de manh ou mesmo esta noite tenhamos respostas satisfatrias para os operrios, vindas das matrizes do Frigorfico e da Franco-Brasileira.
    A proposta foi recebida em silncio pelo prefeito e seus amigos. O Cel. Vacariano sacudiu negativamente a cabea, murmurando: Por mim, abria-se caminho a bala e pata de cavalo. Os rapazes do Chimarro da Saudade esto dispostos. Faremos como nas guerras antigas. Na do Paraguai e na de 35 a cavalaria gacha arrebentou muitos quadrados inimigos. No transijo com cafajestes.
    Lucas Lesma esperou que o velho terminasse de falar, e depois continuou:
     Geminiano  disse, aproximando-se do lder grevista.  Voc me conhece h muitos anos. Meu jornal no tem sido desfavorvel s suas causas. E voc sabe que sou amigo do proletariado sem ser inimigo dos patres. Sou um homem sem partido nem paixes.
     Vamos, Lucas, diga logo o que  que voc quer.
     Voc me garante, sob palavra de honra, que este esquife no ser violado esta noite?
     Ora, homem, deixe de besteiras, no existem entre ns necrfilos nem vampiros.
    De novo o prefeito, o juiz, o vigrio, o mdico, o delegado e o Cel. Vacariano confabularam em voz baixa. Este ltimo props voltar para a cidade, reunir os seus caboclos, arm-los, tornar  esplanada e romper as fileiras proletrias usando da maior violncia possvel, pra que isso sirva de escarmento a esses bandidos comunistas. O vigrio limitou-se a baixar a cabea, mas o juiz disse:
     Como estamos em minoria, acho a proposta do Lucas aceitvel.  a nica coisa sensata que podemos fazer no momento. Voltemos para as nossas casas e demos tempo ao tempo.
     E assim ficaremos desmoralizados pelo resto da vida  criticou-o o patriarca dos Vacarianos.
     Coronel,  explicou o prefeito  perderemos esta batalha mas ganharemos a guerra. No seja assim to pessimista.
    Uma catlia acenou-lhe de longe, em seus pensamentos. Vivaldino voltou-se para Geminiano:
     Onde deixamos o esquife?
     Junto com os cinco que l esto perto do muro do cemitrio.
     Vocs o carregam?
     No. Carreguem vocs que so donos da defunta. Os quatro genros, que suavam frio, tornaram a segurar as alas do caixo da sogra, ergueram-no e encaminharam-se com passos incertos e cambaleantes de bbedos rumo do cemitrio. Na fileira dos grevistas abriu-se um pequeno claro para deix-los passar.
     Onde colocamos o fretro?  perguntou o genro farmacutico.
     Perto desse a.  o caixo dum indigente. No tenham receio. Pobreza no  doena contagiosa.
    Os genros obedeceram. Lanaram um rpido olhar para o belo esquife da sogra e depois se afastaram rpidos, voltando para o seu grupo.
    Quando o Maj. Vivaldino se encaminhava para o seu carro, seguido pelos companheiros, a multido, que at ento se mantivera um tanto distante das personagens principais do drama, aproximou-se dele, cercando-o. Antes de entrar no seu Mercedes o prefeito aproveitou a oportunidade para fazer um pequeno discurso:
     H momentos na vida dum homem pblico  disse com voz grave, erguendo a mo direita com o indicador teso  em que seu maior ato de coragem  o de passar por fraco, por covarde aos olhos do povo. Mas que ningum interprete mal o que acaba de acontecer,  o que eu desejo e espero! Isso no vai ficar assim! To certo como existe um Deus no Cu, hei de responsabilizar os grevistas na pessoa de seu chefe Geminiano Ramos, no s por desacato s autoridades constitudas como tambm por esse sacrilgio infame de impedir o sepultamento de uma das damas mais ilustres e queridas de nossa sociedade. Os senhores foram testemunhas da nossa pacincia e da nossa tolerncia. No permiti que a minha polcia atirasse nos grevistas para evitar uma... um massacre. Mas quero comunicar ao povo de Antares que tenho foras suficientes para abafar qualquer tentativa de subverso da ordem, venha de onde vier. Tenho dito.
    Calou-se. Ouviu-se um vago muito bem no meio da multido. No houve, porm, aplausos. Vivaldino tornou a apresentar condolncias aos quatro genros. (Os senhores viram. Fizemos o possvel. Mas tenham pacincia. A coisa no fica assim.) Abraou um a um os quatro homens de preto, os quais em seguida se dirigiram em silncio, luto no corpo e nas faces, rumo de seus carros, onde as respectivas esposas os esperavam aflitas.
    No momento em que eles passavam por dois sujeitos que estavam sentados em cima duma pedra, um destes, o que picava um pedao de fumo em rama, murmurou para o outro:
     Viste a cara dos genros da velha Quita?
     Vi. Coitados.
     Coitados? Coitado de mim que no recebo os meus vencimentos h trs meses e estou devendo a meio mundo. A tristeza desses quatro sujeitos nada tem a ver com a morte da sogra. A velha era uma tirana.
     Que , ento?
     Esto preocupados porque D. Quitria foi enterrada com as suas jias mais preciosas.
     No diga, ch!
     Pois . Um anel com um diamante do tamanho dum gro-de-bico. Um broche de rubis. Um colar de prolas legtimas. Uns brincos no sei bem de qu... parece que de esmeralda. E uma pulseira de ouro macio. Jias de famlia.
     B!
      para voc ver... Esses caras esto preocupados porque dentro daquele caixo vo ficar abandonados centenas de milhes de cruzeiros...
     P!
    
    XII
    O piquete do C.T.G. ps-se em movimento. O patro recomendou aos companheiros que no tocassem os ginetes a galope para a coisa toda no dar a impresso de retirada e derrota. A banda de msica fazia muito se havia dispersado, pois o seu maestro tinha um horror neurtico s balas perdidas. Os automveis do cortejo tambm se puseram em movimento, rumo do centro da cidade.
    Dentro do seu Cadillac, sentado entre a esposa chorosa e o Dr. Lzaro, que lhe tomava o pulso, Tibrio Vacariano ainda of egava. Nunca...  murmurou  nunca em toda a minha vida... nunca nenhum homem me derrubou... nunca me encostou a mo na cara... nunca... nunca nenhum filho da me me desarmou... nunca nestes setenta anos da minha vida... Canalha! Ele me paga... No perde por esperar... O Dr. Lzaro continuava segurando entre o polegar e o indicador o pulso do seu ilustre cliente, enquanto olhava para o prprio relgio-pulseira. O padre voltou para o seu amigo uma face consternada. Que tal, doutor?  perguntou. O Dr. Lzaro disse: O pulso est voltando ao normal. D. Lanja, bote este homem na cama imediatamente. O essencial agora  o repouso. Vou receitar um tranqilizante.
     No tomo essa bosta!
     Toma, sim  murmurou sua mulher, maternal.   pro teu bem, Tib.
     Hoje ele no deve jantar, s pode tomar lquidos  tornou o mdico.  Faa-lhe um caldo de galinha. Nada de caf nem de cigarro. Repouso e dieta.
    Tibrio, a cabea atirada para trs contra o respaldo, rosnava: Um calhorda qualquer... na frente de toda aquela gente. E nenhum dos meus filhos presentes pra me ajudar. Se eu no meter uma bala no meio da testa daquele bolchevista me considero desonrado. No posso mais andar na rua sem morrer de vergonha e tristeza.
     Coronel  reclamou o Dr. Lzaro  se o senhor continua assim, acho que tenho de lev-lo para o hospital.
     Hospital? Eu? Nunca. S se me carregarem amarrado!
     Pois ento faa o que o doutor est te recomendando  interveio a esposa.
     A cama  s por hoje  explicou o mdico.  Amanh talvez o senhor j possa se levantar. Vamos bater logo um eletrocardiograma.
     J me vem voc com o seu gramofone. Meu pai viveu mais de oitenta e cinco anos sem precisar dessas frescuras.
    Fez-se um silncio dentro do automvel. Estavam j perto da Praa da Repblica. Via-se muita gente nas caladas. Por que  que esto me olhando?  perguntou Tib-rio.  Decerto sabem que um operrio sujo me desarmou e me derrubou. Decerto esto fazendo troa de mim. Lgrimas rebentaram-lhe nos olhos e escorreram-lhe pelas faces.
    
    XIII
    Geminiano concluiu que, se tivessem de ficar ali junto aos fretros, seria desagradvel para seus companheiros revezarem-se durante a noite inteira na guarda da entrada do cemitrio. O melhor que podiam fazer para evitar que durante a madrugada o inimigo se infiltrasse na esplanada e viesse sepultar os seus mortos, era deixar grupos de quatro homens montando guarda  boca de cada uma das ruas que davam para o pequeno planalto.
    Foi o que se fez. Quando a noite caiu  morna, estrelada, pingada de vaga-lumes e rascada de grilos  o alto da colina estava completamente deserto de humanidade viva. Numerosas turmas de formigas faziam sero. Lagartos corriam por entre macegas e caraguats. Aves noturnas fre-chavam o ar em vos curtos, acomodavam-se nas rvores ou nos tmulos, eventualmente bicavam insetos ou vermes.
    Cerca das trs da madrugada, um vulto humano saiu de seu esconderijo  um valo encoberto pela copa de rvores  e caminhou meio agachado na direo do cemitrio. O seu nome? Nem ele mesmo se lembrava, direito, pois tinha usado muitos em sua vida, um para cada cidade onde operava. Estava sendo procurado pela polcia de muitos municpios por delitos de furto e roubo. Soubera  tardinha que o mais fino dos sete esquifes insepultos continha uma defunta ricaa, coberta de jias valiosas. Fizera o seu plano e metera-se no valo, antes do sol sumir-se. Agora, se conseguisse fazer o servio rapidamente e fugir para o estrangeiro, poderia ir vendendo as jias aos poucos, com a maior precauo. Um cmplice o esperava com um cavalo enci-lhado, numa das muitas encruzilhadas nas vizinhanas de Antares. Ele tentaria cruzar o rio perto da divisa com o Estado de Santa Catarina e tentar a sorte na Argentina ou mesmo no Paraguai.
    Continuou a andar com toda a cautela, parando de quando em quando para olhar em torno e ficar atento aos rudos da noite. Levava no bolso do casaco uma lanterna eltrica e no das calas um p-de-cabra. Era a primeira vez que ia espoliar um cadver. O principal era no chamar a ateno dos operrios que guardavam as entradas das ruas, a uns duzentos metros dos muros do cemitrio. S acenderia a lanterna quando o caixo estivesse j aberto e ele precisasse localizar as jias no corpo da defunta.
    Seu corao batia sereno. Tinha bons nervos. Se no tivesse, no poderia exercer aquela profisso.
    Chegou a uma das esquinas do cemitrio e sondou com o olhar a entrada das ruas fronteiras. A cidade estava s escuras.  fraca luz da lua no divisou nenhum vulto humano. Felizmente a uns dez metros  frente do muro principal do cemitrio estendia-se um longo renque de cinamo-mos copados, que produziam uma zona de sombra onde ele poderia trabalhar sem ser percebido. Teria o cuidado de esconder a luz da lanterna com o prprio corpo.
    Sempre colado ao muro (boa idia, ter vestido a roupa clara) o ladro aproximou-se dos sete esquif es. O primeiro deles, bem  frente do porto da entrada, era preto e havia sido trazido s cinco da tarde. O seguinte  o claro e pequeno  era o que procurava. Ajoelhou-se ao p dele, de-satarraxou-lhe a tampa e, contendo a respirao, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mos da morta, pois ouvira falar no famoso solitrio de brilhante- Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha no viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e no viu nenhum broche. No pescoo, nenhum colar... Numa relutncia supersticiosa focou o rosto do cadver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lbios comearam a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, ntidas: Senhor, em vossas mos entrego a minha alma. O ladro soltou um grito abafado, ergueu-se rcido, deixou cair a lanterna acesa e o p-de-cabra, e rompeu a correr na direo dos campos desertos...
    
    XIV
    Quando viva, Quitria Campolargo gostava de ficar s vezes contemplando o cu da noite  garimpando estrelas, como ela prpria costumava dizer. Era uma espcie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelaes  Orion, o Co Maior, o Sagitrio, o Tringulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do corao e da memria, ela no considerava uma constelao universal, mas parte do patrimnio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no cu o Escorpio e, se ele j estivesse visvel, localizava a estrela An-tares, pensava no seu dimetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronmicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melanclica ou entediada e vinham dizer-lhe que algum a chamava ao telefone, respondia: Diga que no estou em casa, que fui para Aldebar....
    Agora, estendida no seu esquife, D. Quitria est de olhos abertos e parece contemplar um pedao do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosrio, que tem entre as mos enlaadas, e seus lbios se movem formando as palavras duma prece.
    Um vaga-lume esvoaa no campo de sua viso e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabea. Depois, agarrando ambas as bordas do caixo, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno  a solido da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...
    Retomando a prece do princpio, num sussurro  Pai Nosso que estais no Cu  ela se vai aos poucos levantando  santificado seja o Vosso nome  e por fim fica numa posio perpendicular ao esquife  venha a ns o Vosso reino  depois ergue a perna direita por cima da borda do caixo e estende o p devagarinho, como quem experimenta a medo a temperatura da gua duma banheira  seja feita a Vossa vontade  e a sola de um de seus sapatos toca o cho, seus dedos apertam a cruz do rosrio  assim na Terra como no Cu... Ao terminar o Padre-Nos-so, est j fora do esquife, ambos os ps no cho, os olhos fitos num outro caixo  esse negro, com alas prateadas, e no qual ela se pe a bater de leve com o bico dos sapatos.
    Durante alguns minutos a defunta fica a olhar em torno  para a esplanada, o cu, o muro do cemitrio, a lanterna acesa cada no cho... Depois se pe de joelhos e nessa posio, lentamente, faz a volta do esquife vizinho, desatarraxando-lhe a tampa, que tenta em vo erguer, terminada a operao. Bate trs vezes com o punho cerrado na tampa do caixo negro, cujo ocupante responde, aps segundos, com trs batidas semelhantes. D. Quitria v a tampa que ela desaparafusou erguer-se lentamente e por fim cair para um lado. Um homem de estatura mediana e vestido de escuro sai do seu fretro, d alguns passos com uma rigidez de boneco de mola, olha a seu redor, inclina-se, apanha a lanterna, passeia a sua luz pelo muro do cemitrio, depois pela copa dos cinamomos, projeta-a contra a esplanada e por fim foca o rosto da dama, que continua ajoelhada.
     D. Quitria Campolargo!  exclama o desconhecido.  Que honra! Que prazer!
     Quem  o senhor?
     Vamos ver se me reconhece...
    Volta o feixe luminoso da lanterna sobre o prprio rosto.
     Estou conhecendo... mas no tenho a certeza.
     O Dr. Ccero Branco!
     Mas a sua cara est diferente.
     A morte, que eu saiba, nunca melhorou a cara de ningum.
     O que me despistou foi essa mancha arroxeada no lado direito de seu rosto... Mas quando foi que o senhor. .. faleceu?
     Ontem, se no me falha a memria.
     Corao?
     A mancha que a senhora v pode ser um sinal de que fui fulminado por uma hemorragia cerebral macia. Eu ia atravessando a praa quando de repente tudo ficou escuro.
    D. Quitria pe-se de p, ergue a cabea para o cu.
     Pela posio do Cruzeiro do Sul acho que so trs horas da madrugada. Como se explica que estamos ainda insepultos e abandonados fora dos muros do cemitrio?
    Ccero encolhe os ombros.
      isso que me intriga. Mas estou tambm curioso por saber como foi que a senhora conseguiu sair de seu es-quife...
     Ora, eu estava serena no sono da morte quando de repente vi uma luz fortssima. Imaginei que fosse o olho luminoso de Deus e disse-. Aqui estou, Senhor, em Vossas mos entrego a minha alma!. Ouvi um grito de susto, a luz caiu e entrevi o vulto dum homem que saa disparando. ..
     Possivelmente um desses profanadores de cemitrios ...
     Talvez tenha sido isso mesmo, um ladro...  Pe-se a apalpar os dedos, o pulso, o peito, o pescoo, as orelhas.  Ai! Fui roubada, doutor! O bandido levou todas as minhas jias!  Levanta-se.  Fui roubada! Meu Deus! Jias antigas de famlia...
     Desculpe-me, D. Quitria, mas asseguro-lhe que a senhora foi posta no seu esquife sem nenhuma das suas jias, nem mesmo a aliana de casamento.
     Como  que o senhor sabe?
     Simples. Fui ao seu velrio prestar-lhe uma homenagem. Por sinal levei-lhe um ramo de gladolos vermelhos e amarelos, que eu mesmo depositei junto de seu corpo. Fiquei algum tempo a seu lado. Seu amigo Tibrio Vacariano  testemunha desse fato. Conversamos a seu respeito, fizemos os maiores elogios (alis muito merecidos)  sua pessoa. Mas repito, sob palavra de honra, que no vi no seu corpo nenhuma jia.
     Mas eu deixei com minhas filhas e meus genros disposies escritas muito claras: queria trazer comigo para a sepultura todas as jias que herdei de meus antepassados ...
     As suas disposies no foram ento cumpridas.
     Tratantes! Gananciosos!
    Ela sai a caminhar devagarinho dum lado para outro, arrastando os ps, com as mos na cintura.
     D. Quitria, eu no os censuro. Seria um desperdcio sepultar nesse caixo algumas centenas de milhes de cruzeiros...
     Mas no basta o que lhes deixo em terras, casas, ttulos, dinheiro, sim, e outras jias de valor?
    Ccero Branco encolhe os ombros:
     A cobia humana no tem limites, minha senhora.
     Bom, quero lhe agradecer por ter ido ao meu velrio. Obrigada pelos gladolos.
     No me agradea. J que estamos mortos e no somos mais personagens da comdia humana, posso ser absolutamente franco e confessar-lhe que a homenagem que lhe prestei teve uma finalidade utilitria. Eu queria agradar a sua famlia, pois estava de olho no inventrio de seus bens.
     Bom, j que estamos no jogo da verdade... nunca simpatizei com o senhor.
     Ora, por qu?
     Porque sempre o tive na conta dum advogado chi-canista e desonesto.
     Ningum jamais me acusou de incompetente.
     No vejo nenhuma incompatibilidade entre a competncia e a honestidade.
     D. Quitria, com o devido respeito  sua pessoa, conheo to bem a histria da sua famlia, que poderia escrever sobre os Campolargos um livro de arrepiar os cabelos. Seu tio e sogro Benjamim no era nenhum santo. A nesse cemitrio esto enterradas umas oito ou dez pessoas que ele mandou matar ou matou com as suas prprias mos. Quanto a roubalheiras, peculatos e abigeatos, os Campolargos s perdem para os Vacarianos...
     Bastai  exclama a velha.  Basta! Se no estamos sepultados, enterremos pelo menos o passado de nossas famlias.
    Tira a lanterna bruscamente da mo do advogado e faz incidir seu raio luminoso sobre os outros cinco caixes ali enfileirados.
     Quem so esses?
     Gentinha sem importncia, com exceo de dois...
     Por que no os tiramos para fora desses... dessas caixas?
     Estou lhe prevenindo que no so pessoas da sua classe... 
     Bobagem! Morto no tem classe. Alm disso, estou curiosa para ver as caras desses viventes, quero dizer, desses mortos.
     Seja feita a sua vontade. Tenha ento a bondade de sentar-se.
    Quitria senta-se na cabeceira do prprio esquif e, o rosrio sempre entre os dedos e comea a balbuciar uma orao muito antiga, que no tempo de menina aprendeu de sua av numa noite de tempestade.
    O Dr. Ccero comea a abrir o primeiro dos outros fretros. Em poucos momentos tem a seu lado o vulto dum homem mais alto que ele. Ambos entram numa altercao em surdina. Ccero ilumina com a luz da lanterna a cara do terceiro defunto e depois a prpria.
     Voc tambm por aqui?
     Pois . Coisas da vida. Depois eu explico. Me ajude a abrir os outros quatro caixes.
    O prximo, de qualidade ordinria,  feito de tbuas rsticas, pregadas. O advogado apanha do cho o p-de-cabra que o ladro deixou cair, e comea a forar as tbuas da tampa, enquanto o outro homem desatarraxa o esquife seguinte. Dentro de poucos minutos D. Quitria Campolargo tem diante de si, naquela faixa de sombra mais escura que a noite, seis vultos.
     Bom!  diz o Dr. Ccero.  Enfileirem-se contra o muro, que eu quero fazer as apresentaes...
     Quem  voc para me dar ordens?  protesta o homem alto de voz grave e spera.
      criatura!  replica o advogado.  Voc no compreende que estamos todos mortos e que essas susceti-bilidades dos vivos acabaram-se para ns? Mas se voc ainda vai atrs de palavras, reformulo o meu pedido: Faam a fineza de se enfileirarem naquele muro por alguns instantes ...
    Todos obedecem e ficam de costas para o muro do cemitrio, como diante dum peloto de fuzilamento.
    
    XV
    Como um mestre-de-cerimnias, Ccero faz o raio de luz da lanterna eltrica iluminar o rosto do primeiro homem da fila, o mais alto de todos: uma face eqina, a pele dum moreno de cigano, cabelos e bigodes grisalhos, a arcada dentria muito saliente, os dentes amarelados e fortes.
     Este  o Jos Ruiz^ vulgo Barcelona.
     O sapateiro comunista!  exclama D. Quitria.
     Alto l, minha senhora!  protesta o apresentado, erguendo a mo.  No confunda anarco-sindicalismo com comunismo. Considero isso um insulto s nossas idias!
     De que morreu?  quer saber a matriarca dos Cam-polargos.
     No sei nem me interessa  replica o sapateiro.
     Eu posso esclarecer  intervm o advogado.  Duma ruptura de aneurisma.
    Os lbios arroxeados do sapateiro se arreganham: a dentua fica descoberta at s gengivas descoradas, e ele comea a rir baixinho, enquanto esfrega o peito com ambas as mos.
     Isso tinha de acontecer mais tarde ou mais cedo. Ccero foca um dos esquifes:
     Veja, Barcelona. Voc deve o seu caixo, que no  nada mau, a uma gentileza da prefeitura municipal.
     Alto l! Antes de mais nada, no sou nenhum indigente. No peo nem aceito favores do poder constitudo. Como no tenho herdeiros e sou vivo, o governo vai ficar com a minha casa e a minha oficina. Esse caixo vagabundo custou uma ninharia. A prefeitura lucra com a minha morte!
     Vamos ao defunto seguinte...  diz Ccero.
     No use essa palavra horrenda  pede D. Qui-tria.  Diga pessoa.
    O raio de luz mostra agora um homem de cabea grande, rosto alongado, ombros estreitos, pele duma palidez de cera. Est metido numa casaca que lhe assenta muito .mal. As calas lhe ficam a meia canela. A camisa  branca, de colarinho mole, sem gravata. Seus ps esto metidos em sapatos amarelos.
     O Prof. Menandro Olinda!  exclama D. Quitria.
     Ele mesmo  confirma o advogado.  Suicidou-se abrindo as veias dos pulsos.
    As mos do pianista, com os pulsos envoltos em ata-duras, pendem-lhe abandonadas de cada lado do corpo, como entidades independentes de sua pessoa fsica.
    D. Quitria meneia a cabea, estralando a lngua entre os dentes, num sinal de reprovao.
     Ento isso  coisa que um cristo faa, maestro?  repreendeu-o ela com ar professoral.  O suicdio  um grande pecado contra as leis de Deus.
    Olinda tem os olhos revirados para o cu, a cabea atirada para trs contra o muro.
     Vamos ao seguinte  ordena a velha.
     O seguinte  do sexo feminino  explica Ccero, iluminando o rosto duma mulher.
     Cruzes!  exclama D. Quita.  Que  isso?
     uma mulher descala que aparenta mais de cinqenta anos, duma magreza quase esqueltica, metida num camisolo dum pano grosseiro de hospital de indigentes.
     Essa  a Erotildes, que entre 1925 e 1945, por sua graa e beleza, foi das prostitutas mais famosas de Antares.
    Era a fmea mais procurada do bordel da Venusta, a carne mais cara daquele perfumado aougue humano. Erotildes virou a cabea de muita gente na nossa cidade, at de homens casados, senhores considerados virtuosos. D. Quita, seu amigo Tibrio Vacariano teve Erotildes como amante exclusiva durante quatro anos...
     Cinco  corrige a mulher, sfrega.
     Com o passar do tempo sua carne foi baixando de qualidade e de preo. Erotildes caiu tanto de categoria que aos quarenta e poucos anos andava pelas ruas caando homens, vendendo o corpo a qualquer preo... Cinco mil-ris, no, Erotildes?
     At dois  murmura ela, baixando a cabea.  Eu no queria morrer de fome.
    D. Qui teria rebate:
     Mas ser que voc nunca pensou em procurar um trabalho decente, menina?
    Barcelona d um passo  frente e protesta:
     Afinal de contas, isto  uma apresentao ou um julgamento? Termine duma vez esta farsa, Dr. Ccero!
     De que foi que essa mulher morreu?  quer saber D. Quitria. E Erotildes apressa-se a informar, com certa faceirice:
     Tsica.
     Mas hoje em dia ningum mais morre disso. Com todos esses antibiticos...
      verdade  diz o advogado  mas Erotildes estava recolhida  ala dos indigentes do Hospital Salvator Mundi. O Dr. Lzaro alegava que na farmcia do hospital nem em nenhuma outra da cidade existia estreptomicina. Prometeu mandar buscar o remdio fora, mas pelo visto esqueceu... 
     Adiante!  comanda a velha senhora.
    A luz revela agora o rosto dum homem todo manchado de equimoses, com um dos olhos quase fora das rbitas. Tem-se a impresso de que foi espancado com violncia e de que o brao direito, todo quebrado, est preso ao corpo apenas por um barbante.
     Este  o Joo Paz, jovem inteligente e idealista. Levou muito a srio o sobrenome e tornou-se um pacifista ardoroso. Organizou em Antares um comcio contra a participao dos Estados Unidos na tentativa de invaso de Cuba. A polcia dissolveu-o a pauladas. Joozinho foi preso, passou uma semana na cadeia, foi solto... tornou a ser preso. Bom,  uma estria muito comprida.
     De que morreu?  indaga D. Quita.
     De embolia pulmonar, no Salvator Mundi.
     Mentira!  brada Joo Paz.  Fui torturado e assassinado na cadeia municipal pelos carrascos do delegado Inocncio Pigaro!
    O Dr. Ccero faz um gesto de contrariedade resignada.
      Joozinho, tenha pacincia, isto  apenas uma apresentao perfunctria. Depois darei os pormenores da sua biografia.
    O raio de luz mostra agora a cabea dum homnculo de idade indefinida, tipo bugride, bochechas tmidas de cachaceiro, a pele com algo que lembra o couro curtido, os olhos injetados.
     Santo Deus!  exclama D. Quitria.  Que  isso!?
     O maior beberro de Antares  diz o advogado  o nosso famoso Pudim de Cachaa.
    O homem sorri, mostrando os dentes podres.
     Boa noite, dona!  diz, inclinando a cabea em direo da dama. Depois, pondo as mos em pala sobre os olhos, como protegendo-os da luz da lanterna, pergunta ao mestre-de-cerimnias:  Doutor, do que foi que eu morri?
     S pode ter sido de cirrose do fgado  diz D. Quitria.
     Essa seria a causa mortis esperada, mas o nosso Pudim no morreu de morte natural. Foi assassinado.
     Qual!  sorri o cachaceiro.  Eu assassinado? Nunca tive inimigo na vida. E quem  que ia gastar plvora com este chimango velho? Quem foi que me matou?
     A tua mulher.
     A Natalina? No acredito. O senhor est brincando comigo, doutor. Minha mulher no  capaz de matar nem uma mosca.
     Talvez, mas botou na tua comida uma dose de veneno que dava para liquidar um cavalo.
    Por um instante Pudim de Cachaa mantm a boca aberta, num espanto.
     No acredito!  diz por fim, meneando a cabea.  Dessa ningum me convence.
     Eu vi o resultado da necropsia.
     Fale lngua brasileira, doutor.
     Pudim, na polcia um mdico abriu o teu estmago e descobriu arsnico no que tu tinhas comido ao almoo.
     Pode ser. Mas a Natalina no tem nada a ver com isso.
     Mas se ela confessou, homem!
    Por um instante Pudim de Cachaa fica em silncio, passando a mo pelo queixo mal coberto por uma barba rala e dura de caboclo.
     Mas por qu? Por qu?
     Declarou ao delegado que estava cansada de te agentar. Contou que, alm de ter de trabalhar como uma escrava para te sustentar, tu s vezes chegavas em casa alta madrugada, embriagado, e batias nela.
    A cabea baixa,. Pudim risca o cho com a ponta do dedo grande dum dos ps descalos.
      verdade?  pergunta D. Quitria, com matriarcal austeridade.
    Ele hesita mas por fim balbucia:
     , dona. Sempre fui uma peste. Pobre da Natalina! Tomara que no botem ela na cadeia.
     J est presa  informa o advogado.  Vai ser julgada no ms que vem.
     Que bosta!  exclama o cachaceiro.  Me desculpe, dona, o nome feio mescapou. ...
    Ccero Branco faz incidir o raio da lanterna sobre o rosto da ricaa:
     Pois, amigos, aqui temos conosco D. Quitria Cam-polargo, uma das damas mais ilustres, seno a mais ilustre, da sociedade de Antares.
     Dona Quita!  exclama o Barcelona.  Quem diria! Muita meia-sola c salto botei em sapatos seus e de sua gente. Nestes meus quase trinta anos de Antares tenho ferrado os cascos de mais de metade dos membros da burguesia local.
    Os cinco defuntos cercam Quitria Campolargo. Ero-tildes inclina-se sobre ela e murmura:
     A senhora no imagina a honra que  pra mim estar aqui ao seu lado.
    A velha encolhe-se, recuando o busto, brusca.
     No fale com a boca em cima da minha cara, mulher!
    Barcelona solta uma risada:
     No me diga que a senhora tem medo dos bacilos da tuberculose...
     Tome nota, Joozinho  sorri o advogado.  Nem na morte a gente se livra dos reflexos condicionados...
    Erotildes toca de leve, tmida, o ombro de Ccero.
     Posso fazer uma pergunta, doutor?
     Ora essa! Pode.
     Estamos no Cu ou no Inferne?
     Nem num lugar nem noutro. Estamos todos do lado de fora do cemitrio de Antares, insepultos.
    Pudim de Cachaa, que h alguns segundos olha atentamente na direo da cidade, murmura:
     J repararam? No se v nenhuma luzinha em Antares... Nem nas ruas nem nas janelas. Sabem o que eu acho? Fomos abandonados aqui porque houve uma peste que liquidou toda a populao da cidade. Ou ento os argentinos invadiram o Brasil e mataram a nossa gente. Ou quem sabe os russos, os chineses e os americanos comearam uma guerra atmica e destruram a humanidade.
     Ah!  exclama Barcelona de repente, dando uma palmada na prpria testa.  J sei... Est tudo claro. A greve continua...
     Mas que  que ns temos a ver com essa greve?  pergunta D. Quitria.
     Na vspera da minha morte, tomei parte na assemblia geral dos industriados (com direito de voz mas no de voto) e discutimos todos os meios de pressionar os patres e as autoridades para conseguirmos os objetivos dos grevistas. Pedi a palavra e sugeri que metessem os coveiros na greve geral e que no permitissem nenhum sepultamento no cemitrio enquanto os patres no dessem ganho de causa aos operrios. Agora tudo est explicado!
     E no tem vergonha de nos contar isso agora?
     S um homem com sangue espanhol nas veias podia ter tido uma idia como essa  gaba-se o sapateiro.  Meus avs e meus pais nasceram na terra de Cervantes e Unamuno.
     Pois o feitio virou contra o feiticeiro  disse D. Quita.  Voc nunca esperou ser vtima de seu prprio estratagema. Bem feito!
     Vtima, distinta dama? Ora, pra mim tanto faz apodrecer debaixo da terra como em cima dela. Sou materialista.  Apalpa-se.  S no esperava apodrecer com conscincia...
     E a sua icia foi aceita na assemblia?  pergunta Ccero, apagando a lanterna.
     Por unanimidade, apesar do Pe. Pedro-Paulo, que  um inocente, ter falado durante quase meia hora contra ela.
    Uma ave noturna  morcego ou coruja?  esvoaa por cima dos muros do cemitrio e atufa-se na folhagem dum dos cinamomos.
    Pudim de Cachaa apalpa cuidadosamente o estmago, murmurando:
     Me costuraram mal e porcamente.
    Erotildes passa a mo pelos cabelos num gesto em que h um resqucio de coquetismo.
    Barcelona senta-se no cho, fica por um momento de cabea baixa e depois diz:
     Ser que estamos mesmo mortos?
     Ponha a mo no corao e veja se ele bate  sugere o advogado.
    O sapateiro espalma a manopla sobre o peito e fica atento por um instante.
     No bate.  Segura o pulso com o polegar e o indicador.  No tenho pulso.
     Eu no respiro  diz Joo Paz. Ccero segura o ventre com ambas as mos:
     Sinto que os saprfitas j esto em plena atividade nas minhas entranhas...
     Se somos mesmo cadveres, como se explica que estamos aqui falando, trocando opinies e idias... com a memria funcionando...  indaga D. Quita, interrompendo a orao para os perdidos no mar, mas conservando o rosrio entre os dedos.
     Minha senhora  responde o advogado  eu no explico. Confesso que no sou versado em ocultismo, teologia ou espiritualismo. De tanatologia conheo apenas o que um advogado que se preza deve conhecer... No mais, tenho lido livros da minha especialidade. H milnios os melhores crebros que a humanidade tem produzido vm se debruando sobre os mistrios da vida e da morte. Ningum, que eu saiba, disse ainda a palavra definitiva.
    Menandro olha para as estrelas, cantarolando a frase inicial da Appassionata.
    Ccero cita: A vida  um longo hbito....
     A vida  um vcio  diz Barcelona.
     No meu caso  murmura o professor de piano  um vcio solitrio e triste.
    D. Quitria olha para o cu:
     Viver, para muitos, s vezes parece at uma espcie de cacoete.
    
    XVI
     Acho que estamos filosofando demais  queixa-se Barcelona.  Precisamos fazer alguma coisa!
     Que pressa  essa?  pergunta o advogado. > Temos diante de ns o resto da vida, quero dizer, da morte... da eternidade, se  que a eternidade pode ter resto. E por falar nisso, que horas sero?  Acende a lanterna e ilumina o prprio pulso.  Minha extremosa esposa decerto achou que o meu Omega de ouro era um relgio bom demais para eu trazer para a sepultura...
     O meu relgio sumiu-se na delegacia  diz Joo Paz.  A esta hora deve estar no pulso do homem que me assassinou.
     Empenhei o meu h vinte anos  suspira Erotildes  e nunca mais tive dinheiro pra tirar ele do prego.
    Barcelona apalpa os bolsos:
     Acho que algum afanou o Patek-Philip que herdei do meu pai...
     Nunca tive relgio na vida  confessa Pudim de Cachaa.  Pra falar a verdade, nunca me preocupei com o tempo.
    D. Quita consulta suas estrelas:
     Deve ser quase quatro da madrugada.
     Que horas sero no relgio de Deus?  pergunta a ningum Menandro Olinda.  Que dia ser hoje no Seu calendrio?
    Barcelona pe-se a andar lentamente ao longo do muro do cemitrio. O Prof. Menandro senta-se no seu caixo e coloca ambas as mos sobre as prprias coxas com o cuidado de quem deita em seus beros duas crianas adormecidas. Vaga-lumes pousam na cabea de Erotildes, e ali ficam como uma efmera tiara de diamantes.
    De p, encostado no tronco de um dos cinamomos, Joo Paz murmura:
     Tenho a impresso de que somos passageiros sem bagagem, que perderam um trem e esto esperando o prximo, que ningum sabe quando vai passar. Como nossos bilhetes esto em branco, no sabemos qual  o nosso destino.
     Ah! Isso  que no!  rebate D. Quitria.  Os hereges, os ateus, esses no sabem para onde vo. Mas quem tem f em Deus e na sua Igreja conhece o seu destino depois da morte.
    Barcelona acerca-se da dama e, com sua voz grave e meio rouca, diz:
     A senhora passou a vida inteira pagando o preo dessa passagem para o Cu com obras de caridade, missas, rezas, promessas...
     No seja mal-educado, Barcelona!  repreende-o o advogado.  Devemos respeitar as convices alheias.
    Barcelona passa as mos pela cabeleira hirsuta.
     Me diga uma coisa, D. Quitria, agora que a senhora est morta... j viu Deus, como lhe prometia a sua Igreja, o seu padre e os seus livros de reza?
     Estpido! Ignorante! Minha alma est a caminho de Deus. O que voc tem aqui  o meu corpo, que os vermes j esto roendo. Como  que vou fazer um renegado, um anarquista, um atirador de bombas, um subversivo compreender essas coisas espirituais?
    O sapateiro solta uma risada lquida, que soa como um gargarejo:
     Est bom, D. Quitria, no vou discutir com a senhora. Estamos todos agora no mesmo barco.
     Mas graas a Deus em camarotes separados  replica a velha.
     Prometo-lhe no me esquecer de minha condio de passageiro de segunda ou terceira classe  sorri sardnico o sapateiro.
    Pudim olha para Erotildes.
     E ns, moa, estamos no poro do navio.
    O Dr. Ccero aproxima-se de Joo Paz e murmura:
     Pelo que estamos ouvindo, nem depois de mortas as pessoas perdem o gosto da metfora.
     A vida bem pode ser uma metfora do estro de Deus  diz o Prof. Menandro, mas em voz baixa, como para no despertar as suas filhas adormecidas.
    D. Quitria ergue-se, aproxima-se do professor de piano e senta-se a seu lado.
     Me diga uma coisa, professor. Como foi que o senhor teve a coragem de matar-se? No sabe que s Deus  capaz de nos dar vida e s Ele tem o direito de nos tirar essa vida?
    O pianista olha para as prprias mos e, depois de curto silncio, fala.
     Foi a hora do diabo, D. Quitria... Eu estava em casa sozinho e desesperado. Tentei tocar a Appassionata, e mais uma vez falhei. Compreendi que tinha estado me iludindo a mim mesmo todos estes anos, fingindo acreditar na possibilidade dum novo concerto pblico e da fama. E a quem cabia a culpa de meu fracasso? A minhas mos, essas ingratas! D. Quita, procure me compreender. O que fiz no foi propriamente suicidar-me, mas castigar as minhas mos. Se eu quisesse me matar mesmo, tomaria veneno... ou meteria uma bala no crnio. Mas no! Cortei os pulsos com uma navalha. Assassinei as minhas mos. Uma se prestou para matar a outra. Alm de tudo, so fratricidas... D. Quitria sacode a cabea dum lado para outro.
     Est errado  disse  est tudo errado  repete  erradssimo. No compreendeu ento que, cortando as veias, ia morrer dessangrado?
     No sei, no sei... Eu estava confuso. Depois que seccionei as veias dos pulsos senti a dor, e quando vi sangue tive um momento de pnico. Mas logo a calma me voltou ... Deitei-me no sof e fiquei olhando os objetos da minha sala... O retrato de meus pais... o piano, a mscara morturia de Beethoven... a estante de livros, as partituras de msica, o velho tapete... Quanto mais sangue eu perdia, mais fraco ficava, mais se esfumava a minha viso... E ento tudo me pareceu um sonho estranho. Vi a minha vida passar, desde o princpio... como projetada por uma lanterna mgica na minha memria... Me senti primeiro no tero de minha me, encolhido, confortvel, protegido, moznhas fechadas... Lembrei-me do momento exato em que nasci, deixando aquele ninho morno e entrando neste mundo. A senhora est duvidando, no? Depois eu j estava num bero... no dia em que ergui os braos e descobri as minhas mos... Que surpresa! Aquelas coisas que se moviam... os meus primeiros brinquedos. Depois (a senhora me perdoe, D. Quitria) quando adolescente, usei estas mesmas mos para propsitos indecentes... sexuais, a senhora compreende? Pelo resto da vida minhas mos foram minhas amantes... Prostituram-me. Eu sentia remorsos, queria livrar-me delas, mas as desavergonhadas no me deixavam em paz e aproveitavam a hora em que eu dormia para me excitarem. Enquanto eu morria me lembrei tambm da primeira vez em que bati com o indicador da mo direita numa tecla de piano... e o resto, as primeiras lies, o curso em Buenos Aires... as pessoas que conheci na casa de meu professor... E uma noite no teatro Coln... assistindo a um concerto de Artur Schnabel. Ah!... e eu cada vez mais fraco... e gelado... Bem no fim revi, senti aquela noite terrvel, no palco do So Pedro, eu tentando tocar a Appassionata... e as minhas mos me atraioando em pblico... E depois a vaia... a vaia das galerias, os apupos, os assobios, os gritinhos... e, pior que a vaia, o silncio caridoso da platia... E ento, ali no sof da minha sala, que Deus me perdoe, senti que morrer devia ser doce... ficar livre para sempre da vergonha, da angstia, da solido... de tudo!
    D. Quitria escutou-o em silncio e depois perguntou.-
     Mas o senhor no sabe que os suicidas no podem entrar no Cu?
     D. Quitria, eu tive em Antares uma amostra do inferno. A incompreenso, o sarcasmo, a impiedade dos an-tarenses me doam fundo. O inferno no pode ser pior que Antares.
     Acho que o senhor est sendo injusto com a sua cidade e os seus conterrneos.
    A velha lanou para o maestro um olhar duro, quase inimigo:
     E o senhor sabe que, como suicida, no pode ser sepultado em campo-santo?
    Ele encolheu os ombros ossudos e comeou a cantarolar o trecho duma sonata de Mozart. E seus dedos se movimentaram de leve, crianas que se agitavam no bero, como a se debaterem num sonho.
    
    XVII
    Afastados do grupo, agora Joo Paz e Ccero Branco esto frente a frente.
     Voc sabe exatamente o que me aconteceu  diz o primeiro.  Por que no contou a verdade aos outros, seu canalha indecente, corrupto, covarde!?
     Joozinho, contenha-se. No me diga esses nomes feios. Voc sabe que no posso nem sequer encabular, pois o sangue cessou de me correr nas veias.
     Voc sempre foi um assalariado do velho Vacariano e do Vivaldino Brazo. O testa-de-ferro das negociatas desses dois crpulas. O factotum. Como  que voc pode ser assim to insensvel, to amoral?
     Ora, menino, um ser humano no  uma moeda apenas, com verso e reverso.  um poliedro, com milhares de faces. E h milhares de maneiras de ver uma pessoa, um ato, um fato. Voc no fundo  to maniquesta e religioso quanto D. Quita, que acredita na moral absoluta. Em suma: estou diante dum socialista que ainda no se livrou da nomenclatura moralista burguesa.
     No desconverse. Voc sabe muito bem que no morri de pneumonia no hospital, mas fui, isso sim, assassinado na priso. Voc nega isso?
     No.
     E voc tambm sabia muito bem que eu no cometi nenhum crime.
     Um momento! No tenho o dom da ubiqidade nem o da oniscincia. Nem o prprio prefeito sabe de tudo quanto se passa na sua delegacia. Houve uma denncia... O delegado Inocncio  um fantico da justia e um tcnico. .. Ele afirma que voc  o chefe em Antares do grupo dos onze. Queria saber o nome dos outros dez guerrilheiros potenciais. Interrogou voc pelos mtodos normais, aceitos pelas nossas leis, mas voc recusou falar...
     Como  que eu ia confessar uma coisa que no sabia? Nunca tive nada a ver com esse grupo, se  que ele existe mesmo em Antares.
     Seja como for, o Inocncio Pigaro no teve outra alternativa seno recorrer aos seus mtodos especiais.
     Por que no diz a palavra exata: tortura?
     Ora, como advogado, cultivo quando me convm o hbito do eufemismo.
     Confesse que foi sua a idia de transferir o meu cadver para o hospital, em segredo, e l simular uma morte natural.
     Confesso. Mas voc poderia ter evitado a tortura e a morte se revelasse os nomes dos guerrilheiros de Antares.
     Mas eu no sabia de nenhum! E se soubesse, no os denunciaria!
     Ora, existem pelo menos uns sessenta comunistas fichados na polcia em Antares. Voc poderia ter apontado dez deles como integrantes do grupo... e safar-se com vida.
     Isso seria uma indignidade! Eu jamais pagaria esse preo pela minha pele.
     Todo homem tem um preo. No se faa de santo, Joo Paz. Qual  o seu?
     A justia. A verdade.
     Abstraes. Voc no saberia definir nenhuma dessas palavras. E mesmo agora ns aqui estamos todos numa situao em que as palavras tm muito pouco ou nenhum valor.
    Ccero foca o rosto de Joo Paz com a luz da lanterna.
     No pense, Joozinho, que eu tenha ficado insensvel ao que eles fizeram a voc e ao que tm feito a muitos outros. Quando um homem como eu se mete com gente da laia do Vivaldino e do Tibrio, fica to enredado, to comprometido, que o remdio  continuar, seno est perdido. Eu no queria saber do que se passava na delegacia do Ino-cncio. A princpio costumava ter um peso na conscincia, dormia mal, me recriminava, prometia a mim mesmo romper com a camarilha. Mas o dinheiro, que para alguns cheira mal, para mim tinha um perfume paradisaco. O dinheiro e o sucesso. E a boa vida. Mas... voc no acha que isto no  conversa prpria para defuntos?
    Faz meno de afastar-se, mas Joo Paz agarra-lhe o brao, detendo-o.
     Que foi que eles fizeram com minha mulher, depois que me assassinaram?
     O Inocncio mandou prend-la para interrog-la.
     Ela foi maltratada... grvida como est?
     Joo Paz, voc quer saber da verdade ou prefere uma resposta piedosa?
     Quero a verdade. Sempre quis.
     Tudo indica que foi ameaada de tortura...
    Com o punho direito fechado Joo Paz golpeia a cara de Ccero, que quase cai ao solo.
     Canalha! Pstula! Bandido!
     No senti nada  diz o advogado.  Nem fsica nem moralmente. Acho seu gesto to ridculo e absurdo quanto a nossa situao de mortos insepultos.
     Os bandidos do Inocncio podem ter assassinado o nosso filho que ainda no nasceu...
     Poucas horas antes de morrer eu vi a Rita na delegacia. Inocncio soltou-a e em seguida o Dr. Lzaro a examinou. O beb estava vivo.
     No acredito.
    D. Quitaria ergue-se, depois de dar duas palmadinhas consoladoras no ombro do suicida, e diz em voz alta, como quem se dirige a uma assemblia:
     Precisamos fazer alguma coisa!
    Ccero Branco congrega os outros seis cadveres:
     Companheiros, no  por estar morto que vou deixar de ser o que fui em vida: um advogado. Estive arquitetando um plano...
     Fale!  ordena D. Quitria.
     Qual  o nosso objetivo? O de sermos sepultados dignai.iente, como  de nosso direito e de hbito, numa sociedade crist.
     O doutor falou pouco mas bem!  exclama Pudim de Cachaa.
     Escutem com a maior ateno. Voc a, Joozinho, aproxime-se e escute tambm. A idia  simples. Amanh pela manh marcharemos todos sobre a cidade para protestar...
     Uma greve contra os grevistas!  entusiasma-se D. Quitria.
     Se o fim da marcha  esse  intervm Barcelona  no contem com este defunto.
     Espere  diz o advogado, tocando o brao do sapateiro.  Usemos de todas as nossas armas. Primeiro, a nossa condio de mortos. Sejamos mais vivos que os vivos.
    - Como?
     Impondo  populao de Antares a nossa presena macabra. Se no nos enterrarem dentro do prazo que vamos impor, empestaremos com a nossa podrido o ar da cidade.
     Que coisa horrorosa, doutor!  diz Erotildes, ajeitando os cabelos num gesto faceiro.
     Por que no se pe em votao a proposta do Dr. Ccero?  pergunta o sapateiro.
     Bom  faz o advogado.  No direi que aqui em cima estejamos numa democracia. Imaginemos que isto  uma... uma tanatocracia. (E os socilogos do futuro tero de forosamente reconhecer este novo tipo de regime.) Preciso saber se todos vocs me aceitam como advogado, caso em que tero de me passar uma procurao verbal para eu agir em nome do grupo.
    D. Quitria sacode a cabea num movimento afirmativo. Erotildes, Pudim e Menandro a imitam. Barcelona, porm, hesita:
     Primeiro quero conhecer melhor o plano.
     Simples. Descemos juntos pela Rua Voluntrios da Ptria rumo da Praa da Repblica. L nos dispersaremos, cada qual poder voltar  sua casa... Para isso teremos algumas horas. O essencial (prestem a maior ateno!)  que quando o sino da Matriz comear a dar as doze badaladas do meio-dia, haja o que houver, todos devem encaminhar-se para o coreto da praa, sentar-se nos bancos em silncio e ficar  minha espera.
     E que  que voc vai fazer?  quer saber Joo Paz.
     Vou primeiro  minha casa buscar uns papis importantes ... Depois me dirigirei  residncia do prefeito para lhe entregar um ultimato verbal... ou nos enterram dentro do prazo mximo de vinte e quatro horas ou ns ficaremos apodrecendo no coreto, o que ser para Antares um enorme inconveniente do ponto de vista higinico, esttico... e moral, naturalmente.
    Barcelona passa a manopla pela cara e diz:
     O Maj. Vivaldino vai alegar que no pode fazer nada em nosso favor por causa da greve. E  a? que eu quero que voc me faa agora, aqui, uma promessa: a de exigir que os patres atendam s reivindicaes dos grevistas.
    Ccero sorri.
     Eu estava pensando nisso, no para ajudar a greve, que no me interessa, nem para ganhar sorrisos de alm-tmulo, de Marx e Lnine. Um advogado esperto usa de todos os recursos, decentes ou indecentes, para ganhar a sua causa. E esta, amigos,  uma causa em que eu tambm sou meu prprio constituinte.  Volta-se para Joo Paz.  Como ? Ainda no tenho a sua procurao...
     No confio em voc. Os seus reflexos condicionados o levaro a fazer o que o prefeito e o Cel. Vacariano ordenarem.
     Joo Paz, o seu idealismo lhe embota s idias. Oua isto: se o prefeito e os grandes da cidade tomarem contra ns alguma medida drstica, prometo denunciar em pblico todas as suas patifarias, roubalheiras e banditismos.
     Ah! Se eu pudesse acreditar na sua palavra! O advogado olha em torno.
     Tenho procurao de todos?
    Os outros seis mortos sacodem afirmativamente as cabeas.
     Muito bem. Agora s nos resta esperar o nascer do sol.
    E os sete mortos voltam a deitar-se nos seus esquifes e ali ficam, de olhos abertos,  espera dum novo dia.
    
    XVIII
    Na manh seguinte, o sol j alto, os operrios que se revezaram durante a noite, guardando a boca da Rua Voluntrios da Ptria, encaminham-se para o cemitrio.
     O mau cheiro agora deve estar insuportvel  resmunga um deles.
     No carece chegar muito perto dos caixes  diz outro.  Uns trinta metros, quando muito... 
     Qual! A brisa se encarrega de trazer a f eden tina at s nossas ventas.
    O homem que caminha  frente do grupo volta a cabea para trs:
     Acho que est tudo em ordem. S nos resta esperar os companheiros que vo nos render. Estou com uma fome das brabas.
    Um operrio gordo e baixo, que fuma nervosamente seu cachimbo, faz alto, puxa um pigarro e diz:
     Esperem um momento. Tenho uma coisa pra contar a vocs...
    Os outros interrompem a marcha.
     Que ?
     Quando eu estava de viglia, ali entre trs e quatro da madrugada, vi uma luz na frente do cemitrio, perto dos caixes...
     Luz? Impossvel. Decerto eram vaga-lumes.
    O gordo sacode a cabea numa veemente negativa.
     No. Parecia mais a luz duma lanterna eltrica. Acendia, andava dum lado pra outro, depois apagava e outra vez acendia...
    Um dos companheiros d uma risadinha forada.
     Aposto que voc dormiu em servio e sonhou tudo isso.
     No dormi. Nem mesmo me sentei. Passei todo o tempo pitando e caminhando de l pra c, com o olho sempre no cemitrio.
     Mas se viu essa tal luz, por que no nos avisou?
     Ora... fiquei com medo que vocs quisessem ir at l pra tirar a coisa a limpo. Achei melhor calar o bico.
     Covarde.
     De vivo no tenho medo. mas com defunto no quero nada.
     Vamos embora!
    Retomam a marcha, mas tornam a estacar. O terror lhes contorce subitamente as faces e aperta-lhes os peitos e as gargantas. E que todos vem os sete defuntos erguerem-se um a um de seus caixes, com uma lentido de quem desperta com relutncia dum sono natural.
    Minha Nossa!  grita um dos operrios. Faz meia volta e rompe a correr na direo do rio. Os outros o seguem, resfolgantes, contagiando com o seu horror os companheiros que guardam as outras bocas de rua, os quais tambm se precipitam em pnico em todas as direes, menos na do cemitrio...
    
    XIX
     luz amarelenta dum sol de seca, os mortos se entre-examinam em silncio. O Dr. Ccero Branco  o primeiro a falar.
     Sete teros abertos  murmura ele, abarcando com um gesto os esquifes.  Sete criancinhas recm-nascidas.
    Barcelona sorri, descobrindo as presas de lobisomem.
     Fetos podres  diz.
     Vocs esto horrveis!  exclama D. Quitria Cam-polargo, fazendo um esgar de nojo.
     A senhora no est propriamente uma beleza  replica o sapateiro.
     Felizmente no posso me enxergar...
     Se quer um espelho  avana o Dr. Ccero, numa pardia de galanteio  posso oferecer-lhe minhas pupilas.
    Como nica resposta Quitria volta-lhe as costas e fica a examinar a figura de Erotildes, que dos sete defuntos  o que tem o aspecto mais cadavrico. A pele apertada sobre os ossos descarnados de sua face  como um papel de livida seda, atravs do qual j se pode quase ver a caveira. A morte aplicou-lhe umas sutis pinceladas do seu azinhavre nas narinas, e ao redor dos olhos.
    Ccero Branco, cuja cabea semelha uma enorme berinjela machucada, baixa o olhar ao longo do prprio corpo e diz:
     No sei por que me mandaram para a sepultura dentro deste smoking ridculo e bolorento! E com colarinho duro de pontas viradas e gravata borboleta... E sapatos de verniz. Minha mulher tem cada idia!
    Em seguida sua ateno concentra-se na matriarca do cl dos Campolargos, cujo rosto cor de iodo lhe d a aparncia duma mulata, como se a morte lhe houvesse trazido para a pele toda uma remota ancestralidade africana. Suas mos agora se movem no ar, em movimentos mal coordenados, tentando apanhar o moscardo que esvoaa diante de seus olhos baos.
    A epidemie quase to branca quanto o muro caiado do cemitrio, contra o qual aperta as ndegas, para evitar que lhe caiam as calas  Menandro Olinda, imvel, segue com uns olhos vazios de esttua o vo irisado duma liblula.
    Pudim de Cachaa est acocorado, examinando de perto as formigas industriosas que passam em longas filas por entre seus ps descalos e que comeam a subir-lhe pelos ps, pernas e coxas, por dentro das calas. Com sua gordura balofa de cachaceiro, as plpebras to intumescidas que quase lhe escondem os olhos de esclertica amarela, ele parece um desses cachorros mortos inchados que s vezes passam pelo rio, levados pela correnteza.
    Barcelona chama a ateno de D. Quitria para os sinais de tortura que Joo Paz tem em todo o corpo:
     Veja como trabalha a sua polcia, dona. Est se vendo que o delegado Inocncio aproveitou bem a sua bolsa de estudos com a polcia do Estado Novo.
    Ccero intervm como um frio juiz de paz.
     Est bem, Barcelona. Guarde a sua demagogia para mais tarde. Precisamos agora tratar de nossa vida ou, se preferirem, da nossa morte. O problema continua o mesmo: queremos ser sepultados dignamente. Creio que est na hora de comear a nossa marcha. A caminho, pois, companheiros!
     Que horas sero?  pergunta Pudim de Cachaa.
     Estou ouvindo os sinos da Matriz  diz Quitria Campolargo.  Deve ser a missa das sete... 
     Pois ento, amigos e romanos, desamos sobre An-tares  convida o advogado.  Proponho que D. Quitria Campolargo abra a marcha.
     Por qu?  protesta o sapateiro.  Por que  rica?
     No. Porque  uma dama.
     Vejo outra pessoa do sexo feminino no nosso grupo... 
     Sim, mas voc no pode comparar D. Quitria com essa... essa... 
     Diga logo o nome sem medo. Puta, no ? Pois para mim no vejo muita diferena entre as duas. Mulher sempre mereceu todo o meu respeito, independentemente de sua profisso e da sua condio social.
     Ai. Barcelona!  exclama o Dr. Branco.  Estou comeando a desconfiar que voc ainda vai me dar muito trabalho...
     Tudo depender da sua atuao. Se voc se intimidar diante dos figures de Antares, eu entro com o meu jogo bruto. Mas onde est o nosso professor?
    Volta a cabea: Menandro continua com o corpo como que colado ao muro do cemitrio.
     Vamos, maestro!
    O pianista encaminha-se para o grupo.
    Mal, porm, d o segundo passo, as calas tombam-lhe aos ps, ele estaca e ali fica, imvel, completamente nu da cintura para baixo, as vergonhas  mostra e cobertas de formigas. Parece hesitar em pedir qualquer auxlio s suas mos assassinadas. Erotildes desata a rir. D. Quita vira o rosto. Barcelona aproxima-se do artista e, como uma ama-seca, ergue-lhe as calas, murmurando: Esqueceram-se do suspensrio... mas quem  que podia imaginar que o corpo deste defunto ia voltar  posio vertical?. Desfaz-se do prprio cinto e passa-o ao redor da cintura do outro, afive-lando-o no ltimo ilh.  Pronto!
     Muito obrigado, Barcelona  murmura o maestro.  Voc  um homem bom. E dizer-se que eu o conheo h mais de trinta anos e no tinha ainda notado isso!
    O sapateiro encolhe os ombros:
     As pessoas que vivem olhando para o cu perdem, as boas coisas da terra.
     No me diga que voc se inclui entre essas boas coisas  observa Quitria.
     No sou das piores, dona, no sou das piores.
     Avante!  comanda o advogado. Oferece o brao  matriarca dos Campolargos, que o recusa, altiva, pondo-se a caminhar lentamente, lanando o pnico entre as formigas, cujas fileiras disciplinadas ela varre com a fimbria do vestido. Ccero Branco marcha um passo atrs dela. Joo-zinho e Barcelona ladeiam o maestro, como uma guarda de honra. Erotildes e Pudim de Cachaa deixam-se ficar naturalmente para trs, fechando a marcha.
    
    XX
    D. Clementina, vi\a, catlica praticante e doceira profissional, mora na meigua de fachada azul-celeste, a segunda casa  direita de quem desce a Rua Voluntrios da Ptria. Tomou hoje a sua comunho na missa das seis, j comeu o seu mingau matinal, deu alpiste aos seus canrios e pintassilgos e agora se encaminha cantarolando para a nica janela de sua sala de visitas, levando nas mos um vaso de argila com um p de gernio florido. Antes de depor o vaso no peitoril, debrua-se para fora, diz bom dia ao vizinho da direita, que como de hbito est sentado num mo-cho  frente de sua residncia, tomando chimarro e lendo o jornal do dia  depois olha para a esquerda, divisa um grupo que vem descendo pelo meio da rua, em marcha lenta e silenciosa  U? bloco de carnaval em dezembro?... coisa de estudantes... mas seu corao, sentindo o horror daquela viso uma frao de segundo mais rapidamente que o seu crebro, dispara... Ao reconhecer naquelas faces cadavricas as fisionomias de sua freguesa Quitria Campo-largo e do Dr. Ccero Branco... santo Deus!  D. Clementina abre a boca, solta um vagido, sente que o mundo se vai aos poucos apagando, deixa cair o vaso, que se parte em cacos contra o soalho, suas pernas se vergam e ela tomba, primeiro de joelhos e depois de borco.
    O homem que mateia ergue a cabea, olhando a rua por cima do jornal, empurra os culos para a testa, semi-cerra os olhos para melhorar o foco de sua viso, e, de sbito, reconhecendo os componentes do lgubre cortejo pe-se a tremer, a boca entreaberta, a gua uo mate a escorrer-lhe das comissuras dos lbios, queixo abaixo. Um ronco lhe escapa do fundo da garganta, ele sente como se uma facada lhe rasgasse o peito, deixa cair a cuia e o jornal, curva-se sobre si mesmo e, como em cmara lenta, vai escorregando do mocho at tombar inteiro na calada, batendo com a cabea nas lajes, contra as quais se quebram as lentes de seus culos.
    Os defuntos continuam a caminhar pelo meio da rua. D. Quitria, que observou a cena com o rabo dos olhos, murmura: L se foi o velho Viridiano! O Dr. Ccero sussurra por entre dentes: Firme! Olhem para a frente, no digam nem faam nada, acontea o que acontecer. Isto  apenas o princpio.
    Joo Paz manqueja, o brao quebrado balouando dum lado para outro, como um pndulo. Barcelona parece atento a tudo quanto se passa em torno, a dentua exposta num feliz sorriso de ogro que acaba de entrar num berrio. O advogado de instante a instante puxa as pontas da negra borboleta da gravata, como se estivesse num salo de festas. Nos braos que o pianista leva cruzados contra o peito, aninham-se suas mos, como dois bebs num bero. Erotildes e Pudim de Cachaa caminham lado a lado, de mos dadas  crianas perdidas numa cidade desconhecida.
    Duma outra casa prxima parte um grito lancinante de mulher. Ouve-se o rudo duma janela que se fecha com fora, e o tinir de vidros estilhaados.
    O dono da padaria Universo sobe a Voluntrios da Ptria, dirigindo a sua Kombi. Ao ver o grupo no meio da rua pe-se a buzinar freneticamente, e quando percebe que o bando no lhe abre caminho, mete a cabea para fora do carro e berra: Saiam da frente, seus palhaos! O carnaval ainda no chegou!  e  nesse momento que ele reconhece alguns dos defuntos e, tomado de pnico, mete o p com fora no acelerador, torce bruscamente para um lado a roda da direo, o auto sobe na calada e esbarra com violncia e estrondo contra a parede dum prdio. O padeiro solta um urro, a respirao bruscamente cortada, duas costelas quebradas, e ali fica encurvado sobre o guido, resfolgando forte, salivando sangue, o pavor nos olhos, enquanto pelas suas narinas entra um cheiro adocicado de carne humana decomposta.
    
    XXI
    Essa marcha dos mortos rumo do centro de Antares seria descrita mais tarde em prosa barroca por Lucas Faia: Foi na ltima sexta-feira 13 deste clido e, j agora, trgico dezembro. O dia amanheceu luminoso, de cu limpo e translcido, e a nossa cidade, o rio e as campinas em der-redor semelhavam o interior duma imensa catedral plate-resca, toda laminada pelo ouro dum sol que mais parecia um ostensrio suspenso no altar do firmamento. As cigarras cantavam nus rvores e as formigas trabalhavam na terra, bem como na fbula do grande La Fontaine. Tudo parecia em paz no mundo. Era mais um dia na vida de Antares  pensavam decerto os que despertavam para a faina cotidiana. Mas ai! Mal sabiam eles do algido horror que os esperava!
    Segundo o testemunho dos grevistas que guardavam a boca das ruas que, por assim dizer, desguam como rios de pedra no esturio da esplanada do campo-santo local, seriam cerca de sete horas da manh quando, ao se aproximarem do cemitrio, eles viram, estupefatos uns, incrdulos outros, erguerem-se de seus fretros os sete mortos que estavam insepultos por culpa desses mesmos grevistas. Tomados de pnico os operrios romperam em fuga desabalada. Um deles tombou vtima dum colapso cardaco, felizmente no fatal.
    A brnzea voz do sino da nossa Matriz chamava os fiis para a missa das sete quando os sete mortos, em sinistra formatura, desceram sobre a cidade, ao longo da popular Rua Voluntrios da Ptria, semeando o susto, o pavor e o pnico. Pareciam  segundo o depoimento de vrias pessoas idneas ouvidas pelo nosso reprter  figuras egressas dum grotesco museu de cera.
    Testemunhas visuais (e olfativas!) do fato so unnimes em afirmar que os defuntos se moviam de maneira rgida, como bonecos de mola a que algum  Dews ou o diabo?  tivesse dado corda. E seus olhos, fitos num ponto indefinvel do horizonte, estavam cobertos duma espcie de pelcula que para uns parecia viscosa e brilhante e para outros fosca. Causou estranheza o fato de seus corpos no produzirem nenhuma sombra. No foram poucos os cidados antarenses que recusaram dar crdito ao que viam, julgando-se vtimas duma alucinao. Mortos ressurrectos? Fantasmas? Era incrvel! Pavoroso! Algo de indito no s nos anais desta comuna como tambm nos da Humanidade! E aquilo acontecia na nossa querida e pacata Antares! ramos, entretanto, obrigados a dar crdito a pelo menos trs de nossos sentidos  o da viso, o da audio e o do olfato  j que nada podamos dizer dos dois restantes, pois ningum havia tocado os corpos daqueles mortos ambulantes e muito menos  perdoe-se-me a brutal aluso  provado de suas carnes putrefatas. E mesmo agora, passada a crise, ao escrever as presentes linhas, este jornalista ainda se pergunta se tudo no foi apenas um sonho mau sofrido por toda uma populao, ou, antes, um pesadelo que oprimiu nossa cidade como uma nuvem de escuro chumbo.
    S na Voluntrios da Ptria o fnebre cortejo causou mais de vinte vtimas, das quais as primeiras foram a veneranda viva D. Clementina Montenegro e o Sr. Viridiano Fonseca. A primeira desmaiou de susto, e ao despertar entrou numa crise de nervos da qual ainda no se restabeleceu. O segundo sofreu um ataque cardaco, sendo recolhido ao Hospital Salvator Mundi, onde se encontra num estado que ainda inspira cuidados. O sinistro bando, a todas essas, caminhava implacavelmente, em marmreo silncio tumular, para o centro da cidade, deixando para trs uma ftida esteira pestilencial, que em breve inundou todas as ruas adjacentes, de tal maneira ativa e nauseante que este homem de imprensa teve, e ainda hoje tem, a impresso de que, como diria Lady Macbeth, no drama do imortal Shakespeare, nem todos os perfumes da Arbia conseguiro jamais limpar nossa cidade dessa fedentina cadavrica.
    Uma senhora grvida, cujo nome a tica nos obriga a omitir, ao ver de sua janela a passagem dos sete defuntos ficou to apavorada, que deu prematuramente  luz o seu beb. (E graas ao bom Deus, me e filho passam bem.) Estamos seguramente informados de que o Sr. Mrio Oregano, proprietrio do mercado Nova Itlia, ao avistar D. Quit-ria Campolargo toda vestida de preto, achou-a de tal maneira parecida com a sua falecida progenitora, que se encontra enterrada no pequeno cemitrio de sua aldeia natal, perto de Npoles, que se precipitou para ela em desatado pranto, exclamando Mamma mia! Mamma mia!  e s no a abraou e beijou porque no pde suportar o mau cheiro que se evolava dela e de seus macabros companheiros.
    Seria longo enumerar os horrores daquela fatdica manh, mas no nos furtamos ao desejo de narrar o caso que se nos afigura talvez o mais impressionante de todos. O Sr. Egon Sturm, cerealista local e campeo de tiro ao alvo, ao ver passar o cortejo, teve um acesso de fria, apanhou a sua carabina, subiu correndo  gua-furtada de sua casa e l de cima ps-se a alvejar os sete defuntos com balzios certeiros que, segundo se afirma, atingiram a cabea e o trax de vrios deles, sem contudo fazer-lhes a menor mossa, pois os impactos das balas naqueles corpos pareciam mais leves que o pousar duma mosca. E por falar em moscas, um enorme enxame destas acompanhava, zumbindo, os defuntos, como negros e miniisculos anjos da guarda. Dantesco espetculo!
    No saberamos dizer quanto tempo a notcia do terrvel acontecimento levou para espalhar-se pelo resto da cidade. O que sabemos de fonte segura  que o nosso constante leitor e antigo assinante, Sr. Ocrio da Luz, coletor das rendas federais neste municpio, ao ver os mortos parados fl esquina da Rua Voluntrios da Ptria com a Praa da Repblica, precipitou-se para a igreja, onde naquele exato momento o Pe. Gerncio Albuquerque pregava o seu sermo. Dando visveis mostras de irritao por ver o citado senhor subir a escada do plpito e interromper-lhe a predica, o vigrio escutou-o de m vontade, sacudindo negativamente a cabea, com ar incrdulo. Por fim, levando em considerao (como ele prpro nos declararia mais tarde) o fato de ser o Sr. Ocrio da Luz um homem de bem e de responsabilidade, decidiu ir ver o fenmeno de perto. Recomendou aos fiis que permanecessem quietos em seus lugares, desceu do plpito e. paramentado como estava, saiu do templo e encaminhou-se para o grupo, que continuava parado  esquina, convencido, o nosso bom proco, de que se tratava duma brincadeira de rapazes marotos. A brisa da manh, porm, trouxe-lhe ao olfato o cheiro da morte e em breve o nosso querido Pe. Gerndo reconheceu o corpo da sua velha amiga Quitria Campolargo, e o do Dr. Ccero Branco, e mais o do Prof. Menandro Olinda... Estacou, traou no ar um sinal da cruz na direo dos inortos, abriu a boca para dizer alguma coisa mas seus lbios comearam a tremer e deles no saiu o menor som. O vigrio caiu de joelhos, plido de horror, ambas as mos segurando o peito. Nesse instante passava pelo local o Sr. Tranqilino Almeida, chefe dos guardas aduaneiros locais, homem de reconhecida coragem pessoal. Mesmo depois de dar pela presena dos mortos e de identific-los todos, manteve a sua calma e, tirando do cinto o revlver e apontando-o para a macabra farandola, correu em socorro do vigrio, ajudou-o a erguer-se e, ampa-rando-o com o brao esquerdo em torno da sua cintura, e sempre com o revlver voltado para os defuntos, foi recuando lentamente, de costas, conseguindo assim arrastar o sacerdote para dentro da igreja. J ento a terrvel notcia se ia divulgando aos poucos entre os fiis e um crescente zum-zum cortado de soluos comeava a encher o recinto da matriz. O vigrio sentou-se num dos degraus do altar, o sa-cristo trouxe-lhe um copo dgua, do qual o nosso Pe. Ge-rncio mal conseguiu beber um gole, tal era o tremor de suas mos e de seu queixo. O Sr. Tranqilino levou algum tempo para perceber que entrara na casa do Senhor de chapu na cabea e revlver em punho. Teve um estremecimento, descobriu-se e guardou rpido a arma. Ao recobrar a voz, o padre acercou-se do microfone, ergueu os braos e bradou: Sete mortos acabam de ressuscitar e sair de seus caixes. E o Juzo Final! Deus Todo-Poderos vai comear o julgamento dos vivos e dos mortos. Arrependei-vos de vossos pecados enquanto  tempo!  Senhor, tende piedade de ns. Oremos! Oremos! Todos de joelhos. Oremos!
    O clamor ento foi geral. Mulheres romperam a gritar, algumas rojaram-se ao cho e rolaram em ataques histricos, uma delas rasgou as prprias vestes, ficando seminua e escabelada. No poucas foram as que desfaleceram. Muitos homens choravam, ao passo que uns poucos, os mais calmos, tentavam, mas em vo, pr alguma ordem naquele pandemnio, se  que se pode usar esta palavra em se tratando dum templo catlico. Algumas mulheres prosternaram-se diante da imagem da padroeira da nossa cidade e uma senhora j idosa foi vista metendo as mos em concha na pia e enchendo-as de gua benta, que derramava sobre a prpria cabea, esfregando com ela as faces, a testa, as mos, como se quisesse assim lavar-se de todos os seus pecados. E o padre continuava a gritar:  o Juzo Final! Arrependei-vos enquanto  tempo! Orai! Orai! Orai! Muitos, de joelhos, oravam, de mos postas, voltados para o altar-mor. De sbito ouviu-se um canto estrdulo. Era uma dama (cujo nome pedimos aos nossos leitores vnia para omitir) que nos temvos de moa possua uma voz de soprano bastante aprecivel, tendo dado at um concerto no Teatro So Pedro de Porto Alegre. Agora, de p em cima dum banco, ela entoava, um tanto trmula e desafinadamente mas com bravura opertica, a Ave-Maria, de Gounod. Com lgrimas a rolarem pelas faces alguns homens e mulheres, velhos inimigos, reconciliavam-se, esqueciam velhos e novos agravos, abraavam-se, beijavam-se, enfim, faziam as pazes cristmente. Muitas pessoas encaminhavam-se para o confessionrio, onde a presena do Pe. Gerncio foi exigida, primeiro com calma e depois aos gritos. E no af de disputarem um lugar na fila dos que queriam confessar-se, as vessoas acotovelavam-se, empurravam-se e dois homens chegaram a atracar-se aos socos e rolaram pelo cho, agarrados numa luta que parecia de morte. (Mais uma vez nos permitimos no citar nomes.) E como se toda aquela confuso no bastasse, o sacristo teve a infeliz idia de correr para o campanrio, pendurar-se na corda do sino e faz-lo bimbalhar como num alarme de incndio. Isso, como era de se esperar, aumentou a exacerbao e o desespero daquela pobre gente, que no ousava sair para a ,rua. O Sr. Tranqilino Almeida correu para a torre, ordenou ao sacristo que parasse de tocar o sino, e como o homem, fora de si, recusasse obedecer-lhe, o guarda aduaneiro segurou-o pela cintura, ergueu-o no ar, levando-o assim at  sacristia, onde o atirou em cima duma cadeira.
    
    XXII
    Mal o sino cessa de badalar, Ccero olha para os companheiros e diz:
     Bom. Nossa presena, ao que parece, j foi notada na cidade. Agora, que cada um faa o que entender: que v rever os seus afetos ou assombrar os seus desafetos. Repito que o importante  que ao meio-dia em ponto todos venham sentar-se nos bancos do coreto da praa e l me fiquem esperando quietos e, se possvel, em silncio.  Volta-se para D. Quitria.  Que pretende fazer a senhora?
     Dar um sustinho nos meus genros e nas minhas filhas.
     Posso acompanh-la?
     No. Conheo o caminho.
    Os sete mortos separam-se. A praa est deserta. As janelas e portas das casas, em derredor, fechadas. D. Quitria l se vai, gingando e ao mesmo tempo rgida, como uma imagem carregada em andor. Um cachorro sem dono a segue, de longe, depois estaca e, com o rabo entre as pernas, o focinho erguido para o cu, comea a ganir agonicamente.
    A matrona dos Campolargos est agora diante de seu palacete, cujas portas e janelas se acham cerradas. Ela entra pelo porto lateral, atravessa o jardim deserto de humanidade  mas l esto as suas rosas queridas, ela as acaricia com as pontas dos dedos  e vai direito  porta dos fundos, sobe os trs degraus que levam ao corredor, segue ao longo deste em passadas inaudveis, passa sem ser vista pela porta da cozinha, onde as suas negras conversam animadamente, preparando o caf da manh, e segue silenciosa rumo da sala de jantar, de onde vem um rumor de vozes masculinas e femininas.
    Escondida atrs da folha duma porta entreaberta, a velha fica a espiar e ouvir suas quatro filhas e seus quatro genros, que se acham sentados em torno da mesa, no centro da qual se v um escrnio aberto, o interior forrado de ve-ludo cor de ametista, com um espelho na parte interna da tampa. Ao redor do escrnio esto enfileiradas as jias que a morta queria levar consigo para o tmulo: o anel de brilhante, o colar de prolas, os brincos de esmeraldas, o broche de rubis, a pulseira de ouro macio... Um dos genros, o veterinrio, levanta-se, boceja, estira os braos espregui-ando-se, depois acende um cigarro, solta uma baforada de fumaa, olha para o velho relgio de pndulo e diz, azedo.
     Quase oito da manh! Parece mentira que passamos a noite em claro, discutindo, e no chegamos a nenhuma concluso. Acho que agora pelo menos podamos tomar caf. Estou morto de sono e de fome.
     O caf j vem  anuncia, seca, sua mulher.
    O comerciante passa a mo pelos cabelos ralos, dizendo:
     Eu fiz uma proposta sensata, mas meus queridos cunhados e minhas queridas cunhadas a recusaram. Acham que por eu ser homem de negcios tenho de ser necessariamente desonesto.
    O farmacutico d de ombros:
     A idia de discutir esses problemas agora no foi minha. Sempre achei que devamos esperar a abertura do testamento...
     Ah, meu caro!  interrompe-o o veterinrio.  No sabemos que tipo de testamento a velha Quita fez. Pode ter deixado um pedao de campo para cada agregado, para cada peo. Vocs sabem que ela no morria de amores por ns. Podemos ter uma surpresa desagradvel quando o testamento for lido. Vocs sabem que a minha preocupao maior  a estncia. J fiz a minha proposta. Arrendo a parte de vocs nesses campos. No podemos nem devemos dividir as terras da famlia!
     Isso tudo ns sabemos  diz uma das filhas. -O problema agora so estas jias. No vo aparecer no testamento porque todo o mundo imagina que mame as levou consigo para a sepultura.
    O dentista, que nos ltimos minutos esteve a fazer clculos na sua caderneta de capa preta, ergue a cabea e diz com ar professoral;
     Tenho aqui uma frmula capaz de resolver o nosso problema !
     Qual frmula qual nada!  reage o veterinrio.  J me vem voc com a sua matemtica prottica.
    A mulher do comerciante apanha o colar com ambas as mos, examina-o com amor, longamente, e declara:
     Eu j disse que estas prolas so minhas e de mais ningum !
    A esposa do dentista protesta:
     Engraadinha! E por qu?
     Vocs se lembram daquele rveillon de 31 de dezembro, um ano antes de eu me casar? Pois a mame me fez ir ao baile com o colar e disse que estas prolas combinavam muito bem com o tom da minha pele.
     Ah, ?  replica a outra.  Voc tem provas de que ela disse mesmo isso?
     Ora, provas no tenho. Mas se minha palavra no basta ento vai-te  merda!
     Meninas!  intervm o farmacutico.  Que  isso? No sei como, depois de passarem uma noite em claro, vocs ainda tm foras para brigar. Eu estou me entregando...
     Ningum quer escutar a minha proposta?  tenta mais uma vez o dentista.
    A mulher do veterinrio pega o anel, enfia-o no dedo e afasta a mo para contempl-lo melhor.
     A mame sempre dizia que este anel tinha de ser meu porque sou a filha mais velha.
     Mentirosa!  reage a mulher do comerciante.  Nunca ouvi a velha dizer isso.
     Disse, sim. Vocs podem ficar com o resto, que no me interessa. Quero o solitrio!
    O dentista ergue-se, faz com o olhar um inventrio das jias que estavam no escrnio.
     Onde est a aliana?  pergunta.  H pouco eu a vi ali perto do broche.
    Todos se entreolham, trocando-se suspeitas.
     Decerto D. Filadlfia andou por aqui  graceja o veterinrio.
     Estou falando srio  replica o dentista.  Onde est a aliana da velha?  de ouro macio.
    O veterinrio avana para o cunhado:
     Ser que voc est insinuando que algum de ns botou essa coisa no bolso, seu sacamuelas?
     Sacamuelas  a me!  revida o dentista, recuando um passo e pondo os culos no bolso, pronto para uma troca de socos.
     Por amor de Deus, rapazes!  intervm o farmacutico, colocando-se entre os dois cunhados e apaziguando-os.  Acho que estamos irritados pelo cansao e pela falta de sono. Vamos deixar a discusso para outro dia.
     Mas onde est a aliana?  insiste o dentista.  Se algum quiser me revistar, estou s ordens. Mas todos, inclusive as mulheres, tm de ser tambm revistados.
    O veterinrio, homem de porte atltico, segura com ambas as mos as lapelas do odontlogo, quase o ergue no ar e grita-lhe na cara:
     Que  que voc est insinuando?
    O dentista livra-se do agressor como pode, entrincheira-se num canto da sala, atrs duma cadeira, e dali diz:
     Estou apenas enunciando um fato. Desapareceu uma das jias. A menor de todas.
     Pois ento  sugere a esposa do farmacutico  vamos revistar todo mundo.
    Uma das mulheres comea a fungar repetidamente, franzindo o nariz:
     Vocs no esto sentindo um fedor de rato morto?
     No desconverse!  encanzina o dentista.  Onde est a aliana?
    O comerciante, que continua sentado, mete disfarada-mente a mo no bolso, tira dele a aliana, depois inclina o busto e finge que apanha algo do cho.
     Ora! Vejam s! Tinha cado no soalho  diz, sorrindo amarelo, e repondo o anel sobre a mesa.
    Outra das mulheres pe-se tambm a fungar:
     Deve ser mesmo algum bicho podre. Mas rato no . Quem sabe  algum gato morto no poro?
    O dentista olha enviesado para o comerciante.
     Como  que o anel podia ter cado sem ningum ouvir o barulho?
    O outro encolhe os ombros:
     Se voc acha que eu tinha roubado essa porcaria, pouco me importa a sua opinio. Agora que a velha morreu, graas a Deus podemos todos nos separar, cada qual vai para a sua casa viver a sua vida e eu no serei mais obrigado a ver a sua cara todos os dias.
    Agora  o farmacutico quem franze o nariz, funga e faz uma careta:
     O fedor tambm no me parece de gato morto. Que ser?
     Cachorro?  sugere uma das mulheres.
    Faz-se um silncio cortado de bocejos. O farmacutico vai at  janela em busca de ar puro.
     Mas em que ficamos?  pergunta o veterinrio.
     O mau cheiro est cada vez mais forte  queixa-se uma das mulheres.  Est me revoltando o estmago. O curioso  que comeou h pouco...
     Querem ou no querem ouvir a minha proposta?  exclama o dentista, como que esquecido das ofensas sofridas, impessoal como um computador eletrnico.
     Est bem  concorda o farmacutico.  Venha l essa famosa frmula.
     No agento mais...  geme a mulher do comerciante, que aos poucos vai empalidecendo.  Acho que vou vomitar.
     Vomitaremos todos  comenta o marido  depois que ouvirmos a frmula mgica do nosso Einstein.
    O dentista senta-se, ajeita os culos, abre a sua caderneta e diz:
     A soluo  duma simplicidade infantil. Para efeito de testamento essas jias no existem. Logo temos que resolver o seu destino aqui e agora, entre ns. Proponho que faamos uma avaliao do preo de cada uma dessas jias. Em caso de dvida, usaremos o critrio democrtico do voto. Bom. Por exemplo  aponta para uma das cunhadas  se voc fica com o colar de prolas e minha mulher com os brincos, aquela a quem tocar a jia de maior valor fica devendo  outra a diferena de preo, que poder ser paga em dinheiro ou em... em gado, por exemplo, ou letras de cmbio, aes de banco... etc...
     Muito difcil  interrompe-o o veterinrio.
     Eu quero o colar de prolas  insiste a mulher do comerciante.
     Mas que fedentina!
     O solitrio  meu. Dou escndalo se vocs no me derem esse anel.
    O suor escorre pelo rosto dos homens. O dentista comea a andar em torno da sala, fungando como um perdi-gueiro, e tentando localizar o mau cheiro.
    Quitria Campolargo aparece subitamente  porta da sala e diz:
     No se incomodem, meninos e meninas. S vim buscar as minhas jias.
    A filha mais moa solta um grito. A mais velha cai de joelhos e brada:
     A mame foi enterrada viva!
     Socorro!  grita o farmacutico, que sai correndo da sala, rumo do jardim, enquanto a mulher do comerciante rola no cho debatendo-se em guinchos, num ataque de histeria.
     O mau cheiro  diz a velha Quita   muito do meu cadver, mas  mais dos pensamentos de vocs, seus trapaceiros ordinrios! Pedi para ser enterrada com estas jias e vocs no cumpriram a minha ordem. Faz tempo que estou ouvindo essa discusso indigna, ali atrs da porta. Ningum at agora teve para comigo nenhuma palavra de respeito, de carinho ou de saudade. Est todo mundo com o sentido no meu testamento.
    O dentista acha-se estendido no cho, sem sentidos. O veterinrio e o comerciante paralisados de espanto, incapazes duma palavra ou dum gesto.
    A defunta aproxima-se da mesa e vai pondo as jias uma a uma dentro do escrnio, depois pe a caixa debaixo do brao, dirige-se para o lavabo social, despeja todo o seu contedo no vaso sanitrio, puxa a corrente da descarga, longamente, muitas vezes, depois volta para a sala e exclama:
     Pronto! A diviso est feita. O Rio Uruguai herdou as minhas jias.
    
    XXIII
    O Dr. Ccero Branco encontra-se agora dentro de sua prpria residncia, cujas janelas esto ainda fechadas. Silncio e penumbra. No pequeno vestbulo da entrada, pe-se diante do espelho oval do cabide, mas o vidro no lhe reflete a imagem. Mesmo assim ele ajeita a gravata e limpa com as pontas dos dedos a poeira de suas lapelas de seda.
    O relgio da sala de jantar comea a bater lentamente a hora. Depois da oitava badalada, de novo a quietude. O advogado sai a caminhar ao longo do corredor que leva ao seu escritrio. Pra diante do quarto conjugai, fica um instante como  escuta, depois, com um cuidado de gatuno, torce a maaneta da porta e vai empurrando esta devagarinho at abrir um vo pelo qual se insinua na pea. Sempre pisando de leve, encaminha-se para a janela que d para a rua, e abre-lhe as venezianas, deixando entrar o sol. Efig-nia Branco, sua mulher, est na cama com um homem, ambos completamente nus e descobertos. Deitada sobre o lado esquerdo, o corpo meio arqueado, ela forma com as coxas, o ventre e os seios uma espcie de recncavo no qual se aninha, numa posio quase fetal, um jovem que aparenta quando muito vinte anos, e que ela enlaa com os braos. As plpebras da viva de Ccero palpitam  repentina intensidade da luz, e ao cabo de alguns segundos se abrem. Efignia v aquele vulto negro contra a janela iluminada, solta um gritinho e pe-se de joelhos na cama, os olhos piscos, o susto no rosto, os seios murchos pendentes como duas jacas brancas.
     Bom dia, Efignia  diz Ccero com irnica bran-dura.  Lembra-se de mim? O Ciei...
    Ela est como que siderada. O rapaz tambm desperta, e dando por aquela presena estranha no quarto, salta da cama, alarmado, e cola-se  parede, numa atitude defensiva. S ento Efignia reconhece o marido. Ccero! Meu Deus... mas voc morreu!  e pe-se a gritar e a rolar sobre o leito como uma possessa, a puxar os cabelos e ao mesmo tempo a rir e soluar, ficando nas posies mais grotescas at que, exausta, deixa-se cair em decbito dorsal, os peitos arfando, Vs mos crispadas sobre o lenol, o olhar fixo no teto, enquanto de sua boca entreaberta se escapa um estertor lquido.
    Ccero volta-se para o rapaz que, plido, agora treme da cabea aos ps.
     Apresento-me. Dr. Ccero Branco. Corno pstumo. No, minto. Eu j era enganado por minha mulher, quando vivo. Existe nesta cidade uma aprecivel cadeia de cartas annimas que me mantinha informado das atividades adul-terinas dessa distinta dama, com detalhes de lugar, hora e nome do macho. E voc? Acho que no o conheo... ou conheo? Pare de tremer, menino! No lhe vou fazer nenhum mal fsico ou moral. Se o meu mau cheiro o incomoda, molhe um leno na gua-de-colnia que est ali em cima do toucador e tape o nariz com ele.
    Efignia continua estendida na cama. Ccero estuda o rapaz com um cuidado de artista plstico.
     Louro, hem? Quase imberbe. Musculatura... pas-svel. Um Apoio de peso-galo. Estudante, presumo. Pois . Minha mulher gosta de meninos. Tem a sua grande safra anual durante as frias de vero, quando os estudantes de Antares voltam de Porto Alegre e outros centros.  Olha para os rgos genitais do rapaz.  Bom, para ser franco, a natureza no foi l muito generosa com voc. O David de Miguel ngelo sofre da mesma exigidade viril. Mas a sua juventude, a sua cara de anjo devem garantir o seu sucesso com certas mulheres que j entraram na menopausa.
    Aproxima-se da cama, inclina-se um pouco sobre a viva, fica um instante a examin-la e depois diz:
     Perdeu os sentidos. Quando eu sair, Romeu, trate de reviver esta sua Julieta faisande. H um frasco de sais de amonaco no armarinho do quarto de banho.
    O rapaz cai de joelhos e cobre o rosto com as mos.
     Que  isso, homem?  exclama Ccero.  Controle-se. No tenho mais direitos nem legais nem morais sobre essa senhora. Ela est viva. Pode dormir com quem quiser. Ah! A propsito, como foi o ato ou os atos? Satisfatrios?
    Conseguiram o orgasmo simultneo, que sempre foi o sonho da Efignia? Desgraadamente nunca lhe pude proporcionar esse gozo em comunho. Ejaculao precoce, voc compreende... O velho Freud explica essas coisas no seu jargo. E por falar em Freud, voc sabe que a minha viva tem idade para ser sua me? Pois tem. Voc cometeu uma espcie de incesto branco... sem trocadilho, longe de mim! Mas deve ter sido algo de sensacional possuir a viva dum sujeito cujo corpo ainda no foi sepultado, hem? E no prprio tlamo conjugal! Quase um ato de necrofilia...
    O moo est agora completamente estendido no cho, o corpo reluzente de suor.
     Levante-se, menino. Eu me retiro. Vou tratar do meu sepultamento definitivo. Reviva a sua fmea, convena-a, se puder, de que tudo foi um pesadelo... Infelizmente a minha podrido vai ficar por algum tempo neste quarto. .. Mas faam o amor assim mesmo. Ser trs exotique, trs Marquis de Sade. Voc deve saber um pouco de francs... ou no sabe?
    Sempre na ponta dos ps Ccero Branco deixa o quarto e dirige-se para o seu escritrio, abre-lhe ambas as janelas, senta-se  sua mesa de trabalho, apanha uma caneta-tintei-ro e comea a escrever numa folha de papel em branco. O silncio na casa continua.
    
    XXIV
    Vinte minutos mais tarde Ccero Branco, depois de assustar as raras pessoas que encontrou na rua ou debruadas nas suas janelas, entra no cartrio do velho Aristarco. O notrio, sentado  sua mesa, examina uns papis. Ergue a cabea, pe-se de p de maneira to brusca que derruba a cadeira em que est acomodado, engole em seco e fica olhando para o defunto.
     Aristarco amigo, sei que voc  mdium vidente, por isso no acredito que tenha medo de almas do outro mundo.
    O notrio move os lbios formando palavras inaud-veis, como um ator dum filme cuja trilha sonora cessa de funcionar. Tira o leno do bolso e limpa tremulamente o suor que lhe escorre pela testa e pelas faces. Por fim consegue falar:
     Alma voc no l  E com estas palavras recua, franzindo o nariz.   um cadver em franco processo de putrefao.
     Apodrecer  o destino de toda carne... o que  uma bela frase.
    Aristarco parece ter recuperado a calma.
     Sou mdium, sim, talvez o mdium vidente mais conhecido da Regio Missioneira. E um Kardecista convicto. H mais de quarenta anos leio tudo quanto me cai nas mos sobre espiritismo. Nunca tive notcia dum caso como esse... sete mortos erguendo-se de seus fretros... Sei que voc morreu, li seu atestado de bito, vi seu cadver no velrio.
     E ento? Como explica o fenmeno? Aristarco sacode a cabea dum lado para outro.
     No quero me comprometer com nenhuma interpretao. Mas posso dizer, com minha experincia de mdium e de estudioso do espiritualismo, que nunca vi em toda a minha vida, nem creio possvel, tamanho desperdcio de ectoplasma.
     No aceita ento o testemunho de seus sentidos?
     Sei que tenho na minha frente um cadver que se move e que fala. Mas no um esprito, isso no.
     Est bem. No vim aqui lhe pedir explicao para o que me aconteceu, mas sim para me valer de seus servios profissionais.
     No compreendo...
     Voc reconhece em mim um homem que em vida se chamou Ccero Soeiro Branco?
     Reconheo e dou f.
     Voc tem ou no em seus livros um espcime de minha firma?
     Tenho.
      o que me basta.  Ccero tira do bolso um envelope e de dentro do envelope duas folhas de papel de ofcio, que coloca em cima da mesa do notrio.  Quero que reconhea a minha assinatura nestes documentos.
    O notrio olha do papel para o defunto, indeciso.
     De que se trata?
     No  da sua conta. A assinatura  ou no  autntica?
     !
     Pois ento aplique na parte de baixo do documento o seu carimbo e o seu jamego. Ah! Mas ponha a data de 10 de dezembro.
     Isso no posso fazer.
     E por que no?
     Porque sou um profissional honrado. Hoje  13.
     E quem  (me diga!), quem  que pode afirmar que eu no comparci ao seu cartrio tera-feira 10, ante-vspera de minha morte?
     Deus.
     Deus vai fazer vista grossa a esse pecadilho, j que o documento tem uma finalidade nobre.
     Duvido.
      engraado, Aristarco. Voc se gaba tanto de sua honestidade, me nega um pequeno favor e no entanto (lembra-se?) na estria dos bens daquela viva do Herval Seco em 1958 voc reconheceu direitinho uma firma falsificada.
    Aristarco baixa a cabea, tosse, nervoso, passa o leno pela calva e murmura:
     Sim, mas sob a presso das ameaas do Cel. Tib-rio, do prefeito e... das suas!
     Pois considere-se agora tambm ameaado. Vamos! Reconhea essas firmas. No tenho tempo a perder.
    Aristarco, aniquilado, ergue a cadeira do cho, torna a sentar-se  mesa, olha por alguns instantes para o papel, depois, sempre sacudindo a cabea dum lado para outro, faz o que Ccero lhe exige.
    
    XXV
    Barcelona consegue entrar na sua meia-gua, no Beco do Sono, arrombando uma das janelas laterais e saltando para dentro de seu quarto de dormir de vivo solitrio. A cama est desfeita. No soalho, junto dela, os seus chinelos. Atirado sobre uma cadeira, seu pijama zebrado. Em cima da mesinha-de-cabeceira, uma pilha de livros, que agora ele folheia rapidamente-, obras de Sorel e Bakunin em espanhol, em brochuras amarelentas e sovadas.
    Passa para a oficina, abre a sua nica janela, examina um por um os seus instrumentos de trabalho  a torqus, o martelo, o alicate, a lixadeira, a sovela... Acaricia as formas, pega um pedao de couro curtido e com a faca afia-dssima corta-lhe um pedao, ao acaso. Senta-se no seu mo-cho e por alguns minutos fica sorrindo e batendo tachas numa sola, continuando exatamente o trabalho que fazia quando seu aneurisma rebentou. Depois pe em movimento a mquina de costura. Olha para a prateleira, v alguns sapatos enfileirados, agarra o maior deles, uns sapates enormes de homem, apanha o pedao de papel que est dentro de um deles e l: Jefferson Monroe III. Ianque filho duma me  murmura  agente da CIA! Eu devia te devolver estas lanchas com uma bomba dentro!
    Sai de casa pela janela arrombada, dirige-se vagarosamente para a praa, atravessando-a em diagonal, e vai direito  sede da delegacia de polcia, onde fica tambm a cadeia municipal.
     porta do prdio, um guarda armado de mosqueto barra-lhe a entrada.
     Que  que voc quer?
     Dizer umas verdades ao teu chefe. Sai da frente, porco!
    Reconhecendo o defunto, o soldado empalidece, deixa cair a arma e foge rua em fora. Os outros membros da guarda, vendo o morto, tambm rompem a correr em pnico. Barcelona segue ao longo do corredor, atravessa o ptio interno cercado por uma galeria, vai direito ao escritrio do delegado de polcia e abre a porta devagarinho.
    Inocncio Pigaro, em mangas de camisa, est sentado  sua mesa de trabalho, falando ao telefone, de costas para a porta. O sapateiro fica a escut-lo, sem produzir o menor rudo:
     No, Cel. Tibrio. Acho que tudo isso no passa duma brincadeira estpida desses estudantes em frias. Todos os dezembros eles fazem das suas. No ano passado saram  rua quase pelados... Onde se viu morto ressuscitar? Ora essa!... Hem?... No. S sei que muita gente jura que viu os defuntos. Mas essa eu no engulo. Preciso primeiro ver. Andei h pouco pela praa e no enxerguei ningum, vivo ou morto. Sei que a cidade est comeando a entrar em pnico. So esses malditos boatos. Nessa coisa toda pode andar dedo de comunista. Como? No diga! Ento os genros da D. Quitria lhe afirmaram que a velha est em casa, sentada numa cadeira de balano? E j podre? Devem estar bbedos ou loucos varridos.
    Barcelona sorri e espera, com uma das mos segurando a maaneta da porta.
     No  continua Inocncio  ainda no telefonei ao prefeito, porque achei que no devia incomodar o homem to cedo com tolices desse calibre. Est bom. Vou sair de novo para fazer averiguaes e tomar as providncias que se fizerem necessrias. Depois lhe comunicarei o resultado... At logo, coronel! Recomendaes  sua senhora... Qu? Eu posso imaginar. Amiga de D. Quita como ela era... Prometo esclarecer tudo em menos de duas horas e trancafiar na cadeia os responsveis por essa brincadeira de mau gosto.
    Inocncio solta um suspiro de impacincia, repondo o fone no lugar e pe-se a fungar, fazendo caretas. Volta-se, reconhece Barcelona, ergue-se brusco, recua trs passos, com a mo no revlver que tem  cintura, os olhos arregalados de susto.
     Barcelona... voc morreu!
     Pois , pstula! Estou morto e podre. Voc est vivo e mais podre que eu. Podre de alma. Podre de corao.
    O delegado recuou e est agora junto da janela, como se quisesse saltar para a rua.
     Voc foi enterrado vivo!
     No. Sou um defunto legtimo e portanto estou livre da sociedade capitalista e dos seus lacaios como voc, seu canalha ordinrio, bandido, assassino, filho duma gran-dessssima puta!
    Inocncio, num esforo para se dominar, vencendo a nusea e o espanto, consegue dizer ainda:
     Voc no me intimida! Considere-se preso!
    O sapateiro solta uma gargalhada, e pelos cantos de sua boca escorre um lquido viscoso e pardo. O delegado grita:
     Cabo da guarda! Miguelito! Palrhiro! Socorro!
      intil. Teus soldados so uns covardes. Fugiram quando me reconheceram.
    O suor escorre pelo rosto do delegado, empapa-lhe a camisa. Sufocado, ele desabotoa o colarinho, afrouxa,a gravata, sacode frentico a cabea dum lado para outro, como para afugentar da mente aquela viso.
     Que  que voc quer comigo?  pergunta, ofe-gante.
     Te estragar o dia. Te empestar os pulmes e a conscincia, bandido. Torturaste e assassinaste o Joo Paz. Ters de prestar conta disso ao povo, mais tarde ou mais cedo.
     No se aproxime de mim  exclama o delegado, empunhando agora o revlver.  V embora, seno eu atiro.
     Atira, galinha! No podes matar um morto! Inocncio Pigaro puxa o gatilho. Um estampido seco
    enche a sala. Rindo e avanando lentamente, Barcelona repete: Atira de novo! E Inocncio d mais quatro tiros, que varam o corpo do sapateiro.
    Por fim, percebendo que detonou a ltima bala, atira a arma contra Barcelona, mas erra o alvo. E ento, para no ser tocado pelo defunto, corre para um canto do escritrio, acocora-se na posio duma mmia ndia dentro duma urna. Seu estmago se contrai e ele vomita convulsivamente sobre o peito, as calas, o sapato, o cho. enquanto um verde bilioso lhe vai tingindo a cara.
    Barcelona aproxima-se do delegado, baixa o olhar e diz:
     Valeu a pena morrer s para ver este espetculo. Estou satisfeito!
    Faz meia volta, encaminha-se para a porta, sai para o corredor, e quando comea atravessar o ptio, os soldados da guarda, agora entrincheirados no parapeito da galeria, comeam a atirar com seus mosquetes contra ele. Sem acelerar o passo, sorrindo e jogando beijos com os dedos para um lado e outro, Barcelona dirige-se para a porta da rua, sob os fogos cruzados.
    
    XXVI
    Vivaldino Brazo, que havia terminado de tomar o seu caf matinal, estava no seu orquidrio, ainda de pijama, examinando uma habenaria, quando o telefone tilintou. Encaminhou-se para a sala onde estava o aparelho, ergueu o fone e ouviu a voz excitadssima de seu secretrio:
     Prefeito! Uma coisa inacreditvel, horrorosa, aconteceu! Os sete mortos que ficaram sem sepultura, levantaram-se esta manh de seus caixes e desceram sobre a cidade!
      Mendes, voc j est bbedo a esta hora do dia?
     Pela luz que me alumia, s tomei uns mates, major! Vrias pessoas j viram os defuntos. O vigrio, o Tranqili-no... o... o velho Ocrio da coletoria... e outros... muitos outros!
     Rapaz, tome um caf bem forte. E no me amole mais a pacincia com essas bobagens. Ora, onde se viu?
     Est aqui o delegado. Ele vai lhe falar.
     Pronto!  o Inocncio?
     Ele mesmo, major.
     No estou reconhecendo a tua voz. Que  que h?
     O que o Mendes acaba de lhe contar  verdade.
     Tu tambm? Pensam que no tenho mais qu fazer?
     Major, dou-lhe a minha palavra de honra...
     Mas voc viu mesmo com os seus olhos algum desses... desses defuntos?
     O Barcelona h pouco invadiu em pessoa o meu escritrio para me insultar. Descarreguei o meu revlver em cima dele. Acertei todos os tiros, mas o homem nem se mexeu... Depois meus guardas o crivaram de balas no ptio da delegacia e ele continuou caminhando e rindo... 
     Ser um caso de cara... cata (como  a coisa?) catalepsia?
     No, major. O homem est morto mesmo. Fedia como um cachorro podre. Os outros andam espalhados por a. E o pnico j comeou na cidade. D. Quita est na casa dela, sentada na sua cadeira de balano. As filhas e os genros (sei de fonte segura) fugiram para a estncia. Os vizinhos do Prof. Menandro viram o homem entrar na casa dele e depois ouviram o som do piano...
     Impossvel! Vocs esto todos vendo fantasmas. Nos meus tempos de pi, quando eu ajudava um irmo do Cel. Tibrio a fazer tropas, muitas vezes dormimos em cemitrios, nos descampados. Nunca vi alma do outro mundo. Cansei de passar a noite em casa com fama de assombrada. Nunca vi nada de anormal. Morto no volta.
    Curto silncio. Depois, a voz soturna de Inocncio Pi-garo:
     Mas esses voltaram, major. Dou-lhe a minha palavra de honra.
    Vivaldino comea a suar,enxuga a testa com a manga do pijama.
     Eu ainda acho que vocs todos esto sendo vtimas duma...  No termina a frase. Porque sente uma sbita podrido espalhar-se na sua sala. Volta-se rpido e v o Dr. Ccero Branco, que pergunta:
     E agora acredita?
    Vivaldino deixa cair o fone. Recua uns passos, sem tirar os olhos da apario. Seus lbios tremem quando ele balbucia :
     Ccero... mas voc... voc est morto!
     No nego. E da?
     Co... como se explica?...
     No se explica.
     Que  que voc quer?
     Eu e mais seis defuntos, que represento como advogado, queremos ser sepultados, como  de nosso direito. Infelizmente, por falta de tempo, no pude trazer procuraes assinadas pelos meus constituintes.
    Vivaldino deixa-se cair pesadamente numa poltrona forrada de veludo. O suor empapa o casaco de seu pijama de seda creme. Ccero Branco afasta-se para um canto da sala.
     Estou sendo to polido quanto possvel, no me aproximando mais de voc, major. Reconheo que minha presena no  das mais agradveis ao sentido da viso e principalmente ao do olfato.
    O prefeito tira do bolso um leno e tapa com ele o nariz e a boca. Est duma palidez mortal, a respirao irregular.
     Por amor de Deus, Ccero, v embora! Minha mulher ainda est dormindo... Se ela acorda e v voc, pode sofrer um colapso fatal. A Solange  muito doente.
     Minha misso  rpida e simples. Venho falar com o prefeito de Antares e no com o meu velho amigo e cliente Vivaldino Brazo. Exijo em nome de meus constituintes e no meu prprio que sejamos enterrados imediatamente.
    O prefeito sente um espasmo de estmago e por alguns segundos luta com uma nsia de vmito, e comea a suar frio.
     Im... impossvel  tartamudeia.  Vocs talvez ignorem que, se ficaram insepultos, foi... foi por culpa dos grevistas.
     Sabemos disso. Mas no estamos interessados diretamente na greve. Descubra um meio de nos sepultar decentemente e sem tardana.
    O prefeito sacode a cabea numa afirmativa aflita, e de novo se curva sobre si mesmo, apertando o estmago com uma das mos e a garganta com a outra.
    Ccero Branco continua no seu canto:
     Rena a cmara municipal, se puder, pois desconfio que os vereadores fugiro todos da cidade quando souberem da nossauisita. Convide ao seu gabinete os prceres locais. Em suma, descubra um jeito rpido de atender  nossa justa reivindicao.
    Arque jante, e falando atravs do leno com que agora cobre o nariz e a boca, Vivaldino diz:
      questo de tempo, Ccero. Compreenda a minha... a minha situao. Amanh se resolve a greve, dum modo ou de outro, e vocs todos sero sepultados, como de direito...
    Ccero sorri, sacudindo a cabea negativamente.
     No podemos esperar, sinto muito. Olhe, preste bem ateno ao que vou dizer. Dou-lhe o prazo de...  Lana um olhar para o relgio de parede.  Oito e meia... Dou-lhe um prazo de quase quatro horas. Ao meio-dia em ponto os sete mortos estaro sentados no coreto da praa  espera dum despacho favorvel ao requerimento verbal que acabo de lhe apresentar.
     S quatro horas?
     Por que no? Eu morri em questo de segundos.
     Mas... mas se os grevistas...
     Se eles insistirem em barrar nosso sepultamento, pea foras federais e use da violncia a bem da comunidade.
     No posso fazer uma coisa dessas...
     Est pensando na sua reeleio, naturalmente... Compreendo.
     Oh! No  isso... Ccero, pelo amor de Deus!
     Pois ento convena os patres a aceitar as condies dos grevistas.
     Mas isso tambm leva tempo...
    O advogado cncaminha-se para a porta, vagarosamente.
     Bom. Esperamos a resposta ao meio-dia em ponto. No coreto da praa.
    Vivaldino tira por um instante o leno da boca e do nariz.
     E se chegarmos a um impasse?
     Pior para Antares. Nesse caso no teremos outra alternativa seno ficar apodrecendo no coreto e empestando o ar da nossa amada cidade. Cest dommage!
    J com a mo na maaneta da porta, Ccero volta-se:  Pea em meu nome desculpas s suas belas orqudeas, Vivaldino, por eu ter poludo o ar que elas respiram. E apresente tambm  sua senhora as minhas escusas, pois no vai ser fcil espantar o meu cheiro desta casa. Recomendo-lhe defumaes de alfazema e benjoim ou, se o catolicismo de D. Solange preferir, incenso. Ciaof
    
    XXVII
    Menandro Olinda entra no sobradinho de azulejos e sobe lentamente a estreita escada que leva ao andar superior, que ele ocupava quando vivo. Suas mos pendem ao longo do corpo, oscilantes, mas ele no as usa para segurar o corrimo. Os degraus rangem. Um rato furtivo passa assustado por entre seus ps. Na casa toda, um silncio antigo, recendente a mofo.
    No patamar l em cima ele faz alto, olha para a porta de sua morada por alguns segundos, depois aproxima-se dela, empurra-a suavemente com os ombros, abrindo-a, pois o trinco no funciona h vrios anos e a fechadura s teve chave em tempos imemoriais.
    O pianista entra na sala sombria, abre a porta da sacada com um dos ps e o interior se ilumina de sol. Depois pe-se a andar dum lado para outro  quarto de dormir, cozinha, quarto de banho  examinando mvel por mvel, objeto por objeto, utenslio por utenslio, como que fazendo um inventrio mental de suas posses terrenas. Torna  sala, diz algo baixinho  mscara de Beethoven e ao retrato ama-relento de seus pais e por fim olha longamente para o sof onde se deitou depois de haver cortado as veias dos pulsos. No tapete ao p do diva escureja uma larga mancha de sangue.
    Aproxima-se do piano, que tem o teclado descoberto, senta-se no banco giratrio, olha para a partitura que est na estante e seus lbios se movem quando ele l: SONATA, dedicata al Conte Francesco von Brunswick, Op. 57. Composta nel 1803-04, publicata in febbraio 1807 presso il Bureau des arts et de Tindustrie di Lipsia.
    Suas mos, como dotadas de vontade prpria, erguem-se e pousam sobre o teclado. O pianista, com os olhos postos na partitura, murmura cariciosamente: sottovoce e misterioso. Seus dedos comeam a move-se, tocando a frase inicial ia sonata:

    O som do piano enche a sala, escapa-se pela janela. O maestro ergue-se, corre para a sacada e exclama:
     Povo de Antares! Fariseus e filisteus! Povos do mundo! Ouvireis agora a Appassionata, de Ludwig van Beethoven, interpretada de alm-tmulo pelo virtuoso Menandro Olinda!
    Faz uma curvatura para a praa deserta, torna a encaminhar-se para o piano ajustando abotoaduras imaginrias de punhos engomados invisveis e volta-se dum lado para outro, respondendo a consultas. Scala di Milano? Peccato, signor impresrio. Impossibile! Salle Pleyel,  Paris? Oh non, non, non, je le regrette, monsieur. Conzertgebaum, Amsterdam? Nein! Bolshoi de Moscou? Nyet! A explicao  simples. Tenho de tocar a Appassionata para Deus Nosso Senhor numa audio especial. Com a vossa licena. ..
    Torna a sentar-se no banco ao piano, erguendo as abas da casaca, como fez h vinte e oito anos passados no palco do Teatro So Pedro, em Porto Alegre. Depois olha para as prprias mos, beija-as repetidamente e ento recomea a tocar a sonata, dal capo, soluando convulsivamente, mas de olhos secos.
    
    XXVIII
    Quando lhe vm contar que Erotildes voltou  cidade na companhia de outros seis defuntos insepultos, Rosinha pensa assim: Aposto que ela vem me visitar... Mas no diz nada a ningum. Veste o seu melhor vestido, cala os seus sapatos menos velhos, pinta-se e  tudo isso feito  senta-se na cama de ferro que ambas por muito tempo partilharam, e ali se queda, ouvindo o tique-taque do despertador em cima da mesinha-de-cabeceira, ao lado duma vela acesa, metida num castial de lato.
     uma alcova improvisada, estreita e curta, debaixo duma escada, nos fundos duma casa muito velha, pertencente  viva dum pedreiro. Mal cabe nela a cama, um ba, um lavatrio de ferro e uma cadeira com assento e respaldo de palha tranada.
    A velha lhes alugou o cubculo sem ignorar a profisso das meninas. Imps, porm, uma condio rgida-. No me tragam machos para dentro de casa, seno eu mando vocs embora! Assim, elas tinham que andar pelas ruas caando homens e, quando conseguiam agarrar algum, iam fazer o amor com eles em terrenos baldios, sobre a terra ou a grama (e quantas vezes se haviam deitado seminuas ou completamente nuas em cima de urtigas ou plantas espinhosas!) ou ento de p, s pressas, em algum ngulo de muro, em ruas desertas.
    Rosinha espera, com os olhos fitos no relgio. O ponteiro pequeno est pertinho das oito e o grande no muito longe dele. Ai meu Deus!  suspira ela, olhando a seu redor. A alcova cheira permanentemente a mofo, nunca recebe a luz do sol, e quando algum sobe ou desce a velha escada  como se estivesse pisando na cabea do pobre vivente que est deitado nesta cama.
    So quase oito e meia quando Rosinha ouve passos muito leves no corredor. Entesa o busto e fica  escuta. Seu corao rompe a bater acelerado. Seus olhos fixam-se na porta. Um breve silncio. Depois a porta comea a abrir-se devagarinho, e as suas dobradias enferrujadas rangem quase musicalmente.  luz da vela, contra o fundo escuro do corredor, ali est agora a sua amiga Erotildes, que mais parece um fantasma dentro do camisolo de hospital que lhe serve de mortalha. Rosinha ergue-se, as mos apertando uma a outra. Erotildes sorri, mostrando os dentes escuros e pontiagudos e faz: Oh! bem como nos seus tempos de viva. Rosinha engole em seco e depois responde como costumava fazer quando se encontravam naquele cochicholo, terminada a caada da noite: Oh!
    Erotildes olha em torno e depois encara de novo a companheira.
     Como vais?
     Mais ou menos. E tu?
     Morta.
     Como foi que voltaste?
     No sei. Mas o Dr. Ccero est providenciando pra enterrar a gente. O advogado, te lembras? E tu sabes quem est no nosso grupo? Uma gr-fina, a D. Quitria Campo-largo. Imagina s que chique!
    Rosinha sacode a cabea lentamente, imaginando... Depois baixa os olhos e murmura:
     Tu me desculpas por eu ter ficado com o teu vestido, as tuas meias, o teu sapato... e as outras bugigangas?
     Ora, que bobagem! Defunto no precisa mais dessas coisas.
     Tu no te ofendes se eu espalhar um pouco de perfume?
     Ora! No me importo. Sei que estou fedendo. Mas que  que tu queres? Morta h quase trs dias... Ou dois? Nem me lembro.
    Rosinha apanha um frasco de loo (Violetas de Parma) e pe-se a perfumar o ambiente apertando freneticamente no vaporizador. Depois afasta-se da amiga morta o mais que pode naquele reduzido espao.
     Como vai a tua tosse?
     Menina, onde  que tu viste morto tossir?
     Ah,  mesmo. Tambm no sentes mais pontadas no pormo, n?
     No sinto mais nada.
    Novo silncio. Rosinha aponta para os ps descalos de Erotildes :
     Quando te botaram no caixo fui eu quem te arrumei direitinho, te penteei, botei ruge na cara, batom nos beios, e at te pintei as unhas dos ps... No notaste?
     Notei. Muito obrigado. Novo silncio.
     E agora?  pergunta Rosinha.
     Temos que estar todos os sete ao meio-dia em ponto no coreto da praa. Ordens do Dr. Ccero.
     Ento senta, menina.  cedo ainda.
     No carece. Estou bem de p.
    A morta ajeita os cabelos com os magros dedos.
     Devo estar medonha.
     Nem tanto.
     Podes falar com franqueza. No ligo...
     Bom, a doena te deixou meio magra e plida. A morte no te ajudou em nada. Mas pra mim, viva ou morta, tu s sempre a Erotildes.
     Engraado no teres medo de mim... Vim pela rua assustando meio mundo. Vi uma mulher desmaiar de susto na minha frente. Um pintor de parede me enxergou, soltou um grito e caiu da escada (Deus queira que no tenha se machucado muito). At os gatos e os cachorros fogem de mim. E tuT nem gua...
     Havia de ter graa eu ter medo de ti.
    Erotildes apanha o castial e pe-se na frente do pequeno espelho com moldura de lata dourada que pende dum prego cravado na parede. Move a luz da chama da vela dum lado para outro, murmurando:
     Que  que h com este espelho? No me enxergo nele.
     Decerto est te estranhando  diz a outra com uma risadinha nervosa.  Deve estar meio assustado, o coitado.
    Rosinha apanha de novo o vidro de loo e aciona-lhe o vaporizador, E de novo, naquele ar quente e abafado, o perfume das violetas de Parma entra num corpo-a-corpo com o cheiro de carne decomposta que envolve Erotildes, como uma aura.
    A morta repe o castial em cima da mesinha, depois volta-se para a amiga:
     Como vai o negcio?
     Muito mal. Cada vez pior. Eu sempre digo: o que falta pra Antares  uma boa guarnio mitar.
     No tens nenhum amiguinho fixe?
     Eu? Nesta idade? Dou graas quando consigo pescar um homem por noite. Cobro uma misria e assim mesmo levo muito beio. Tu sabes como  a coisa. Ningum quer pagar adiantado.
    Rosinha baixa a cabea e conta:
     Ontem de noite uns meninos me agarraram a fora e me levaram pra um terreno baldio. Uns cinco ou seis... Primeiro me tiraram toda a roupa, at me rasgaram um vestido quase novo. Me derrubaram, se puseram em mim, no houve porcaria que no fizessem comigo. Depois foram embora dando risadas e no me deram um msero vintm.
     Conhecidos?
     Alguns acho que conheo de vista. Meninos de boas famlias.
     s vezes so os piores.
     Mas no sei por que fizeram isso, logo comigo! No precisavam me agarrar a unha, me maltratar. Se dissessem que estavam sem dinheiro, eu dava de graa. Mas no. Pareciam uns animais. Em vez de virem de um a um, vinham de dois e at de trs. Uns porcos!
    Erotildes fita na amiga os olhos gelatinosos e diz baixinho:
     Pois eu te digo que estou contente por ter morrido. A gente fica livre pra sempre de todas essas tristezas e vergonhas.
     J pensei em morrer. Em tomar veneno. Mas no tive coragem... 
      pecado a gente se suicidar. Vai pro inferno.
     Mas o inferno no ser aqui mesmo?
    De sbito Rosinha desata o choro. Erotildes ergue a mo como para acariciar a cabea da amiga., mas hesita em toc-la.
     No h de ser nada  murmura.  No hai bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe, como dizia a minha falecida me.
    Erotildes pega o vaporizador e borrifa a prpria cara de perfume. Depois diz:
     Bom, j te vi. Tenho ainda quase trs horas livres pela frente. Acho que vou ver a Irm Bonifcia, aquela enfermeira que foi to boa comigo quando eu estava no hospital. At logo, Rosinha, Deus te ajude!
    Encaminha-se para a porta.
     Erotildes? Tu j viste Deus? A morta se volta:
     Ainda no. Decerto s vou ver Ele quando me enterrarem como cristo.
    Rosinha limpa tremulamente as lgrimas do rosto com as pontas dos dedos.
     Vou te pedir um favor...
     Qual ?
     Diz pra Deus que me d uma boa morte, j que no me deu uma boa vida.
    
    XXIX
    Depois de separar-se de seus companheiros, Pudim de Cachaa, envolto numa nuvem de moscas, encaminha-se para o setor de Antares popularmente conhecido por Zona Estragada, e que fica a noroeste da cidade, perto das barrancas do rio. Passou primeiro pela sua prpria casa, que encontrou fechada, assustou os vizinhos (Que  isso, minha gente? No me conhecem mais?) e depois saiu em busca de seu melhor amigo, companheiro de pileques, serenatas e farras com raparigas.
     Por onde andar o Alambique?  pergunta ele a um sujeito que est parado a uma esquina. O homem, reconhecendo-o, empalidece, recua horrorizado e comea a abrir e fechar a boca, ansiado, como um peixe fora dgua.
    Pudim, resignado, continua o seu caminho. Ao dobrar uma esquina d de repente com Erotildes. Ambos estacam bruscamente, como se um se tivesse assustado do outro.
     U?  disse ela.  Tu por aqui?
     Ando percurando um amigo. E tu?
     Fui visitar uma amiga.
    Algumas das moscas que esvoaam e zumbem ao redor do corpo de Erotildes passam para o de Pudim de Cachaa, e vice-versa. Depois desse rpido intercmbio de moscas os dois companheiros se separam com um  t logo. A mulher d alguns passos, volta a cabea e grita:
     No te esqueas do que o Dr. Ccero pediu, Pudim. Ao meio-dia, todos no coreto!
    O cachaceiro volta-se tambm:
     O sol  o meu relgio. No falha nunca. Ao meio-dia em ponto estou no coreto. Ouro e fio.
    Agora Pudim de Cachaa entra no Beco do Gato, vai direito ao botequim do Quincas, seu habitual ponto de reunio noturna com o companheiro. Pra  porta e espia para dentro... Ao v-lo o proprietrio da casa solta um grito e sai a correr na direo dos fundos do boteco.
    Pudim entra. Num canto da pequena sala, sentado  mesa de costume, l est o Alambique diante dum copo de cachaa, o violo em cima duma cadeira, a seu lado.
     Homem de Deus, faz horas que ando te percurando! Alambique ergue-se, aperta as plpebras, seus olhos
    como que se movem como duas bonhas de gude azuis, dentro dos bojos das rbitas.  um homenzinho de um metro e cinqenta de altura, com um esqueleto de magro coberto por umas carnes balofas de alcolatra.
     Pudim velho de guerra! Me disseram que tinhas voltado, mas eu pensei que era potoca.  Precipita-se para o amigo e abraa-o.  Senta, homem.
    As moscas zumbem no ar, por cima da cabea do morto, que se senta na ponta da cadeira.
     Bebes uma cachacinha?
     No posso. Se eu beber, vaso. Costuraram muito mal a minha barriga.
     Eu sei. Eu vi. Depois que o doutor da polcia abriu o teu bucho, eu fui s autoridades competentes e pedi o teu corpo. Me deram, sem papel nenhum. Vai ento fiz uma suscrio rpida entre amigos pra te comprar um caixo. No era gran cosa, mas, que diabo!, nunca foste homem de luxos. Te botei essa roupa, a melhor que encontrei na tua casa. Me esqueci dos sapatos. Me desculpa...
     No ests assustado?
     Eu? De qu?
     De estar falando com um defunto. Espantei muita gente na rua. Uns dois ou trs ficaram de perna frouxa e caram. Outros dispararam.
     Ah, mas esses no eram teus amigos, como eu.
    Alambique toma uma larga talagada de cachaa. Agora as moscas cobrem quase por completo a face, as mos e os cabelos do morto.
     Meu fedor no te repuna?
     Hai piores no mundo e eu tenho agentado firme. Mas... como ia te contando, alugamos uma carroa, botamos o teu caixo dentro dela (eu mais o negro Tinoco e o carroceiro) e tocamos lomba acima, na direo do cemen-trio. Quando chegamos l em riba vieram uns caras me dizer que ningum podia ser enterrado, porque isto e porque aquilo. Dei-lhes uma puteada em regra, levei uns empurres, mas tu compreendes, eles eram uns cento e tantos e ns s trs, parada mui dura. Ento tivemos de te deixar fora da cidade dos ps juntos. Mas toma um troo, homem!
     J te disse que estou furado.
     Tenho sentido falta de ti.
     Como  que j ests aqui to cedo?
     Vim tomar meu caf da manh  sorri o Alambique, mostrando o copo de cachaa.  Passei a noite em claro, caminhando por a, cantando pelas esquinas. Quando o dia raiou, fiquei olhando o rio e pensando umas .bobagens. Mas toma uma branquinha!
     J te disse que no posso. E mesmo no sinto vontade.
    Alambique espanta as moscas que voe jam tambm em torno da sua cabea, pega o violo e comea a tocar uns ponteios. O morto pergunta:
     Escuta aqui...  verdade,  verdade mesmo que a Nataiina botou veneno na minha comida?
     . Confessou.
     No teria sido inveno da polcia?
     No. Falei com ela. No nega que te matou de propsito.
     Coitada! No est arrependida?
     No sei. Mas no me pareceu.
     E agora? Ser que vai pegar muitos anos de cadeia?
     Ora, menino, isso depende de muita coisa. Do discurso do promotor. Do advogado dela. Dos jurados. Toma alguma coisa!
    Alambique ergue-se e, meio cambaleante, vai at  prateleira do botequim, por trs do balco, segura uma garrafa de cachaa e volta com ela para a mesa.
     Estamos de donos desta joa. Quando te viu, o Quincas ficou branco como papel e botou o p no mundo. Hoje podemos beber de graa. Quem sabe aceitas um vinho. .. ou um licorzinho?
    Pudim belisca, distrado, as cordas do violo do amigo.
     Onde est a Natalina?
     Na cadeia municipal. Onde mais?
    Pudim de Cachaa passa a mo pelo estmago, quase numa carcia.
     Escuta aqui, Alambique... E se a gente hoje de noite fosse fazer uma serenata pra ela?
    
    XXX
    Do dirio ntimo do Pe. Pedro-Paulo :
    13 de dezembro. Cinco e quinze da tarde. Confuso de esprito ante os fantsticos acontecimentos do dia. Estar Antares sob a influncia dum incubo? Nc quero pensar nisso. Pelo menos por enquanto.
    O vigrio me telefonou aflito e tartamudeante. Afirma que viu de perto os sete mortos e sentiu-lhes a podrido. Jura que se moviam, falavam e at sorriam. Pediu-me para ir ajud-lo esta tarde na Matriz, pois vrias dezenas de pessoas querem confessar-se e comungar. O pobre velho sente-se culpado do pnico que parece ter tomado conta da populao de Antares, pois num momento de desatino (justificvel) exclamou, dentro da igreja, que o Juzo Final tinha comeado.
    Tudo isso me pareceu grotesco e terrvel. Cerca das oito horas da manh Geminiano me levou no seu jipe ao centro da cidade. Apeei na Praa da Repblica. Pedi ao G. que voltasse para a Vila e que fizesse o possvel para que os seus companheiros no fossem ao centro enquanto a situao no se esclarecesse. Era melhor para eles e para a greve no se envolverem no imbroglio.
    De repente me vi sozinho no meio da praa, sob o olho ardente do sol. Suava abundantemente. O calor mido me ardia na pele. A cabea me latejava e doa numa dor surda, rombuda, localizada principalmente na nuca. Achei que se eu ficasse ali por muito mais tempo seria vtima duma in-solao. No entanto, por algum motivo misterioso continuava imvel, com a vaga impresso de que tinha um encontro marcado com algum quela hora e naquele lugar. Mas com quem? A praa estava completamente deserta. As casas em derredor, com janelas e portas fechadas. Era como se toda a populao do mundo tivesse sido destruda por uma peste ou por uma guerra nuclear e eu fosse o nico sobrevivente da hecatombe. .. As cigarras que rechinavam nas rvores em breve pareciam estar dentro do meu prprio crnio, cantando e stridulamente ao ritmo do sangue que me martelava as tmporas.
    E eu ainda esperava... mas quem?... com a sensao de que no podia faltar a um encontro da maior importncia. O suor me entrava nos olhos e as coisas a meu redor  casas, rvores, pedras, cu  se turvavam cada vez niais, at ao ponto de eu ter a sensao de que estava no fundo do mar.
    Foi ento que avistei, vindo no sei de onde, um vulto que se aproximava de mim. Era um homem e manquejava.
    Finalmente parou, a alguns -passos de onde eu me encontrava. Seu corpo no tinha sombra. Sua cara estava horrivelmente desfigurada.
     No est me reconhecendo, padre?
     Joozinho!
     Est com medo de mim?
     No. Mas estou confuso. .. no compreendo.
     No procure compreender. Esquea a lgica.
    Senti um aperto na garganta, meu. corao batia rpido e com fora. Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos. Dei alguns passos na direo do meu amigo, mas ele recuou.
     No se aproxime! Estou cheirando mal. Por favor, no me faa perguntas. Aceite a minha presena assim como aceita os milagres da sua Igreja. E me escute, pelo amor de seu Deus, me escute com a maior ateno.
     Fale, Joozinho. Que  que voc quer de mim?
     Fui assassinado, voc sabe... Estou preocupado com o destino de minha mulher e do nosso filho, que ela tem no ventre.
    Eu j no sentia mais o corpo. Quis dizer alguma coisa, mas no consegui, pois era como se a lngua me tivesse inchado dentro da boca.
     Sabe onde est a Ritinha?
     Em casa  respondi com voz espessa, articulando mal as palavras.  Visitei-a ontem.
     Como est ela?
     Desesperada. Sentindo falta de voc.
      verdade que ela foi presa e interrogada brutalmente pela polcia?
    Baixei a cabea, olhei para a minha prpria sombra, com uma sbita vergonha de pertencer  espcie humana.
     Desgraadamente  verdade.
     Foi torturada?
    Senti uma tontura e a impresso de que ia cair. Fiz um esforo, mantive o equilbrio e respondi:
     Perguntei isso  prpria Ritinha, mas ela declarou que preferia no falar no assunto. Respeitei o desejo dela.
     A criana ainda est viva?
     Est. Ela se move. O mdico afirma que o filho de vocs vai nascer dentro de menos de dois meses.
     Padre, eu agora quero ver a minha mulher, mas temo que ela sofra um choque muito grande quando me vir... neste estado, e isso pode ser mau para ela e para a criana... Quero que voc v v-la agora e preparar o seu esprito... para este espetculo repulsivo. No! No se aproxime de mim. Estou podre. Faa o que lhe pedi e no pense em mim.
    Nos meus olhos as lgrimas misturavam-se com o suor. E agora eu s sentia compaixo e amor para com aquele homem, meu amigo, meu irmo.
     Outro grande favor, padre  tornou ele a falar.  Sei que no tenho o direito de lhe pedir tanto...
     Pea o que quiser.
     Salve a minha mulher e o meu filho do delegado Pigaro e de seus carrascos. Eles podem prend-la de novo. Quero que a leve para o outro lado do rio. Conhece o Lus Romero, o dono da lancha chamada Querncia?
     Conheo.
     Ele  meu amigo e companheiro de luta. Um homem de verdade. Esta noite a cidade inteira estar preocupada com os sete defuntos. Aproveite a oportunidade para conduzir a- Ritinha at esse homem. Pea-lhe que a leve para a Argentina no seu barco. Do outro lado temos companheiros que lhe arranjaro todos os papis de identidade necessrios. Pode me fazer mais esse imenso favor?
     Posso.
     Sinto ter de compromet-lo nessa fuga, padre.
     No vie  possvel ficar mais comprometido do que j estou. No se preocupe comigo.
     Leve a Ritinha ao Trapiche Pequeno por volta das dez da noite.
    De novo tentei aproximar-me de Joo, num sbito e talvez absurdo desejo de toc-lo, apertar-lhe a mo.
     Por favor, no se aproxime. Sou um cadver.  terrvel a gente saber, sentir que est se desintegrando, apodrecendo aos poucos.  pavoroso ter conscincia disso. Eu quisera acreditar em Deus e na vida eterna. Mas no posso. Nunca pude. Mas acredito nesta vida. E como! Tenho esperana num futuro melhor para nossa terra, para o mundo. Quero que meu filho nasa, cresa e viva para participar desse mundo.
     Isso  religio  disse-lhe eu baixinho.  Voc diz que no acredita em Deus, mas vejo que acredita em todos os Seus pseudnimos.
    Separamo-nos e eu me encaminhei para a casa de Joo-zinho e Ritinha, numa das misses que esperei viesse a ser das mais difceis da minha vida de sacerdote e de homem. Mas estava enganado. Ritinha me escutou de olhos secos, com uma coragem extraordinria. Quando terminei de lhe contar de meu encontro com Joo, ela disse simplesmente: Ele pode vir. Estou preparada. E nosso filho tambm.
    
    XXXI
    Na pequena sala de seu apartamento Rita Paz espera o marido. Na tarde anterior o mdico lhe deu barbitricos para que ela pudesse dormir. Deitou-se completamente vestida como estava. Ao amanhecer daquela sexta-feira, despertou dum sono ininterrupto de quinze horas, espesso e sem sonhos. Ergueu-se da cama estonteada, a memria bloqueada, e veio abrir a janela da sala. A luz do sol feriu-lhe os olhos, penetrou-lhe o crebro doendo como cem agulhas lancinantes de fogo. Ela tornou a fechar, s cegas, as venezianas e atirou-se naquela poltrona, cerrou os olhos e ficou vendo contra as plpebras umas manchas que avanavam e recuavam, umas arroxeadas, outras dum verde de fel: e pareciam mover-se ao ritmo do latejar de seu sangue.
    O Pe. Pedro-Paulo encontrou-a naquela situao e ela o escutou sem v-lo. Apesar de mansa, a voz do sacerdote lhe doeu nos olhos e na cabea. Algumas das frases que ele lhe disse lhe voltam agora com toda a sua carga de horror. (Ou tudo isto  um pesadelo?)
    Ele foi torturado barbaramente. Seu rosto est quase irreconhecvel. Um brao e uma perna partidos. Rita, pense em Deus e tenha coragem. O que vou lhe dizer  terrvel, mas  melhor que voc saiba de tudo. O corpo do seu marido est em decomposio. Prepare-se para o pior.
    Rita Paz espera. Espalma as mos sobre o ventre in-tumescido e sente os movimentos do filho no leve ondular de sua prpria carne.
    Quanto tempo faz que o Pe. Pedro-Paulo saiu desta sala? Cinco minutos? Dez?
    Comea a ouvir um rudo que vem da velha escada... um rudo surdo e cadenciado de passos. Algum sobe... Ela endireita subitamente o torso e fica  escuta... Sente a garganta apertada, respira com dificuldade, as mos agarrando com fora os braos da poltrona.
    O rudo de passos continua, vai ficando cada vez mais forte. De repente cessa, para recomear segundos depois, numa intensidade diferente: um passo pesado, outro leve e meio arrastado. (A perna quebrada!) Joozinho  pensa ela.  Joozinho agora est no corredor, aproxima-se da porta... Rita conserva os olhos cerrados. Ouve o rudo metlico do trinco... Quer erguer-se e correr ao encontro do marido mas no tem foras para mover-se: braos e pernas como de pano, uma fraqueza no corpo inteiro. O sangue pulsa-lhe nas tmporas. (Meu pai morreu dum derrame cerebral.) Sente que a porta se abre e que o marido ali est a uns cinco passos dela. Sua podrido lhe chega s narinas e Rita no pode evitar que seu rosto se crispe numa expresso de nusea.
     Ritinha...
    A voz dele. Ela abre os olhos, leva alguns segundos para distinguir as feies do marido na penumbra. (Quem  esse estranho?) Esconde a face nas mos e um soluo que lhe vem das entranhas, um soluo profundo, enorme, de que seu filho parece participar, convulsiona-lhe espasmo-dicamente o ventre, sobe-lhe dilacerante pelo peito at  garganta, onde fica trancado, incapaz de libertar-se num acesso de choro.
     Eu sei que estou medonho. Mas escuta, meu amor. Prometo no ficar muito tempo.
     No, meu querido, no. Fica! Fica! Consegue finalmente erguer-se. Ele, porm, grita:
     Alto! No te aproximes...  E ela, que havia dado um passo, estaca, balbuciando:
     Eu queria te abraar, te beijar... A voz dele lhe vem seca e sem cor-.
     Se deres mais um passo eu me atiro por essa janela... Escuta, Rita. Sei que estou cheirando mal. Mas no penses que a morte me destruiu o amor-prprio. No quero te causar repugnncia, nem desejo que guardes esta horrvel lembrana de mim... Senta-te, por favor.
    Ela obedece e ele recua para um canto da sala, o mais longe dela possvel. Um novo soluo sacode agonicamente o corpo de Rita. Seus olhos continuam secos, a garganta apertada.
     Ests sofrendo muito?  consegue ela perguntar.
     No, Ritinha, no sinto nenhuma dor fsica. Mas agora escuta. Se vim com os outros mortos  porque queria te rever... e principalmente fazer alguma coisa para te salvar desses bandidos, a ti e ao nosso filho. Depois, pouco me importa o que fizerem com o meu cadver.
    Ela estende os braos:
     Mas eu quero ao menos te tocar...
     No! No sou mais o homem com quem casaste.
     Meu pobre querido! Um curto silncio.
     Nosso filho ainda se mexe?
     Sim.
     Ah... se eu pudesse sentir os movimentos dele! Ela sorri, como que sbita e milagrosamente liberta
    do pesadelo.
     Podias encostar a mo no meu ventre...
     Minha mo podre...
     Tua linda mo. Vem, por amor de Deus, vem... Joo hesita.-
     Rita, tapa o nariz e a boca com um leno...
     Joozinho...
     Faz o que te peo. Depressa. Eu vou me aproximar de ti. S por alguns segundos. Por favor!
    Ela leva o leno ao nariz, ele d alguns passos, claudicando, coloca uma das mos sobre o ventre da companheira.
     Sentes alguma coisa?  e a voz de Rita vem abafada atravs do leno.
     Sinto! Sinto! Ele est vivo e  nosso!
    De repente ela estende os braos e enlaa as pernas do marido num gesto desesperado e aperta a cabea contra o ventre dele como se quisesse penetrar-lhe as entranhas.
     No! No! No!  vocifera o morto, desvencilhan-do-se e recuando para um canto da sala, ao passo que ela fica ajoelhada ao p da poltrona, o corpo outra vez sacudido por soluos secos.
     Perdoa, querida. Eu no devia ter feito o que fiz. Foi egosmo meu. Um morto devia conhecer o seu lugar. Mas  que a morte no matou o meu amor por vocs. Nem por todos os seres vivos do mundo. Nem pelo mundo... e pela vida. Mas agora escuta. Escuta com a maior ateno. Teu futuro e o do nosso filho depende do que vou te dizer... Ritinha, ests me ouvindo?
    Ela sacode repetidamente a cabea, os olhos fitos no soalho.
     Esta noite, por volta das dez horas (atenta no que estou te dizendo), o Pe. Pedro-Paulo vir te buscar para te levar para o outro lado do rio no barco do Romero. Ningum prestar ateno a vocs porque a cidade inteira vai estar preocupada e assombrada pela presena de sete mortos no coreto da praa. Romero sabe aonde e a quem te levar. Na outra margem, companheiros nossos te arranjaro os papis necessrios e depois te escondero num lugar seguro, onde poders ter o nosso filho com assistncia mdica. Mas escuta... Pe na bolsa todo o dinheiro argentino que temos escondido. No leves nenhuma mala. Ests compreendendo?
    Ela faz com a cabea um sinal afirmativo.
     E agora adeus. No. No te levantes. No te aproximes. Conserva os olhos fechados.
    Ele se encaminha lentamente para a porta.
     Joozinho!  Ele se volta.  H uma coisa... uma coisa horrvel que preciso te contar...
     Conta, minha querida.
    Ela fala com dificuldade, como se algum lhe apertasse a garganta.
     Eu no sou quem imaginas. Sou uma covarde, uma traidora.
     Rita, no sabes o que dizes.
     Espera, espera... Se eu no te contar tudo... ser mais um peso que terei de carregar pelo resto da vida.
     No tens que me dizer nada. Lembra-te que morri anteontem. No sei o que me vais dizer, mas seja o que for tu para mim sers o que sempre foste. Na cadeia, mesmo na hora das torturas, eu pensava em ti, recordava os bons e os maus momentos que passamos juntos. A tua dedicao e a tua lealdade eram para mim um consolo e uma esperana.
     No, Joozinho. Covarde e traidora, isso  que eu sou!
     Me recuso a ouvir o que dizes!  exclama ele, dando mais dois passos na direo da porta.
     Se no me escutares, sou eu quem salta por aquela janela agora  e ela pronuncia estas palavras quase gritando.
    Ele estaca.
     Fala, ento. ..
     Na manh em que te prenderam... eles me levaram tambm, me atiraram dentro dum quarto sem janelas. .. completamente escuro... e l me deixaram um dia inteiro, uma noite inteira... Depois me arrastaram para outra sala, me fizeram sentar numa cadeira... acho que eram muitos homens, eu no podia enxergar direito por causa daquela luz forte nos meus olhos... Queriam saber os nomes dos outros dez de que tu (eles diziam) eras o chefe... Respondi que no sabia.
     Disseste a verdade.
     Mas eles no acreditaram. Repetiram a pergunta. Jurei por Deus que no sabia. E ento aqueles animais ameaaram de me torturar... enfiar agulhas debaixo das minhas unhas... Um deles chegou a dizer que, se eu no falasse, eles me entregariam nua aos soldados da guarda... Por fim um outro gritou: Se voc no confessa ns vamos pisar nessa tua barriga, cadelinha, e matar o teu filho... E ento... eu... eu confessei!
     Impossvel! Tu no sabias, como eu tambm no sei. Como pode a gente conhecer os nomes dos componentes dum grupo que s existe na imaginao dum bandido alucinado, dum cachorro louco como o delegado Pigaro?
    O corpo inteiro de Rita estava agora sacudido por um tremor de febre.
     Perdoa, Joozinho... Eu estava apavorada. Pensei no meu filho e comecei a dizer nomes... os primeiros que me vinham  cabea... nomes de companheiros nossos...
    Por um instante Joo Paz permanece calado. Depois, com voz pausada e resoluta, diz:
     No penses mais nisso. Eu teria feito o mesmo, no teu lugar.
     No! No! Tu no disseste nada, e por isso eles te torturaram e te mataram.
     No deves imaginar que no tive medo. No sou nenhum heri. Se no me tivessem assassinado, eu talvez no fim tivesse feito o mesmo que tu... Esquece tudo! Pensa apenas no nosso filho. Agora s isso importa.
     Espera! Quero ser sincera at ao fim. Eu podia dizer que foi s pensando na vida de meu filho que fraquejei. No. Foi pensando tambm na minha prpria carne. Tenho horror ao sofrimento fsico. Confessei porque sou covarde. Depois que me soltaram, ouvi dizer que todas as pessoas que eu havia denunciado estavam presas. Fiquei horas sozinha ali naquela cadeira, pensando nelas, no que podiam estar sofrendo por minha causa. Se no me matei... depois de tudo isso e depois que me contaram da tua morte... se no me matei foi ainda por covardia.
     No, Ritinha, tu no me convences da tua falta de coragem. Eu sei que s, que sempre foste e continuars sendo uma mulher de valor.
    Ela sacode a cabea, dum lado para outro, negando-se a aceitar aquelas palavras e repetindo: No! No! No! Ele, porm, continua:
     Escuta, minha querida. s vezes neste mundo  preciso mais coragem para continuar vivendo do que para morrer. As pessoas que dizes ter denunciado mais tarde ou mais cedo sero libertadas. No conseguiro provar nada contra elas. E tu, tu, Rita, ters daqui por diante uma misso a cumprir. E sou eu, teu marido e companheiro, quem te delega essa misso. Irs em exlio para a Argentina e l ters o nosso filho. E depois o criars com o suor do teu rosto, e fars dele um homem para que ele um dia possa ajudar as criaturas de boa vontade a criar um mundo melhor e mais justo do que o de hoje. No percas a f no futuro. Quem foi que escreveu que o pior pecado  o pecado contra a esperana? No esqueas, meu amor, o Pe. Pedro-Paulo vir te buscar esta noite s dez horas. E agora fica onde ests. No me olhes. Pensa no outro. No homem que fui. Te lembras daquele domingo, no segundo ano de nosso casamento, quando samos a passear de barco pelo rio? Tinhas ido ao mdico no dia anterior sem me dizeres nada. Guardaste bem o teu segredo. E no meio do rio, enquanto eu remava, tu me revelaste que estavas grvida... te lembras?
    Ela ergue a cabea, mas de olhos sempre fechados.
     Como podia esquecer? Eu me lembro do teu rosto no sol...
     E eu fiquei to contente com a notcia que me ergui e atirei longe o remo, pouco me importando que nosso barco fosse levado pela correnteza at ao mar... Ns amos ter um filho... ramos donos do mundo!
    Ento de sbito, como uma represa que se rompe, os soluos de Rita se transformam em pranto, e as lgrimas lhe escorrem dos olhos pelo rosto, e ela se estende no cho, quase aliviada da sua agonia, e ali fica a chorar, a chorar como uma criana.
    Joo Paz est agora na soleira da porta.
     No abras os olhos. Quero te fazer um ltimo pedido. Esquece que me viste... assim. Abre as janelas. Deixa entrar o sol e o vento para que varram o meu rastro podre. Fica naquela manh clara. Naquele barco, no rio... O sol nas nossas faces! Adeus, querida!
    Ela ouve a porta fechar-se, os passos no corredor, depois na escada, e por fim o silncio.
    
    XXXII
    Naquela manh, cerca das sete horas, Accia entrou no gabinete do prefeito de Antares para fazer a limpeza de rotina. Sofria de elefantase e movia-se com a pesada lentido dum paquiderme. Costumava trabalhar resmungando todo o tempo para si mesma e para as almas, os anjos e os demnios que sentia permanentemente ao seu redor. Passou primeiro um pano mido pelo soalho encerado e depois saiu a limpar com um pedao de flanela seca as superfcies de madeira e metal cromado, e os objetos que estavam sobre a mesa de trabalho do perfeito. Tinha ordem de no tocar em nenhum papel que encontrasse naquele recinto, fosse onde fosse, e de no abrir nenhuma gaveta. Tratava cada mvel, cada utenslio como a uma pessoa, uma velha conhecida, com quem conversava  o telefone, as canetas, a prensa de mata-borro, os cinzeiros, os vasos, o corta-papel... Gostava especialmente do grande tinteiro de mrmore com relgio, calendrio mvel e adornos dourados. Era com um sentimento de respeito mesclado de supersticioso medo que ela passava a flanela pelos dois bustos de bronze  aquelas estautas sem braos nem pernas que l estavam, cada qual no seu canto. Quem eram? No sabia. Nos muitos retratos que pendiam das paredes, enquadrados em molduras cor de ouro velho, ela s reconhecia uma fisionomia: a do Dr. Getlio Vargas, que ela adorava como se ele fosse um santo. O Velho tinha morrido, e estava no cu, apesar de ter dado um tiro no prprio corao. Deus no teria coragem de mandar o Dr. Getlio para o inferno. Todas as manhs, tirante a de domingo, antes de comear a limpeza da pea, Accia costumava ajoelhar-se diante da imagem do Pai dos Pobres e recitar atabalhoadamente uma orao, em geral um Padre-Nosso. A negra velha era a encarnao dum curioso sincretismo religioso. Macumbeira, me-de-santo, devota de So Jorge, ela tambm ia  missa aos domingos, fazia promessas a Nossa Senhora, e de vez em quando se confessava e comungava. Ultimamente dera para freqentar a Assemblia de Deus, pois l encontrava a oportunidade, que a encantava, de entoar hinos com os demais crentes.
    Na sua breve orao daquela manh, Accia pediu ao Dr. Getlio que protegesse a populao de Antares, pois era uma sexta-feira 13 e na vspera uns hereges desalmados tinham impedido que sete defuntos fossem sepultados. Depois de fazer o sinal da cruz, ergueu-se, gemendo, e de repente lhe ocorreu pedir mais alguma coisa ao seu santo: Meu ganhame aqui  pouco e o trabalho muito, Presidente. Mande essa gente me pagarem mais. Amm!
    Terminada a tarefa, parou no meio da sala, olhou em torno com seus olhos lquidos, de esclertica pardacenta, viu que tudo estava bem e saiu a limpar os outros compar-timentos do palacete municipal.
    
    XXXIII
    Antnio Augusto Mendes, secretrio da Prefeitura, era um trinto alto, magro, meio encurvado, o rosto amarelento picado de marcas de bexiga, os dentes maus, a voz afetuosa, os gestos obsequiosos. Seu av, republicano da primeira hora, fora serventurio pblico durante quarenta anos e tinha uma admirao ilimitada por Jlio de Castilhos e Borges de Medeiros. O Mendes crescera ouvindo em casa, contadas pelo av, estrias edificantes sobre esses dois patriarcas. No ginsio a Histria fora a sua matria preferida. Tinha a poltica no sangue, sonhava com uma deputao estadual ou mesmo  quem sabe?  federal. Fora, porm, forado, por motivos econmicos, a abandonar o curso de Direito no terceiro ano, e voltara para Antares onde trabalhara primeiro com um rbula, e depois como escrevente dum cartrio. Candidatou-se duma feita a uma cadeira na Assemblia Legislativa do Estado, mas no foi eleito, pois no obteve mais que cento e poucos votos. Dois anos mais tarde tentou a vereana, na legenda do P.S.D., e conseguiu ser eleito pelas caronas, como se comentou na cidade. Terminado o seu mandato, foi convidado para trabalhar com o Maj. Vivaldino Brazo, que comeava a sua gesto como prefeito municipal.
    Antnio Augusto Mendes orgulhava-se de ser um funcionrio dedicado e diligente. E era mesmo. Vivaldino estava satisfeito com o seu auxiliar, apesar de saber que ultimamente o Mendes andava abusando dos aperitivos s horas mais imprprias do dia. s vezes o lcool deixava-o um tanto alegrete, com entusiasmos excessivos e uma lo-quacidade exacerbada. Nada disso, porm, lhe prejudicava a eficincia secretarial nem as suas qualidades de homem dos sete instrumentos.
    Nas noites em que resolvia fazer sero na prefeitura, para pr em dia tarefas atrasadas, o Mendes, findo o trabalho, gostava de acender as luzes do gabinete do chefe, sentar-se no sof e ali ficar bebendo caninha e olhando para os retratos dos polticos que se enfileiravam ao longo das paredes: o de Getlio Vargas, na fotografia oficial, com a faixa de Presidente, e que durante o Estado Novo o D.I.P. distribura aos milhes por todo o pas; o de Flores da Cunha, no seu fardamento de general honorrio do Exrcito Nacional; o de Oswaldo Aranha, com seu ar de estadista civilizado, com cancha internacional; o de Juscelino Kubitschek, com o seu semblante entre simptico e irnico, com um qu de eslavo. Numa outra parede via-se o retrato de Joo Goulart  e o fotgrafo lhe apanhara o ar matreiro e xucro de quem nunca olha o interlocutor diretamente nos olhos. Em 1930, quando a Frente nica congraava mara-gatos e pica-paus em torno da personalidade do homenzinho de So Borja, alguns libertadores locais tinham conseguido que o ento prefeito (republicano, como sempre) pendurasse numa das paredes do seu gabinete o retrato de Gaspar Martins e o de Assis Brasil. L estava o conselheiro do Imprio com as suas barbas e o seu olhar igneo de profeta bblico. O castelo de Pedras Altas, nariz bulboso, bigodes  Joaquim Nabuco  do seu pouco conspcuo trecho de parede parecia olhar para os outros retratos com um certo desprezo aristocrtico. Na parede que d para a praa, no vo entre as duas janelas-portas que abrem para o balco, empinava-se num cavalete um retrato a leo, de corpo inteiro, do senador Pinheiro Machado, cpia medocre da tela de G. DallAra, cujo original se encontra no Palcio Monroe, no Rio de Janeiro. (A imagem de Jnio Quadros havia sido retirada daquela galeria pouco menos de um ms aps a sua renncia.)
    Uma noite, terminado o sero, j madrugada alta  com um copo de cachaa na mo e o esprito da cana a estimular-lhe a fantasia, o Mendes acendeu as lmpadas do lustre do gabinete do prefeito e, com os ouvidos da memria, ps-se a escutar o que aquelas figuras diziam. A voz que ouviu primeiro foi a do busto de Borges de Medeiros, que fitava o seu mestre e amigo Jlio de Castilhos:
     A luz dos ensinamentos de Augusto Comte, cumpre afinal promover definitivamente a incorporao do proletariado  sociedade moderna e considerar o salrio como a equivalncia da subsistncia, e no como recompensa do trabalho humano, que no comporta nem exige nenhum pagamento propriamente dito, mas o reconhecimento devido.
    Castilhos pareceu sacudir a cabea, aprovando o seu discpulo. Depois, com a voz roufenha de quem sofre de algum mal de garganta, sentenciou:
     Comte disse tambm que existe na ordem poltica alguma coisa mais importante do que a diviso de poderes.  a composio do oramento.  a que reside o grande problema social, porquanto nos povos modernos a questo capital da sociedade  o imposto.
    Nesse momento Gaspar Martins, num fuzilar de olhos e culos, bradou:
     Idias no so metais que se fundei
    Mendes, que tinha atavicamente uma alma de republicano, no resistiu  tentao de corrigi-lo :
     Fundem e no funde, conselheiro. O se no  sujeito da sentena, mas pronome reflexivo. V primeiro aprender gramtica, seu maragatol
    E bebeu mais um gole de cachaa.
    Castilhos e Borges de Medeiros continuaram o dilogo.
     O Brasil  disse o segundo  atravessa uma crise profunda que abrange a complexidade dos fenmenos de ordem moral, intelectual e material. E em vo que tenta a sua debelao pelo emprego exclusivo dos remdios polticos... hlo existe uma doutrina universal; no existe uma moral positiva, generalizada; e a moral teolgica, exausta e decrpita, luta debalde pela conquista de sua influncia fatalmente perdida... S a educao positiva poder curar o ceticismo que domina as classes superiores, e o indiferen-tismo ou a revolta que caracteriza as classes inferiores.
    Foi nesse ponto que o senador Pinheiro Machado se manifestou, imponente no seu fraque, a cabea erguida, a mo direita metida no bolso das calas listradas:
      possvel que durante a convulso que nesta hora sacode a Repblica em seus fundamentos, possamos submergir.  possvel.  possvel mesmo que o brao assassino, impelido pela eloqncia das ruas, nos possa atingir... No ocultaremos como Csar a face com a toga e de frente olharemos fito a treda e ignbil figura do bandido, do sicrio.
    Mendes bebeu o ltimo gole de caninha e disse para si mesmo que aqueles trs, sim  Castilhos, Borges e Pinheiro  eram homens de prol, chefes com C maisculo. Que diziam os outros retratos? Flores da Cunha repetia com uma voz que a emoo engasgava: Desta jornada ou se volta com glria ou no se volta mais! Oswado Aranha repetia a senha telegrfica que havia deflagrado a Revoluo de 1930: O que  que h? (Havia um o demais na frase, refletiu o secretrio da prefeitura, com uma intransigncia de gramtico.) Depois Aranha murmurou qualquer coisa em ingls ao seu particular amigo Franklin Delano Roosevelt, ausente em efgie. Juscelino, que parecia no levar aquela gente a srio, limitava-se a repetir: Cinqenta anos de progresso em cinco. A Histria me julgar! O conselheiro Gaspar Martins, talvez por se sentir em minoria, gritava agora frases nos muitos idiomas que conhecia  inclusive o grego, o latim e o hebraico  enquanto Assis Brasil recitava trechos de sua traduo dum poema famoso de Longfellow, entremeado de conselhos aos agricultores e algo  que Mendes no conseguia entender  sobre as vantagens do voto secreto. E a todas essas Getlio e Jango continuavam calados. Getlio olhava para todos sorridente. Jango no olhava para ningum.
    Foi o Dr. Jlio de Castilhos quem disse a ltima palavra da noite:
     A progresso social repousa essencialmente sobre a morte. Os vivos so sempre e cada vez mais governados pelos mortos.
    Mendes no ouviu nem viu mais nada, pois caiu no sono, estendido no sof, e s despertou no dia seguinte, ce-dinho, quando a velha Accia lhe bateu no ombro. Por alguns instantes ele ficou de olhos piscos, pensamentos enevoados, sem saber claro quem era nem onde estava. Por fim situou-se, sentou-se, sorriu encalistrado, e, com voz pastosa e amarga, disse:  Accia! Trabalhei como um cavalo a noite inteira! A negra velha olhou ctica para o copo que estava em cima da mesinha,  frente do sof, cheirou-o e rosnou: Hum-hum!
    Isso tudo aconteceu na vspera da fatdica sexta-feira.
    
    XXXIV
    A reunio dos pr-homens de An tares, convocada s pressas por Vivaldino Brazo, comea poucos minutos antes das dez. Os convidados chegam ao gabinete do prefeito num silncio taciturno  alguns extremamente plidos, quase todos com o susto  tona do olhar  cumprimentam-se uns aos outros de maneira vaga, molenga, sem a costumeira afabilidade, e vo se sentando nos lugares indicados pelo Mendes. O secretrio, depois de ter avistado aquela manh, um dos sete defuntos, de longe, resolvera afogar a sua perplexidade e o seu medo em vrios copos de caninha.
    O Dr. Quintiliano do Vale, juiz de Direito, e o vigrio Gerncio Albuquerque ficam sentados a direita da mesa do prefeito. O Cel. Tibrio Vacariano aboleta-se numa poltrona do lado do corao do Maj. Vivaldino, tendo  sua esquerda o Dr. Mirabeau da Silva, promotor pblico  um moo de cabelos louros e crespos, rosto carnudo e rosado, }em-brando um anjo de Rubens que tivesse atingido desastrosamente a idade adulta.
    Mendes acomoda num mesmo sof os presidentes da Associao Comercial e os dos clubes Rotary e Lions. O Dr. Erwin Falkenburg e o Dr. Lzaro Bertioga tomam posio em poltronas avulsas, a dez passos um do outro, como se fossem bater-se em duelo. Lucas Faia  colocado ao p do busto de Jlio de Castilhos e o Prof. Libindo Olivares a um metro de Borges de Medeiros.
    Inocncio Pigaro, o ltimo a entrar na sala, ocupa a nica poltrona ainda vaga, perto do senador Pinheiro Machado, como para proteg-lo, um tanto tardiamente, contra o assassino que haveria de o apunhalar pelas costas, num remoto dia de 1915  exatamente no ano em que o delegado de Antares veio ao mundo.
    De p, atrs de sua mesa de trabalho, nauseado como se tivesse comido vrias catlias fritas na manteiga, com o caf da manh  o Maj. Vivaldino Brazo pergunta ao seu secretrio:
     Esto todos?
     Todos, menos o presidente da Cmara Municipal e o do Clube Comercial.
    O Dr. Lzaro ergue-se e, com uma solenidade constrangida, explica:
     Senhor prefeito, o Dr. Marcolino no veio porque est de cama, doente. Posso dar testemunho disso, pois fui chamado para atend-lo.
     Algo grave?
     Bom... uma diarria nervosa. Tibrio solta uma risadinha de desdm:
     H! O Marcolino sempre foi um frouxo. O Dr. Falkenburg ergue-se e diz:
     O presidente do Clube Comercial tambm se acha enfermo, o que explica a sua ausncia. Est com taquicardia.
    Tibrio de novo intervm:
     Isso, traduzido pra lngua de cristo, quer dizer cagao, no ?
    O mdico dos Campolargos senta-se duro e srio, sem mais palavra.
    O prefeito pigarreia, olha para o tapete persa estendido no centro da sala (presente da laboriosa comunidade srio-libanesa  prefeitura) e depois para o Mendes.
     Est bem. Pode retirar-se.  O secretrio d j os primeiros passos na direo da porta quando o seu chefe exclama.  Nol Fique, Mendes, seno seremos treze neste gabinete. No que eu seja supersticioso... Mas  bom a gente estar prevenido. Hoje  sexta-feira 13. Depois de tudo que nos tem acontecido... nunca se sabe.
    O Cel. Vacariano remexe-se na sua poltrona, procurando uma posio ao agrado de sua prstata.
     O que foi mesmo que aconteceu?  pergunta.
     Ora, Tibrio, voc bem que sabe... Os mortos que fomos obrigados a deixar ontem do lado de fora do cemitrio se levantaram de seus caixes e desceram para a cidade.
     Eu no vi nenhum deles ainda.
     Com sua licena, coronel  intervm polidamente o juiz de Direito  isso no prova nada.
     Mas o senhor viu com os seus prprios olhos algum dos defuntos, doutor?
     Devo confessar que no. Mas pessoas que me merecem crdito, como o nosso prefeito, o nosso delegado... ah!, sim, e o nosso venerando vigrio, viram.
     Tibrio  diz o prefeito, estendendo o brao e pondo a mo no ombro do amigo  a esta hora existem nesta terra centenas e centenas de cidados de ambos os sexos que viram os mortos caminhando por suas prprias pernas, gesticulando, falando... e cheirando mal.
     Eu acho que quem morre se acaba!  exclama o Cel. Vacariano.
    O Pe. Gerncio protesta timidamente:
     No blasfeme, coronel. Quem morre vai para o Cu, o purgatrio ou o inferno, conforme os desgnios de Deus.
     Bueno  retruca o outro  mas no volta para Antares. Isso  que eu quero dizer.
     Coronel  meteu-se, j meio agastado, Inocncio Pigaro  tenho uma sugesto a lhe fazer. Sua velha amiga
    Quitaria est neste momento sozinha no seu palacete, sentada na sua cadeira de balano. Por que o senhor no vai visit-la?
    
    XXXV
    Tibrio primeiro termina de acender o seu palheiro, d uma tragada longa, solta o fumo pelas narinas, agita-se num acesso de tosse, e por fim responde:
     No vou porque no quero me sujeitar a um redi-culo. Onde se viu defunto com vida?  Dr. Lzaro! O senhor assinou os atestados de bito, no assinou?  O mdico faz com a cabea um sinal afirmativo.  Os sete estavam mortos, no estavam?
     Sem a menor dvida.
     Mas que  a morte?  pergunta o Prof. Libindo Olivares, assumindo a sua pose intelectual de tirar retrato, isto , fazendo um lado do rosto encaixar-se no ngulo reto formado pelo polegar e o indicador da mo esquerda, o cotovelo fincado no brao da poltrona.
    Lucas Faia apressa-se a responder, entre srio e gaiato:
     A morte  a ausncia da vida.
    O promotor pblico sacode negativamente a cabea anglica e repele a definio.
     Pense nos milhes, nos bilhes, nos trilhes de seres humanos que ainda no nasceram e portanto sofrem (se posso usar o verbo) duma ausncia de vida... Nem por isso se pode afirmar que os ainda no nascidos esto mortos.
    Lucas Faia soergue-se na poltrona e olha para o prefeito:
     Major, com o devido respeito, proponho que todos tirem os seus casacos. O calor est senegalesco.
     Boa idia!  exclama Vivaldino, comeando a tirar o seu, como uma gorda banana que se descasca a si mesma. Os outros o imitam com a exceo do padre, que est de batina, e do Dr. Quintiliano, que considera improprio dum magistrado ficar em mangas de camisa. Ergue-se o Prof. Olivares:
     Peo a palavra, senhor prefeito.
    Infeliz, suando copiosamente e passando o leno pela cara, o prefeito resmunga, de m vontade:
     Tem a palavra o Prof. Libindo Olivares.
     Na minha opinio (e na dos tanatologistas, naturalmente)  sorri, pedante, o mestre, olhando dum lado para outro  a morte se revela na cessao definitiva das funes do sistema nervoso, das funes circulatrias e respiratrias. .. Mais ainda!  exclama didaticamente, com o indicador enristado na vertical.  A morte nem sempre  um fenmeno instantneo. Pode acontecer que, depois da cessao de todas as funes que acabo de mencionar, durante um nmero de minutos ou mesmo de horas,  possvel notarem-se manifestaes de vida parciais, como a con-tractilidade muscular, os movimentos peristlticos, a digesto. .. Sim, que mais?... a vibrao das pestanas. Correto, Dr. Lzaro? Certo, Dr. Falkenburg?
    O Dr. Lzaro sacode afirmativamente a cabea. O teu-to-brasileiro diz seco, com sua ironia de florete:
     O senhor decorou bem a lio.
    O prefeito olha desolado para o ventilador parado. Maldita greve!  medida em que o tempo passa, o calor aumenta nesta sala  um calor opressivo, mido, pegajoso. Agora as moscas, que aos poucos foram entrando pelas janelas, comeam a se fazer notadas e odiadas, pousam nos bustos ilustres, passeiam na cabea do prefeito, na do Cel. Tibrio, que as enxota com palavres, voejam ao redor do rosto do juiz. .. E um pensamento horrvel comea a formar-se na maioria destes crebros: a suspeita de que estas mesmas moscas podem j ter pousado na pele dos sete defuntos putrefatos.  por isso que, sentindo que uma delas se aproxima de seus lbios, o promotor d-se no prprio rosto uma palmada to brusca, violenta e sonora, que os outros se sobressai tam.
     Que  que isso prova?  pergunta o Cel. Tibrio, dirigindo-se ao Prof. Libindo.  O senhor afinal acredita ou no que esses defuntos voltaram mesmo?
     Ah, meu caro coronel, sou por temperamento um ctico, mas como humanista devo ser um homem aberto a todas as possibilidades. Existe sempre uma primeira, vez para tudo. Tenho estudado o ocultismo, conheo a cabala tal como era cultivada na Idade Mdia, na Alta Galilia...
     Prof. Libindo  interrompe-o o juiz  esta no  a hora oportuna para exibies de erudio. Estamos numa situao premente, difcil e, segundo entendo, temos de tomar providncias urgentes diante desse... fenmeno.
    Libindo senta-se, cruza os braos e diz, ofendido:
     Devolvo-lhe a palavra, senhor prefeito. Vejo que nesta sala h pessoas que no me compreendem ou que no me querem compreender...
    O prefeito agora tamborila com uma de suas canetas sobre o tampo da mesa. lembrando-se vagamente de suas marchas nos duros tempos de brigadiano.
     Em resumo, professor  diz ele, depois de tentar, mas em vo, esmagar com a prensa de mata-borro a mosca que caminha em cima de seu tinteiro  o senhor sugere que a volta desses mortos tem uma explicao mgica, no?
     No!  exclama Libindo Olivares.  Minha explicao  outra. A nossa cidade est sob a influncia duma alucinao coletiva.
     Essa no!  protesta o delegado de polcia.  Eu no sou e nunca fui homem de alucinaes.
    Vrios pares de olhos voltam-se para o rosto do juiz de Direito, que opina:
     Segundo minhas leituras (no to abundantes e profundas como as do Prof. Libindo) tem havido casos de alucinao coletiva na Histria da Humanidade. So, porm, momentos passageiros, espcies de relmpagos. Para que o que se passa agora em Antares possa ser explicado como sendo apenas uma alucinao... bom, essa alucinao teria de ser no s visual como tambm olfativa. E parece-me que est durando demais no espao e no tempo.
     De acordo!  aprova o prefeito.  Esta manh, senhores, (no foi iluso tica!) eu tive o cadver do Dr. Cicero Branco na minha sala de visitas. Estava podre e encheu a minha casa com seu mau cheiro. Falou com a voz de sempre, s... eu diria... um pouco irnico. O Ccero em vida nunca foi irnico comigo nem com o Cel. Tibrio. ramos seus clientes e seus amigos do peito.
     Afinal de contas  pergunta Tibrio, olhando enviesado para o major  que  que esse homem... ou esse defunto quer da gente?
     Ele me disse (no se riam, por amor de Deus!),ele me disse que representava os seus constituintes, isto , os outros seis mortos, e a si mesmo. O que querem, em resumo,  ser enterrados decentemente como  de seu direito. E nos do um prazo para resolver o problema: at ao meio-dia...
    
    XXXVI
    Cruzando e descruzando as pernas, excitado, o delegado Pigaro diz:
     Temos de resolver isso hoje mesmo, porque j noto sinais de pnico na cidade.
     A permanncia desses cadveres entre ns pe em grave perigo a sade e a vida da populao  afirma o Dr. Lzaro, olhando para o seu colega com o rabo dos olhos e percebendo que ele sacode a cabea num acordo quase imperceptvel.  Podem provocar at uma peste.
     Tenho sido j chamado para atender a dezenas de casos de distrbios cardacos e crises nervosas  corrobora o Dr. Falkenburg.
    Do seu canto e do fundo de seu desnimo, o vigrio da Matriz crocita:
     J confessei hoje mais de cinqenta pessoas. Vrias dezenas de outros fiis estaro me esperando em fila esta tarde.
      uma calamidade!  suspira o presidente da Associao Comercial.  Como se no bastasse essa maldita greve, que tem trazido to srios prejuzos ao nosso comrcio!
     Pois   diz o presidente do Rotary Clube.  Imaginem os senhores que tivemos de adiar sine die o nosso almoo semanal, coisa que nunca nos aconteceu.
    O Cel. Tibrio lana-lhe um olhar furibundo e depois, voltando-se para o prefeito, pergunta:
     Como  o negcio, major? Estamos esperando as suas ordens.
    Vivaldino Brazo pe-se de p.
     Senhores, quero, antes de mais nada, dar-lhes conta das providncias que tomei esta manh logo depois que recebi a sinistra visita... Usando a estao transmissora de nosso distinto radioamador, o Dr. Falkenburg, aqui presente, comuniquei-me com o Governador do Estado. Quando contei o que est se passando nesta cidade, o homem desandou a rir e me perguntou se eu estava brincando com ele. Garanti que no estava. Contei a estria tintim por tintim. Ele continuou no acreditando. Jurei pela memria de minha me. L pelas tantas o governador prometeu tomar providncias... mas falando assim com um jeito de quem quer se livrar dum louco.
     Quem sabe estamos todos loucos? < pergunta Li-bindo.  Pensem nessa hiptese no de todo absurda. Uma alucinao  uma espcie de ataque sbito e agudo de esquizofrenia.
     Voc perdeu uma boa oportunidade de ficar calado
     repreende-o Tibrio. E, voltando-se para o prefeito, diz:
     Continue, Vivaldino.
     Bom, depois chamei o diretor do Correio do Povo, um moo distinto, meu amigo particular e que me conhece h muitos anos. Repeti a estria toda. Ele no riu, mas senti que ele estava achando a coisa toda absurda. Prometeu mandar um reprter e um fotgrafo, para ver o que h. .. Em seguida consegui ligao para as duas estaes de televiso da nossa capital. Quem me atendeu na primeira delas foi um empregado que, depois de ouvir a minha estria, soltou uma risada e me perguntou se eu no tinha mais nada que fazer... Perdi a pacincia e xinguei a me dele. Ele xingou a minha e cortou a ligao.  O prefeito faz uma pausa para entrar numa luta quase corporal com duas moscas que insistem em pousar-lhe na testa. Retoma a palavra, j meio ofegante.  Fui mais feliz na outra estao. Falei pessoalmente com o diretor, meu velho conhecido. Ele me escutou e (milagre!) acreditou em tudo...
     Deve ser hebreu  explica Libindo, com um sorriso inefvel de quem tudo sabe.  Essa raa tem um faro finssimo para o mistrio e para o sobrenatural, ao mesmo tempo que continua com os ps muito bem plantados na terra, na realidade material, concreta e econmica da vida e do mundo.
     O senhor no est nos ajudando nada com as suas filosofanas  queixa-se o prefeito, olhando duro para o professor.  O tempo voa, estamos aqui j faz um tempo e no chegamos a nenhum resultado prtico. Guarde suas frases para depois que os mortos forem sepultados e a cidade voltar ao normal.  Mudando de tom, conclui:  Assim, senhores,  possvel que amanh pela manh tenhamos aqui em Antares reprteres do Correio do Povo e um cinegrafista da TV, Canal 12.
    Lucas Faia esfrega as mos e exclama:
     Estamos no mapa do mundo! Estamos na Histria!
     Mas a que preo!  lamenta o promotor pblico.
    O prefeito senta-se, extenuado. Faz-se um silncio dentro do qual zumbem as moscas. Mendes, que providenciou trs jarras de limonada gelada, fez um contnuo servir os presentes. Depois, como que achando que esse ato lhe d direito a uma opinio, aproxima-se da mesa do chefe e diz em voz baixa:
     Major, o Pe. Pedro-Paulo est a fora, no vestibule
     U? Que  que ele quer?
     Tomei a liberdade de cham-lo.
     Pra que, homem de Deus?
    Os outros agora esto atentos ao dilogo, que se processa em voz alta.
     Ele nos pode ser til... Deve saber coisas.
     Como? Por qu?
     Hoje de manh, por uma fresta da minha janela, vi o Pe. Pedro-Paulo conversando na praa com o... o cadver do Joo Paz.
    O prefeito olha primeiro para Tibrio e depois para o juiz de Direito, perguntando a um e outro:
     Que  que os senhores acham?
    O Cel. Vacariano encolhe os ombros, neutro. O juiz murmura:
     No devemos deixar de examinar todas as possibilidades deste caso. Se as pessoas presentes no se opuserem, concordo em que se interrogue esse... esse moo.
     Que lhe parece, Pe. Gerncio?  pergunta o prefeito.
     No tenho objeo nenhuma a isso.
     Traga o homem!  ordena o prefeito.
    Mendes sai da sala, lpido, e volta pouco depois com o capelo da Vila Operria.
    
    XXXVII
    Pedro-Paulo faz com a cabea um cumprimento que abrange todos os presentes e planta-se no centro do tapete, diante da mesa do prefeito.
     Sente-se, padre  convida Vivaldino, a despeito de no haver nenhuma poltrona vaga no recinto.
     No, major, obrigado. Prefiro ficar de p.
     Como quiser... Dr-. Vale, o senhor quer fazer as perguntas aqui ao nosso amigo?
     Bom  responde o juiz  se o senhor deseja que eu conduza o interrogatrio... 
     Mas isto  um tribunal?  pergunta o sacerdote.  Estou sendo julgado por algum crime?
     Ah no, reverendo!  apressa-se a explicar o Lucas Faa.  Que idia! Queremos que nos ajude no transe difcil por que passa a nossa comuna. Seu depoimento ser precioso para ns.
    O Dr. Quintiliano do Vale lana a primeira pergunta:
      verdade que o senhor conversou esta manh na Praa com... com o Sr. Joo Paz?
     .
     E ele... na sua opinio, estava morto?
     Sim.
     Como foi que o senhor chegou a essa concluso? Pedro-Paulo passa o leno entre o colarinho de clrigo e o pescoo, antes de responder. Depois, cautelosamente, medindo bem as palavras, diz:  Deixem-me contar a estria, do princpio. Depois que o Joo Paz passou dois dias e duas noites na cadeia local, tentei v-lo, fui  delegacia, mas um funcionrio me informou que o Joozinho tinha fugido da priso e buscado asilo na Argentina. Horas mais tarde fiquei sabendo que o meu amigo tinha morrido de embolia pulmonar no Hospital Salvator Mundi. Corri para l e pedi para ver o corpo, porque a ltima vez que avistei Joo Paz foi quando os guardas da polcia municipal o prenderam, com vida e, ao que me pareceu, com excelente sade...
    Inocncio Pigaro est tenso na cadeira.
     Que  que voc est insinuando com isso?  pergunta, ameaador.
     Nada. .. por enquanto  replica Pedro-Paulo, sem voltar a cabea para o delegado.  O que quero dizer, senhores,  que a polcia me proibiu de ver o cadver, que j estava fechado no seu caixo quando cheguei  ala dos indigentes do citado hospital... 
     O senhor duvidava ento de que ele estivesse mesmo morto?
     No. Li o atestado de bito firmado pelo Dr. Lzaro. Mas quando esta manh vi o corpo de Joo Paz na praa quase no o reconheci, tantas eram as marcas de tortura que ele trazia na cabea e no resto do corpo.
    O delegado pe-se de p, brusco, e brada:
      uma mentira! Eu vi o cadver desse homem quando o puseram no caixo. Estava exatamente como na hora em que ele foi preso. A morte, como afirma o atestado, foi causada mesmo por uma embolia pulmonar!
    O juiz ergue um brao apaziguador e quando torna a falar pesa na sua voz a serenidade grave da prpria Justia-
     No estamos no momento investigando as causas da morte do cidado Joo Paz. Pe. Pedro-Paulo, o senhor ento identificou a pessoa que encontrou na praa...
     Sim, apesar de seu horrvel desfiguramento, como todos tero a oportunidade de verificar dentro de menos de uma hora... 
     Est bem, padre  replicou o juiz.  O que nos interessa saber  por que chegou  concluso de que Joo Paz estava morto.
     Tinha uma cor cadavrica, no respirava... e, notei tuna pronunciada opacidade na crnea de seus olhos... Bom, acima de tudo, seu corpo exalava um cheiro de carne humana putrefata.
     Mas esse... esse cadver caminhava? Falava? Pensava?
     A resposta  sim para as duas primeiras perguntas. Quanio  terceira, como  que vou saber se seu crebro funcionava? Agora, o que ele me disse revelava que ainda tinha memria, domnio da palavra e vontade prpria...
     E que foi que ele lhe disse?  pergunta o delegado, que est de p, desinquieto, mordendo o cigarro apagado.
    Sempre olhando para o juiz, Pedro-Paulo responde:
     O que ele me disse no posso revelar aqui. Peo-lhes que no insistam...
     Manifestou-lhe o desejo de ser enterrado imediatamente, como os outros seis defuntos?
     No. Declarou que pouco lhe importaria o que fizessem com o seu corpo.
     Que queria, ento?
     J disse que no posso revelar. O Pe. Gerncio explicar aos senhores os deveres dum sacerdote quanto ao sigilo do confessionrio.
     Ento ele se confessou?  pergunta vivamente o velho proco.
     No no sentido religioso  responde Pedro-Paulo.  Joo Paz continua ateu como quando era vivo.
     Mas tudo isso  absurdo!  exclama Tibrio. O Dr. QuJntiliano mantm a sua serenidade:
     Pe. Pedro-Paulo, sei que o senhor  um homem de Muitas e variadas leituras. Como explica que sete cadveres se tenham erguido de seus caixes e marchado sobre esta cidade, como se houvessem ressuscitado?
     No explico.
     Credo quia absurdum est  intervm o Prof. Li-bindo, num tom de voz em que se pode ver o tipo itlico da citao latina.
    Lucas Faia, que agora vai e vem, percorrendo nervosamente o trajeto entre sua poltrona e as janelas-portas, toca no brao do capelo dos operrios.
     Com a licena do colendo juiz de Direito... Amigo Pedro-Paulo, o senhor sabe que o nosso querido vigrio ao ver os sete mortos voltou para a igreja e pensou (e at chegou a dizer isso em voz alta) que se tratava do Juzo Final?
     Sei. O prprio Pe. Gerncio me contou isso.
     E que lhe pareceu a idia?
     Absurda. Simplesmente no acredito no Juzo Final. O promotor aponta para o jovem capelo com um dedo
    apocalptico :
     Essa, senhores,  a moderna Igreja de Cristo: um sacerdote catlico que no acredita no Juzo Final!
    Pedro-Paulo encolhe os ombros.
     Nem no inferno, nem mesmo no Cu.
     Por favor!  suplica o vigrio.  No diga mais nada. Vai acabar confessando que no acredita em Deus.
    
    XXXVIII
    O presidente do lions ergue a mo como um aluno que pede ao mestre licena para falar durante a aula. Vivaldino faz com a cabea um sinal de consentimento.
     Eu estava na igreja quando o nosso apreciado Pe. Gerncio anunciou o Juzo Final. Confesso que a princpio fiquei alarmado, com vontade de sair correndo para casa, mas depois, pensando melhor, conclu que o Juzo Final  um... um negcio to grande... to importante... to... to final, que Deus no podia comear uma coisa enorme assim sem antes avisar a humanidade, fazer um anncio qualquer. No sei se estou me expressando claro...
     Por exemplo  sugere o Mendes  mandar primeiro seus anjos em revoada pelo universo tocando trom-beta... ?
    O prefeito repreende o secretrio com um paternal franzir de cenho.
    O Pe. Pedro-Paulo volta-se para o presidente do lions:
     Compreendo. O senhor imagina o Juzo Final como o show dos shows, um superespetculo carssimo, desses que em televiso s podem ser patrocinados por firmas poderosas como a Standard Oil, a Ford, a General Motors. .. Seu Deus, em suma,  um empresrio preocupado com o IBOPE, no?
    Tibrio Vacariano soergue-se na cadeira para protestar:
     Esse padreco de meia-pataca est fazendo troa de ns! Me nego a perder tempo com essas bobagens.
    Libindo intervm de novo:
     Senhores, estamos cometendo uma injustia para com nosso venerando proco.  um homem de cultura e larga experincia. Ele ainda no nos disse o que pensa sobre essas sete ressurreies...
    Cabeas voltam-se para o vigrio, que balbucia:
     No tenho explicao para o fenmeno. Nunca em toda a minha vida, j bastante longa, tive conhecimento de que algum morto tivesse ressuscitado... 
     E que me diz da ressurreio de Lzaro, que l est descrita no Novo Testamento?  pergunta o professor com o seu sorriso mais maquiavlico.
     Mas isso aconteceu nos tempos bblicos  argumenta o proco.
     Daqui a dois mil anos  diz Pedro-Paulo  se uma guerra nuclear no abolir por completo o Futuro, daqui a vinte sculos a nossa era talvez possa ter um prestgio mstico e mgico igual ou maior que o dos tempos bblicos.
    Mal podendo disfarar sua impacincia, o juiz de Direito acaricia com os dedos o n de sua gravata de seda azul-celeste, que to bem se acasala com o azul-noturno de sua roupa de alpaca inglesa.
    Lucas Faia aproxima-se do Pe. Gerncio e quase se a-cocora, atencioso, aos ps do velho:
     O nosso amado vigrio no nos disse ainda se acredita ou no na ressurreio de Lzaro. ..
    O velho sacerdote olha firme para o labirintico e multi-colorido desenho do tapete persa, como se nele estivesse representada em ideogramas a soluo certa para o problema que o jornalista lhe prope.
     Bom, naqueles tempos Jesus andava na terra... Pedro-Paulo volta-se para o ancio:
     Suponhamos que Jesus Cristo tenha voltado. ..
     Logo a Antares?  pergunta rpido o Maj. Vivaldino.
     E por que no? O senhor acha que So Borja, Alegrete ou So Sep seriam cidades mais indicadas que esta para receber o Messias?
     A idia  fascinante  exulta Lucas Faia.  Imaginem a nossa urbe transformada num santurio mais importante que o de N. S. de Lourdes...  Volta-se, radiante, para o presidente da Associao Comercial.  Hem, nosso amigo? Que possibilidades para o comrcio local! Hem? Hem?
     Cale essa boca, Lucas  ralha o Cel. Tibrio, passando o leno j mido pelo rosto.  Besteira fica muito pior em dia de cancula.
    O jornalista recolhe-se a um silncio ressentido e en-cabulado. Pedro-Paulo, porm, insiste no lema:
     Suponhamos que Jesus Cristo tenha mesmo voltado. .. Delegado Pigaro, no seria prudente mandar seus investigadores procurar o Filho do Homem? Olhe que esse indivduo  perigoso... um subversivo socializante, um terrorista com antecedentes criminosos, com uma ficha negrs-sima no DOPS de Pncio Pilatos. Lembre-se do que ele andou dizendo e fazendo contra o grande Estabelecimento Romano... 
    Inocncio pe-se de p, a cara contrada. Mas o jovem padre prossegue:
     Prenda Jesus, delegado, prenda-o o quanto antes! Interrogue-o. Faa-o confessar tudo, dizer o nome de todos os seus discpulos e cmplices... Se ele no falar, torture-o em nome da Civilizao Crist Ocidental!
    De punho cerrado, Pigaro precipita-se contra Pedro-Paulo para lhe esmurrar a cara, mas o Mendes salta e, com seu longo brao, magro mas musculoso, enlaa o pescoo do delegado, frustrando-lhe bruscamente o gesto. Padre safado  vocifera Inocncio, com voz engasgada  comunista filho duma... Mendes, porm, aperta-lhe com mais fora a gorja, cortando o ar necessrio para terminar a suprema ofensa.
    Como quem, num sobressalto culposo, desperta duma sesta a que no tem direito, o prefeito de Antares pe-se de p, num prisco, contorna a mesa, acerca-se de seu delegado e exclama:
      Inocncio, volte pro seu lugar e tenha compostura!   Mendes, voc est estrangulando esse homem!
    O secretrio larga o delegado, que se encaminha para a sua poltrona, resmungando:
     No admito insinuaes maldosas nem ironias. Esse padre de passeata no perde nada por esperar. E voc, Mendes, no precisava me apertar o pescoo com tanta fora...
    O secretrio sai da sala para providenciar uma nova rodada de limonada. E a discusso prossegue animada durante mais de meia hora. Muitos falam ao mesmo tempo. O presidente da Associao Comercial persegue uma determinada mosca com encarniamento e dio, como se tivesse com ela uma velha inimizade pessoal. O Prof. Libindo, num aparte forado, pergunta se os presentes sabem que a palavra cancula significa na realidade cadela e que era o antigo nome da estrela Srio. Parado no meio da sala o Pe. Pedro-Paulo comea a sentir o grotesco de sua. situao. Aproveitando um hiato na conversao, pergunta ao prefeito:
     Quer que eu me retire?
     No. Fique um minutinho mais. Desejo saber se o senhor tem alguma sugesto para resolver o nosso problema. Ao meio-dia os sete mortos estaro no coreto da praa esperando a nossa resposta.  Olha para o relgio.  Temos apenas uma escassa meia hora para tomar uma resoluo. ..
     Antes de vir para c  diz o capelo  procurei o Geminiano e lhe pedi que levantasse o embargo do cemitrio, em vista dos... desses acontecimentos inesperados... Respondeu que a coisa no dependia dele, que a situao s poderia ser modificada por deciso da assemblia geral. Sugeri que convocasse essa reunio e ele me prometeu que faria isso ainda esta noite. Sinto muito, senhores, mas acho que no h mais nada a fazer seno esperar... 
     Mas esperar com sete mortos apodrecendo em plena praa, empestando o ar da cidade?  pergunta o promotor.  Esperar quanto tempo?
    O Maj. Vivaldino fica a olhar perdidamente para o jovem sacerdote, como para um bicho raro ainda no classificado pela Cincia.
     Algum tem algo mais a perguntar ao Pe. Pedro-Paulo?  indaga, projetando o seu olhar em leque. Como todos continuam calados, o prefeito murmura:  Est bem, padre. Pode ir. E muito obrigado.
    
    XXXIX
     Senhores, temos apenas vinte minutos para concertar um plano de ao  lembra o juiz de Direito.
     Sem querer me meter em seara alheia  diz o delegado de polcia  acho que estamos numa dessas situaes em que os pases costumam proclamar o estado de stio. Ora, num estado de stio cessam as garantias constitucionais. Proponho que a gente proceda nas prximas horas tomo se Antares estivesse cercada por um inimigo de morte.
     E na realidade  opina o promotor  fomos assaltados por um comando que dispe de armas excepcionais ... eu diria at mesmo sobrenaturais... E esse inimigo terrvel j est dentro de nossos muros!
     Na sua opinio, Cel. Tibrio, que devemos fazer?  pergunta Vivaldino.
     Bom, homem de panos quentes vocs sabem que no sou. Acho que devemos telefonar ao comandante da guarnio federal de So Borja e solicitar-lhe que nos mande uma companhia... ou um regimento bem armado para obrigar esses grevistas de borra a levantarem o stio do cemitrio. Nada de conversa: bala e baioneta em cima deles!
    O prefeito coca a cabea, ambivalente, sopra a mosca que lhe pousou na ponta do nariz, olha para o relgio, acima do retrato do senador Pinheiro Machado, e v os ponteiros marchando implacveis para um encontro em cima do XII  a hora fatal.
     Dr. Quintiliano, qual  o seu pensamento?
     Confesso que estou meio perdido. Nunca em toda a minha vida me encontrei diante dum problema dessa natureza.
     E o senhor, vigrio?
     O mais que posso fazer, meu filho,  rezar pelos vivos e pelos mortos.
     Inocncio?
     O meu plano  simples mas eficaz: armo quinze de meus soldados com mscaras contra gases lacrimogneos, para eles no sentirem a fedentina dos cadveres, invado o coreto e levo os sete defuntos, a muque, de volta para os caixes. A operao toda no gasta mais de quinze minutos...
     O senhor se esquece  intervm o Dr. Falkenburg  de que entre esses sete mortos est D. Quitria Campolargo. J pensou na pssima repercusso que essa medida drstica pode ter no esprito de nossa populao?
     Ora, doutor!  rebate o delegado  o povo de An-tares a esta hora aceita tudo para se livrar da presena repugnante desses defuntos.
    O prefeito volta-se para o Cel. Vacariano.
     Em que ficamos?
     Bom, em princpio a proposta do Inocncio me parece boa. Melhor at que a minha.  mais rpido e fcil dirigir quinze guardas municipais numa operao relmpago do que conseguir movimentar de So Borja para c uma companhia do nosso Exrcito. E o plano do delegado tem a vantagem de poder ser feito sem nenhuma interferncia externa. Mas confesso que me repugna a idia de ver o corpo da minha velha amiga Quita arrastado pela polcia para dentro duma viva-alegre e levado aos trancos e barrancos para o cemitrio... 
    O prefeito foca o olhar cansado nos homens que esto sentados no sof.
     E os senhores presidentes do Rotary, do Lions e da Associao Comercial... que sugesto nos oferecem?
    Levanta-se o primeiro deles:
     Senhor prefeito, proponho com o fraternal esprito rotrio que, em vez de praticar qualquer ato de violncia, enfrentemos cordialmente os mortos na praa e conversemos com eles como amigos e irmos, procurando convenc-los de que para o bem desta terra e deste povo eles devem voltar o quanto antes, e pacificamente, para os seus fre-tros.
    Levanta-se o segundo:
     Em nome do esprito dos Lions, no menos cordial e fraterno que o rotrio, fao minhas as palavras do orador que me precedeu. Sou a favor de uma parlamentao. E aqui o ilustre presidente da Associao Comercial acaba de me cochichar que  da mesma opinio.
     Mas como  que vamos agentar a fedentina na hora da conversa?  indaga o velho Tibrio.
     Isso  outro problema, coronel  diz Lucas Faia.  Podemos tapar o nariz e a boca com os nossos lenos, tratando de no nos aproximarmos demais do coreto.
    Roendo as unhas, aflito, Mendes olha primeiro para os ponteiros do relgio  trs minutos para o meio-dia  e depois para os bustos de Jlio de Castilhos e Borges de Medeiros. A progresso social repousa essencialmente sobre a morte. Os vivos so sempre e cada vez mais governados pelos mortos.
    O juiz de Direito est agora mais plido do que quando entrou nesta sala. O suor comea a manchar-lhe a gravata.
     Sou tambm a favor duma tentativa de acordo, por mais penoso que isso possa ser para ns...  diz.
     Idem  manifesta-se o promotor pblico, pensando obsessivamente na lata de talco que tem em casa, no banheiro, pois suas coxas carnudas ardem, assadas.
     Dr. Lzaro? Dr. Falkenburg? Lucas? Pe. Gerncio? Os quatro homens consultados pelo prefeito fazem com
    a cabea um sinal de acordo. O Maj. Vivaldino ergue-se, bufando de calor, o rosto luzidio, a camisa com largas manchas de suor sob as axilas.
     A proposta do presidente do Rotary Clube, secundada pelo do lions, est aprovada!
     Bravos!  exclama Lucas.
    Mendes continua a roer as unhas e a olhar para o relgio, cujos ponteiros esto agora quase juntos. O jornalista pigarreia e diz com uma solenidade nervosa:
     Haja o que houver, senhores, a esta hora a nossa cidade comea a ser notcia em todo o Estado, em todo o pas, em todo o mundo! Antares est finalmente no mapal Antares est na Histria! E A Verdade vai noticiar tudo isso em primeira mo!
    Quatorze pares de olhos esto agora voltados para o relgio, onde os dois ponteiros acabam de encontrar-se.
    
    XL
    O que aconteceu naquele momento seria narrado mais tarde por Lucas Faia no artigo mais importante de sua vida, nos seguintes termos: De sbito o cristal do silncio foi brutalmente partido por uma pancada sonora e pareceu ento que o cu, o ar, a cidade, as pessoas  tudo se punha a vibrar de surpresa e susto. Tenho a impresso de que houve entre os que se encontravam no gabinete do prefeito uma espcie de pnico, que durou uma frao de segundo, o t*mpo suficiente para compreendermos todos que se tratava do sino da Matriz que comeava a bater meio-dia, em badaladas lentas, longas e lugubres. E eu sentia essas pancodas dentro de meu prprio crnio. Parecia o enorme corao de Antares a dobrar finados pelos seus vivos e pelos seus mortos. Corri para a sacada, levado pelo meu instinto jornalstico. Entrefechei os olhos por causa do claro meridiano e escrutei o largo... Meu corao rompeu numa disparada no mais no peito, mas j na garganta. Voltei-me para dentro da sala e exclamei: Os mortos esto chegando! Os mortos esto chegandoT Dentro de pouco estvamos quase todos amontoados no balco da prefeitura e eu ia identificando em voz alta para os meus amigos os sete cadveres,  medida em que os divisava.
    O primeiro que subiu para o coreto foi o sapateiro Jos Ruiz, (Barcelona). Avistei depois D. Quitria Campolargo, que saa de seu palacete, sozinha. O Dr. Ccero Branco, que emergira da Trav. dos Castelhanos, foi ao seu encontro para ajud-la a cruzar a rua e lev-la at ao coreto. O Prof. Menandro Olinda deixou o seu sobradinho de azulejos, caminhando em passadas largas e leves, assim como um homem na atmosfera da Lua. Fiquei surpreendido por ver que ele envergava casaca, com sapatos amarelos: parecia um grande louva-a-deus negro. A decada Erotildes e o alcolatra Pudim de Cachaa vieram das bandas do rio de mos dadas e subiram para o coreto, onde se sentaram num dos bancos como um casal de namorados. Por fim Joo Paz surgiu man-quejando de trs dum pltano e juntou-se aos outros sob a coberta do gracioso coreto em estilo de pagode que orna o centro da nossa velha Praa da Repblica.
    Ns ali na sacada estvamos num silncio de espanto, sob o sol escorchante, que mais parecia o olho de fogo dum deus vingador testemunhando o fim do mundo e do Tempo. Mesmo que eu viva cem anos jamais poderei esquecer aquele momento!
    
    XLI
    Uma personagem inesperada surge na praa: Yaroslav, o fotgrafo ambulante. Com um leno amarrado  nuca, tapando-lhe o nariz e a boca, ele sai de trs duns arbustos, aproxima-se do coreto num marche-marche caricato de desenho animado e, quando chega a uns dez metros dos defuntos, ajusta o trip da sua cmara fotogrfica, mete a cabea debaixo do pano preto, em questo de segundos aciona o obturador e depois pe a mquina nas costas e sai a correr na direo da calada da prefeitura.
     Esse lambe-lambe at que tem nervo  resmunga o Cel. Tibrio.
    Voltam todos para dentro do gabinete.
     Bom  suspira Vivaldino Brazo, repondo o seu casaco como um cavaleiro que veste a armadura, preparando-se para a lia.  Chegou a hora da ona beber gua.
    Usando o telefone do prefeito o Dr. Falkenburg comunica-se com o administrador de seu hospital e pede-lhe que mande com urgncia para uma das esquinas da praa uma ambulncia com um mdico e dois enfermeiros. O Dr. Lzaro chama em seguida o Salvator Mundi, iaz idntico pedido e, sorrindo palidamente, explica:
     Para os primeiros socorros. Casos de insolao, nusea, nervos, compreendem?
    Ajoelhado a um canto da sala, o Pe. Gerncio, as mos postas, a cabea baixa, reza. O presidente do Lions rompe a gritar, agitado: No merecemos isso! Meu Deus, no merecemos isso! Somos um povo pacato e laborioso! No fazemos mal a ningum. No merecemos isso! No merecemos isso!
    Mirando-o com desprezo com o rabo dos olhos, o Cel. Vacariano resmoneia:
     H homens que no merecem carregar esse negcio que a natureza pendurou entre as suas pernas.  E, falando mais alto:  Vamos embora, minha gente!
    O Dr. Lzaro aproxima-se de seu mais ilustre cliente e murmura :
     Coronel, o senhor no devia ter vindo. Volte para casa enquanto  tempo, pelo amor de Deus! Seu corao no agenta.
     Nenhum Vacariano jamais deu parte de doente na hora da luta  bravatela Tibrio.
     Mas no se trata duma luta de homem contra homem  replica o mdico  vamos enfrentar o sobrenatural! Ponha pelo menos uma pastilha de trinitrina debaixo da lngua.
     Meta voc uma no fi!
    Diz isto e encaminha-se decidido para o patamar da escada principal. Seguem-no o prefeito, o delegado de polcia, o juiz de Direito, o promotor, o Prof. Libindo e o diretor de A Verdade.
    Dando pela ausncia dos mdicos e dos trs presidentes, Inocncio Pigaro volta  porta do gabinete e pergunta petulante :
     Os representantes das classes produtoras no nos acompanham? E os da classe mdica?
    Os cinco homens, que haviam permanecido imveis no meio da pea, num silncio indeciso, entreolham-se e por fim se encaminham para onde esto os outros. E aqui vo agora os treze prceres de Antares e mais o Mendes, descendo a escada da prefeitura, lentamente, num silncio solene e pressago.
    
    XLII
     Um momento!  exclama Vivaldino Brazo, quando chegam ao vestbulo principal do andar trreo. Segura o brao de seu secretrio.  No ser melhor eu ter a meu lado pelo menos um representante da Cmara Municipal?
     O senhor pode falar sozinho em nome do municpio, chefe  responde o Mendes.  Hoje de manh chamei por telefone todos os vereadores, um por um. Os trabalhistas recusaram o convite para a reunio alegando que o problema  do prefeito. Dois dos outros deram parte de doente e os restantes disseram que tinham sido chamados para fora da cidade...
    Vivaldino parece ainda relutante.
     E quanto ao protocolo  prossegue o secretrio  nada lhe posso dizer, pois no existem precedentes...
     Mas quem  que vai pensar em protocolo numa hora destas!  indigna-se o velho Tibrio.
     Meio-dia  diz o Dr. Lzaro.  O sol est de rachar. No vejo sombras na praa. No aconselho aos amigos sarem de cabeas descobertas. Perigo de insolao.
    Dentro dos prximos dois minutos o Mendes sobe a correr ao andar superior, de onde volta trazendo doze chapus.
     Voc no usa tampa, Vivaldino?  pergunta 1-brio.
    Nesse momento, Yaroslav, vindo da rua, irrompe no vestbulo, ofegante, com sua cmara ao ombro e algo na mo direita.
     Major! Major! Fotografei os defuntos. Veja o resultado.
    Entrega ao prefeito uma fotografia ainda mida, do tamanho dum carto-postal. Nela o coreto aparece completamente vazio.
     Incrvel! Meus olhos viram os sete mortos, mas o olho da minha cmara no viu ningum!
    A fotografia passa de mo em mo.
     Est ainda de p a minha tese da alucinao coletiva  diz o Prof. Libindo.  As objetivas fotogrficas e cinematogrficas obviamente no esto sujeitas a esses fenmenos psquicos.
    O prefeito encontra-se parado sobre a soletra da porta central. Por entre as pestanas tramadas avista, meio apagados pelo excesso de luz, os sete cadveres dentro do coreto. Em duas passadas hesitantes, ganha a calada, com a impresso de mergulhar vestido numa piscina cheia de gua quente. Pisca e com as pontas dos dedos esfrega as plpe-bras sobre os olhos ardidos. O suor escorre-lhe em grossas bagas pelo lombo e pelo peito. O sol marra-lhe a cabea.
     Onde est o Mendes?  pergunta, atarantado. Todos olham em torno, procurando o secretrio da prefeitura, mas no o vem. Esse covarde me abandonou  pensa Vivaldino.
     Que  que voc quer com o seu lacaio?  pergunta Tbrio.  Uma muda de roupa de baixo? J?
     Uma aspirina  geme o prefeito.  Minha cabea est estourando de dor.
    Com dois dedos Lucas Faia pesca na miscelnea de um de seus bolsos um pequeno invlucro com duas aspirinas e entrega-o ao prefeito, que o abre, mete os dois comprimidos na boca, trinca-os e vai engolindo com dificuldade seus speros e amargos pedaos, que lhe arranham a garganta.
    Tibrio Vacariano sente a respirao curta e um aperto no peito, sob o esterno. Est tambm na calada, deslumbrado pela claridade cor de zinco que faz empalidecer as imagens a seu redor. A luz rverbra nas fachadas caiadas. Das pedras escaldantes sobe um trmulo vapor que d aos objetos mais distantes do observador um qu de miragem.
    Surge de iriopino o Mendes  ningum sabe nem pergunta de onde  trazendo debaixo dos braos um guarda-sol preto e uma sombrinha de mulher, dum amarelo de gema de ovo, e nas mos um frasco de meio litro cheio dum lquido verde.
     Molhem os lenos nesta gua-de-colnia, amigos  recomenda ele.  O mau cheiro deve estar medonho.
    O vidro passa de mo em mo, numa ordem vagamente hierrquica, e cada qual trata de encharcar o seu leno no lquido perfumado de alfazema. O ltimo a fazer essa operao  o presidente do Lions, que est to nervoso que deixa o frasco escapar-lhe das mos e tombar nas lajes da calada, contra as quais se parte em cacos. Os prceres estremecem.
    Inocncio Pigaro, que tambm esteve sumido por uns instantes, volta ao grupo e informa que mandou seus guardas estenderem-se ao longo das quatro caladas da praa para proteger a populao.
    Depois de entregar a sombrinha amarela ao Dr. Lzaro, o Mendes abre o guarda-sol negro sobre a cabea do prefeito, cujo brao ele segura, e ambos assim juntos comeam a atravessar lentamente a rua. O Dr. Lzaro, que traz a sua maleta negra, faz o mesmo com o Cel. Vacariano, o qual, de to perturbado, nem protesta contra o redculo daquele pra-sol efeminado sobre a sua crinuda cabea de velho garanho.
    Afora os defuntos no coreto e os guardas de Pigaro nas caladas, o largo da praa est completamente deserto de humanidade. Sente-se, porm, que nas casas em derredor, por trs de venezianas e postigos cerrados ou entreceirados, vultos humanos esquivos espiam para fora, seus espritos como petecas numa partida incerta que a curiosidade joga contra o medo. Cada uma dessas fachadas sugere a face duma pessoa que, com o corao acelerado pelo pavor, finge dormir quando um ladro lhe penetra no quarto na calada da noite: plpebras exageradamente apertadas sobre os globos nervosos dos olhos, msculos faciais indisfaravel-mente contrados. Bastar um grito, um estalo, uma detonao para que essas faces de alvenaria abram instantaneamente olhos e bocas, deixando escapar uivos, ais ou apenas o arquejo convulsivo duma respirao cortada de sbito pelo susto.
    Nas rvores as cigarras rechinam, lixam-lixam-lixam-liiiiiiiixam o silncio.
    
    XLIII
    Com passo e aspecto de cortejo fnebre, a comitiva atravessa a terra de ningum que separa do coreto o edifcio da prefeitura. Quatorze homens conturbados, quatorze coraes batendo em ritmo descompassado, quatorze goelas secas. Vivaldino Brazo e Tibrio Vacariano, como dois sobas, cada qual ladeado por seu fiel fmulo, abrem a marcha  o guarda-sol preto e a sombrinha amarela.
    O prefeito faz alto junto dum p de maric, j pisando o cho da praa, e mede mentalmente a distncia que agora o separa do coreto. Uns trinta metros?  necessrio aproximar-se ainda mais, se quiser ouvir e ser ouvido durante o dilogo que vai travar com o advogado dos mortos. (Jesus Cristo, tudo isto  mentira!) O major porm hesita, pois a podrido que se emana dos cadveres envenena o ar, devorando a fragrncia da lavanda. Com insultos, Tibrio incita o prefeito a continuar a marcha. O Dr. Lzaro toma o pulso de seu cliente:
     O senhor est com taquicardia, coronel! Por amor de Deus, volte para casa, v para a cama!
    Sem desviar o olhar do coreto, Tibrio vocifera:
     Merda pra taquicardia! Merda pra Medicina! Merda pra Morte!
    Com as sereias discretamente silenciosas uma ambulncia do Hospital Repouso e outra do Saio ator Mundi chegam  praa quase ao mesmo tempo. A primeira estaca no cruzamento da Rua Voluntrios da Ptria com a do Comrcio e a segunda, na interseo da Av. Sete de Setembro com  Rua da Igreja. Parecem dois tanques de guerra de potncias inimigas que tomam posio para um eventual combate.
    O sacristo da Matriz, que depois de fazer o sino bater a ltima badalada do meio-dia, subiu para o alto do campanrio, agora desse ponto de observao privilegiado assiste a uma cena curiosa.  medida que a comitiva do prefeito se aproxima do coreto, as janelas das casas em torno da praa se vo, aos poucos, entreabrindo ou escancarando, e vultos humanos assomam a elas. Dentro de alguns minutos vrias pessoas saem pelas portas desses prdios ou emergem das ruas que desembocam na praa. Quase todas empunham guarda-sis abertos sobre suas cabeas  no s homens como tambm mulheres  de sorte que o sacristo vai percebendo aqui e ali no s pra-sis pretos mas tambm sombrinhas coloridas  amarelas, verdes, azuis, vermelhas, brancas  uma espcie de festiva proliferao de cogumelos.
     Veja, major  murmura Mendes, chamando a ateno de seu chefe para o fenmeno.  O povo de An-tares est aparecendo para apoiar o seu prefeito. No estamos ss!
    Vivaldino tem o olhar focado no coreto. Pode agora ver melhor os mortos, suas faces horrendas, seus corpos quase completamente cobertos de moscas. Sente uma nsia de vmito, que a custo domina, como se orqudeas lhe fermentassem no estmago.
    De p  frente de seus constituintes, as mos s costas, o Dr. Cicero Branco aguarda a comitiva oficial, com um sorriso na cara violcea.  um pesadelo  diz o prefeito para si mesmo   um pesadelo. Sei que de repente vou acordar...
     Fale!  grita-lhe Tibrio.  Seja breve, porque no agento esta fedentina.
    
    XLIV
    Como uma patrulha de reconhecimento enviada pelos sete mortos, algumas moscas vm ao encontro dos membros da comitiva municipal e pousam nas faces e nas mos dos properes. Esboa-se um princpio de pnico nas fileiras do Maj. Brazo. Os defuntos continuam imveis e silenciosos dentro do coreto, como num estranho retrato de famlia.
    Vivaldino d mais um passo  frente. Mendes acompanha-o, sempre mantendo sobre a cabea do chefe a umbela negra. O prefeito de Antares pigarreia, afasta o leno da boca, mas no do nariz, e numa voz meio nasalada, fazendo esforos para esconder a emoo e manter a sua dignidade de primeira autoridade municipal, recita o seu discurso:
     Excelentssima senhora D. Quitaria Campolargot
     No reconhece a prpria voz.  BM Ccero Branco e demais def... digo, pessoas... a... mortas! Como prefeito desta cidade (ai meu Deus  murmura para si mesmo num suspiro)  recebi h mais ou menos quatro horas o... o requerimento verbal de vosso advogado... Circunstncias alheias  vontade da prefeitura nos impedem de atender ao vosso justo pedido. (Juro como isto  pesadelo, bem como os discursos que fao em sonhos, falo e no me ouo, contnuo a falar e ningum me escuta, quero parar e no consigo.) Como todos sabem  prossegue em voz alta
     os grevistas cercaram o cemitrio e se mantm irredutveis na... no propsito de vos manter insepultos at que a greve seja resolvida sasti... sauf as, . . digo, satisfatoriamente para eles.
    O fiel Mendes passa um leno pelo rosto lavado de suor de seu amo. Continuam a chegar ao largo, vindos de vrios quadrantes da cidade, homens e mulheres que ficam a olhar o coreto de longe, narizes e bocas tapados por lenos, um espavento nos olhos. Mais ousados que os adultos, algumas dezenas de rapazes, em sua maioria estudantes em frias  lenos amarrados  nuca, a tapar-lhes metade do rosto  atravessam a rua a correr, ganham a calada da praa, aproximam-se do coreto e sobem apressados nas rvores maiores que o cercam, e ali ficam empoleirados nos seus galhos, como para assistir da primeira fila ao singular espetculo que h pouco comeou.
    At o velho Zoroastro, paralitico h vinte anos (um balzio na espinha, num combate com guardas aduaneiros, nos tempos em que se dedicava ao contrabando) sai de casa, atravessa a rua na sua cadeira de rodas e vem para a praa empurrado por um sobrinho mdico, que traz parte da cara coberta por uma mscara cirrgica.
    Egon Sturm, o ex-campeo estadual de tiro ao alvo, encarapitou-se no telhado duma das casas mais altas do largo e l de cima olha a cena por um binculo de campanha.  ele o primeiro a avistar os urubus que, vindos dos lados da Babilnia, comeam a voar alto sobre a praa.
    Tibrio Vacariano trata de captar o olhar de sua amiga Quitria, fazendo-lhe com as mos acenos aos quais, entretanto, ela no responde.
    
    XLV
    O prefeito prossegue no seu discurso, de certo modo sentindo-se agora amparado pela presena daqueles mascarados  gente viva!  nas rvores, to prximos dele:
     Por outro lado, os patres, que consultei diretamente esta manh, no parecem dispostos a conceder o aumento que os grevistas exigem. Estamos portanto num impasse. No quero lanar contra os operrios tropas estaduais ou federais porque, como todos saciem, sou um homem avesso  violncia. Pela mesma razo no pretendo hostilizar-vos, pois isso seria uma injustia. Sois antarenses como ns. A morte no vos roubou a cidadania!  Como que momentaneamente insensvel ao mau cheiro, s moscas, e j com o dedo da eloqncia enristado verticalmente, e dirigindo-se particularmente aos moos nas rvores, o corpo rolio meio erguido na ponta dos ps, Vivaldino Brazo perora, sentindo recuperar o seu velho eu dos comcios e campanhas eleitorais:  Assim sendo, fao um apelo principalmente  distinta dama Quitria Campolargo, ao meu amigo e colaborador Dr. Ccero Branco para que voltem com seus companheiros, sem mais delongas, para o lugar de onde vieram, e l esperem quietos, como convm a mortos que se prezam, o momento em que as circunstncias permitam o vosso se-pultamento cristo, como  de vosso direito e de nosso desejo e dever!  desnecessrio dizer que a prefeitura vos oferece a todos transporte gratuito at ao cemitrio...
    Neste ponto irrompe de dentro das rvores uma enorme gargalhada em unssono seguida de assobios, miados, cacarejos, arrulhos, guinchos...
     Filhos da me!  murmura Vivaldino.  Pensei que estivessem do nosso lado.
     No h de ser nada, major  encoraja-o o Mendes.  O grosso da populao responsvel desta terra nos apoia.
    Mais uns oito ou dez jovens agora atravessam correndo um dos canteiros de relva (No pise na grama) e comeam a subir o tronco dum grande pltano, a poucos metros do coreto. Inocncio Pigaro lana-lhes um olhar torvo mas nada diz nem faz. Apreensivo, desinquieto, com um espasmo de garganta  o delegado divide a ateno entre o cadver de Joo Paz, que est no coreto, meio escondido atrs do corpanzil de Barcelona, e o seu prprio filho, que v sentado ao lado do Pe. Pedro-Paulo, na borda de um dos lagos artificiais, e que evita corresponder ao seu olhar. At que ponto o maldito padre ter contado a Mauro a estria da morte de Joo Paz?
    Dois caminhes  o da Coca-Cola e o da Pepsi-Cola, ambos pintados nas cores da bartdeira dos Estados Unidos, e cada qual tocando a sua musiquinha de realejo  chegam  praa ao mesmo tempo e, bem como aconteceu s ambulncias, tomam tambm posio de combate. Algumas pessoas  pouqussimas  aproximam-se deles, levadas talvez mais por um reflexo condicionado do que propriamente pela sede, compram refrigerantes e pem-se a mamar nas suas garrafas, levantando os lenos o suficiente para descobrir-lhes as bocas. O resto da multido permanece onde est, esperando a resposta do advogado dos defuntos, a qual no tarda:
     Senhor prefeito municipal  diz o Dr. Ccero Branco em voz alta e clara.  Povo de Antaresl Em nome de meus constituintes e no meu prprio, recuso, por absurdo, o pedido do Maj. Vivaldino. Exigimos o nosso sepultamento imediato. Se no formos atendidos, continuaremos apodrecendo aqui no corao da cidade.
    Estrugem aplausos e gritos das muitas rvores em torno do coreto. Bravo! Apoiado! Duro com eles, Dr. CiceroV
    O prefeito deixa escapar um misto de suspiro e arroto vindo das profundezas de seu nauseado peito. Acerca-se de Hbrio, chama com um sinal de cabea o juiz, o vigrio, o promotor, o Prof. Ubindo e Lucas F aia e ficam os sete a confabular durante um par de minutos, ao cabo dos quais o major de novo se volta para o coreto:
     Se essa  a vossa ltima deciso, dou a palavra ao Dr. Mirabeau da Silva.
     Mas que  que vou dizer?  pergunta o promotor, alarmado.
     Reforce minhas palavras  pede o prefeito  mas fale bonito. O senhor  formado e, alm de tudo, est habituado a acusar. No tenha considerao com os mortos, porque eles no esto revelando nenhuma com a populao de Antares. Faz de conta que ali no coreto esto sete rus.
    
    XLVI
    O Dr. Mirabeau sobe num banco, olha em torno e, quando se dispe a falar,  impedido pelo grande coro ritmado que parte das rvores, por entre assobios e risadas: Fres-co! Fres-co! Fres-co! Fres-co! O promotor fica quase to vermelho como as flores do hibisco que lhe serve de pano de fundo. Cerra o punho e os dentes, baixa a cabea, indignado, fecha os olhos e espera o fim da assuada.
     Senhor delegado!  brada, quando volta o silncio.  Se no cessarem imediatamente essas insultuosas e caluniosas manifestaes de hostilidade  minha pessoa, da parte desses moleques esquerdistas, desses beatniks municipais, eu me negarei a falar. Mande evacuar as galerias I
    Inocncio Pigaro consulta com os olhos o prefeito, mas este, do fundo de seu suarento desnimo, sacode negativamente a cabea, dizendo:
     Fale assim mesmo, Dr. Mirabeau. Esses moos no sabem o que fazem. So teleguiados de Moscou. O senhor est muito acima dessas calnias e misrias.
    Ouvem-se agora tmidos aplausos partidos das muitas pessoas adultas, homens e mulheres, que aos poucos se foram juntando a retaguarda da comitiva oficial.
     No estamos ss!  repete o Mendes.  As classes conservadoras j esto reagindo.
     Senhores jurados!  comea o Dr. Mirabeau, buscando automaticamente o olhar aprovador do juiz. Este, porm, franze a testa, estranhando essas palavras.  Quero dizer... dignssimas autoridades civis e eclesisticas, colendo juiz de Direito, povo de An tares!
    As moscas, como a uma ordem secreta dada pelos defuntos, assaltam o orador e por alguns instantes, quase em pnico, o promotor luta com elas, tratando estabanadamen-te de enxot-las. Sente uma tontura como se estivesse, no em cima dum banco de praa, mas  beira da platibanda dum arranha-cu. Fresco... eu? Por qu? Pai de trs filhas.
    Feliz com a esposa. Msculo de gesto e voz. Ex-campeo de esgrima. Por que fresco? Olha para o coreto, meio perdido. Dentre todos os sete mortos at agora s prestou ateno ao cadver de D. Quitria, que continua a identificar com o de sua prpria me. S esse corpo ele v com nitidez, mas numa outra poca. Os outros defuntos ali esto como vagas manchas em vrios tons de cinza, violeta e bile. Mas  preciso continuar o discurso...
     D. Mariana da Silva, digo, D. Quitria Campolargo, com vossa licena. Meu caro colega Ccero Soeiro Branco e... demais mortos!
    De novo se cala, com a memria em branco. Uma voz sai do pltano:
     Desembucha, fresco! Olha que tua maquilagem esta se derretendo!
     Profissionais competentes vos declaram defuntos  prossegue o orador, surdo agora aos insultos.  Estais portanto oficialmente mortos perante Deus e os homens. Por que voltastes? E tu, mame, por que no ficaste no teu tmulo? Eu no te esqueci... Juro por Deus. No prximo Dia de Finados ters as tuas rosas.  Leva a mo aos olhos, fica um instante calado, e depois prossegue:  Por que insistis em ficar onde estais, apesar do repdio geral de nossa populao, da qual foi h pouco porta-voz nosso ilustre prefeito? Vossa presena ofende nossos olhos, nosso senso olfativo, nosso senso esttico, nossos coraes, nosso esprito! _ Aponta dramaticamente para o cu.  Contemplai os urubus que j voam agourentamente sobre a praa, atrados pela vossa carnia. Estais pondo em grave perigo a vida do povo de Antares. Em breve essas aves negras estaro arrancando os olhos de nossas criancinhas com seus bicos e garras.
    Uma colossal gargalhada sacode as rvores. O orador espera que se restabelea o silncio para continuar:
     Pensai nessas moscas que passeiam pelos vossos corpos putrefatos e depois vm pousar em nossas epidermes, em nossos alimentos e na gua que bebemos! Em suma, vs estais conspurcando a dignidade da morte. Insistindo em ficar no centro da nossa urbe, vs vos revelais maus antarenses. Nosso dever para convosco  sepultar-vos e, se no o fizemos at agora, foi por causa da atitude impatri-tica dos grevistas, que sitiaram truculentamente o cemitrio, barrando-nos a sua entrada. O vosso dever para com esta comunidade  aceitar resignadamente a vossa morte, isto , na imobilidade e no silncio e no... no vos valerdes (minha me! terei conjugado direito o verbo?) da vossa condio de defuntos para impor-nos a vossa presena perturbadora e letal. Assim, em nome do governo e da populao de Antares, e em nome da decncia humana, em nome da ptria e dos mais nobres sentimentos cristos, eu vos exorto a voltar aos vossos esquif es e dentro deles aguardar a hora de vosso sepultamento. Tenho dito!
    
    XLVII
    A multido que agora se apinha atrs dos quatorze membros da comitiva rompe em aplausos, ao mesmo tempo que os rapazes arborcolas vaiam o orador: Buu! Buu! Fiau! Morra o promotor! Bota pra fora! Fresco! Fresco! Fresco! Inocncio Pigaro trila o seu apito, seus guardas aproximam-se em marche-marche, cercam as rvores, erguem para os rebeldes os seus bastes ameaadores, mas no ousam ir busc-los nos galhos em que esto empoleirados. Ccero Branco pede silncio e ordem aos rapazes das galerias. Estes finalmente se calam. A um sinal do delegado de polcia, seus guardas retiram-se para as caladas, limpando as caras, os quepes e os uniformes sujos de cuspe, tinta, barro e lquidos suspeitos.
    Que estranho animal  aquele que l vem agora, atravessando a rua? E o Pintoca da Agncia Chevrolet, metido na sua indumentria de pesca subaqutica, a mscara redonda de vidro tapando-lhe o rosto, os dois tubos com reservas de oxignio s costas. Mas por que traz tambm o ar-po? Como um ser dum planeta desconhecido que acaba de chegar  Terra, ele atravessa a multido, passa pelo pr-homens e vem sentar-se na relva a uns cinco metros do coreto, lutando j com uma nusea cuja causa no lhe entra pelo nariz nem pela boca, mas pelos olhos.
    Do alto de seu telhado Egon Sturm, apesar de seu binculo militar, a custo consegue reconhecer o vendedor de automveis naquele bicho escuro e estranho. Pensa na sua carabina com mira telescpica, sente gana de ir busc-la, pois poderia, de onde est, atirar contra as rvores e derrubar aqueles macacos comunistas. Scheissl
    O Dr. Ccero Branco puxa as asas da borboleta de sua gravata.
     O meu caro colega terminou?  pergunta.  Pois ento desa do banco. Sua posio nesse poleiro  to ridcula e abstrusa quanto os argumentos que apresentou contra ns. Pois est muito bem! Ouvida a acusao, peo ao colendo juiz de Direito vnia para proceder  defesa de meus constituintes. Se ele no ma conceder, falarei assim mesmo, e desde j vou avisando que essa defesa ser tambm uma acusao. E vs, antarenses, aproximai-vos o mais possvel do coreto para me ouvir melhor, pois o que vou revelar agora  do vosso maior interesse.
    As trs irms Balmacedas, velhotas solteironas conhecidas na cidade como mestras do mexerico, grandes janelei-ras e, segundo a voz do povo, autoras das mais virulentas cartas annimas que circulam em Antares, acercam-se excitadas do coreto, cada qual com a sua sombrinha aberta  roxo, malva, rosa  os lenos de cambraia recendentes a Heno de Pravia apertados contra a boca e o nariz. O cronista social de A Verdade ousa dar alguns passos  frente mas de sbito se dobra sobre si mesmo e, numa convulso, despeja sua viscosa angstia sobre uns lrios aquticos. Dois enfermeiros do Sah ator Mundi acorrem, e levam Scorpio numa padiola para dentro da ambulncia. Num outro setor da praa o pessoal do Hospital Repouso atende ao primeiro caso de insolao. Os prceres confabulam animadamente. E depois que a ordem e o silncio se restabelecem, o Dr. Ccero continua o seu discurso:
     A julgar pelas palavras do prefeito municipal e do promotor pblico, nossa presena  indesejvel na cidade, incmoda aos seus habitantes. Em suma, nosso desaparecimento foi plenamente aceito por todos, o que vem confinnar a minha teoria de que se por um lado o homem jamais se habitua  idia da prpria morte, por outro aceita sempre, e com admirvel facilidade, a morte alheia. Vossa repulsa e vossa m vontade para com nossos corpos nos outorga a liberdade de dizer o que realmente pensamos de vs.
    Tibrio Vacariano d um passo  frente e ergue a mo:
     No estamos interessados na sua opinio!
     Cala a boca, coronelote!  grita algum de dentro dum cedro. Outra vaia irrompe: Ve-lho po-drel Ve-lho podre! Ve-lho po-dreF
    Tibrio tira o revlver do coldre, ergue-o, apontando-o para uma das rvores, e grita:
     Morte aos bugios! Morte aos bugios!
    Inocncio Pigaro agarra-lhe o brao armado, baixa-o de maneira a que o cano do revlver fique voltado para o cho e, ajudado pelo prefeito, consegue desarmar o patriarca dos Vacarianos. O Dr. Lzaro corre dum lado para outro com a sombrinha sempre erguida:
      trinitrina, coronel, a trini trina!
    
    XLVIII
    O Dr. Ccero Branco ergue os braos, num largo gesto, como para abranger a praa e a cidade.
     Hipcritas!  exclama.  Imps tores! Simuladores! Eis o que sois... Vista deste coreto, do meu angulo de defunto, a vida mais que nunca me parece um baile de mscaras. Ningum usa (nem mesmo conhece direito) a sua face natural. Tendes um disfarce para cada ocasio. Cada um de vs selecionou sua fantasia para a Grande Festa. O Prof. Libindo travestiu-se de sbio. O Dr. Lzaro representa o papel de mdico humanitrio, espcie de santo municipal, a personificao da bondade desinteressada. O Dr. Quintiliano  a prpria imagem da justia, os olhos vendados (os dois ou um s?), numa das mos a espada e na outra uma balana de fiel duvidoso. O nosso digno promotor freqentemente enverga a sobrecasaca de Rui Barbosa e dana a grande polonaise da Cultura. O nosso Vivaldino Brazo, ah! esse  alternadamente Dr. Hyde, que faz vista grossa s violncias de sua polcia e s prprias patifarias, e o Dr. Jeckyll, que cultiva delicadas orqudeas. Faa-se justia ao nosso truculento Cel. Vacariano, pois ele ostenta com naturalidade e coragem cvica o manto antiptico do poder discricionrio, que herdou de seus ancestrais, dessa estirpe de bandidos, abigeatrios e contrabandistas histricos ...
    O Cel. Tibrio ergue-se, estentreo, e grita:
     Faam esse co hidrfobo calar a boca! Onde est a polcia!  Diz isto e praticamente cai sobre um banco, resfolgante.
    O advogado dos mortos continua:
     O Dr. Falkenburg usa psicologicamente com uma empfia prussiana o bon imaginrio de estudante de Heidelberg e sua cara ostenta a cicatriz fictcia dum duelo universitrio... e no entanto, que ele nunca visitou a Alemanha todos ns sabemos. Formou-se numa obscura faculdade do interior do Estado. E quem mais vejo na festa? Ah! O delegado Inocncio Pigaro... Esse sdico esconde o seu riforme negro de oficial da S.S. de Hitler debaixo do ca-misolo do anjo da guarda que zela pela ordem no salo de baile. E que baile! Tambm tomei parte nele e usei mil mscaras, mil disfarces. Aprendi a manipular a moeda corrente (falsa mas fcil) das mentirinhas cotidianas, das grandes mentiras e das meias verdades. .. Tornei-me um mestre em todas as vossas danas e contradanas. Respeitei o vosso cdigo, que manda aceitar as imposturas e simulaes dos outros mascarados para que eles, em retribuio, aceitem as nossas...
    Uma gritaria de bravos e aplausos jorra das rvores. Quando o rudo e a fria cessam, Ccero prossegue:
     Avisto daqui o presidente do Rotary. Com que roupa est vestido? Ah! Exibe um modelo Dale Carnegie. E o do lions? Esse segue o figurino de Napoleon Hill. O digno presidente da Associao Comercial, se no me engano, procura vestir-se de acordo com os grandes empresrios americanos. E l est o nosso inefvel Lucas Lesma, que usa uma imitao barata da mscara de Hearst.  Leva a mo em pala sobre os olhos.  Quem mais est no baile? No me  fcil reconhecer todos os convivas, porque eles agora tm sobre as mscaras os lenos com que procuram proteger-se de nossas emanaes cadavricas... L esto as Bal-macedas, do sindicato das cartas annimas... Vejo tambm damas nesta praa, algumas de nossas dez mais de anos passados, imitadoras da Princesa Grace Kelly, sim, e Terezinha de Jesus... e Mme Pompadour... e Coco Chanel... e Jacqueline Kennedy... e Elizabeth Taylor... Quanto s mscaras retocadas por cirurgies plsticos que vejo na multido... bom, nessas nem vou falar.
    As moscas zumbem ao redor da cabea do advogado dos defuntos. (Comentando mais tarde a cena da praa no seu famoso artigo sobre o incidente  mas sem repetir especificamente as palavras de Ccero Branco  Lucas Faia escreveria: O que at agora no consigo explicar  por que todos ns continuvamos ali, em pleno olho dum sol implacvel, a ouvir insultos, calnias e mentiras em meio daquele pavoroso hlito spulcral, vendo cair a nosso redor vtimas de insolao, e ouvindo os gritos de pessoas que se debatiam em crises nervosas. Chego a pensar que era um sortilgio malfico que prendia ao cho da praa homens da honorabilidade do Pe. Gerncio Albuquerque, do Cel. Tibrio Vacariano, do nosso prefeito, do juiz de Direito, do promotor pblico e outras pessoas gradas. Poderamos voltar as costas queles sete mortos, retirar-nos para nossas casas e deix-los apodrecendo no coreto, devorados pelos urubus que voavam  baixa altura sobre a praa. No entanto l estvamos estarrecidos, paralisados, como se na realidade o Juzo Final tivesse chegado e o Dr. Ccero Branco, por uma dessas aberraes teolgicas inexplicveis, fosse uma espcie de anjo, de promotor no de Deus  oh no!  mas do demnio, a atirar insultos e mentiras sobre as cabeas dos mais dignos habitantes de Antares!)
    
    XLIX
     E incrvel  prossegue Cicero Branco, enquanto Barcelona lhe puxa repetidamente pela manga do casaco, como se quisesse dizer-lhe algo  que s agora que estou morto e decomposto  que ouso dizer-vos estas coisas. Ser que a verdade fede e  s da mentira que se evolam os doces perfumes da vida? Ser que o famoso poo da lenda em cujo fundo se esconde a verdade,  feito de lodo e podrido?
    O Prof. Libindo Olivares cobra coragem, afasta por um momento do nariz e da boca o leno com que se defende dos miasmas dos mortos, e pergunta:
     Mas que  a Verdade?
    Ccero Branco fita no professor suas pupilas mortas e responde, sorrindo:
     No me venhas com essa pardia de Jesus diante de Pilatos, meu inefvel paranico! Estou falando na verdade com v minsculo. E voc sabe o que  a verdade? No sabe porque vive uma mentira crnica. Falsa  a sua moral. Falsa a sua cultura. Falsa a sua proclamada amizade e correspondncia com celebridades mundiais como Sartre, Mauriac, o Papa... sei l mais quem! Seu latim  de ginasiano. Seu grego, mitolgico. Sua cultura, um produto de leituras das Selees do Readers Digest.
    Os arborcolas rompem num coro  Men--ro-sol Men-ti-rp-so! Men-ti-ro-so. Mas calam-se a um gesto de Ccero Branco, que agora escuta algo que Barcelona lhe diz ao ouvido.
     Nosso anarco-sindialista acaba de me soprar um fecho de ouro para a minha metfora do baile de mscaras ... Para vs o importante  que a festa continue, que no se toque na estrutura, no se alterem os estatutos do clube onde os privilegiados se divertem. A canalha que no pode tomar parte na festa e se amontoa l fora no sereno, envergando a triste fantasia e a trgica mscara da misria, essa deve permanecer onde est, porque vs os convivas felizes achais que pobres sempre os haver, como disse Jesus. E por isso pagais a vossa polcia para que ela vos defenda no dia em que a plebe decidir invadir o salo onde vos en-tregais s vossas danas, libaes, amores e outros divertimentos.
     Demagogia de alm-tmulo!  brada o Prof. Li-bindo, de dedo erguido, mas o rosto livido.
    Sentado sempre na relva, como num limbo, o pescador subaqutico olha ora para o advogado dos defuntos ora para o grupo dos pr-homens, como quem segue a bola numa partida de tnis. Os urubus, agora em nmero crescido, voam a uns cinqenta metros acima da praa. Um deles pousa na platibanda do palacete dos Campolargos. Um garoto que est sentado na janelinha da gua-furtada dum sobrado vizinho, de estilingue em punho, carrega a sua arma, fecha um olho, mira o urubu, puxa a borracha e depois solta-a: a pedra parte, zunindo, mas erra o alvo e estilhaa o vidro de uma das janelas da manso.
    
    L
    Um Cadillac negro pra  frente da igreja e de dentro dele salta Mr. Jefferson Monroe III que, em passadas largas, se dirige para o centro da praa, com um leno no nariz. Faz alto a alguns metros do coreto que se reflete por um instante em suas pupilas azuis e incrdulas. De dentro de uma das rvores uma vaia comea: Yankee, go home! Yankee, go home! Yankee, go home!
    Mr. Monroe recua de costas  um passo, dois, trs  sempre olhando para os defuntos e murmurando: Its impossible! I dont believe it! My God! I must be drunk. Volta em marcha acelerada para dentro de seu carro, pe o motor em movimento e arranca na direo de sua casa.
    Minutos mais tarde M. Jean-Franois Duplessis e sua esposa haitiana aproximam-se do coreto, vindos de um outro quadrante da praa. Ao verem a mulher do francs, os rapazes que esto nas rvores, rompem a assobiar aprecia-tivamente e em breve comea o coro  Do-mi-ni-quel Do-mi-ni-que! Do-mi-ni-que!  cortado de observaes gaiato-erticas: At que peitos! Olha o tund dela. Do-mi-ni-quel Do-mi-ni-quel Que boazuda!
    M. Duplessis, com a metade da cara coberta por um leno, aproxima-se do coreto e diz: Cest degofantl Volta-se para a esposa e convida: Allons-nous en! Ela, de narinas palpitantes, olhos meio exorbitados, j gingando como num terreiro de batuque, preparada para receber o santo, atira longe os sapatos e solta os cabelos; o marido segura-lhe com fora um dos pulsos, murmurando insultos em francs, e leva-a quase de arrasto para o Citron que ficou junto duma das caladas da praa, enquanto a haitiana solta gritos histricos e diz palavras duma lngua extica que nem o culto Prof. Libindo consegue identificar.
    A ateno de boa parte da multido, desviada por alguns segundos pelo nmero involuntariamente encenado pelo casal estrangeiro, volta-se de novo para o coreto. Ccero continua com a palavra:
     Mas basta de metforas!  diz ele agora.  Vamos a fatos. Povo de Antares, colendo juiz de Direito, eu acuso o Cel. Tibrio Vacariano e o Maj. Vivaldino Brazo de peculato e enriquecimento ilcito  custa dos cofres pblicos!
     Ccero!  geme o prefeito, que continua escarra-pachado em cima dum banco, banhado em suor, os olhos esgazeados, a respirao ofegante.  Voc est louco!
     Morte ao bandido!  grita incongruente o Cel. Tibrio.  O meu revlver! Quem ficou com o meu revlver!?
    O Dr. Lzaro torna a fazer uma espcie de dana em torno de seu cliente, sempre de sombrinha amarela em punho.
    As irms Balmacedas, muito juntinhas as trs, braos dados, pra-sis formando um cacho tricolor escutam atentas o advogado do diabo, os olhinhos besuntados dum interesse a um tempo menineiro e perverso.
    Os arborcolas gritam: Ga-tu-nos! Ga-tu-nos! Ga-tu-nos!
    Inocncio Pigaro mobiliza os seus guardas, decidido a tomar de assalto, seja como for, o reduto dos defuntos. O juiz de Direito, porm, ajudado por Lucas Faia, consegue dissuadi-lo disso. E os guardas municipais, que no parecem nada dispostos a se aproximarem mais dos cadveres, voltam  sua formao anterior, ao longo das caladas.
    Ccero Branco alteia a voz:
     Perguntareis com razo como  que conheo to bem as patifarias desses dois prceres da nossa comuna, e eu responderei que  porque, quando vivo, pertenci a quadrilha! Sim, tambm fui um chicanista, um peculatrio, em suma, um ladro!
    As gralhas nas rvores cantam agora: C-ce-ro! C-ce-ro! C-ce-ro! Mais uma vez o advogado pede-lhes silncio com um gesto.
    O juiz de Direito, agora mais perturbado que nunca, pois acaba de descobrir que sua prpria esposa se encontra no meio da multido, a poucos metros de onde ele est, avana um passo e, com a dignidade habitual, dirige-se ao advogado dos mortos:
     O senhor est se incriminando a si mesmo em pblico!
     Ora, ora, meu caro magistrado, a morte, me confere todas as imunidades. Estou completamente fora do alcance da lei dos homens. Quanto  de Deus, o Velho est cansado de saber de todos os meus pecados, os grandes e os pequenos, tanto os do corpo como os do esprito. A esta hora a minha sentena j est lavrada no Livro divino. Nada do que eu possa fazer agora modificar a minha situao na Eternidade.
    Os seis mortos continuam sentados em silncio, dentro de sua nuvem de moscas. Pudim de Cachaa e Erotildes esto ainda de mos dadas. D. Quitria, de cabea baixa, mos tranadas, brinca de fazer ura polegar girar ao redor de outro, como era seu hbito quando viva. Barcelona exibe os caninos de lobisomem. Encolhido atrs do sapateiro, Joo Paz olha fixamente na direo de Pedro-Paulo, e o jovem padre julga ler uma mensagem naqueles olhos opacos: No se esquea da promessa que me fez. O Prof. Menandro Olinda, fazendo de conta que seus joelhos so ujn teclado de piano, toca neles com bravura, mas inaudvel para vivos e mortos, talvez um trecho da Appassionata.
    Os urubus voam em crculo no cu, cada vez mais baixo, e um deles pousa ousado na platibanda do solar dos Vacarianos. Ouve-se uma detonao e, com a exceo dos defuntos, todos naquela praa estremecem. Olham em torno, procurando, e no tardam a descobrir que Egon Sturm, de carabina em punho, comeou a alvejar as agourentas aves. Que perigo!  exclama algum. E Inocncio manda trs de seus guardas subirem at onde est o campeo de tiro, com o fim de desarm-lo.
    Uma mulher do povo solta um gemido e cai. Correm para ela os enfermeiros da ambulncia do Salvator Mundi ao mesmo tempo que os do carro do Hospital Repouso, e por um momento os dois grupos empenham-se numa luta quase corporal disputando a posse da vtima. O Dr. Mirabeau, apesar de perturbado, intervm na contenda e sugere que se decida a questo com uma moeda. Os enfermeiros do Hospital Repouso escolhem cara; os do Salvator Mundi, coroa. O juiz de Direito  smbolo da justia imparcial   convidado a atirar a moeda para o ar, o que faz, aparan-do-a na trmula palma da mo direita. Coroa! Os enfermeiros do Dr. Lzaro pem a vtima na sua maca e a conduzem num marche-marche glorioso para a ambulncia.
    
    LI
    Engrossou a multido que se encontra atrs dos prce-res. Ajoelhado ao p do banco onde agora se recosta o seu precioso cliente, o Dr. Lzaro toma-lhe o pulso, ausculta-lhe o corao com o estetoscpio, suplica-lhe que volte para casa, mas o velho, com um olhar amarelo, resmunga: O cor-neteiro do meu regimento jamais aprendeu a tocar retirada
    O Pe. Gerncio acha-se sentado na relva, recostado no tronco dum cinamomo. A maldita enxaqueca! S enxerga a metade das imagens: a outra metade se esfuma e foge. E l est, no canto do olho esquerdo, aquele semicrculo de fogo branco em trmulo ziguezague. Inocncio Pigaro continua a buscar, mas inutilmente, o olhar do filho, que conversa animadamente com o Pe. Pedro-Paulo.
    Ccero Branco caminha dum lado para outro no coreto, como num palco.
     Quando vivo, senhoras e senhores  diz ele em voz clara e alta  fui, no s advogado e conselheiro desses dois benemritos cidados cujo nome h pouco tive a honra de declinar, como tambm o seu testa-de-ferro e factotum. Juntos lesamos incontveis vivas, rfos, ausentes e at presentes: negcios de inventrios, desapropriao de terras e prdios. Protegamos assassinos e contrabandistas quando isso nos convinha poltica ou economicamente.
    Tibrio ergue-se, arrastando consigo o Dr. Lzaro com sombrinha, estetoscpio e tudo:
     Mentira! Mentira! Voc no tem autoridade para falar porque est morto e podre!
    O promotor pblico, sentindo um fogo entre as pernas e sonhando com um paraso da talco Johnson, rene foras para dizer:
     Ningum tem o direito de fazer acusaes de tamanha gravidade sem apresentar provas!
    O advogado dos cadveres solta uma risada teatral e de sua boca escorre um lquido pardacento, que ele limpa com a manga do smoking.
     Provas? Eu as tenho, e as melhores, da ltima transao ilcita que praticamos. Ateno, povo de Antaresl O que vou contar  muito importante e esta talvez seja a ltima oportunidade que tenho para falar, pois os saprfitas trabalham depressa e j me devoraram boa parte das entranhas ... 
    As sombrinhas das Balmacedas estremecem. A massa humana agita-se num movimento de onda. Os arborcolas soltam gritos de incitao. Faz-se depois um silncio de expectativa. Ouve-se uma nova detonao e um urubu, ferido em pleno vo, cai a pique sobre o calamento da Rua do Comrcio.
     Quando foi da ltima concorrncia havida no municpio para o fornecimento de automveis, caminhes e mquinas agrrias  nossa prefeitura, murmuraram por a os oposicionistas que houve fraude... Pois houve mesmo. E da grossa! Sei disso porque fui eu quem engendrou a negociata. Trs firmas entraram na concorrncia. A que ofereceu a melhor proposta foi logo alijada porque era uma empresa idnea e recusou entrar no cambalacho que propus. De combinao com os meus scios, o honrado prefeito Maj. Brazo e o nosso impoluto Cel. Vacariano, inventei uma tecnicalidade que ps logo essa companhia fora de combate... Ficaram apenas duas e foi aceita a que nos fazia a proposta mais conveniente: a que concordou em dar-nos por baixo do poncho uma bonificao de trinta por cento sobre o total do superfaturamento dessas viaturas e mquinas. ..
     Delegado!  exclama o prefeito.  Prenda esse canalha mentiroso!
    Encolhido atrs do tronco dum guapuruvu, como de emboscada, Inocncio Pigaro no diz uma palavra, no faz o menor movimento. Olha ainda intensamente para o filho, cujas expresses fisionmicas ele observa com apreenso.
     Como pode um homem que faleceu no dia 11 de dezembro  pergunta o juiz de Direito  depor no dia 13 desse mesmo ms? Nenhum tribunal do mundo reconheceria a validade desse testemunho.
     Seja como for, escutem!  prossegue Ccero Branco.  A transao a que me referi se consumou a portas fechadas no meu escritrio profissional, presentes apenas quatro pessoas: o representante da firma fornecedora, o prefeito, o Cel. Tibrio e este vosso criado, que j no  mais deste mundo, ! Maj. Vivaldino, voc no pode deixar de ter notado uns lindos cravos vermelhos que estavam num vaso em cima da minha mesa... No notou? Bom, voc s se interessa por catlias... Pois foi uma lstima, porque dentro desse vaso escondia-se um pequeno microfone ligado por um fio muito bem dissimulado a um gravador que funcionava dentro duma gaveta de minha escrivaninha. Tudo quanto dissemos naquela reunio ficou nitidamente gravado numa fita magntica. O nosso famoso graffobo, o Cel. Tibrio Vacariano, o espertalho que sempre recusou assinar papis, at mesmo os legais, dessa vez caiu na ratoeira: sem saber deixou gravada a sua voz no meu tape, e o que ele ento disse poderia lev-lo  cadeia se houvesse justia neste pas.
    O patriarca dos Vacarianos arranca o estetoscpio das mos de seu mdico, d dois passos na direo do coreto, e arremessa-o como um projtil na cara de Ccero Branco. Este apanha o instrumento no ar, e depois de dizer Que serventia pode ter um estetoscDio para um cadver?, joga-o na relva. O pescador subaqutico apanha o instrumento com a ponta dos dedos e leva-o ao Dr. Lzaro, que, depois de curta hesitao, recebe-o de volta, meterdo-o na bolsa.
     Continuemos, meus amigos  torna a falar o Dr. Ccero.  Enquanto o carretei da tape rodava, li em voz alta as clusulas daquele documento de compra e venda. Depois o prefeito assinou as duas vias, dizendo textualmente: Est aqui o contrato. A voz que se ouve em seguida  a do nosso grande Vacariano: Epa, moo! Primeiro, venha de l a nossa comisso. So sessenta milhes de cruzeiros em dinheirinho batido, conforme combinamos. Nada de cheques. Se tocarmos a fita magntica o que ouviremos em seguida  a voz do representante da firma vendedora dizendo: Est aqui a parte dos senhores, Maj. Vivaldino e Cel. Vacariano. Faam o favor de contar.
    O prefeito de Antares est atirado num banco, como aniquilado pela acusao, a papada cada sobre o peito, que sobe e desce ao ritmo descompassado duma respirao pesada. Sem deixar de segurar o guarda-sol negro, o Mendes espanta com a mo que tem livre as moscas que pousam no rosto de seu chefe.
    Dentro do coreto, Barcelona solta risadas e com elas golfadas de moscas. Nas rvores, os rapazes retomam a sua gritaria e por alguns minutos reina o caos e a cacofonia no centro da praa.
     Mas onde est a fita com esse dilogo?  pergunta Lucas Faia.
     Ah!  faz Ccero Branco  o ilustrado diretor do Times de Antares pensa que estou blefando. Quer pagar para ver? Pois o carretei com o tape encontra-se em mos dum amigo meu, fora da cidade,  pode ser apresentado  Justia onde e quando esta o reclamar.
     Tudo isso  uma invencionice vergonhosa com o fim exclusivo de desmoralizar as nossas autoridades!  protesta o promotor pblico.
    O Pe. Gerncio, agora com a cabea entre as mos, suplica a Deus que o torne surdo, para ele no ouvir as barbaridades que se dizem, cego para no continuar a ver aquele espetculo horroroso, sem olfato para no sentir a podrido dos mortos, mudo para no ter de falar nunca mais! Nunca mais! O Prof. libindo, com o leno recendente a alfazema e cadver apertado contra o nariz, tenta identificar-se com a extremosa florida ao p da qual se encontra. Impossvel! O sol o cega, o calor o aplasta. Pensa em fugir, disparar rumo de seu quarto, tomar uma ducha fria, ler Plato completamente nu e esquecer. Mas por que no faz isso? Que estranha fora o mantm imvel ali  escassa sombra daquela rvore?
    O juiz pensa num romance que leu com paixo e em que o personagem que narra a estria cometeu um crime gratuito por causa do sol. Lembra-se de que fechou o volume numa dvida... Teria mesmo o criminoso alguma atenuante? Agora est convencido de que o sol pode transformar um homem num assassino. O processo de Meursault merece ser revisado. Mas  tarde demais. O ru foi guilhotinado. E ento Quintiliano procura o rosto de sua esposa em meio da multido, mas agora tem diante dos olhos uma nuvem, e comea a sentir a pancada de seu prprio sangue nas tmporas, as batidas do corao contra as costelas..  Tem a impresso de que vai desfalecer, agarra-se no respaldo dum banco, afrouxa a gravata, desabotoa o colarinho, pensa em tirar o casaco, mas a dignidade do seu cargo exige o aborto do gesto. Onde estar Valentina? Onde estarei eu? Onde estaremos todos?  Deus, isto ser um pesadelo? Serei Meursault? Vou meter cinco balas no corpo do rabe? Cinco baias no corpo do padre? Cinco balas... A espada do sol lhe trespassa o crnio. Cymbales du soleil...
     Vou fazer mais uma denncia  continua Ccero.  Acuso tambm o Maj. Vivaldino Brazo e o Cel. Tibrio Vacariano de lesarem o fisco. O dinheiro que lhes vinha de todas essas transaes ilcitas jamais era depositado em suas contas bancrias para evitar explicaes perigosas aos fiscais do imposto de renda. Eles o guardavam em suas prprias casas num cofre. Ocasionalmente me entregavam somas para que eu as mandasse depositar em bancos argentinos ou comprasse dlares para reforar suas contas correntes em bancos da Sua. Eu ontem devia entregar uma promissria fria ao Maj. Vivaldino, correspondente a uma certa soma que recebi para remeter para o estrangeiro. Como no fiz isso, esse dinheiro, que depositei na minha conta num banco local, ficar sendo agora parte de meu esplio. Como morri sem testamento e no tenho filhos legtimos nem naturais, minha mulher herdar tudo quanto possuo. Ateno, meninas Balmacedas! Obrigado por vossas cartas annimas em que me denunciastes as infidelidades de minha esposa. Esta manh, voltando inesperadamente do cemitrio, encontrei-a na cama com um rapazola. Alegra-me a idia de que o dinheiro de meus scios v para as mos puras de Efignia, servindo, entre outras coisas, para ela comprar presentes para seus gigols. E vs rapazes que estais pendurados nessas rvores, quero dar-vos um prmio pelo vosso apoio e solidariedade. O endereo de minha viva  Rua do Carmo, 124. A faixa etria que ela prefere  a que vai de 16 a 24...
      Deus, fulminai-me com um raio  suplica o Pe. Gerncio erguendo os olhos para o cu incandescente.
    Os urubus voam cada vez mais baixo. Os guardas de Pigaro no alto dum telhado agarram, desarmam e desalojam Egon Sturm, que tentou reagir a bala e em alemo. Os enfermeiros das duas ambulncias entram noutra disputa. Dessa vez trata-se do presidente da Associao Comercial, atacado duma crise de nervos.
    
    LII
     Senhores e senhoras!  exclama Ccero Branco.  Mentissimo juiz de Direito. Tenho aqui comigo dois documentos em que reafirmo no s as denncias que acabo de formular como menciono, tambm, com abundncia de por-menores, outros atos criminosos praticados, com a minha cumplicidade, pelo Cel. Vacariano e pelo prefeito Brazo, casos tpicos de enriquecimento ilegal.  Tira do bolso interno do casaco um envelope de ofcio.  Num destes papis menciono tambm o nome e p endereo do meu amigo em cujo poder se encontra a fita magntica  qual me referi h pouco. Os documentos so de meu prprio punho e tm firma reconhecida pelo tabelio Aristarco Belaguarda.
    Atira o envelope sobre a relva, perto do coreto, explicando:
     Perdoe-me pelo gesto indelicado, mentissimo, mas Vossa Excelncia compreende, no estado de putrefao em que lamentavelmente me encontro, no ouso aproximar-me de nenhum dos vivos presentes.
    Por alguns minutos centenas de olhos fixam-se no branco retngulo de papel sobre o verde do canteiro que circunda o coreto, mas ningum faz o menor movimento para apanh-lo. Finalmente o pescador subaqutico ergue-o do cho e entrega-o ao juiz de Direito, que primeiro recua, recusando o documento, mas que por fim o segura, dando a impresso de que tem um tijolo quente entre os dedos. Ti-brio Vacariano precipita-se para o magistrado, arrebata-lhe o envelope te, em gestos frenticos, rasga-o em muitos pedaos, atochando-os depois truculentamente nos bolsos das prprias calas.
     A lei  clara  diz com voz gutural.  Ningum pode depor depois de morto. Pode, Dr. Quintiliano? Pode, Dr. Mirabeau?
    Ambos os homens interpelados sacodem as cabeas numa vaga e meio aparvalhada negativa.
    Ccero Branco d de ombros.
     Fiz o que pude  diz.  Quanto ao gesto do Cel. Vacariano, ele vem apenas confirmar o que todos sabemos dele! Um velho atrabilirio, arbitrrio, desptico. Mas o que ele ainda no sabe  que j est morto, mais morto talvez do que os sete defuntos deste coreto!
    Gritos e aplausos partem das rvores.
     Delegado!  exclama Tibrio  onde esto os seus soldados que no dispersam a pau esses lacaios de Moscou?
    Uma voz em falsete sai dum pltano: Como vai a Cleo, coronel? Em seguida ouve-se um coro cadenciado: Cor-nu-do! Cor-nu-do! Cor-nu-do!.
    Espumando de raiva, Tibrio Vacariano olha dum lado para outro.
     O meu revlver!  grita.  O meu revlver! Quero matar esses maconheiros!
    Sempre com a sua aurola mvel e escura de moscas vorazes, Ccero Branco retoma a palavra:
     Todos sabem que o Cl. Tibrio  o presidente de honra dos Legionrios da Cruz, cujo lema  Deus, Ptria, Famlia e Propriedade. Ora, as relaes de nosso furibundo pr-homem com Deus so s de cumprimento, de longe, apenas um toque de dedo na aba do chapu. O velho Vacariano no reza, no vai  missa e nem se confessa, e durante toda a sua gloriosa existncia teve incontveis oportunidades de transgredir os dez mandamentos. Ptria? A flor dos Vacarianos ama tanto a sua, que tem passado a vida a lesar os cofres pblicos e a mamar nas tetas desta pobre repblica. Ah, mas com a famlia o caso  diferente! O Cel. Tibrio preza tanto essa instituio, que em vez de uma mulher tem duas: a legtima, que vive no palacete que vemos ali na esquina, e a ilegtima, instalada numa outra casa e numa outra rua. Agora, acima de Deus, acima da Ptria, acima da Famlia, o nosso Tibrio, imperador de Antares, adora a Propriedade, e  capaz de matar e at de arriscar-se a morrer para defender as suas propriedades, aumentndo-as  custa da propriedade alheia. Da o seu sagrado horror a qualquer mudana do presente status quo poltico, econmico e social que tanto lhe convm.
     Canalha!  grita Tibrio.  Pstula! Crpula!
    
    LIII
    E em seguida, olhando para Quitria Campolargo, cuja ateno durante a ltima hora ele tentou, mas em vo, atrair, o chefe do cl dos Vacarianos declama:
     Quita! Quita! Quita! No te lembras mais deste teu velho amigo? Ests sendo explorada por um patife sem escrpulos, um desclassificado social que sorrindo confessa em praa pblica que  enganado pela prpria esposa. O Ccero est usando a tua presena, o prestgio do teu nome para atacar a classe a que pertences. Mas tu s das nossas, eu sei! Fala, Quita! Conta ao povo de Antares que ele  um intrigante, um sacripanta, um mentiroso!
    O advogado dos mortos volta-se para D. Quitria e pergunta:
      senhora quer falar? Nesta nossa pequena tana-tocracia existe a mais absoluta liberdade de pensamento e palavra, coisa hoje em dia rara na chamada Amrica Latina.
    Quitria Campolargo ergue a cabea e fita os olhos imveis e sem brilho em Tibro Vacariano, dizendo:
     Tib, ests muito enganado. No tenho nada mais a ver com vocs. Entre vivos e mortos no h entendimento possvel. Hoje de manh, quando voltei  minha casa, tive a maior desiluso da minha vida. Encontrei as minhas quatro filhas e os meus quatro genros discutindo a partilha das minhas jias... das jias com as quais eu pedi que me sepultassem. Passaram a noite batendo boca. No creio que tivessem tido a menor palavra de afeto ou saudade para comigo. Eu queria levar as jias para a sepultura no por birra ou vaidade, mas para evitar que elas fossem o pomo da discrdia. Compreendi esta manh que com elas ou sem elas de qualquer modo os meus genros e filhas iam brigar: por um pedao de terra, por um imvel ou um mvel, por uma vaca, um porco ou um paliteiro de prata...  triste. Hoje em dia as pessoas prezam mais os objetos do que os outros seres humanos. No, Tb. Diz  Lanja que no se iluda, e que se habitue  idia de um dia passar para o nosso lado e ser completamente esquecida pelos filhos, filhas, netos, sobrinhos, genros... E tu tambm toma nota do que vou te dizer. Os moos no s esperam que os velhos morram, como at desejam que isso acontea o mais depressa possvel.  uma lei da vida. Assim, para as pessoas de idade como ns, morrer no  apenas uma fatalidade biolgica como tambm uma espcie de obrigao social.
    Os arborcolas rompem em gritos e aplausos: Apoiado! Muito bem! E depois, numa espcie de estribilho festivo: Qui-ta! Qui-ta! Qui-tat  a maior!  a maior! Qui-ta! Qui-ta!
    Tibrio ergue a cabea para as rvores e protesta-.
     Dona Quita, mal-educados!
     Ora  diz a matriarca dos Campolargos  deixa os meninos em paz.
    
    LIV
    Trs urubus esto agora pousados, imveis, na pla-banda do palacete dos Vacarianos. Parecem estatuetas de basalto ali postas com propsitos decorativos. Os caminhes da Pepsi-Cola e da Coca-Cola tocam ainda as suas melodias de realejo, anunciando cada qual o seu produto. Homens e mulheres vindos de vrios setores da cidade  e agora entre eles vem-se tambm molambentos habitantes da Babilnia  engrossam a multido que cerca o coreto, onde neste exato momento Barcelona se ergue, ao passo que Ccero se senta.
     No me apresento  diz o sapateiro  porque nesta cidade todo mundo me conhece, at os gatos e os cachorros. O que vou dizer  pouco, mas vale a pena ser ouvido. Sou anarco-sindicalista convicto e detesto o sistema capitalista explorador e desumano. No meu tempo de vivo ficava furioso toda vez que o cretino do delegado Inocncio Pigaro me confundia com os comunistas, esses piolhos de Karl Marx, essas lombrigas de Lnine.  Neste momento partem de dentro dum pltano vozes de protesto: Trotskista! Revisionista!, mas so abafadas por um coro de solidariedade e incitamento: Bar-ce-lo-na! Bar-ce-lo-na! Bar-ce-lo-naF  Da minha banca de sapateiro, atravs da minha porta, eu a bem dizer espiava a cidade. Muita gente durante o dia vinha conversar comigo, me contar novidades, de modo que assim eu estava a par de toda a vida de ntares, tanto da pblica como da secreta.
     Cala a boca!  grita o Cel. Tibrio. Barcelona, porm, continua:
     No sou nenhum moralista. No penso como os pilares da sociedade burguesa que localizam a moral entre as pernas das pessoas. Para mim existe outra moral mais alta, que  a social, a responsabilidade do homem para com o homem.  (Uma voz em falseie vem de uma das rvores: Demagogo!)  Acho que cada criatura humana pode fazer o que entender com o seu corpo e o seu sexo. No  da conta de ningum. Mas se h coisa que no agento so os fariseus, os falsos moralistas, os que tm uma moral sexual para uso externo, da boca para fora, e outra para seu prprio uso particular e secreto. Nossa cidade est cheia desses sepulcros caiados de que falam as Escrituras, santar-res que esto sempre prontos a condenar o prximo por faltas que eles prprios cometem s escondidas.
     Mandem esse remendo calar a boca!  diz Vivaldino Brazo com voz quase sumida.
     Tenha pacincia e escute, prefeito!  responde o Barcelona.  Daqui a pouco vou me calar para sempre. Povo de Antares! Membros do sindicato das cartas annimas! Pais e mes de famlia! Juventude!
    Quando o orador faz uma pausa ouve-se apenas o zumbido das moscas dentro do coreto e o bater das asas dos urubus. Sente-se uma vibrao nas rvores. O pescador subaqutico est agora estendido na relva: ningum sabe se ele dorme ou perdeu os sentidos.
     Quem  que no sabe  pergunta o sapateiro, com a dentua ao sol  que o nosso sisudo Comendador Bencio
    Armendariz s gosta de meninas de quatorze a dezessete anos e que  a alcoviteira Venusta, protegida do Cel. Vaca-riano, quem fornece periodicamente franguinhas para a panela do nosso respeitvel varo, que tanto horror tem a qualquer mudana de ordem social, poltica e econmica?
    Os arborcolas rompem a gritar e a assobiar, sacudindo os ramos das rvores. De sbito ouve-se um estalido de galho que se quebra e um dos rapazes se despenca como uma fruta do alto dum pltano e cai no cho, com um gemido e um baque surdo. Correm para ele os enfermeiros de ambas as ambulncias, mas os do Hospital Repouso chegam primeiro, pem a vtima  que est desacordada  em cima duma padiola e a levam por entre a multido, que abre alas para os deixar passar.
    Esquecida a comoo, Barcelona retoma o seu discurso:
     Quem ignora (com o perdo da nossa companheira D. Quitria), quem ignora que sua filha casada com o dono da Farmcia da Imaculada Conceio engana o marido com aquele caixeiro-viajante louro e bonito que de vez em quando aparece na cidade e, depois de vender uma boa fatura ao farmacutico, dorme com a mulher dele no Hotel Avenida que, por sinal,  um dos rendez-vous mais populares de An tares?
    D. Quitria sacode a cabea lentamente dum lado para outro. As irms Balmacedas fremem. Os veculos da Pepsi-Cola e da Coca-Cola continuam a tocar o seu realejo, chamando uma freguesia cada vez mais escassa. E o olho sem plpebra do sol castiga toda aquela gente ali na praa  mais de mil almas, calcula Lucas Faia contando no s as que se acumulam em torno do coreto, mas tambm as que se acham s janelas das casas e nas ruas e caladas em derredor. Um urubu desce e pousa no pice da coberta do coreto, mas  espantado a pedradas e gritos por alguns populares.
    
    LV
    O Pe. Gerncio liberta o pranto e fica a chorar de mansinho ( Deus de misericrdia, que esperais de mim numa hora destas?) e esconde o rosto nas mos trmulas. O jornalista anda dum lado para outro, por entre os prceres, estonteado. O juiz de Direito, num gesto de supremo desespero, tira o casaco e a gravata, desabotoa o colarinho e estatela-se em cima dum banco e ali se deixa estar, arquejan-te, envergonhado da sua nudez e da sua impotncia. O Dr. Lzaro continua a sua dana em torno de seu paciente, trmulo de apreenso, pois sente que sua vez est por chegar. Pensa na possibilidade de fugir, sair correndo na direo... de onde? De sua casa? Do hospital? Do rio? Acaba de verificar que a presso arterial de Tibrio Vacariano subiu a 24, com a mnima de 11. Um perigo... E se o velho tem um enfarto? Ou um derrame cerebral? Santo Deus, estou purgando os meus pecados, todos os meus pecados nesta hora do demnio!
    Mendes inclina-se sobre o prefeito e sugere uma retirada, com discrio,  claro. A posio das autoridades lhe parece insustentvel. De seu posto de observao, Inocncio Pigaro, apertando o prprio estmago dolorido contra o tronco da rvore (a lcera!), percebe agora claramente os furos produzidos por suas balas e pelas dos seus guardas na cabea, no pescoo, no peito e nas mos de Barcelona  que neste exato momento, em voz alta, ntida e pcara, recita verbetes inteiros, ricamente informativos, do seu Who is Who Na Vida Ertica de Antares, revelando adultrios e aberraes sexuais. As irms Balmacedas ora murmuram Esse eu sabia! ora Esse no!, e o assanhamento das trs mexeriqueiras comunica-se s suas sombrinhas coloridas, que danam minuetos no ar espesso e ftido. Escapadas fesceninas de pessoas tidas como puritanas na sociedade local so narradas com abundncia de pormenores pelo sapateiro. Barcelona revela o nome completo de cada uma delas, e os arborcolas sadam cada caso com vivas, vaias ou comentrios obscenos. Da multido conservadora que forma a retaguarda dos pilares da comunidade, de quando em quando sobe no ar um ah ou um oh de surpresa e escndalo, numa espcie de acorde dum enorme rgo. E de quando em quando a esposa de algum dos denunciados quebra na cabea dele a sua sombrinha fechada. Ou ento um marido, que acaba de ouvir que a esposa o engana, pe-se a esbofete-la, dizendo-lhe os piores nomes. No poucos homens e mulheres esgueiram-se, disfaradamente, por entre a multido, fugindo da praa. Desde que Barcelona comeou a dar voz s suas indiscries, umas duas ou trs damas puseram-se a chorar, uma delas tem um ataque de nervos e sobre ela se precipitam os enfermeiros do Salvator Mundi, pois os do Hospital Repouso neste momento esto s voltas com um novo caso de insolao. A polcia em breve tem de entrar em ao, porque um esposo ultrajado se atraca a socos com o homem (estava a seu lado, o hipcrita!) que o sapateiro prova ser h dez anos o amante oficial de sua mulher.
    Com uma habilidade que o Prof. Libindo no pode deixar de comparar mentalmente com a de Demstenes, segundo uma pgina de antigo livro de leitura escolar, Barcelona passa dos assuntos sexuais para outros aspectos do submundo de Antares: quem fuma maconha, quem tem o vcio da morfina, que farmacutico vende entorpecentes sem receita, aos seus aficionados. (H um momento que a populao inteira duma rvore manifesta o seu protesto contra essas denncias com gritos: Reacionrio! Puritano! Delator!)
    O sapateiro continua a dizer os nomes de cidados aparentemente respeitveis da comunidade, que se entregam a atividades pouco decentes ou cujo passado est longe de ser limpo.
    Quem  o maior banqueiro do jogo do bicho no municpio? Quantas daquelas famlias que tm palacetes ao redor da praa ou ao longo da Rua do Comrcio enriqueceram com o contrabando? Que figura, hoje respeitvel na comunidade, cometeu um crime de homicdio em Alagoas e refugiou-se em Antares, trocando de nome?
    Ccero Branco ergue-se, pe a mo no ombro do sapateiro e diz:
     Basta! Voc j falou demais. Tenho um assunto mais srio a tratar.
     Est bem  concorda Barcelona  mas permita que antes eu chame uma testemunha importante.  O advogado faz um gesto de assentimento e o anarco-sindicalista diz em voz alta:  Tem a palavra a nossa companheira Erotildes!
     Ningum est interessado no que essa decada vai dizer!  protesta o promotor pblico.
    Ccero rebate:
     Decada? Por que no diz logo puta?  Leva a mo em concha ao ouvido.  Creio que ouvi murmrios do respeitvel pblico, chocado pelo nome horrvel que acabo de pronunciar. Quatro letrinhas. P-u-t-a. O meu colega Dr. Mirabeau gaba-se de conhecer os quarenta sinnimos que o imortal Rui Barbosa descobriu para prostituta, mas parece no se impressionar com a prostituio propriamente dita. Claro! Vossa moral  puramente verbal. O delegado Pigaro estar sempre pronto a prender como subversivo todo aquele que escrever com realismo sobre as misrias da nossa Babilnia e outros antros de indigncia, mas essas favelas propriamente ditas no preocupam a burguesia. Aquilo sobre que ningum fala ou escreve no existe. Se um espelho reflete um ato e um fato que consideramos escandaloso, quebramos o espelho e voltamos as costas para o ato e o fato, dando a questo como resolvida. Neste pas quase todos os problemas polticos, econmicos e sociais so solucionados no papel. Meu caro Dr. Mirabeau, queira ou no queira Vossa Excelncia, vai falar agora a puta Erotildes.  Volta-se para trs e diz:  Venha at aqui, menina!
    
    LVI
    Do fundo do coreto a defunta prostituta caminha at junto de Barcelona. Vem ajeitando os cabelos, pisando com ar faceiro, alisando a grosseira e encardida mortalha com as palmas das mos.
     Os habitantes mais antigos desta cidade  diz Barcelona  devem lembrar-se do tempo em que Erotildes da Conceio era moa e bonita. Segundo a crnica policial do molusco Lucas Lesma hoje em dia ela  apenas a decada Erotildes de Tal.
     Devo lembrar  intervm Ccero Branco  que os de Tal, famlia composta de prias, de marginais, constituem uma das mais antigas estirpes do Brasil. Suas origens datam do tempo do descobrimento. Os de Tal so brasileiros de quinhentos anos. Mas... continue, Barcelona.
     Peo silncio  diz o sapateiro.  Prestem a maior ateno. Afinem o ouvido, porque Erotildes tem uma voz fraca. Conte a sua estria, minha filha, mas em poucas palavras. Vamos!
     Ora  diz ela  sou natural do Rinco Verde. Tinha quinze anos quando o meu padrasto se passou comigo. No houve nada, mas minha me, muito ciumenta, me botou pra fora de casa e ento eu vim pra cidade. Como no sabia ler e no queria ser copeira ou cozinheira nem pedir esmola, ca na vida. Fui pra cama com o primeiro homem que me prometeu dinheiro...
     E voc se lembra de quem foi esse homem?
     Naturalmentes.
     Ele est nesta praa? Voc o enxerga aqui do coreto?
    Erotildes aponta numa direo. Julgando-se indicado, o Prof. Libindo sobressalta-se e protesta, indignado:
     Jamais em toda a minha vida toquei no corpo dessa mulher!
     Pudera!  replica rpido Ccero Branco.  Voc  o mais notrio pederasta municipal!
    Desconcertado Libindo Olivares bate em retirada, quase a correr, sob ruidosa vaia dos arborcolas. Erotildes continua de brao estendido apontando.
     Foi aquele ali... o homem da estauta  diz. Centenas de olhos voltam-se para o busto de bronze
    que se encontra ao p de um dos lagos, sobre uma base de granito rseo polido.
     O Com. Leoverildo!  exclama algum.  Impossvel! Mentira!
     Esse mesmo. Me levou pra casa dele. Tudo aconteceu na cama do casal. A esposa do comendador estava na estncia com o resto da famlia. Por sinal foi numa sexta-* feira santa. O ano? Deixem ver. .. 1926?... 1927? Por a...
    Na placa de bronze, embutida na coluna que sustenta o busto l-se em caracteres salientes: Ao humanitrio Comendador Leoverildo Grave, dignssimo chefe de famlia, cidado benemrito, exemplo para os psteros  a cidade agradecida. A cabea de bronze, os olhos vazios postos em algum lugar fora do tempo, ali est impassvel e invulnervel a qualquer palavra.
    Da massa conservadora partem gritos colricos de protesto. Um homenzinho de meia-idade destaca-se dela, d alguns passos e, de braos erguidos, brada:
     Mentira! Calnia! Meu pai era um homem honrado! Senhor prefeito... eu... eu...
    De repente comea a gaguejar, a tremer e cai no cho e pe-se a estrebuchar e a babujar a terra, os olhos esga-zeados, a boca retorcida num esgar  o que no causa grande surpresa aos presentes, pois a populao de Antares est habituada aos freqentes e pblicos ataques epilticos do Leoverildo Grave F.. Desta vez os enfermeiros do Sal-vator Mundi levam a melhor, pois correm na frente dos homens de branco do Hospital Repouso e apoderam-se do doente. L se vai o filho do busto  exclama uma voz irnica no meio da multido.
    Barcelona volta-se para Erotildes:
     Me diga uma coisa, menina. V algum mais aqui que andou com voc... quero dizer, gente importante?
     H-h. Fui por cinco anos amsia do Cel. Vacariano. Ele at montou casa pra mim. Quando comecei a ficar velha, ele no me quis mais, me largou e nunca mais me deu um triste vintm.
    Tibrio Vacariano ergue-se do banco onde est quase deitado e, espumando na comissura dos lbios, o punho erguido, grita, dirigindo-se  multido em torno:
     No tenho de prestar contas a ningum da minha vida particular! No admito que botem cadeado com chave na minha... no meu... nessa coisa que hoje em dia chamam de sexo mas que no meu tempo tinha outro nome. Sou dono de todas as minhas partes!
    Rompem gargalhadas nas rvores, mas o resto da multido se mantm num silncio soturno e meio amedrontado.
     Bom  prossegue Erotildes de Tal  no tive outro remdio seno sair a pescar homens na rua. Ia com qualquer um. Cheguei a ser mulher de cinco mil-ris. Numa noite de agosto apanhei uma chuvarada, comecei a tossir, fiquei tsica com um febr danado e uma dor no peito que respondia nas costas. A Rosinha me contou depois que eu at variei. Vai ento me levaram pro hospital que no me lembro direito do nome.
     O Salvator Mundi  esclarece Ccero.  Ala dos indigentes.
     E ela poderia estar viva  acrescenta Barcelona  se o nosso caridoso Dr. Lzaro tivesse mandado buscar um certo antibitico que na poca no havia nas farmcias da cidade. Prometeu isso mas esqueceu. Afinal de contas quem  Erotildes de Tal? Que importncia pode ter a vida duma horizontal? Se se tratasse dum cliente importante e pagante, a coisa seria diferente...
    O Dr. Lzaro salta e, na frente do coreto, com o pra-sol amarelo numa das mos, comea a andar dum lado para outro, como um frentico passista de frevo, gritando:
     Eu explico! Pelo amor de Deus, me escutem! Sou um homem honrado! Sou um homem bom! Catlico praticante! Dr. Falkenburg, me ajude! Onde est o Dr. Falkenburg? Explique ao povo que h casos em que a estreptomi-cina no d mais resultado... Essa mulher entrou no hospital mais morta que viva! Dr. Falkenburg! Sou um homem bom. Me ajude, Cel. Vacariano, o senhor sabe! Fao caridade h quase trinta anos nesta cidade. Passo noites em claro  cabeceira dos indigentes! No fao diferena entre rico e pobre!
    Merirti-ra! Men-ti-ra! Men-ti-ra!  berram os rapazes nas rvores.
    O Dr. Falkenburg no se manifesta pela simples razo de que, h uns vinte minutos, fugiu furtivamente deste campo de batalha, depois que Barcelona revelou a sua ligao amorosa com uma jovem enfermeira de seu prprio hospital.
     Volte para o seu lugar  diz Ccero Branco a Ero-tildes, que obedece.
    Cambaleante, Alambique destaca-se dum grupo e exclama:
     Isto  ou no  uma democracia? Se , que fale tambm o meu companheiro Pudim de Cachaa!
    Ccero Branco chama o cachaceiro, que se aproxima dele.
     Se tem algo a dizer, Pudim, fale. Mas seja breve. De olhos baixos, o homenzinho comea:
     No vou acusar ningum. S quero pedir ao meretrcio juiz e ao reverendissimo promotor que no condenem a minha mulher. Se ela me envenenou (o que ainda no a-credito) foi porque sou mesmo um porcaria, no valo nada. Passava o dia sem trabalhar, de noite saa em bebedeiras e serenatas (no  mesmo, Alambique?) e quando voltava pra casa de madrugada ainda batia na pobre da Natalina. Povo de Antares, ajudem a absorver a minha mulher! Era s o que eu tinha a dizer.
    Alambique pe-se a bater palmas: Bravos! Muito bem! Depois, no meio do silncio geral, olha na direo das rvores e pergunta: Pro meu amigo... nada?
    Rompem ento as aclamaes: Pu-dim! Pu-dim! Pudim!
    
    LVII
    Ccero, com ambas as mos segurando a grade da ba-laustrada do coreto, dirige-se ao povo:
     Senhores, um momento! A testemunha mais importante ainda no deps.  Volta-se para trs e diz:  Cidado Joo Paz, chegou a sua vez!
    Inocncio Pigaro estremece e olha automaticamente para o filho. Desta vez os olhares de ambos se encontram. Inocncio  o primeiro a desviar o seu.
    Arrastando uma perna, Joozinho aproxima-se do advogado. O sol bate-lhe em plena cara. Exclamaes de horror, de repugnncia e  mais raras  de piedade partem da multido.
     Os prceres e o povo de Antares  diz Ccero Branco  podem ver agora em plena luz meridiana a operao plstica que o delegado Inocncio Pigaro e seus carrascos fizeram na cara e no corpo deste moo.
    Inocncio d trs passos  frente e grita: Mentira! Uma assuada tremenda, porm, sacode as rvores: Ban-di-do! Ban-di-do! Ban-di-do! O delegado estaca, olha em torno, atarantado, faz uma volta completa ao redor de si mesmo e finalmente fica parado, mas num equilbrio instvel, olhando na direo do coreto. O advogado dos mortos continua:
     Me digam se algum reconhece nesta face quase reduzida a um mingau de carne batida a fisionomia do nosso Joozinho Paz! Dr. Falkenburg! Dr. Lzaro! Mdicos de Antares! Ser assim que ficam sempre os que morrem de embolia pulmonar?
    Um pesado silncio segue-se a estas palavras.
     Num certo dia deste mesmo dezembro Joo Paz foi preso sob a falsa acusao de estar treinando secretamente na nossa cidade um bando de dez guerrilheiros esquerdistas do qual ele era supostamente o chefe. Sua priso foi efetuada da maneira mais irregular. Joo Paz foi levado para o famoso poro da nossa delegacia onde se processam os interrogatrios mais brutais. Inocncio Pigaro fez perguntas ao prisioneiro, ordenou-lhe que dissesse o nome dos outros dez membros do grupo. Joozinho negou-se a isso porque nada sabia, pois tal grupo no existe em Antares! Inocncio Pigaro entregou o subversivo aos cuidados de seu especialista em interrogatrios, o famigerado Boquinha de Ouro... que deve estar em algum lugar desta praa e que espero esteja me ouvindo.
     Tudo isso  verdade?  pergunta Tibrio Vacaria-no, olhando duro para o prefeito.
     Eu no sei de nada... de nada...  balbucia Vivaldino.
    Barcelona ergue-se, sbito, e grita,:
     Mentira! Todo mundo sabe que voc sempre deu carta branca ao seu delegado, que por sua vez dava carta branca ao seu carrasco...
     Que por sua vez  termina Ccero  dava carta branca aos seus instintos sdicos. Acho que todos podero ver estas manchas arredondadas na cara e nas mos de Joo Paz... Pois foram produzidas por pontas de cigarros acesos, na primeira fase do interrogatrio... coisa leve, digamos... uma espcie de bate-bola inicial...
    Inocncio Pigaro permanece de cabea baixa, temendo encontrar o olhar do filho.
     Joozinho agentou tudo firme  torna a falar o advogado  e no pronunciou um nome sequer. O Boquinha de Ouro perguntava: Quem so os outros dez? Vamos! E o prisioneiro respondia: No sei. Os carrascos passaram ento  segunda fase do interrogatrio. Dois bru-tamontes puseram-se a bater em Joozinho, aplicando-lhe socos e pontaps no rosto, na boca do estmago e nos testculos... Peo perdo, senhoras e senhores puritanos, por ter usado a palavra testculo, mas posso assegurar-vos que os socos e pontaps doeram mais nessa parte da anatomia de Joo Paz do que a palavra testculo pode doer nos delicados ouvidos da vossa moral verbal.
    Joozinho, imvel, parece olhar para parte nenhuma.
     Esto vendo esse olho quase fora da rbita?  pergunta Ccero Branco.  Parece um ovo de codorna... sim, e esse sangue coagulado que tem por cima lembra catchupe seco... Se me perdoam pelo mau gosto da metfora, as plpebras e a pele ao redor dos olhos de Joozinho lembram uma folha de repolho roxo. Guardem essa imagem para se lembrarem dela sempre  hora das refeies. Um ovo de codorna em cima duma folha de repolho roxo.  um excelente processo mnemnico e plstico (sinistra natureza morta) para no esquecer as crueldades de nossa polcia.
    
    LVIII
    Tibrio Vacariano ergue a mo:
     Basta de infmias!
    Os arborcolas, que escutam o advogado em silncio, de repente pem-se a gritar: Velho podre! Velho caduco! Bandido!
     No terminei ainda  exclama o Dr. Ccero.  Esse olho foi quase arrancado por um golpe de soqueira... de quem, Joozinho?
     Do prprio Boquinha de Ouro.
     Agora, senhoras e senhores  continua o advogado  usem a imaginao. O prisioneiro depois de toda essa violncia recusa ainda falar. J desmaiou de dor duas vezes e foi revivido com gua gelada. Tia fase seguinte aplicam-lhe pauladas no corpo todo e o resultado  um brao quebrado em trs lugares. Vejam...
    Ccero Branco agarra o pulso do rapaz e num repelo faz que ele gire num movimento completo de hlice.
     Mas o interrogatrio continua... Vem ento a fase requintada. Enfiam-lhe um fio de cobre na uretra e outro no nus e aplicam-lhe choques eltricos. O prisioneiro desmaia de dor. Metem-lhe a cabea num balde dgua gelada e, uma hora depois, quando ele est de novo em condies de entender o que lhe dizem e de falar, os choques eltricos so repetidos...
    Os urubus agora voam ainda mais baixo, em crculo, sobre o coreto, como se quisessem tambm escutar a narrativa do advogado dos defuntos.
     Bom, senhores, devemos reconhecer que ningum  infalvel. O especialista nestas torturas eltricas cometeu um erro, aplicou no prisioneiro uma descarga forte demais e o corao do moo parou. O mdico  chamado s pressas. Daremos um prmio, digamos... o olho bom de Joo Paz, a quem descobrir quem foi esse providencial esculpio. J descobriram, no? Isso mesmo! O nosso bondoso, o nosso caritativo, o nosso altruistico Dr. Lzaro Bertiogal  E, dizendo isto, Ccero aponta para o mdico de Tibrio Vaca-riano.
    O Dr. Lzaro deixa cair no cho a sombrinha e a bolsa, senta-se num banco, inclina o busto para a frente e esconde o rosto com ambas as mos.
     Seja macho!  grita-lhe o Cel. Vacariano.  Defenda-se. Prove que tudo isso  uma calnia!
    O mdico nada mais faz que sacudir a cabea dum lado para outro, em silncio. Ccero Branco prossegue:
     Nosso bom doutor tenta tudo. Respirao artificial. Injeo de adrenalina e massagens no corao da vtima. Intil! Joo Paz est morto. Inocncio Pigaro fica assustado. A soluo para evitar um escndalo  enterrar secretamente o cadver no ptio da delegacia (No seria o primeiro!) e depois espalhar a mentira de que Joo Paz fugiu para a Argentina... O Maj. Vivaldino, posto ao corrente da situao, tambm entra em pnico. Sou chamado para uma consulta. Proponho outra sada. Por que no transportar urgentemente o corpo para o Hospital Sah) ator Mundi, s escondidas, e l simular uma morte natural... ? Nesse momento quem se apavora  o nosso inefvel Dr. Lzaro, que fala em honra profissional e perigo de desmoralizao para o hospital, etc. Mas com uma frase o nosso prefeito o reduz  submisso completa: Ou voc faz isso ou eu me encarrego de divulgar todos os seus podres amanh mesmo. A encenao  feita. Vem at  delegacia uma ambulncia do Salvator Mundi, o prisioneiro  devidamente vestido como estava quando entrou na priso. Aos que o transportam na padiola e ao pessoal da portaria do hospital o Dr. Lzaro explica que o corpo daquele indigente foi encontrado por guardas cado numa sarjeta. Menos de duas horas depois o cadver est dentro dum caixo fechado e o nosso Hipocrates assina um atestado de bito dando como causa mortis uma embolia pulmonar.
    Agora, sempre sentado no banco, o rosto coberto, o Dr. Lzaro solua convulsivamente. Inocncio Pigaro olha para o filho, que por sua vez o encara. E o delegado l vergonha e rancor na face do rapaz. Mauro encaminha-se para uma das caladas, cabisbaixo. Pedro-Paulo segue-o.
    De todas as rvores irrompe agora a mais terrvel das assuadas  uma gritaria de dio, em que no se nota o menor elemento de gaiatice: Bandidos! Bandidos! Gestapo! G.P.U.! Assassinos! Assassinost
    Tibrio Vacariano, a cara cianosada, senta-se pesadamente, levando a mo ao peito. O Dr. Lzaro, alertado por Vivaldino Brazo, olha para o seu cliente e, alarmado, chama s pressas os seus enfermeiros, que colocam o velho coronel numa padiola e o carregam. E apesar de seu mal-estar e da dor no peito ele ainda tem foras para exclamar: No me levem pro hospital! Quero ir pra casa! Pra minha casa!
    Ccero levanta um brao, pedindo silncio e, quando os rapazes se calam, ele declara simplesmente:
     Povo de Antares! No temos mais nada a dizer.
    Senta-se no banco fronteiro do coreto. Joo Paz volta tambm para o seu lugar. Os sete mortos esto agora imveis, em silncio.
    A comitiva oficial, com o prefeito  frente, sempre debaixo do negro palio conduzido pelo seu fiel secretrio, bate numa retirada quase desordenada, como um exrcito derrotado. Mais tarde, ao escrever o seu grande artigo sobre o incidente Lucas Faia pensou usar um simile  a retirada da grande arme de Napoleo na campanha da Rssia. Mas no ousou. Descreveu a descida dos mortos ao longo da Rua Voluntrios da Ptria, os efeitos morais daquele fato inslito no nimo da populao, fez vagas referncias a insultos gratuitos proferidos naquele confronto no centro da praa pelo Dr. Ccero Branco e pelo sapateiro Jos Ruiz. E o resto foi literatura. Terminada a longa narrativa, passou-lhe at pela cabea a idia de publicar esse trabalho num pequeno volume. Mas no publicou, por motivos que oportunamente sero revelados.
    O povo comea a dispersar-se e a desaparecer. Os rapazes descem das rvores e tambm se vo. Em menos de dez minutos a praa est de novo deserta de humanidade vivente. Os prdios em derredor, agora de portas e janelas de novo cerradas, assumem outra vez uma expresso fisionmica tensa. Os urubus voam cada vez mais baixo sobre o coreto, e num crculo de dimetro mais e mais reduzido. Uma das aves pousa no cho e faz uma volta completa ao redor da sombrinha amarela que ficou cada num canteiro de relva, como um cogumelo gigante quebrado.
    No plido cu o sol vai se inclinando aos poucos para as bandas da Argentina. Antares parece submersa num la-goo de ar estagnado e ftido. E os sete mortos apodrecem em silncio no coreto.
    
    LIX
    Trs horas da tarde. Na central telefnica, situada a quatro quarteires da Praa da Repblica, a nica telefonista que permanece em seu posto  Shirley Terezinha  trinta e cinco anos, solteirona, catlica praticante, f de Frank Sinatra, de novelas de rdio, e leitora de Grande Hotel. Depois que deu uma espiada nos mortos do coreto, teve de tomar remdio para o estmago e um tranqilizante. Quis ir para casa e para a cama, mas o gerente da telefnica a convocou inapelavelmente para o turno da tarde, pois as duas outras operadoras tinham dado parte de doente.
    Durante as primeiras horas da tarde as linhas mantiveram-se um tanto inativas, como se a populao da cidade, em estado de choque, tivesse perdido a voz. Comearam depois os chamados aflitos de pessoas que pediam mdicos para atender a membros de suas famlias: crises de nervos ou cardacas, distrbios do aparelho digestivo... E eram tantos os chamados, que a telefonista, irritada, respondeu com aspereza a uma senhora que reclamava a lentido com que estava sendo atendida: Tambm no sou polvo. S tenho dois braos.
    s quatro horas e quinze minutos Shirley Terezinha surpreendeu um dilogo quase completo entre dois homens.
     Ento escutaste tudo...
     Quase tudo. Estava meio longe do coreto por causa da fedentina.
     Quanta surpresa, hem?
     No pra mim. Eu sabia de quase todas aquelas safadezas que o Barcelona denunciou.
     E mesmo? At a estria da puta e da esttua?
     Ora, meu pai me contava coisas do arco-da-velha do Com. Leoverildo. A seriedade do homem era pura fachada.
     P! Mas que escndalo, hem? Roupa suja lavada em plena praa pblica. E tu sabes que o Natividade h pouco deu uma sova-me na mulher, dessas de quebrar os ossos, quando soube das cochambrerias dela com o estudante do Karmann Ghia gren?
     Deu tarde. Faz sculos que ela engana o marido. No s com o Karmann Ghia gren, mas com o Ford azul, o Bel Air verde e branco. Topa todas as marcas.  capaz de ir at com um Ford de bigode, sim, se o carro funcionar...
    ----Escuta,  verdade mesmo que D. Soledade quando
    chegou em casa atirou gua fervendo na cara do marido, depois que soube das sacanagens dele com a mulher do ourives?
     Ouvi dizer. Sei j duns cinco ou seis casais que se separaram e dum conhecido Don Juan que fugiu da cidade. Aaah! E o Prof. Libindo, hem? Chamado de pediatra em plena Praa da Repblica, na frente de centenas de pessoas!
     Pederasta. Pediatra  mdico de criana.
     Com que cara agora ele vai aparecer em pblico?
     Com a mesma. O falecido Ccero falou nas mscaras, te lembras? Pois o Libindo tem mais de cem. Uma para cada ocasio, tudo dependendo do lugar, e da pessoa com quem est falando.  um desfrutvej!
     Mas depois de todas as barbaridades ditas hoje na praa, a vida de Antares no pode continuar a mesma.
     Qual, compadre, no se iluda! O tempo tem muita fora. Deixe passar uns dias, umas semanas e tudo fica como dantes no quartel de Abrantes.
     Mas a denncia contra o prefeito e o coronel... ? Shirley Terezinha ,no pde escutar o resto da conversa
    porque foi interrompida pela luzinha que brotou no painel da mesa. Uma voz aflita de mulher pedia ligao com a casa do Dr. Lzaro e exclamava que o marido estava morrendo de falta de ar.
    
    LX
    Cerca das quatro e meia a telefonista escutou outro trecho de dilogo:
     Aqui  o Geminiano.
     Que tal? Tudo bem?
     Tudo mal. Notei que o povo est culpando o nosso sindicato por tudo que aconteceu. Falei indagorinha com o Pe. Pedro-Paulo e ele me disse que devamos levantar o quanto antes o cerco do cemitrio. A cidade no pode ficar com aqueles defuntos apodrecendo no meio da praa.
     U! A culpa no  nossa. No controlamos os mortos. Nem os vivos!
     Imagina se esses cadveres provocam uma peste e comea a morrer gente... Tu sabes que peste no olha a quem ataca. Burgus e proletrio, rico e pobre, todos marcham. Por isso eu resolvi convocar uma nova assemblia geral. Hoje s nove da noite. Ficas prevenido e te peo que avises os companheiros que puderes.
     Est bem, mas que te pareceram as denncias do Barcelona?
     Politicamente boas, mas no fundo nojentas. No me agradou o cinismo do anarquista.
     Pois te confesso que me diverti vendo essa burguesia desmascarada em pblico. Onde estavas na hora do bate-boca?
     Escondido atrs dum tronco de paineira, com a cara tapada por um leno, como um bandido de cinema. Se me reconhecem (pensei) me lincham. Quase todos acham que foi minha a idia de barrar a entrada do cemitrio.
     E que me dizes do ordinrio do Ccero, virando moralista depois de morto?
     Pois . Podem me chamar de burgus, mas no gostei dos nomes feios que ele disse na frente das famlias. No carecia. Bom, at  hora da sessol
    Pouco depois Shirley Terezinha escuta um chuveiro de insultos que um homem furioso atira atravs do fio nos ouvidos de outro, que se limita a rir.
     Seu canalha, cachorro, calhorda, porco, indecente! Vou agora partir a cara da minha mulher. Se tu s homem mesmo, vem correndo socorrer a tua amsia. Mas vem armado que eu vou te esperar de revlver em punho e te meter uma bala no meio da testa, ests ouvindo, crpula?
    Do outro extremo da linha vem primeiro uma risada e depois estas palavras:
     Olha, corno, proponho um duelo a arma branca. Eu vou de adaga e tu usas os chifres, t?
    Lgrimas de emoo escorrem dos olhos de Shirley Terezinha, que mastiga desconsolada um pedacinho de chocolate para enganar o estmago, pois no teve disposio para almoar.
    s quatro e quarenta vem uma chamada de Porto Alegre. O secretrio da redao do Correio do Povo quer falar com o prefeito. Shirley Terezinha faz a ligao.
     O major est em casa, indisposto, e no pode atender. Aqui fala o Mendes, secretrio dele. s suas ordens, cavalheiro.
    O jornalista comunica ao secretrio da prefeitura que seu dirio mandou de automvel a Antares, para fazer a cobertura dos acontecimentos, um reprter e um fotgrafo. Acrescenta:
     Acho que vo chegar a amanh, logo depois do meio-dia.
     Muito bem, cavalheiro. Transmita os agradecimentos do major ao diretor do seu jornal. E o senhor aceite os meus. Os jornalistas sero hspedes da prefeitura.
    Os chamados patticos para a casa dos mdicos repetem-se. O telefone do Dr. Falkenburg continua a tilintar, mas ningum n casa responde.
    Pouco antes das cinco horas, j exausta, zonza, os braos doloridos, Shirley Terezinha escuta uma conversa que lhe gela o sangue.
     Noquinha? Aqui  a Zilda.
     Que  que h, menina?
     J ouviste a notcia? Os ratos invadiram a Cidade.
     Ratos?
     . Milhares, milhes...
     Minha Nossa!
    Ratos? Shirley Terezinha encolhe as pemas automaticamente e comea a tremer da cabea aos ps. Luzes brotam no painel mas ela no lhes d nenhuma ateno. Desfaz-se do fone de ouvido, apanha a sua bolsa e encaminha-se para a porta. O gerente, que de seu escritrio lhe observa os movimentos atravs duma fresta da porta, brada: Aonde vai, menina?
    Ela volta para o chefe um rosto desfigurado pelo medo e exclama:
     Os ratos!
    E precipita-se para a rua.
    
    LXI
    Esse captulo da vida de Antares estava destinado a tornar-se, entre outras coisas, uma fonte de controvrsias. A que horas havia comeado a chamada revolta dos ratos? Nesse particular as opinies divergiam. Qual tinha sido o detonador da bomba? A maioria opinava que o cheiro dos mortos havia assanhado os roedores. Mas. .. tratava-se duma revolta interna  perguntava-se, alguns em esprito de troa, outros a srio  ou duma invaso? Ambas as coisas  respondia o comandante da guarda municipal. A coisa parecia ter comeado por volta das trs e meia ou quatro da tarde quando os ratos da Babilnia e de outras favelas menores da periferia de Antares tinham comeado a convergir para o centro da cidade. Ao mesmo tempo, como se misteriosamente tivessem recebido ordens irradiadas dum estado-maior, os ratos residentes, como uma quinta-coluna, haviam entrado em- ao. Os prdios de Antares, principalmente os mais antigos, eram como cavalos de Tria cujas entranhas estavam gordas desses repelentes e solertes animais  como lhes chamaria Lucas Faia na pea literria com que procurou descrever aquelas horas dramticas vividas pela sua comunidade. Um professor pblico que vivia obcecado pelo perigo amarelo escreveu, mas nunca publicou, uma crnica sobre o episdio dos ratos, na qual comparou esses daninhos animais com guerrilheiros da Indochina que pareciam ter lido com proveito os manuais chineses e cubanos sobre a tcnica da guerrilha urbana. E no haveria, acaso  perguntava o cronista  uma certa semelhana entre os ratos e os asiticos na propenso que ambas essas raas tinham para se multiplicar e na sua incrvel capacidade de sobreviver nas mais adversas circunstncias sociais, ecolgicas e biolgicas?
    Ratos de vrios tamanhos, o plo dum negro fosco, desceram dos forros e stos das casas ou subiram de seus pores, emergiram dos buracos dos rodaps e das frestas dos soalhos, saltaram do fundo de velhas arcas, bas, caixas  e saram a espalhar o terror por toda a parte, principalmente entre as mulheres e as crianas.
    Ratazanas cinzentas saam dos bueiros e esgotos, ficavam por um breve instante como que ofuscadas pela luz do sol e depois se lanavam a correr miudinho pelas sarjetas, rentes ao meio-fio das caladas, rumo da praa, enquanto outras, vindas dos subrbios, faziam o mesmo trajeto. Pareciam todos famintos. Alguns revelavam uma audcia e uma agressividade at ento desconhecida dos antarenses que, assustados, os viam entrar nos guarda-comidas, fossar nas latas de lixo, subir nas camas, enfrentando, sem temor e s vezes sem recuar, gritos humanos, vassouradas e at o assalto dos ces e gatos mobilizados para combat-los.
    
    LXII
    Dentro em pouco, boa parte da populao de Antares se encontra a um passo da fronteira do pnico. Contam-se estrias que se espalham rapidamente por toda a cidade atravs duma fantstica rede verbal, e que vo sendo desfiguradas de pessoa para pessoa, e sempre num sentido alarmista.
    Afirma-se que os ratos, j dentro do coreto, comem os ps dos mortos. Um morador de uma das casas da Praa da Repblica jura pela luz que o alumia que viu por uma fresta de sua janela uma ratazana roendo o rosto de D. Qukria Campolargo. Os urubus entram numa luta encarniada com os ratos, atacando-os a bicadas, e diante dessa sangrenta disputa os sete mortos parecem manter-se impassveis, na mais rigorosa neutralidade.
    Numa das casas da Rua do Rio uma criana de colo que dormia, foi mordida na orelha por um rato que subiu no seu bero. No palacete dos Vacarianos  onde o velho Ti-brio jazia na cama, em decbito dorsal, no torpor da se-dao  D. Lanja preparava na cozinha um mingau para o marido quando de repente sentiu que estava sendo observada por algum ou alguma coisa. A boa senhora ergueu a cabea e deu com um rato cor de fumaa, imvel em cima do refrigerador, fitando nela os seus olhinhos semelhantes a um par de botes de plstico, reluzentes, de malcia e maldade. A esposa do coronel soltou um Ai Jesus!, e deixou cair o prato, que se partiu, espalhando mingau sobre os mosaicos.
    Em suas casas homens exasperados caavam ratazanas a pauladas e at a tiros de revlver. Tranqilino Almeida correu em sua sala de visitas atrs dum rato pardacen-to, que o iludia andando ao redor dos mveis ou por baixo deles, e que parecia at divertir-se naquele jogo. Por fim, quando o animal subiu para o mrmore duma mesa, o chefe dos guardas aduaneiros fez fogo, mas errou a pontaria, acertando em cheio num fino espelho de Veneza, que se trincou: prejuzo material e mau pressgio. Contava-se tambm que havia j, por volta das seis da tarde, vrias pessoas mordidas pelos diablicos roedores.
    Numa casa da Rua da Igreja uma menina de seis anos queixou-se duma ardncia debaixo dum dos braos. A me examinou-a e descobriu numa das axilas da criaturinha o que lhe pareceu uma ngua. Mal pde abafar um grito de horror. Um bubo! Um mdico, chamado s pressas, verificou que o suposto bubo no passava duma afeco superficial de pele. Tratou de tranqilizar a me aflita e os vizinhos, que j sabiam de tudo. Tarde demais! A notcia de que havia um surto de bubnica em Antares j se espalhara pela cidade. A peste! Mes desnudavam os filhos e examinavam-lhes os corpos com um cuidado frentico, em busca de nguas, bubes ou outros sinais suspeitos. Como se sabia que os ratos eram apenas portadores das pulgas que, em suas mordidas, transmitiam s suas vtimas os bacilos da bubnica, outra guerra paralela  dos ratos comeou com igual intensidade. Casas foram vaporizadas com inseticidas, fu-migadas, e os minsculos insetos caados individualmente. E qualquer mancha preta pequena provocava um susto seguido duma fria assassina.
    E o boato da peste  como haveria de escrever mais tarde Lucas Faia  andava solto pela cidade como uma hiena faminta, correndo e rindo, assombrando ruas, becos, praas, casas, almas. A peste! A peste! E ningum conseguia conter o chacal.
    
    LXIII
    Vivaldino Brazo s cinco e pouco da tarde deixara a cama, onde repousava das emoes e das canseiras do terrvel confronto na praa, ao sol do meio-dia, e viera para o seu gabinete na prefeitura para comandar a defesa da cidade. Confabulara com o delegado de polcia, que por sua vez mobilizara os seus guardas, os quais saram para a rua armados de revlveres e cassetetes com a ordem de matar todos os ratos que encontrassem.
    Meninos entre sete e quatorze anos se haviam congregado espontaneamente em grupos armados de porretes, bo-doques ou pedras e sado a caar ratos pelas ruas e quintais. O prefeito oferecia prmios em dinheiro e livros com estrias em quadrinhos para os que matassem de cinco ratos para cima. (Era indispensvel trazer as vtimas, como comprovantes.)
    Um cios pr-homens de Antares entrou alarmado no gabinete do prefeito e disse:
     Precisamos tomar alguma providncia urgente, major. As ratazanas esto devorando os defuntos no coreto.
     Talvez seja uma soluo  rosnou, cnico, Inocn-cio Pigaro.
    Vivaldino teve uma idia: ordenou ao delegado que mandasse uns oito ou dez de seus homens protegidos por mscaras contra gases aproximarem-se do coreto para atirar contra ele bombas lacrimogneas, a fim de afugentar tanto os ratos como os urubus. A idia foi logo aceita. Dez homens com as cabeas metidas em mscaras, semelhando elementos dum bestirio surrealista, puseram em prtica o plano do prefeito. As bombas explodiam, produzindo uma densa fumaa que se erguia no ar. Os ratos guinchavam, sufocados, alguns fugiam s tontas, outros caam mortos, enquanto os urubus batiam asas, demandando as alturas.
    A todas essas os defuntos continuavam sentados dentro do coreto, silenciosos e estticos. Os guardas retiraram-se do campo de batalha, depois de contar o nmero de inimigos mortos. E por longo tempo ningum pde caminhar na Praa da Repblica e arredores sem lacrimejar, tossir, sentir sufocaes e tonturas e finalmente ser obrigado a fugir a passo acelerado ou mesmo a correr... 
    O sol completava a sua trajetria diria. Era agora um disco avermelhado  olho manchado de sangue no horizonte argentino, a contemplar com sua morna indiferena a pobre cidade de Antares que ficara na outra margem do grande rio, esperando a noite com todos os seus pavores e avantesmas  como haveria de escrever mais tarde o diretor de A Verdade.
    E havia ainda cores de aquarela no cu quando outro rumor to terrvel quanto os anteriores estendeu seus tentculos sobre a cidade. Ratos tinham cado e morrido afogados nos tanques da Hidrulica Municipal! A gua potvel da cidade estava portanto contaminada. Uma frase correu em Antares de boca em boca, de casa em casa, de rua em rua: Tem rato podre na Hidrulica. No bebam mais gua das torneiras.
    O mdico do departamento local de higiene telefonou da Hidrulica para o prefeito garantindo-lhe que nenhum rato fora encontrado nos tanques e que a gua havia sido recentemente examinada e declarada quimicamente pura. O Maj. Vivaldino usou de todos os meios ao seu alcance para desfazer o boato, mas foi tudo em vo. O chacal de Lucas Faia continuava a correr e a gargalhar pelas ruas, casas e almas, engordando e crescendo com o passar do tempo, como se se alimentasse de segundos, minutos e horas...
    
    LXIV
    Egon Sturm, o ex-campeo de tiro ao alvo (cinco taas de prata, quinze medalhas de bronze, trs de ouro e duas entradas no Sanatrio S. Jos, de Porto Alegre) foi protagonista de um dos episdios mais dramticos do dia dos ratos.
    Desde que viu os primeiros inimigos, o cerealista ses-sento comeou a ca-los, em tiros certeiros, com uma espingarda de salo. Depois, armado de revlver, os bolsos grvidos de balas, saiu a matar os ratos, ratazanas e camun-dongos de seu quintal e mais tarde os que encontrava nas casas e nos quintais dos vizinhos. Dois de seus filhos o seguiam, por ordem expressa sua, com um carrinho de mo, no qual iam depositando os ratos abatidos pelo atirador. Pouco antes de a noite cair por completo, os dois rapazes  ainda obedecendo a ordens paternas  despejaram a repugnante carga no centro do quintal da confortvel casa dos Sturm. Egon meteu-se no quarto de dormir, onde permaneceu uma boa meia hora e depois de l saiu  para susto da mulher e dos filhos  envergando o uniforme dos camisas pardas de Hitler que ele escondia no fundo duma secreta arca: culotes caqui com perneiras pretas, camisa do mesmo tecido, talabarte de couro em diagonal sobre o peito e as costas, e, no brao, uma banda vermelha com um circulo branco, no centro do qual se via, em preto, uma cruz sustica. (Nos bons tempos  entre 1937 e 1940  Egon tinha organizado e chefiado em Antares um grupo de camisas pardas nazistas, que agia de acordo com os camisas verdes indgenas.)
    Egon Sturm desceu as escadas em passo marcial, um duro desvario nos olhos cinzentos, e dirigiu-se para o quintal. Parou diante da pirmide de ratos mortos e ordenou aos filhos que a ensopassem de gasolina. Os rapazes obedeceram. Egon Sturm, com um garbo militar, deu trs passos de ganso  frente, riscou um fsforo e prendeu fogo no monturo. As labaredas iluminaram o ptio. (Vizinhos perplexos espiavam a cena de suas janelas ou por cima de cercas e muros.) O velho Sturm ergueu o brao na saudao fascista e bradou: Heil Hitlerl E, imitando a voz do Fhrer, rompeu num discurso furioso em alemo. Em certo trecho da orao apontou para a fogueira e disse: Hoje queimamos ratos! Amanh queimaremos livros e jornais de judeus e comunistas! Depois damanha queimaremos os autores dos livros, e assim por diante, at ao Natal! Sieg heill
    Emanava-se da fogueira um cheiro nauseante. Os vizinhos curiosos desapareceram. Frau Sturm chorava, tapando o nariz com o avental. Os rapazes entreolhavam-se sem saberem que fazer.
    O velho, numa brusca meia volta militar, entrou em casa, apanhou a sua melhor carabina e saiu para a rua gritando: Morte aos judeus! Aos que encontrava na calada explicava que eram os judeus  com sua cabala, as suas artes mgicas e seu amor ao dinheiro e ao poder  os responsveis pela volta dos sete mortos, pela invaso dos ratos e por todos os males que afligiam Antares e o mundo. E quando comeou a aliciar e incitar conterrneos para irem com ele at  Rua do Pessegueiro, espcie de gueto local, a fim de levar a cabo um pogrom  seus filhos no tiveram outro remdio seno chamar a polcia.
    E por cima da camisa parda de Egon Sturm trs guardas municipais vestiram-lhe uma camisa-de-fora.
    A essa hora j a noite havia cado por completo. Como a lua ainda no tivesse aparecido, as ruas estavam s escuras. Em quase todos os oratrios da cidade havia velas acesas.
    
    LXV
    A Matriz est ainda cheia de fiis que rezam, no de joelhos, mas sentados, com os ps erguidos, por causa dos ratos que passam por baixo dos bancos e, como emissrios de Satans, escalam irreverentes o altar-mor, entram nos nichos dos santos, roem a cera das velas votivas.
    O Pe. Pedro-Paulo, que ouviu as confisses de dezenas de homens e mulheres desde as cinco da tarde, encaminha-se agora para a sacristia, onde o proco o espera.
     Muito obrigado, meu filho  diz o velho, pousando a mo no ombro de seu jovem colega.  Deves estar fati-gado.
     Nem tanto... 
     Pois eu estou mais morto que vivo. Uma canseira de alma, mais que de corpo. Depois de ouvir todas essas confisses, essas misrias da carne humana, a genf.e compreende por que Deus destruiu Sodoma e Gomorra.
    Pedro-Paulo sorri interiormente da ingnua mitologia do vigrio.
     Mas por que, padre, o senhor ficou todo aquele tempo na praa, hoje ao meio-dia, debaixo da soalheira?
     No sei. Tinha a impresso de que cordas invisveis me amarravam ao tronco daquela rvore... Queria me movimentar mas as pernas no obedeciam  minha vontade. Fiquei to escandalizado com o que ouvi aqueles mortos dizerem, que cheguei a pedir a Deus que me matasse ali mesmo, como um ato de misericrdia... E tu, onde estavas?
     Sentado nas bordas de um dos tanques, com o Mauro Pigaro.
     Ah! As coisas cruis que disseram do pai dele! Deve ter sido muito duro para o rapaz.
     Ora, o Mauro j sabia de tudo...
     No me diga!
     Padre, nenhum de ns ignora os crimes do delegado de polcia e de seus especialistas em torturas. Fechamos sempre os olhos e a boca por comodismo, indiferena ou covardia.
    Por alguns segundos o padre permanece em silncio, de dedos tranados sobre o peito, a cabea baixa.
     Como  difcil viver...  balbucia.
     O Mauro embarcou de volta para Porto Alegre hoje no nibus das quatro. No se despediu do pai. E, que esta manh tiveram em casa uma altercao violentssima. O Mauro temeu at que o pai o agredisse fisicamente. No podem mais viver debaixo do mesmo teto.
     Tudo por causa de poltica, naturalmente... 
     Sim, Inocncio detesta as idias do filho.
     Ouvi dizer que o rapaz  comunista.  verdade?
     Comunista  o pseudnimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justia social. Por outro lado no ignoramos que na Rssia Sovitica no existe nenhuma liberdade de crtica ou de expresso e que um scritor pode ser condenado a trs ou cinco anos ae trabalhos forados na Sibria por ter escrito poemas, artigos ou romances que contrariam ou simplesmente no seguem a linha poltica do partido nico.
      um mundo triste. Rezo todos os dias pela alma do Inocncio Pigaro. E, se no me levares a mal, eu te lembraria que no  fcil julgar uma criatura humana..  Estudando o passado dum homem a gente talvez encontre explicaes para o seu comportamento no presente.
     curioso  pensa Pedro-Paulo.   Que ter acontecido ao Pe. Gerncio que ele j no acredita mais to fanaticamente no livre-arbtrio?
     Que sabes sobre a infncia desse homem?
     Nada.
     Pois bem, vou te contar algo muito importante. No estou quebrando o sigilo do confessionrio porque o Inocncio jamais se confessou comigo. Fui testemunha ocular e auricular da cena que vou narrar e que peo no contes a ningum. Por que no te sentas? Eu vou descansar estes ossos.
    O proco de Antares acomoda-se numa cadeira de respaldo alto. Pedro-Paulo senta-se num mocho. O velho continua a falar:
     Eu tinha uns trinta anos quando vim para esta parquia Inocncio devia ser um menino dos seus dez anos... O pai dele era contrabandista... sabias?
     Vagamente.
     Chamava-se Venncio, costumava passar meses ausente, dizem que fazia contrabando na nossa fronteira seca com o Uruguai. Era um sujeito simptico, comunicativo, grande presenteador, um belo tipo de gaucho. Pois na ltima visita que Venncio fez a Antares um amigo seu lhe contou que o Melquades Zabaleta, outro contrabandista, sujeito de maus bofes, andava dizendo pela cidade que ia bater de rebenque na cara do Venncio, onde e quando o encontrasse. Alegava que o pai do Inocncio o havia logrado na partilha dum contrabando que os -dois tinham passado juntos.
     proco cala-se, meio ofegante, e por alguns instantes fica a olhar para um rato que est agora parado num ngulo do rodap da sacristia.
     Foi numa fria manh de inverno (devia ser julho ou agosto), eu estava  porta desta mesma igreja quando avistei o Venncio que vinha caminhando pela calada da praa, trazendo o Inocncio pela mo. Quando vi que o Zabaleta estava na esquina da praa, conversando com dois amigos, e de costas para o Venncio, fiquei gelado, imaginando o que podia acontecer, e naturalmente pensei logo no menino. Tudo se passou dum modo que eu hoje no saberia descrever com preciso. Duma coisa me lembro claro: antes que o Zabaleta tivesse tempo de se voltar, Venncio tirou o revlver da cintura, e, duns dez metros de distncia, meteu-lhe trs balaos nas costas. O Zabaleta caiu de borco na sarjeta, sangrando pela boca. O Venncio saiu numa disparada, deixando o filho sozinho na calada. Ouviam-se gritos: Pega o assassino! Pega o assassino! Atravessei a rua para tomar conta do pobre menino. Jamais poderei esquecer a expresso do rosto do Inpcncio. Era uma mistura de susto... surpresa... talvez revolta, no sei... Olhava com olhos arregalados para aquele corpo cado numa poa de sangue. E tremia, tremia, o coitadinho. Estava em estado de choque, no conseguia chorar nem falar. Ergui-o nos meus braos e levei-o para casa. Chamamos um doutor. Durante dois dias o menino no conseguiu pronunciar uma palavra. S olhava para a gente com uns olhos grandes, ora tristes ora apavorados. Parecia no reconhecer ningum, nem a me...
     Conseguiram prender o assassino?
     No. Nunca. Ele deve ter cruzado o rio na lancha dum companheiro. Dizem que se homiziou na Argentina ou no Paraguai. A verdade  que nunca mais ningum teve notcias dele.
     No escrevia  mulher? No lhe mandava dinheiro? O padre sacode negativamente a cabea.
     No, nunca. A Sra. Pigaro  uma pessoa de grande valor. Costurava para fora, trabalhava noite e dia. Sem o auxlio de ningum custeou os estudos secundrios do filho. Primeiro Inocncio queria ser advogado, creio que chegou a fazer dois anos de Direito, quando j estava empregado. Depois resolveu entrar para a polcia tcnica. O Cel. Tibrio ajudou-o, protegeu-o...
     E depois usou-o.
    O vigrio finge no ter ouvido esta observao. Passa o leno pelo rosto, longamente.
     Quando foi feito delegado, quis naturalmente servir na cidade onde era conhecido como o filho do contrabandista bandido. E estou certo de que procurou apaixonadamente ser o contrrio do pai, ficando do lado da Lei.
     Padre  diz Pedro-Paulo  o senhor de certo modo acha ento que Venncio e no Inocncio Pigaro  responsvel pela tortura e o assassinio de Joo Paz e de tantos outros infelizes que caram nas garras da polcia local?
     No  bem isso, meu filho, e tu sabes. Mas  importante a gente conhecer esse fato da vida do Inocncio para melhor julg-lo.
     Mas no se trata apenas de julgamento. Imagine esta situao. Um sujeito aponta um revlver para meu peito e diz que vai me matar e eu, em vez de me defender, replico: Atira, atira porque eu sei que tens um trauma de infncia. Mata-me e continua a matar outros, porque tens boas razes para isso, e todos ns te compreendemos, pobre menino!
    Gerncio sacode a cabea desalentadamente.
     No me compreendeste...
     Talvez no. Mas deduzo que o senhor conclui que Inocncio ficou to horrorizado com o crime e com os criminosos, por causa do ato do pai, de que foi testemunha, que decidiu provar que ele, o filho do bandido, era um homem de bem, do lado da Lei e do Direito. Mas veja bem, padre. No fim ele se tornou tambm um criminoso no seu zelo de defender a Ordem e a Justia. Nos seus famigerados interrogatrios, na nsia de obrigar os supostos criminosos a falar, ele usa de tcnicas desumanas, criminosas. Tudo  uma questo de semntica. A tortura deixou de ser um crime para ser uma tcnica que se aprende e se aplica impessoalmente.
     Tu achas que  isso que se passa com o nosso delegado?
      apenas uma hiptese. Inocncio Pigaro , antes de tudo, um policial de carreira, um profissional. Como guardio da Sociedade, deve achar que os fins justificam os meios. Todos os meios, portanto, so bons se o fim  defender o poder constitudo. Mas olhe o-problema dum outro ngulo. Por alguma razo misteriosa ele pode ter tambm uma certa necessidade ntima de torturar, uma secreta veia de sadismo que a profisso no s revelou como tambm estimulou e justificou. Venncio matou porque estava assustado. Inocncio tortura e eventualmente assassina (mesmo que no d aos seus torturadores ordens explcitas para matar) porque isso o gratifica. Na minha opinio  mais criminoso que o pai.
     S Deus sabe, meu filho!
     Padre, enquanto Deus no nos disser claramente o que Ele pensa de tudo isso, ns devamos em nome de Cristo, que era e  deste mundo, combater tipos como Inocncio
    Pigaro, que matam em nome da Justia, do Capitalismo, do Comunismo, do Fascismo, da Famlia, da Ptria e (no rial) at mesmo de Deus.
    Gerncio baixa a cabea, encostando o queixo pontudo no magro peito.
     Meu filho  murmura ele  como  difcil viver! Cada vez mais. s vezes cometo o pecado de ficar alegre por estarem contados os meus dias na terra.
     Padre, espero no estar pecando quando sinto a alegria de estar vivo. Gosto da vida.  um desafio permanente. Se ela  absurda, sem sentido, ento procuremos dar-lhe um sentido. Eu acho que a senha  Amor,
    Pedro-Paulo levanta-se, aperta a mo do proco e deixa a igreja pela porta dos fundos, para fugir  praa. Avista no horizonte uma lua amarelada e no pode evitar que a imagem de Valentina lhe aparea na mente. Sente, ento, um grande desejo de v-la e de ouvir a sua voz.
    
    LXVI
    Sete e meia. O Maj. Vivaldino e sua mulher esto em casa, sentados  mesa do jantar, olhando em .silncio para os pratos fumegantes, sem coragem sequer para toc-los.
      Solange  diz o prefeito  manda embora o quanto antes a travessa de carne! Me d nojo.
    A uma ordem da patroa, a copeira leva os bifes de volta para a cozinha.
     Mas come alguma coisa, velhinho  diz ela  nem que seja um pouquinho de arroz. Ests s com o caf da manh.
    Ele afasta de si o prato vazio.
     Como posso ter apetite, mulher, quando penso nesses defuntos apodrecendo a na praa... e nesses ratos. .  e em todas essas outras misrias.
    Mais acentuadas esto as suas olheiras, mais empapu-ados que de costume os seus olhos; e a sua barba de um dia  uma sombra azulada no rosto marcado pela fadiga. Sacudindo a cabea dum lado para outro ele diz:
     Quanta desgraa juntai E eu sempre na esperana de despertar de repente e ver que tudo no passava dum sonho ruim...
     No h pesadelo que dure tanto.
    O silncio de novo os envolve no seu frgil celofane. Com a lmina duma faca, Vivaldino risca vincos paralelos na toalha da mesa.
     No estraga a toalha, meu bem  repreende-o ela docemente.   de linho.
    Ele se pe de p de repente, a cara contrada pela ira.
     Que bosta t  exclama.  Uma desgraa sem nome cai sobre a cidade inteira e tu a preocupada com a toalha da mesal
    Comea a andar dum lado para outro, com as mos tranadas sobre as ndegas. Solange, de cabea baixa, deixa passar um intervalo decente ao cabo do qual, para desconversar, pergunta, num tom pacificador:
     E o Cel. Tibrio... foi mesmo enfarto?
     Sei l!  responde o marido, dando de^ombros. Mas em seguida, abrandando a voz, esclarece:  Diz o Dr. Lzaro que foi s uma... uma... (como  mesmo?) is-quemia. Mas o velho teve tambm um princpio de insola-o. Parece que vai guapeando. Acho que ainda no  dessa vez que ele embarca.
    A dona da casa manda tirar todos os pratos da mesa. Vivaldino pede um caf preto pra fazer boca pra cigarro Vem o caf e ele o bebe sem acar, em silncio.
     Os jornalistas chegam amanh, no?  arrisca D. Solange, com tmidas intenes na voz.
    Ele sacode a cabea afirmativamente.
     J estou arrependido de ter avisado a imprensa. Depois de tudo que se disse hoje na praa...
    D. Solange suspira, fica um instante imvel e atenta, pois lhe parece ouvir um rudo suspeito-, talvez um rato roendo alguma coisa.
     Vivaldino, se eu te perguntar uma coisa... tu ficas brabo comigo?
     Diz logo. ..
    Ela hesita ainda por um momento, mas por fim fala, sem olhar para o marido:
     Todas aquelas acusaes que o... o falecido Dr. Ccero te fez so mentirosas, no so?
    Ele estaca e fita, duro, o rosto da esposa:
     Vocs mulheres so muito engraadas! Donde pensas que me veio o dinheiro para construir esta casa e ter dois carros na garagem? Do teu grande dote? Donde vem a piata para os teus casacos de pele. as tuas jias, as... as nossas viagens a Buenos Aires e ao Rio? Dos meus magros vencimentos de prefeito? Ora no te faas de inocente. Se no sabias  porque no querias saber. Nunca perguntaste nada. S pedias as coisas que querias...
     Fala baixo, Valdino. A criada pode estar ouvindo. Solange continua de olhos baixos.
     Pronto. Agora j sabes!  diz ele, retomando o seu vaivm nervoso, de ponta a ponta da sala.
     E agora que  que vai acontecer?  pergunta ela.  Milhares de pessoas ouviram a denncia. Todos vo acreditar, porque morto no mente.
     Antes de mais nada, minha filha, morto no fala. Qual  o tribunal do mundo que vai aceitar o testemunho dum defunto?
     Mas o povo ficou sabendo.
     Que  o povo? Um monstro com muitas cabeas mas sem miolos. E esse bicho tem memria curta.
     Estou pensando nos nossos amigos e conhecidos. Com que cara vamos sair  rua depois de tudo isso?
     Eu vou sair com a que Deus me deu. E tu, se qui-seres, podes usar uma daquelas fantasias de que falou o patife do Ccero. Vou te fazer uma sugesto-, pe mscara de esposa mrtir que finge no saber das safadezas do marido.  um dos disfarces mais populares neste pas.
     Falas como se eu fosse tua inimiga.
     Olha, Solange, hoje em dia nunca se sabe onde esto os amigos e os inimigos. E s vezes o inimigo est escondido dentro da nossa prpria fortaleza, como no caso desses malditos ratos que esto nos infernizando a vida.
    Neste ponto lgrimas comeam a escorrer pelas faces da primeira dama de Antares.
     Tu s cruel, Valdino. No mereo esse tratamento. Ele se aproxima da esposa, descansa ambas as mos
    nos ombros dela e diz com voz quase suave:
     Me perdoa. Estou nervoso. Tambm, depois dum dia como o de hoje... E o maldito calori E esses defuntos no coreto... 
    Para exprimir mudamente o seu perdo, Solange acaricia as mos do marido com as pontas dos dedos.
     E os jornais?  pergunta ainda.
     Que jornais? O Lucas no  louco de escrever sobre o que se passou hoje ao meio-dia, na praa.
     E os jornalistas de Porto Alegre que chegam amanh?
     Antes que eles botem o p em Antares, vou mandar esses sete defuntos para o cemitrio, seja como for, custe o que custar. No vai ficar nenhuma prova de que eles de fato saram dos seus caixes. Tudo foi uma iluso. Tu achas que os reprteres do Correio do Povo e dos outros jor* nais vo acreditar no que o homem da rua contar? Mando o presidente da Associao Comercial declarar que toda essa coisa foi um truque para promover Antares... Telefono ao governador e aos diretores dos jornais e das estaes de TV de Porto Alegre, peo desculpas pelo trote, pago todas as despesas, ofereo um churrasco aos reprteres e fotgrafos que vierem e te garanto que eles voltam para casa satisfeitos e meus amigos.
     E depois?
     A vaca Vitria entra por uma porta e sai por outra e se acaba a estria.
     Tomara que seja assim...
     Assim ser. Ou eu no me chamo Vivaldino Brazo. Boa noite, meu bem. Me desculpa pelo tratamento de choque que te apliquei. Di mas cura.
     Acho que agora dvias ir pra cama. Precisas descansar.
     No. Vou primeiro dar uma olhada nas minhas orqudeas, que no ouviram as barbaridades que se disseram na praa contra mim. Elas ainda me respeitam. E, acima de tudo, minhas catlias no fazem perguntas.
    Solange Brazo sorri tristemente.
    
    LXVII
    A lua sobe, e  a nica lmpada que ilumina Antares. As pessoas que ousam espiar a praa atravs de suas janelas podem divisar os sete mortos imveis dentro do coreto, ao redor do qual urubus esvoaam.
    Com cinco dessas aves pousadas ao longo da sua pla-tibanda, o palacete dos Vacarianos parece parodiar o Palcio do Catete.
    Dentro da manso paira a fragrncia e um nevoeiro de benjoim queimado. O Dr. Lzaro conversa a um canto da sala de visitas com dois colegas. Discutem a situao do doente, que  consideradas as circunstncias  lhes parece bastante satisfatria.
    Vacarianos de vrias geraes  filhos, filhas, genros, noras, netos, sobrinhos do velho Tibrio  andam dum lado para outro, nas pontas dos ps, falando baixinho. Algum pergunta por que no mandaram chamar Xisto, mas seu pai explica: No achamos necessrio. O Xistinho tem de fazer mais uns exames em Porto Alegre. Se a situao piorar, que Deus tal no permita, poderemos telegrafar e dizer ao rapaz que frete um txi areo e venha imediatamente.
    Num outro compartimento do casaro, diante dum velho oratrio tosco que pertenceu  sua bisav, D. Lanja ajoelhada pede a Deus que no permita o marido seja chamado ao Seu divino seio. E enquanto reza, ela continua atenta aos ratos, e teme que eles venham morder-lhe os ps ou entrar-lhe por baixo da saia e subir-lhe pelas pernas. As chamas das velas bruxuleiam e o cheiro de cera derretida lembra  matriarca dos Vacarianos a noite do velrio de sua amiga Quitria. E ento ela reza um Padre-Nosso em inteno  aima de sua velha amiga, cujo corpo est agora (e este pensamento lhe causa um glido arrepio) dentro do coreto da praa, na pior das companhias, coitadinha da Quita! Pensa nas filhas e genros ingratos que fugiram para a estncia e nem sequer vieram ajudar a velha neste transe difcil.
    No seu quarto, deitado de costas, dentro duma tenda de oxignio, Tibrio Vacariano, num sono induzido por sedativos, anda perdido a cavalo por uma campina imensa, caando bandoleiros, comunistas, que so ao mesmd tempo ratos, que se escondem em buracos, cubanos barbudos pendurados em rvores, lagartos, lagartixas, cobras, enormes cobras flcidas nas quais ele atira aflito e erra, porque o cano de seu revlver se verga, como chocolate derretido pelo calor, e cada vez que puxa no gatilho, em vez dum estampido, ele ouve apenas uma ventosidade musical, e todos se riem dele, e agora ele est  frente duma grande coluna militar, leno vermelho no pescoo, caando chimangos, e de sbito se volta e v a solido das coxilhas, os seus soldados desapareceram, covardes!, mas ele decide ir adiante, haja o que houver, porque sabe que agora  o bravo Blau Nunes, anda em busca da Salamanca do Jarau e traz a rainha do Egito na garupa, vo se aproximando do Nilo (este mapa est errado, carajol aqui devia estar o Uruguai ou o Ibicu) mas o sol foi embora, uma lamparina ilumina o mundo, e ele tem deitada a seu lado Cleo, que lhe diz que agora o melhor  descansar, vov, afinal de contas chega o dia dum homem parar, mas ento vocs querem me fazer de velho? velho  o av torto, eu ainda sou macho, vamos brincar de Salamanca, meu bem, est vendo aqueles cerros l longe?... um par de seios, Blau Nunes sobe num, depois noutro e desce a encosta... e agora est caminhando a perito numa vrzea e ento avista um capo e entra e ali est a boca da caverna... por que esse susto, menina? e, diacho!, me enganei, estou num cemitrio,  uma cova cheia de defuntos, um perau sem fundo...
    Na sala de visitas, o Dr. Lzaro segura o brao da esposa do doente e lhe diz:
     Preciso sair por uma hora ou duas. Meus dois assistentes vo ficar a de planto. No se impressione, D. Lanja. Se Deus quiser havemos de tirar o velho dessa, como j o tiramos de outras. Ali pelas onze horas eu volto...
     Obrigado, doutor. Deus o acompanhei
    
    LXVIII
    Quinze minutos mais tarde, o Dr. Lzaro bate  porta dos aposentos do Pe. Pedro-Paulo, na Vila Operria.
     Que surpresa, doutor!  exclama o sacerdote, apertando a mo do visitante.  Entre e sente-se. Aquela cadeira ali  a melhor que tenho...
     Obrigado  murmura o mdico, sentando-se, mas dum modo um pouco rgido, que denuncia o seu mal-estar.
    O quarto  quadrado e pequeno, alumiado pela luz de um lampio de querosene: uma cama de ferro, uma mesi-nha-de-cabeceira, um guarda-roupa, uma prateleira com livros, uma escrivaninha, trs cadeiras. Nem tapetes nem cortinas.
     O senhor deve estar perguntando a si mesmo a razo desta minha visita inesperada. Pois vamos logo ao assunto que me traz aqui... Eu vim me confessar.
     Seu confessor no  o Pe. Gerncio?
     Olhe, vou lhe ser franco. O nosso vigrio  um santo homem mas est velho demais, cochila durante a confisso e (coitadinho I) acho que ele no pode compreender os meus problemas... Prefiro confessar-me com o senhor, apesar de eu ter idade para ser seu pai... Ah! Quero lhe dizer que no acredito que o senhor seja comunista como andam espalhando por a...
    Pedro-Paulo sorri em silncio.
     Posso fumar, padre? Obrigado. Sei que o senhor no fuma.  O Dr. Lzaro acende um cigarro com dedos trmulos e as baforadas curtas e repetidas que solta do uma idia do estado de seus nervos.
     O senhor quer mesmo ouvir a minha confisso?
     Claro, por que no?
     Aqui mesmo?
     No vejo melhor lugar.
    O mdico hesita, olha para o lampio com olhos eu-trecerrados.
     Se o senhor diminuisse um pouco a intensidade dessa luz, a coisa ficaria mais fcil para mim...
     No h problema.
    O padre apaga por completo a luz do lampio. Fica no quarto apenas o leite azulado do luar.
     Devo me ajoelhar?
     No acho necessrio.
     A Igreja moderna...  diz o mdico, soltando uma risadinha seca e falsa.
     Fique como se sentir melhor: ajoelhado, deitado ou de p... Para mim no faz diferena...
     Ento fico sentado...  Pedro-Paulo no pode agora distinguir as feies do visitante da noite.  O senhor no me conhece direito, suponho...
     Para falar a verdade, no conheo direito nem a mim mesmo.
     Quem foi que disse Nosce te ipsum? Scrates? Diogenes? Um desses filsofos antigos. Mas no vem ao caso. Padre, eu sempre achei o senhor um moo inteligente e culto. Diferente dos outros padres que tenho conhecido. Sem rano de sacrisa. Moderno, mas no bom sentido da palavra.
    Pedro-Paulo sorri, compreendendo: Ele est querendo me comprar. Ser que, como quase todo o mundo, estou  venda, tenho um preo?  Obrigado  sussurra, quase automaticamente. E pensa em seguida: Como tudo isto  insensato!.
     No sei por onde principiar...  diz o mdico.
     Nunca se sabe onde est o princpio.
     O senhor estava na praa hoje ao meio-dia? Ouviu tudo quanto l foi dito... dum lado e de outro, no?
     Sim, ouvi tudo.
     Pois . Fui cruelmente atacado.
    Num repente o Dr. Lzaro levanta-se, e caminha at  janela, como em busca de ar.
     Injustamente?  pergunta o padre, para ajud-lo. O outro torna a sentar-se:
     Sim e no. (Tenha pacincia comigo, padre. No me vai ser fcil contar tudo...) Sim e no, repito. Um fato  uma aparncia, digamos... uma flor, ou uma fruta... s ou podre. A verdade  a raiz. Est invisvel mas  a me da flor e da fruta. Desculpe a filosofia barata. Mas o senhor deve compreender que  duro pra mim... confessar-me, quero dizer, a srio, indo  raiz dos meus sentimentos, do meu passado, da minha personalidade, do... da...
    lrou do bolso um leno e enxugou o rosto molhado de suor.
     Tire o casaco, doutor. Est um calor horrvel. O mdico aceita a sugesto.
     Dentro de poucos minutos vou estar aqui diante do senhor completamente nu... espiritualmente... Decerto foi por isso que lhe pedi para diminuir a luz. Ridculo, no?
     No acho. Continue.
     Padre, sou um homem bom no fundo... mas fraco, muito fraco. Um covarde I Vamos falar claro, fugir das meias palavras. Um desfibrado, isso  que eu sou: um homem de espinha flexvel. Mas acontece que h anos estou nas mos de dois homens sem escrpulos que me fizeram... que me fazem at hoje cometer atos de que me envergonho. O senhor sabe a quem me refiro...
     Ao Cel. Vacariano e ao Maj. Vivaldino.
     Isso! Eles sabem segredos negros do meu passado. Cometi muitos erros. Formei-me relativamente jovem, casei-me com uma moa pobre, foi uma luta terrvel pelo po de cada dia. No houve o que eu no fizesse para conseguir dinheiro e para no morrer de fome. Um dia tive o meu diploma quase cassado. O Cel. Vacariano veio em meu socorro, me salvou. Da por diante fiquei uma espcie de... de escravo dele e do prefeito. Mas juro por Deus, que est me ouvindo, juro que no sou um homem mau. Fraco, isso sim. Covarde, repito. Mas de bom corao e bem-intencionado. O senhor compreende, dizem que quando a gente comete um crime, tem de cometer fatalmente outro para esconder o primeiro, e um terceiro paia encobrir os dois que ficaram para trs, e assim por diante. (Estou falando no sentido figurado, naturalmente.)
     A que crimes se refere especificamente?
    O mdico torna a sentar-se, atira o toco de cigarro pela janela, e acende imediatamente outro.
     Ora... coisas, algumas srias, outras menos. Como  que vou me explicar?
     Abortos?
     Sim. Mas o senhor sabe... hoje se fala at na possibilidade de legalizar o aborto, embora a nossa Igreja no esteja de acordo com essa prtica. Mas um dia pratiquei um aborto desastroso, e todos ficaram sabendo dele na cida-dezinha onde eu clinicava.
     A paciente morreu?
     Quase. Uma hemorragia. Se eu fosse um homem realmente mau, teria fugido, deixando a criatura se esvair em sangue. Mas no. Corri em busca de socorro. Foi o escndalo, as denncias, a minha desgraa.
     Fez esse aborto porque precisava do dinheiro, no  verdade?
     Exatamente. Nesse tempo eu j tinha dois filhos pequenos, dividas, promissrias protestadas... um inferno! Sei que cometi um delito. Como mdico e como catlico. Fale franco, padre, tenho perdo?
     No me diga que veio buscar perdo... da minha boca depois de todos esses trinta anos...
     Mas o senhor  um ministro de Deus na terra.
     Com poderes limitados  sorri o padre.  Mas prossiga, por fa ror.
     O senhor vai acreditar em mim. No intimo sou um homem decente. S fraco. Muitas vezes no olhava os meios para conseguir dinheiro... Raciocinava assim: no futuro vou ter tempo para pagar minhas dvidas a Deus e aos homens. Sabe como? Fazendo boas aes. Sendo um mdico dos pobres. Minhas faltas, meus pecados eram uma espcie de emprstimo que eu fazia com o Criador para um dia pagar toda a dvida e mais os juros. O meu sonho era construir um hospital... como esse que hoje tenho. Quando mocinho, gostava de ler histrias sobre a vida dos santos. Verifiquei que muitos deles tinham defeitos, cometiam pecados. Cheguei  concluso de que Deus tem um livro com duas colunas, dbito e crdito. Os pecados das pessoas lhes so debitados e as boas aes creditadas. Quando o saldo credor  favorvel  pessoa, isso pode ser a santidade. Eu dizia a mim mesmo que tinha pela frente toda uma vida para fazer lanamentos de crdito na minha conta corrente com Deus.
     Acho que o senhor est vendo o problema em termos de escriturao mercantil...
     Eu sei. E uma imagem. Deixe-me dizer mais. Eu queria tambm a fama. E queria ser admirado e amado, principalmente amado. O meu modelo na vida sempre foi So Francisco de Paula.  Cala-se, passa uma mo perdida pelos cabelos, e depois diz:  Estou divagando... ainda no cheguei ao cerne da questo.
     Me diga uma coisa, Dr. Lzaro,  verdade que ao assinar o atestado de bito de Joo Paz o senhor sabia que ele tinha morrido no de embolia pulmonar mas em conseqncia das torturas a que foi submetido pelo Inocncio Pi-garo e os seus carrascos?
    De novo o mdico pe-se de p, repentinamente, como impelido por uma mola. Comea a andar na pea como um sonmbulo ou um homem que perdeu a memria e no sabe onde est. Depois torna a sentar-se, esconde a cabea nas mos e solta o pranto.
     O senhor no respondeu  minha pergunta, doutor. O Dr. Lzaro Bertioga ergue a cabea, fungando, reacende tremulamente o cigarro que tem apagado entre os dedos.
     Sabia, sabia, sabiat J lhe disse que sou um covarde. Mas nada que eu pudesse fazer naquele momento conseguiria ressuscitar o Joozinho. A princpio me neguei a participar da farsa vergonhosa. Mas eles me ameaaram. O Cel. Vacariano e o Maj. Vivaldino possuem 52% das aes do Salvator Mundi. No tive outro remdio. Mas passei duas noites sem dormir. Deus  testemunha do que estou dizendo. E Ele sabe que sou um homem bom, que ama a humanidade, e que quer ser respeitvel, padre, acredite...  Suspira fundo.  E verdade tambm que me esqueci de mandar buscar o antibitico para aquela prostituta...
     Aquela mulher...
     Desculpe. Aquela mulher. Mas no foi por mal. No fao distino entre meus clientes. Ricos e pobres.  Faz uma pausa.  Bom, no  bem assim. Cultivo os ricos. No devo mentir a Deus. Seja como for, Ele v tudo.. Mas a verdade  que no desprezo nem descuido os indigentes. Ah, no! Isso tambm Deus sabe. Eu ia mandar buscar a estreptomicina por via area... mas que  que o senhor quer? Sou um homem atormentado de trabalho e problemas. Labuto quinze, vinte horas por dia (e muitas vezes grtis!), durmo trs, no mximo cinco horas por noite. Assim fui deixando a coisa para amanh, para amanh, para depois ... at que um dia a madre diretora das enfermeiras da ala dos indigentes me contou no corredor do hospital que a doente da cama nmero 10 tinha morrido de madrugada. Posso ser culpado pela morte dessa... dessa mulher?
     Posso falar com sinceridade? O senhor nunca me pareceu um homem atormentado por problemas morais.
    Por alguns segundos o mdico fica parado junto da escrivaninha, em silncio. Depois murmura:
     Bom. Talvez eu esteja contando essas coisas de maneira a me inocentar... pelo menos um pouco. No tenho coragem de meter a mo no meu lodo interior. J lhe disse que sou um covarde. Mas no posso enganar a Deus, que tudo v, tudo sabe. Padre, me ajude. Que  que vou fazer?
     Lute.
     Como?
     De hoje em diante diga no a esses dois homens que o escravizam.
     Se eu fizer isso eles me destroem profissionalmente, financeiramente, socialmente. E eu no quero que a minha mulher, os meus filhos, os meus netos fiquem sbendc quem sou. Quero ser amado e, se possvel, respeitado, poi eles... e pelos outros.
     Lute, se quer paz de esprito. Lembre-se de que Cristo disse um dia a seus discpulos que no lhes trazia a paz, mas uma espada. Use a espada, doutor, e conquiste com ela o respeito prprio, o respeito dos outros e finalmente a desejada paz.
     Agora  tarde. Muito tarde, depois do que aconteceu hoje em praa pblica...
     Desconfio que esse  o motivo principal desta sua visita. Veja bem. O incidente da praa no alterou o mago do seu problema. O seu passado no mudou. O senhor  o mesmo homem. A diferena  que agora os outros sabem de suas faltas. Sua aurola de santo desapareceu. Sua imagem foi desmascarada em pblico.
     Mas eu sou um homem bom  diz o Dr. Lzaro, quase gritando.  Eu amo a Deusl Mas  que o anjo que tenho dentro de mim  sempre dominado pelo demnio.
     Eu no acredito nisso e o senhor tambm no acredita. Trata-se duma velha metfora mais literria do que cientifica ou teolgica...
    O Dr. Lzaro cai de joelhos e de novo rompe a chorar. O Pe. Pedro-Paulo fecha os olhos, num mal-estar, diante desta situao melodramtica.
     Padre, sou um pobre pecador. Dei falso testemunho contra o meu prximo. Tenho uma amante e filhos com ela. Cometi adultrio muitas vezes. Deixei uma mulher morrer por puro descaso de minha parte. Tenho sido desonesto em vrias ocasies, e cmplice de muitos crimes. Desgraadamente gosto de dinheiro, preciso de dinheiro e sempre encontro desculpas para as minhas transgresses da tica profissional. Sou um cachorro sarnento que est uivando diante da cidade de Deus, lambendo os ps de seus guardas e pedindo para entrar. Amo a Deus acima de todas as misrias da minha carne. Pronto! No posso me rebaixar mais. Tenha piedade de mim!
    Cala-se. Pedro-Paulo levanta-se, vai at  janela, respira o ar morno da noite, olha para o rio, para as estrelas, depois volta para perto do visitante, mas sem saber ao certo o que lhe dizer. Por fim, contrafeito, pousa a mo na cabea do outro homem, que continua ajoelhado e soluando.
     Est certo  pergunta  bem certo de que no quer que eu o absolva em nome de Deus assim no espirito de quem liquida uma dvida antiga s para poder continuar a ter crdito e seguir praticando os mesmos atos ilcitos?
     No! No! No! Juro sobre a cabea dos meus filhos e dos meus netos!
     Olhe que esta  uma noite muito especial. Os sete mortos no coreto cercado de urubus. A invaso dos ratos. O senhor est perplexo e atemorizado. Mas pense numa coisa. (Por favor, levante-se, vamos, assim... Sente-se e procure ficar calmo. Isso!) Mas pense bem. Amanh os mortos sero sepultados.  vida voltar aos trilhos da rotina. O senhor retomar os seus velhos hbitos e prticas. O tempo o ajudar a esquecer os horrores desta noite. O que se disse na praa ficar esquecido. Um dia o senhor se lembrar de tudo isso como de um sonho mau... E ento, quando nos encontrarmos na rua o senhor voltar o rosto para no me ver, e me odiar por ter dito aqui esta noite tudo quanto disse.
     Nol Nol Por que pensa assim?
     Porque conheo um pouco a natureza humana.
     Um sacerdote da Igreja no pode dizer uma coisa dessas1
     Este sacerdote  tambm um homem. E nem sei se  um bom homem.
     Padre, s lhe peo agora que me absolva. Me d a mais severa, a pior das penitncias, que eu a cumprirei. Mas me absolva, padre.
     Para qu? O sennor no compreende que Deus no , no pode ser um barbiturico nem um analgsico?
     Eu vim aqui em busca de paz e o senhor me d o desespero.
     No, eu procuro faz-lo encarar a realidade. A salvao no est em palavras. Cristo.no disse que s a verdade nos tornar livres?
    Faz-se um silncio, ao cabo do qual o Dr. Lzaro pergunta:
     Padre, o senhor me despreza depois de tudo quanto lhe contei? Fale franco, um sacerdote de Deus no deve mentir. O senhor me despreza?
     No. Eu no desprezo nem a mim mesmo, cujos defeitos e misrias conheo melhor do que aos seus.
     Ento tire esta carga de meus ombros, me absolva e me mande em paz.
    E de novo o Dr. Lzaro Bertioga cai de joelhos.
    
    LXIX
    Na sala de jantar duma meia-gua da Rua das Camlias, sentadas ao redor da mesa onde, h pouco mais de meia hora, paparam a sua sopinha de cada anoitecer, as irms Balmacedas escrevem  luz de velas cartas annimas, com o fim especial de completar a lista de adultrios locais que o falecido Barcelona recitou hoje em praa pblica, e na qual elas notaram omisses imperdoveis.
    Enquanto escrevem com a mo esquerda, para disfarar a letra  penas de ao sobre folhas de papel quadriculado arrancadas a cadernos escolares  as trs manas comem cocadas feitas em casa. No silncio da pequena sala s se ouve o rascar das penas no papel, o grugn da mastigao e, mais aguado o ouvido, o ronronar asmtico do gordo gato cinzento que dormita ao p da mesa, farto de ratos.
     mana, orgia  com g ou com jota? O gato abre por um timo os olhos amarelos e depois os fecha, recaindo na modorra. Um camundongo espia-o, cauteloso, encarapi-tado no alto do guarda-louas, meio escondido atrs dum vaso avoengo de opalina.
    LXX
    Exceo feita s meninas, ningum comeu nada ao jantar na casa do Dr. Mirabeau da Silva. Em vista da situao excepcional de Antar.es, que papai compara  e explica didaticamente por que  com a duma cidade sitiada, as filhas so mandadas para a cama mais cedo que de costume.
    O promotor est agora no seu quarto de dormir. Banho tomado, recendente a talco, acaba de vestir o seu pijama de tergal.
    Sua mulher sai do quarto de banho, fresca da ducha e recendente a sabonete Maja. O dia deixou-lhe no rosto a marca de cuidados e sustos. Vendo o marido parado no meio do quarto, numa atitude estranha, ela pergunta:
     Que  que tens?
     Nada... por qu?
     Ests com a cara diferente  diz ela, erguendo a chama da vela  altura da cabea do esposo, que est de cenho cerrado.
     Meu bem, quero te fazer uma pergunta muito sria mas peo, exijo que me respondas com a maior franqueza, sem medo de me ferir nem intuito de me agradar.
      Bob, que negcio  esse?
     Olha bem pra mim. Suponhamos que nunca me viste em toda a tua vida.  O Dr. Mirabeau faz uma volta ao redor de si mesmo, como um manequim num desfile de modas.  Achas que tenho um jeito efeminado? Fala com franqueza. Tenho?
     Ora, Bobo, que bobagemI Ficaste impressionado com o que aqueles moleques disseram de ti hoje na praa? 1
     Responde claro e, por favor, esta noite no me chames de Bob.
    Ela depe o castial em cima de sua mesinha-de-ca-beceira.
     Fica tranqilo. No tens. Agora te deita. Ests cansado, precisas dormir pelo menos umas sete horas.
     No estou satisfeito com a tua resposta. No me parece muito convincente...
     Deixa de bobagem, rapaz. Vem nanar.
    O promotor aproxima-se da esposa, segura-lhe com fora ambos os pulsos.
     Alguma vez te decepcionei como homem?
     Fala baixo. As meninas podem estar ouvindo.
     Decepcionei?
     No, meu bem. Nunca. Ao contrrio, s vezes me deixaste um pouco assustada com os teus ardores.
    De sbito ele enlaa a mulher, aperta o corpo dela, inteiro, contra o seu e beija-lhe vida e demoradamente a boca. Sente-a, porm, passiva, indiferente. Larga-a por um instante, e ela se queixa:
     Me deixaste sem respirao...
    Sem mais palavras ele a ergue nos braos (um filme da sua adolescncia, Tarzan e Jane) e leva-a na direo do leito.
     No, Bob, hoje no!
     Hoje  uma noite como as outras!
    Depe a companheira sobre a cama, deita-se a seu lado e comea a acarici-la, titilando-lhe todas as zonas do corpo chamadas ergenas, que ele conhece no s de experincia vivida como tambm de leituras especializadas. Suas car-cias revelam mais mtodo do que sensualidade. A esposa, porm, encolhe-se, negando-se, d-lhe tapas nas mos. Sossega, Bob! O marido insiste. No sei como tens coragem. ..  diz ela.  Numa noite como esta...
     Que  que tem esta noite?
     Os mortos no coreto. Os ratos. Os urubus. E at um sacrilgio a gente pensar... nessas coisas.
     Mas ns estamos vivos, meu bem, vivosl
     Fala baixo, olha as meninas.
    Na memria do promotor os arboricolas recomeam subitamente a vaia: Fres-co! Fres-co! Fres-co! Ele tenta desnudar a mulher por completo, atabalhoadamente, chega a rasgar-lhe a camisa de dormir, explorando ao mesmo tempo as zonas de prazer e recordando ofegante ao ouvido da companheira, em murmrios coceguentos, requintes do passado ertico do casal. Por fim, resignada (ou cansada?) ela se deixa despir por completo, depois de apagar com um sopro a chama da vela. Triunfante, ele se pe de p em cima da cama e aos poucos vai tirando a roupa do corpo e jogando as peas uma a uma no cho, ao acaso, at ficar completamente nu.
    Mirabeau da Silva contempla agora a fmea que tem desnuda a seus ps, ao mesmo tempo que, j meio alarmado, olhando para baixo ao longo do peito e do ventre percebe que o distintivo da sua virilidade a todas essas permanece em lnguido sossego. O promotor procura excitar-se, pensando nas esplndidas mulheres nuas que viu em fotografias coloridas no ltimo nmero do Playboy chegado a An-tares. Faz de conta que tem agora na cama mais trs fmeas: uma loura de pele alva, uma mulata cor de canela, e (por que no?) uma preta de bano brunido, todas nuas a seus ps  cabeleiras, rostos, seios, ventres, pbis, coxas, pernas...
    A esposa legtima o espera, de olhos fechados, resigna damente. Ento ele se senta na beira da cama, segura a mo dela e murmura:
     Tem pacincia, meu amor. No sei o que est se passando comigo. E apenas uma questo de tempo...
    Ela lhe acaricia a mo, compreensiva. E, sem a menor inteno maliciosa, murmura:
     Eu te preveni, Bob, esta  a noite dos mortos.
    
    LXXI
     Vem pra cama, Lucas.
     No posso. Acho que vou passar a noite em claro, escrevendo.
     Ests louco?
     Estou. Estamos todos loucos. No  s o Egon Sturm. E Antares. J viste uma cidade enlouquecer... casas, caladas, ruas, pedras, rvores, passarinhos, pessoas, animais e coisas? Pois . Antares enlouqueceu. E tu sabes quem sou eu? Lucas Faia, mais conhecido no mundo como o Cronista da Cidade Louca.
    A mulher, uma mulata gorda de olhos doces e seios maternais, fica a olhar, comiserada, para seu homem, e depois arrisca:
     Eu achava... Mas ele a interrompe:
     Meu anjo, podes achar o que quiseres, mas o teu marido no vai arredar-se desta mesa antes do raiar de um novo dia. Estou comeando a escrever o artigo mais importante de mi perra vida, sabes, Marfisa?
     Sobre os defuntos?
     Sobre tudo quanto se passou de ontem para c neste burgo esquecido de Deus.
     Vais contar at as barbaridades que o Barcelona e o Dr. Ccero disseram no coreto?
    Lucas coca a calva coroa da cabea.
     Bom... Contarei por alto que os mortos insultaram os vivos. No repetirei as infmias que disseram, e que feriram tantas pessoas respeitveis da nossa sociedade, porque no quero ajudar o inimigo. Mas o que importa  narrar ao mundo, em prosa rica, que em An tares, obscura cidade s margens do Rio Uruguai, sete mortos ressuscitaram e vieram para a praa pblica...
     Ningum fora daqui vai acreditar nesse negcio...
     Pouco importa. Todos vo ler a minha pea literria. Estou pensando at em public-la em livro.
     No ests morrendo de canseira?
     Se eu pensar no corpo, talvez conclua que estou, Mas no momento no dou a menor ateno a esta carcaa. Sou todo espirito.
    Marfisa encolhe os ombros. Est j de camisolo, castial em punho. A luz da vela se reflete no seu rosto gor-dalhufo.
     Me traz uma jarra com gua  pede Lucas.
     Te esqueceste que os ratos caram na hidrulica e 9 gua est estragada?
     Tem cerveja?
     No.
     Mineral?
     Tambm no.
     Ento traz gua mesmo. Ficou provado que essa estria dos ratos  puro boato. Os ratos caram mas foi na alma dos habitantes de Antares, isso sim.
    Lucas preparou cuidadosamente uma dzia de cigarros de palha e enfileirou-os na mesa,  sua frente, junto duma caixa de fsforos, trs canetas esferogrficas e um cinzeiro. Jamais pde redigir a mquina o que quer que fosse. S sabe escrever a mo, com pena Mallet, parando de quando em quando para admirar a sua letra grada e floreada de ex-sargento amanuense.
    Olha para o papel em branco. Desenha cuidadosamente o ttulo: A TRAGDIA DE ANTARES. Ou ser melhor A MORTE EM ANTARES? Acha que OS MORTOS NO CORETO DA PRAA tem mais sabor literrio e um qu de novela fantstica.
    Por onde comear? De que dia, de que hora, de que ngulo? Aperta um palheiro entre os dentes, acende-o, d uma longa tragada, solta fumaa lentamente pelas narinas, pensa no minotauro, nos labirintos de Creta, na sua me lavadeira (trouxa na cabea, subindo uma lomba) e continua olhando fixamente, numa espcie de vertigem, para o papel em branco, vendo o coreto, os mortos, sentindo na memria a sua podrido, e ouvindo o crepitar dos passos furtivos dos ratos da casa.
    
    LXXII
    Iibindo est sozinho no seu apartamento de solteiro,  Rua do Salso. Quando a sexta dose de usque (escocs, contrabando) lhe cai no estmago vazio de aumentos, ele se sente transportado para a Grcia clssica. Comea a despir-se peripatetcamente de sua mida indumentria do sculo xx.  Quem pode imaginar Anaximandro ou Pitgoras de calas, camisa e gravata? Deixando peas de roupas ntimas por todo o apartamento, chega completamente des* pido diante do espelho grande do seu guarda-roupa, no quarto de dormir, e planta-se diante dele. Examina no vidro a sua prpria imagem de corpo inteiro, primeiro de frente  ahi a tristeza desses dois frutos murchos e podres pendentes da velha rvore estril!  e depois de perfil  ahi essas pelancas frouxas, os joelhos ossudos, o ventre volumoso cado, num grotesco contraste com a magreza do resto do corpo... E o relevo das costelas sob a pele branca pintaigada de manchas pardas, os hierglifos da velhice e da morte,  beleza sonhada mas nunca atingidal  sol da ca!  poentes vistos do alto da Acropole 1  verdes do Pelopo-nesot  penhascos de Delfos!
    Iibindo tem na mo um castial com uma vela acesa. Diogenes  procura de um Homem. Evidentemente o seu varo ideal no  esse que est no fundo do espelho, com lgrimas nos olhos. O mais notrio pederasta municipal. Como explicar a esses idiotas? Plato, que era Plato, apreciava os efebos. Scrates amava o belo Alcibades.
    Depe o castial em cima da mesinha-de-cabeceira, arranca o lenol da cama, envolve-se nele, como numa tnica grega, aproxima-se da janela e fica olhando as estrelas, a lua  claro pssego maduro meio mordido  um trecho do rio que, ao luar, parece uma larga coluna de mercrio, sim, num termmetro que est medindo a febre desta cidade delirante. O ar parado cheira ainda a pedras e terra quentes. Felizmente o seu apartamento est longe da praa e at aqui no chega a podrido dos mortos.
    Iibindo apanha a vela e encaminha-se para o simpsio, conversando com seu amigo Fedro. Pois, meu caro, somos todos personagens duma farsa escrita pelo Destino. Plato j chegou? Procuremos os nossos lugares. Alcibades ficar a direita de Scrates. Aristfanes ao lado de Paus-nias. Fedro, aceito ocupar o lugar  tua nobre direita, se  que ele est vago. Obrigado! No pude avisar-te de meu comparecimento, pois Antares est em greve geral. Com tua permisso, reclino-me. Enchei a minha taa,  fmulos. Ahi L vem Scrates. Mestre I Antares me ofereceu hoje um clice de cicuta. E eu vou beb-lo em tua honra e na ide Plato. E em homenagem  Beleza e  Verdade I
    Serve-se duma dose de usque, enchendo metade do copo, depois leva este  boca e bebe-o sofregamente at  ltima gota. Atira o copo contra a parede, partindo-o em pedaos. D estonteado algumas voltas pela sala e depois tomba no soalho em coma alcolica.
    
    LXXIII
    Jefferson Monroe III convidou os Duplessis e os Lings  sua residncia para drinks and conversation, aps o jantar. So quase nove horas da noite. O dono da casa e Jean-Franois tomaram j pelo menos quatro rijas doses de gim com tnica. Dominique Duplessis preferiu a qualquer outra bebida o planters punch  rum, suco de limo e gua. Mil-licent Monroe manteve sua fidelidade ao old-fashioned. (Como nunca confiaram na usina de energia eltrica de Anta-res, os Monroe, alm duma geladeira grande movida a eletricidade, possuem uma pequena a querosene; e  graas a esta ltima que hoje tm gelo para as bebidas.)
    O dono da casa e o gerente da Cia. Frnco-Brasileira de Ls, depois de analisarem a greve por breves minutos, entraram numa acalorada discusso sobre a presena dos sete mortos no coreto da praa. Iluso? Realidade? Farsa encenada habilmente pelos grevistas? Qu?
    Agora ambos de p, copos na mo, continuam o duelo verbal. O ingls, falado com seis diferentes sotaques,  a lngua franca da reunio. Duplessis encara o fenmeno dum ngulo puramente intelectual e cnico. O americano prefere examinar seus aspectos prticos e ticos. O Sr. e a Sra. Chang ling, ambos sentados em silncio num sof, pouco ou nada disseram desde o princpio da reunio. Parecem estar ali apenas como figuras decorativas, em duas dimenses, como as dos quadros pendurados nas paredes. Ele sorri o seu sorriso inefvel de quem tudo sabe desde o princpio do Tempo e nada mais quer ou precisa saber. A sua mulherinha, encolhida e acanhada, tem o ar de quem pede desculpas aos presentes e aos ausentes pelo simples fato de existir, ocupar um lugar  embora diminuto  no espao e no tempo.
    Dominique, a mulher do francs, desenvolta e exuberante de vida, anda agora fazendo o circuito da sala, examinando mveis e quadros, pegando os objetos que encontra, virando e revirando-os corno  procura da etiqueta com o preo. Chega ao ponto de abrir gavetas e caixas para examinar-lhes o contedo. Millicent Monroe segue-a disfara-damente, com olhos indignados. Desde que a haitiana chegou (a idia do Jeff, convidar essas duas mulheres sem antes pedir o seu consentimento!) Millicent no lhe dirigiu sequer uma palavra. Ao cumpriment-la  porta, quando os Duplessis chegaram, no lhe estendeu a mo, limitando-se a um aceno de cabea e a um sorriso puramente mecnico de caf-society. Procedeu do mesmo modo com a chinesinha, que lhe fez, entretanto, uma curvatura reverente como se estivesse diante da prpria rainha da Inglaterra.
    Aos dezessete anos Millicent foi realmente Rainha da Festa das Magnolias, Montgomery, Alabama, nos tempos de high school.  agora uma quarentona espigada, de cabelos dum louro de palha, os olhos uma cinza remotamente azulada, os lbios delgados, a pele granulada. Suas feies, vagas e esbatidas, so dessas difceis de serem guardadas na memria. Tem o orgulho de ser uma WASP, isto , white, Anglo-Saxon and-protestant: branca, anglo-saxnica e protestante.
    Que remdio seno fazer a perfeita hostess?  pensa ela agora, suspirando. E para dizer alguma coisa, queixa-se do calor abafado do dia e da noite. E quando o marido lhe pondera que no sul dos Estados Unidos geralmente faz mais calor que em Antares, ela se irrita e replica que ele costuma dizer isso para ser agradvel aos nativos.
    At ao terceiro old-fashioned Millicent conseguiu observar sofrivelmente as regras que regem o comportamento da perfeita anfitrioa, mas agora os espritos sobem-lhe  cabea e soltam-lhe a lngua. A Sra. Monroe, ne Marshall, fala mal do Rio Grande do Sul e particularmente de Antares, onde as casas so desconfortveis  fornos no vero, geladeiras no inverno. A sociedade local  rastaqera. As pessoas no conhecem as mais elementares regras de higiene. As criadas? Ah! essas, no se contentando com serem incompetentes, so tambm selvagens. (E conta que a penltima delas, de tipo bugride, ao cabo dum furioso bate-boca bilnge, atacara-a, mordendo-lhe um dedo  a antropfaga!  o que a obrigou a tomar soro antitetnico.) E agora, para cmulo de ultrajes, sete mortos erguem-se de seus caixes e descem para o centro da praa principal e l esto empestando a cidade. Isso, positivamente, s pode a-contecer num pas subdesenvolvido. Entreouvindo-a  pois continua o seu dilogo com o francs  o marido de quando em quando olha para ela, sacode a cabea, e diz: Come, come, darling. E Millicent fita nele o gelo azul-cinza de seus olhos e, encrespando os seus quase invisveis lbios, responde: Oh shut up!
    Como a haitiana continua na sua peregrinao indiscreta pela sala, Millicent dirige-se principalmente aos Lings, que sacodem afirmativamente a cabea como dois bonecos de terracota. De quando em quando Dominique aproxima-se do marido e cicia-lhe, rpida: Cette femme l memmerde. De repente posta-se na frente da dona da casa e provoca-a:
     No acha que os mortos tm tanto direito  praa quanto os vivos?
    Mrs. Monroe entesa o busto e revida:
     No seu pas podem ter, mas no no meu.
     Ah!  exclama Dominique com um sorriso de rum.  Conhece ento o Haiti?
     Bom  hesita Millicent  nunca fui l pessoalmente, mas tenho lido muito a respeito. E, para ser bem franca, como protestante eu ainda duvido da veracidade dessa estria dos sete mortos no coreto.
    O marido intervm:
     Mas, darling, eu vi.
     Dvias estar j meio alto.
     No, honey, estava absolutamente sbrio. E centenas, talvez milhares de pessoas tambm viram e ouviram.  Segura o brao do francs.  Jean-Franois, diga  Millicent o que voc viu hoje ao meio-dia na Praa da Repblica.
    M. Duplessis, sem nenhum entusiasmo, resume:
     Sete defuntos no coreto, falando e movendo-se como gente viva.
     E cheirando mal!  acrescenta Dominique, preparando para si mesma mais um copzio de planters punch. O marido toma-lhe do carnudo brao e sussurra-lhe ao ouvido: Assez/ Assez/ Ela desvencha-se dele e diz-. Fou moi la paixr
     Nos Estados Unidos  diz Jefferson Monroe III  temos tido muitas greves de coveiros mas nunca, que me lembre, nenhum cadver se ergueu de seu caixo para vir perturbar os vivos.
    Parece menos preocupado com o que o fenmeno possa ter de sobrenatural ou pelo menos de inusitado do que com o comportamento social, as ms maneiras de sete antarenses que no se conformaram com a sua condio de mortos.
     Em nosso pas  prossegue, com um pouco de chumbo na voz  temos um lema que rege a nossa vida. Live and let live. Vive e deixa que os outros vivam.
    O francs sorri:
     Neste caso de Antares a frase deveria ser morre e deixa os vivos em paz.
    A haitiana continua a beber. Seus olhos esto cada vez mais brilhantes, seus gestos cada vez mais bruscos, sua voz cada vez mais animada. De instante a instante, sopra a mecha de cabelo que se obstina em cair-lhe sobre um dos olhos. De repente tomba sentada numa poltrona, depe o seu copo sobre uma mesinha, de onde apanha um exemplar do magazine Time e comea a abanar-se com ele. Mlicent, que ainda no leu esse nmero da revista, imagina com surdo rancor que sua capa vai ficar manchada do suor gorduroso da haitiana, e mal pode conter sua indignao. O remdio  afogar seu ressentimento num outro old-fashioned e amaldioar os trpicos.
     E que vai fazer a prefeitura com esses cadveres?  pergunta Jefferson.  Em nosso pas j teramos resolvido o problema.
     Chamando a Guarda Nacional?  ironiza o francs.
     Oh, nol Um comit de cidados teria descoberto uma maneira de levar esses stiffs de volta para os seus caixes.
     Somos um pas civilizado  diz Mlicent, olhando intencionalmente para Dominique Duplessis, que neste momento tira os sapatos, abre despudoradamente as pernas e puxa a saia, deixando  mostra um bom palmo de coxa morena, dum acetinado de ptala de magnlia. Dominique olha para o marido-.
     Tiens, Jean-Franois! Elle dit que les Amricains sont civiliss. Pff!
    Atira a cabea para trs e solta uma risada canalha, que pe a ferver o sangue presbiteriano de Millicent.
     Outra coisa  diz Jefferson, lanando um rpido olhar enviesado para as coxas de Dominique (o que no passa despercebido a Millicent)  em nosso pas jamais os grevistas industriais teriam usado dum estratagema de to mau gosto e to destitudo de tica como esse de no permitir o sepultamento de mortos.
    O casal chins continua calado, bebericando lentamente o seu guaran morno, ele com os lbios tocados por um espectro de sorriso e ela  talvez pressentindo aproximao de perigo  j com um vago e oblquo sustinho no rosto.
    Jean-Franois acende o seu Gauloise, cujo cheiro Millicent detesta, toma mais um gole de gim-tnica e volta-se para Jefferson:
     Por que vocs da Pan-American no pedem ao seu governo um regimento de marines para resolver o problema de Antares?
     No seja sarcstico!
     Ora, Jeff, veja que Undo... Se conseguissem mais essa vitria, os fuzileiros navais americanos poderiam at mudar o seu hino, assim:
    From the halls of Montezuma, 
    To the shores of the Ibicui.
     Very funny!
    Dominique, suando copiosamente, senta-se no sof ao lado da anfitrioa, que recua instintivamente ante esse mu-lhero excessivamente perfumado, de pele tostada e ardente.
     Ento voc no acredita que os mortos possam voltar?
    Millicent ergue altivamente a cabea (attagirl, keep your chin up!) como quando fez o papel de Major Barbara numa representao do grupo teatral de seu colgio.
     No. Absolutamente.
    A haitiana inclina-se sobre ela e segura-lhe o brao. Sentindo o contato desses dedos, Millicent afasta-se ainda mais. O hlito de rum da outra lhe provoca nusea.
     No Haiti nossos feiticeiros tm o poder de invocar os mortos...
     Superstio grosseira!
     Eu vi. Eu sei. Certos grupos pedem o sacrifcio de animais: galos, bodes, cachorros, porcos, pombos... Mas isso  o trivial. H uma seita, a minha preferida, cujos deuses so difceis de contentar. Exigem a morte dum cabri sans cornes.
     Um cabrito sem cornos  traduz Jean-Franois  isto , um ser humano.
     Basta!  grita Millicent, erguendo-se num prisco.
     Darling  intervm Jefferson  Mrs. Duplessis est brincando. Be a good sport!
     Hoje  diz Dominique  eu vi no coreto da praa o Baron Samedi.
     Tais-toi!  ralha o marido.
     Laisse-moi, vieux con!
    Jefferson quer saber quem  o Baron Samedi.
     Uma entidade mtica do vudu haitiano  explica sumariamente Jean-Franois.
    Mas Dominique, agora perigosamente de p e j rebolando as ancas ritmadamente, diz:
     Le Baron Samedi  o Deus dos Cemitrios... Usa fraque e chapu coco...  o chefe da Legio dos Mortos... Jai vu le Baron Samedi... hoje no coreto da praa!
     No quero saber de nada disso  exclama Millicent, encaminhando-se para a escada e murmurando: My God! My God!
     Allons-nous en!  rosna por entre dentes Jean-Franois segurando com fora os carnudos braos da mulher, enquanto Jeff, sempre de copo na mo, anda dum lado para outro, apaziguador: Girls! Girls!
    Dominique livra-se do marido e, soltando os bastos cabelos negros, que lhe caem sobre os ombros  o decote a mostrar-lhe o rego dos seios  comea a danar num ritmo de batuque, a sacudir as ndegas, os seios, enfim, as ricas carnes morenas, enquanto Millicent sobe a escada rumo do seu quarto.
     Dominique!  exclama Jean-Franois.
    Mas a haitiana est transfigurada. Desceu sobre ela um dos espritos do seu vudu nativo. E ela comea a recitar uma invocao:
     Par pouvoir de St. Jacques Majeur, Ogoun Badagris, ngre Baguido Bago, Ogoun Ferraille, ngre fer, ngre fer, ngre ferraille, ngre tagnifer nago, Ogoun Baiala... ngre, ngre batiocone nago. ..
    Uma espcie de vu gelatinoso lhe cobre os olhos negros. Um vaso j caiu duma estante e partiu-se no cho. Jean-Franois aproxima-se da mulher e aplica-lhe uma sonora bofetada em cada face.
    O Sr. e a Sra. Chang Ling, sem se moverem de seus lugares, continuam a olhar a cena, neutros e bidimensionais.
    
    LXXIV
    No jornal ntimo de Martim Francisco Terra, sob a data de 20 de maro de 1963, encontram-se as seguintes pginas :
    Duas da madrugada. Sem sono. O P. Pedro-Paulo e eu esta noite jantamos na casa do Dr. Quintiliano do Vale, juiz de Direito. At a, nada de extraordinrio. Boa comida, boa conversa, bom vinho. O juiz manifestou logo o seu ceticismo quanto ao tipo de amostragem que nossa equipe est fazendo em Antares. Isso tambm no tem importncia. O que me leva a escrever estas notas  a impresso que me causou Valentina, a esposa do juiz. Ora, um quarento bem casado como eu, pai de trs filhos, sujeito mais ou menos decente, vai desprevenido jantar na casa dum magistrado, esperando entediar-se, e eis que acaba vtima dum misterioso sortilgio e aqui est agora, no seu quarto de hotel a deva-near como um adolescente sobre a mulher que sem saber o enfeitiou: Valentina do Vale. Procuro e no encontro qualificativos para essa criatura e o primeiro que me vem diz pou-co-, perturbadora. Acontece que a capacidade de perturbar-se varia de pessoa para pessoa. Por que Valentina me impressionou tanto? (No sei quanto tempo essa impresso vai durar.) Ser que me lembra algum que um dia amei e se me apagou da memria? No creio. Corre pondera  imagem duma mulher vagamente vista em sonhos? Tolice, dessas que o silncio da madrugada costuma soprar-nos ao ouvido. O remdio agora  beber um copo dgua e recomear as reflexes. Feito! Caiu um pingo sobre o nome de Valentina, desfigurando-o.
    Idade? Balzaquiana, sem nenhuma dvida. A primeira vista, sua figura no diz muito. Jamais seria capa de revista. S depois que sentamos  mesa (eu  sua esquerda)  que comecei a perceber que estava na presena duma pessoa fora do comum. Rosto oblongo  e no sei se essa  a forma exata de sua face, mas confesso que gosto da palavra oblongo. Em geral as mulheres de rosto redondo me deixam frio, quando no irritado. Nariz indiferente. (Agora, que vem a ser um nariz indiferente?) Boca bem desenhada. .. mas este pormenor tambm no exprime nada de preciso, pois devem existir no mundo milhes de bocas bem desenhadas mas diferentes umas das outras, em maior ou menor grau. A tez? Nem muito clara nem propriamente morena. Lembra a de certas mulheres que conheci na Grcia, no sul da Itlia e em Portugal. Enquanto o juiz conversava com o jovem padre e a dona da casa dava ordens  copeira, entreguei-me a um jugo sutil: descobrir de que cor so os olhos de Valentina. E o sensacional desse jogo estava justamente em que tinha de ser jogado de maneira dissimulada, uma rpida olhada agora, outra depois  para no chamar a ateno da dona dos olhos e muito menos a do seu esposo e senhor. Conclu que eram da cor das guas do Mar Egeu que nos meus tempos de helenista delirante vi um dia da amurada dum navio de turismo: ora azuis, nos mais variados cambiantes, ora dum cinza-esverdeado ou violeta, tudo dependendo dos caprichos da luz. Para observar as cores do Egeu contei com o claro sol da Grcia; para pesquisar a dos olhos de Valentina tive de me contentar com a pssima luz eltrica de Antares. Agora, a voz. Sou muito sensvel a vozes. (Detesto a minha.) A de Valentina  seca, como se ela recusasse usar inflexes musicais para conseguir efeitos de persuaso, encanto, simpatia. .. Momentos houve em que me passou pela cabea a idia de que V.  professora e j exerceu o magistrio. Graas aos deuses, porm, no  nada didtica. Sinto que estou aqui como um desenhista que esboou s pressas, disfaradamente e a medo o perfil duma pessoa e agora em casa, com o auxlio da memria, trata de reforar ou completar os traos, ench-los, dar-lhes uma iluso de terceira dimenso, apanhar a parecena. Sinto que estou fracassando. Afinal de contas, para quem escrevo? Creio que  para os outros eus que virei a ser com o passar do tempo e que iro esquecendo cada vez mais as feies de Valentina, pois  possvel que nossos caminhos no se encontrem nunca mais. (Palavra que temo um reencontro!)
    Durante o jantar fiz algumas anotaes mentais interessantes. O Pe. Pedro-Paulo fica um tanto perturbado na presena dessa mulher. Entre o primeiro prato e a sobremesa surpreendi-o vrias vezes a olhar para ela com certo embevecimento. Notei tambm que o marido a vigia com um permanente ar apreensivo, e quando ela fala parece ficar inquieto, temendo talvez que ela diga ou faa alguma coisa  idia, palavra, gesto  inconveniente ou mesmo errada.
    Discutimos o nosso projeto sociolgico, livros, poltica nacional e internacional, pessoas, pintura, msica. O juiz me pareceu judidoso (aqui no vai nenhuma inteno de trocadilhol), falsamente profundo e arraigadamente convencional.  o que se convencionou chamar uma bela figura de homem, mas confesso que o achei um solene chato. Fala vagarosamente, medindo as palavras, e mais ou menos no estilo dum editorial de jornal antigo. Parece um homem cujo ideal  uma sociedade simtrica, policiada, regida por leis inflexveis e imutveis, cada coisa no seu lugar (e quem determina o lugar exato  a tradio, e tradio para ele  algo que tem a ver com seus ancestrais  pai, av, bisav, trisav, etc). Est sempre, notei, do lado do oficial, do consagrado, do legar. Deu-nos vrias amostras de suas idias e gostos no terreno da tica, da esttica, da poltica e da moral. Anda sempre corretamente vestido, jamais o vi despenteado, ou com a gravata torta, ou sem casaco. Parece-se mais com os austeros e convencionais juizes de comarca da minha infncia do que com os juizes de Direito de hoje, em geral de esprito to mais aberto.
    Valentina  no sei se observei bem ou desejei que a coisa fosse assim   o oposto do marido em tudo.
    Suas idias so arejadas, seus horizontes mentais largos. Fez observaes muito agudas e irnicas (mas nunca maldosas) sobre a sociedade local e durante esse perodo da conversao mais de uma vez, com o rabo dos olhos, vi o marido franzir o cenho para ela, como a repreend-la e faz-la calar-se. Afinal de contas, no estava ela diante do diretor do projeto de amostragem sociolgica de Antares?
    O Pe. Pedro-Paulo,  altura do prato principal, bateu inadvertidamente com a mo no seu clice de vinho, que caiu, manchando a toalha dum vermelho que de certo modo se refletiu no seu rosto, num encabulamento de seminarista. Valentina, com a maior naturalidade, p-lo  vontade, mas aposto que o juiz condenou o padre pelo delito, dando-lhe uma sentena magnnima mas em todo o caso exemplar.
    Ah! Descobri! Valentina  uma pantera aaimada. A idia me vem de repente. A est! Eu a aceito, no sei bem por que, mas aceito. Pantera aaimada. Por que pantera se no noto no corpo nem nos gestos de V. nada de felino? Sero os olhos enviesados e claros, de cores mutantes! Concluo que o smbolo  menos plstico que psicolgico. Dentro de Valentina dorme uma pantera aaimada pelo casamento, pelo marido convencional, pelas obrigaes maternas, pelos preconceitos das pequenas cidades onde o marido tem servido a Magistratura. E agora me vm outras lembranas e contrastes das conversas durante o jantar. Ela gosta de msica barroca, de msica folclrica, de msica popular, desde o samba de gafieira at o rockn rol?... Ele adora a pera. Informou-nos com um orgulho que me gelou o sangue que tem as peras de Verdi e Puccini completas, em discos, e que pelo menos uma vez por semana, geralmente aos sbados, ficam ambos a escutar peras inteiras, na meia-luz da biblioteca. Imaginei o juiz a acompanhar com a cabea as rias e os trechos mais cantveis da Traviata, do Rigoletto ou da Tosca, enquanto a um canto a pobre Valentina dormita ou boceja. Estarei fazendo uma caricatura se imaginar que o Dr. Quintiliano (um belo tipo de homem, repito, e possivelmente um bom carter) j lhe contou mais de dez vezes os enredos de II Trovatore e de Madame Butterfly?
    E a pantera aaimada fica no seu canto, encolhida mas viva, alerta, esperando a hora da libertao. Se um dia algum lhe tirar o aaimo ou ela prpria arranc-lo num momento de revolta... que poder acontecer? Decerto saltar faminta sobre a vida, sair correndo livre... e o juiz morrer de susto e vergonha.
    Mas no! Os dois filhos do casal mantm nas mozi-nhas a corrente que prende a pantera. E, haja o que houver, ela continuar enrodilhada no seu borralho. Que lstima! No me conformo com a idia de que esse magnfico espcime humano tenha de passar o resto da vida fazendo o papel de gata domstica. No h justia na Terra. O Pe. Ge-rncio me assegura que haver justia no Cu. Esperemos, desconfiando.
    
    LXXV
    Cerca das nove horas desta noite em que sete mortos esto em silenciosa viglia na praa principal de ntares, dentro dum coreto sitiado por urubus e ratos, o Dr. Quintiliano do Vale encontra-se sentado na sua poltrona de ve-ludo, na biblioteca de sua casa, alumiada pela luz branca dum lampio Aladim. Faz j alguns minutos que mantm os olhos voltados para a lombada dos livros de Direito que se enfileiram na estante  sua frente, em ordem alfabtica e por nome de autor  e ai de quem ousar tirar um volume de seu lugar!  mas pela expresso distante de seu olhar  fcil perceber que as imagens dos livros so apenas um indistinto pano de fundo diante do qual passam lembranas de imagens, sons, odores e sensaes... Santo Deusl Aquele meio-dia na praa, a cancula, as caras hediondas e a podrido dos cadveres, a gritaria dos rapazes nas rvores, os urubus voando em torno do coreto, e as palavras de dio trocadas entre vivos e mortos...
    Quintiliano h pouco tomou a terceira ducha fria da tarde. Ensaboou o corpo furiosamente, suspeitando de que a gua cheirava a rato podre. Mesmo agora, metido em roupas frescas  mas j sentindo na pele a umidade dum novo suor  tem ainda a impresso de que guarda nas narinas, ou pelo menos na memria, o fedor dos defuntos. Como Valentina, no teve apetite para comer o que quer que fosse  hora do jantar. Os pratos voltaram intocados para a cozinha. Limitaram-se, marido e mulher, a beber gua mineral morna. E agora, ainda perplexo, o juiz procura dispor mentalmente pedaos daquele doido quebra-cabeas, daquele desvairado jogo de armar, tentando formar com eles um desenho inteligvel. Em vol Sente no corpo todos os efeitos da soalheira e das emoes. Suas idias lhe parecem embaciadas e o simples ato de pensar lhe produz dor fsica, projeta-o estonteado em abismos sem fundo.
    Que todo esse horror no  apenas parte dum enorme e prolongado pesadelo ele j sabe, embora ainda no tenha aceito por completo a inslita e srdida realidade. Nunca, nos seus quarenta e trs anos de vida, viu coisa semelhante, a no ser em fantasias da fico de horror, gnero literrio que no aprecia. Teme agora pelo dia de amanh. Pensa vagamente em sair da cidade com toda a famlia para evitar um encontro e um confronto com os representantes da imprensa de Porto Alegre. Suponhamos  reflete  que os mortos desapaream durante a noite por obra de Deus, do diabo ou do delegado de polcia de Antares... Mesmo assim, que dizer aos jornalistas? Se os defuntos ao raiar do dia estiverem ainda no seu reduto, bastar dizer aos forasteiros: Ei-losl Fotografem-nos. Interroguem-nos. Escrevam sobre eles. Interpretem o fenmeno. Mas no me perguntem nada. Est convencido, porm, de que os reprteres exigiro dele um pronunciamento. Tudo isso o deixa ainda mais perturbado. Sente-se bem e seguro no convvio das regras, das normas: perde-se em pnico quando defronta as excees, as anormalidades.
    
    LXXVI
    Quintiliano ouve os passos da esposa no andar superior. Faz quase meia hora que ela subiu para pr os filhos na cama e faz-los dormir, ao som das habituais estrias e cantigas.
    Minutos mais tarde, quando Valentina entra na biblioteca, ele pergunta:
     Dormiram?
     Dormiram, mas antes conversaram muito. Esto um pouco assustados com os ratos.
     Ainda bem que nada sabem dos mortos na praa.
      o que tu pensas. Infelizmente a criada contou tudo a eles. Me fizeram perguntas sobre a morte. Me, por que  que a gente morre?  Deus que manda a gente morrer? Quem morre pode acordar e voltar pra cidade? O que  que esses mortos esto fazendo no coretinho da banda?
     E tu?
     Ora, transformei tudo numa espcie de conto de fadas. Pasteurizei a realidade.
     Realidade?  repete Quintiliano baixinho, como fazendo a pergunta a si mesmo.
    Valentina senta-se na poltrona menor, perto do lampio, apanha um nmero da revista Manchete e comea a folhe-lo distraidamente.
     Conto de fadas...  murmura o juiz de Direito.  E no entanto estamos vivendo um conto de pavor.
     Pensa nos contos de horror que os jornais nos fornecem todos os dias: guerras, crimes requintados, genocdio, aberraes sexuais e crueldades de toda a sorte...
     Pois eu critico os romances que andas lendo, exatamente porque repetem em cmara lenta, com requintes de pormenores srdidos, explorando-as com fins sensacionalis-tas, todas essas misrias humanas sobre as quais lemos diariamente nos jornais. Entre as personagens desses livros no h lugar para o homem normal, o homem comum, o homem bom, nem para os aspectos positivos e belos da vida.
     Se queres discutir de novo o assunto, Quintiliano, estou pronta. Vou te provar mais uma vez que, alm de conformista, s um escapista. Olhas o mundo atravs da tua janelinha estreita,  qual ds nomes pomposos: Tradio, Justia, Direito, Ordem, etc... Quando vs algo que te re-pugna ou assusta, fechas depressa a janela e te refugias no fundo da tua famosa cidadela interior, guardada por uma milcia secular, e l ficas quieto e encolhido como um feto no ventre materno... E o mundo que se dane! Para ti a Justia j deixou de ser um meio para ser um fim em si mesma.
    O juiz olha surpreendido para a mulher, em cuja voz nota uma aspereza desusada.
    Ele apanha um livro, abre-o ao acaso, finge ler, mas na realidade fica a observar dissimuladamente o rosto da esposa. O sexto sentido que ele se gaba de possuir e que tantas vezes o tem ajudado a descobrir o criminoso na face do anjo  e vice-versa  a sua famosa intuio lhe diz agora que no ntimo de Valentina uma tempestade comea a armar-se. O jeito como ela tira um cigarro do mao e o aperta com fora com os lbios, o quase frenesi com que o acende e depois solta uma baforada de fumaa (e ele j a proibiu de fumar na sua presena, uma vez que ela se nega a abandonar de todo o vcio do fumo)  tudo isso confirma a sua suspeita. Ele pode agora aproveitar a deixa para fazer a pergunta que recalcou desde que chegou a casa, ao anoitecer.
     Por que foste  praa hoje ao meio-dia? Ela o encara, num movimento rpido de cabea.
     Havia alguma razo especial para eu no ir?
     Foi um espetculo desagradvel, imprprio para uma dama.
     Quem te garante que sou uma dama...?
     Valentina!
     Quero dizer, uma dama segundo a definio do teu dicionrio particular. Se eu te mostrar uma lista dos lugares aonde desejo ir e das coisas que desejo fazer, ficaris chocado e talvez deixasses de me considerar uma dama.
    Ele fecha o livro com fora, atira-o sobre a mesinha, a seu lado, ergue-se, d alguns passos duros at  janela e ali fica, aparentemente olhando a noite clida e as ruas escuras e desertas.
     Se eu soubesse que ias presenciar aquelas cenas repulsivas, ouvir aquelas frases grosseiras  murmura ele sem se voltar  eu no o teria permitido.
     Muito bem, mentissimo.
    Ele se volta de inopino, corno se essas palavras fossem pedras que a mulher lhe tivesse atirado na nuca.
     Por que disseste isso?
     Isso qu?
     Mentissimo.
     Mas no  assim que te chamam no tribunal, nos jornais, nos requerimentos? O mentissimo juiz... o colendo magistrado. Esses adjetivos te gratificam, eu sei, te produzem uma sensao quase de onipotncia... 
    Ele a mira com pasmo.
     No estou te reconhecendo, Valentina.
     Se nunca me conheceste direito, como podes agora me reconhecer?
    Por algum tempo ele permanece de mos tranadas s costas, fitando o tapete, e depois, num tom quase paternal, diz:
     Na certa ficaste perturbada com o que viste e ou-viste hoje na praa. Por isso te perdo.
     Ah! Queres dizer que me absolves. Obrigada pela generosidade. Mas deixa que te diga que perturbada no  exatamente a palavra. Edificada, isso sim.
     No ser melhor mudarmos de assunto?
     No. Esta  a noite da verdade.
     E por que esta e no todas as outras?
     No te lembras das palavras do Dr. Ccero sobre o baile de mscaras? Vamos tirar as nossas... s esta noite.  um convite a um jogo. Se quiseres (j que s o homem do mtodo, o cronometrador nato) podes marcar o tempo de durao do brinquedo. Digamos meia hora.  o quanto me basta.
     Podemos conversar como sempre temos conversado toda a nossa vida de casados, como adultos, sem essas in-fantidades.
     Eu dispo a fantasia da virtuosa esposa do magistrado. Durante os prximos trinta minutos (ou vinte, se prefe-rires) deixarei de ser uma matrona romana. Tu despes a tua toga profissional. Seremos dois seres humanos to completamente despidos quanto possvel, um diante do outro. Feito?
     Se eu no te conhecesse, diria que ests b... embriagada.
    
    LXXVII
     Eu vou comear o jogo  diz ela.  Senta-te.  Ele obedece, a contragosto, mas fica tenso, o busto teso.  Quintiliano, estou farta desta vidinha, farta desta cidade, farta de todas as nossas mentirinhas cotidianas, da nossa rotina estpida... desse eterno faz-de-conta... Ser que me compreendes?
    A voz dela  uma surdina fria, o que deixa Quintiliano ainda mais alarmado.
     Tu sabes  continua Valentina  eu sei, milhares de pessoas sabem que tudo quanto os mortos disseram hoje na praa contra os nossos grandes prceres  verdade...
     Como podes...  comea o juiz, mas ela o silencia com um gesto decidido.
     Espera. Me deixa terminar. Tu, que dizes amar a Justia com jota maisculo, tu que pretendes ser o defensor da Ordem e da Lei, tu cultivas a amizade de crpulas como o prefeito Brazo e esse repulsivo Cel. Vacariano.
     Valentina!
     Peculatrios, falsrios, ladres vulgares. Pior ainda. Apertas a mo dum assassino perverso como o delegado Pi-garo. Vais  casa desses homens, aceitas convites para comer com eles... e eu tenho de te acompanhar em tudo isso, tomar parte na farsa, afivelar uma mscara, sorrir para as mulheres desses pais da ptria, essas vacas gordas cheias de peles caras e jias pagas com o dinheiro que os maridos roubam do povo... Tenho de mentir, fingir... E o mais terrvel, Quintiliano,  quando convidas esses bandidos e esses larpios para se sentarem  nossa mesa. Por qu? Por qu?
    De novo ele se pe de p. Por alguns instantes fica a andar, acima e abaixo na sala, mudo mais de espanto que de indignao, a cabea a doer-lhe mais intensamente que antes.
     Que foi que te aconteceu, Valentina? Nunca nestes nove anos de vida matrimonial, nunca me f alaste dessa maneira. Tornaste alguma droga?
     Tomo todos os dias a plula amarga desse tipo de vida, que me metes na boca e que me obrigas a engolir sorrindo.
    Ele cobre o rosto com as longas mos espalmadas e fica assim por algum tempo. Depois diz:
     E incrvel que tenhas aceito essa... essa realidade da volta dos mortos com tanta naturalidade e acreditado no que disse um... um cadver.
     Aceito isso com a mesma naturalidade com que todos ns aceitamos a realidade no menos srdida e absurda da Babilnia e das outras favelas, com a mesma inocncia com que acreditamos desde a infncia nas mentiras que nossos pais e nossos professores nos contaram sobre a vida.
     Ah! Esses livros que andas lendo... Essas obras que esse padre esquerdista te recomenda e empresta!
     No metas o Pe. Pedro-Paulo no assunto. Isso  uma boa maneira de desconversar.
     Que queres ento que eu faa... que eu diga? Ela nem se d o trabalho de responder  pergunta.
     No me vais dizer (espero) que no sabias tambm que o Joo Paz foi torturado e assassinado, e que essa morte natural por embolia pulmonar foi uma farsa indecente inventada pelos assassinos da polcia com a cumplicidade do Dr. Lzaro... outro amigo teu.
     Tu no sabes, criatura, que no se pode acusar ningum sem provas?
     E por que, ento, quando o Dr. Ccero te atirou aquele papel com uma denncia formal escrita, tu permi-tiste que o Cel. Tibrio te arrancasse o documento das mos e o rasgasse em pedaos na frente de toda aquela multido?
     No compreendes, ser possvel que no compreendes que estvamos todos dentro dum pesadelo... duma situao anormal? Todo mundo desnorteado, incapaz de raciocinar. .. Sete mortos saem de seus caixes e, j decompostos, vm para a praa pblica dialogar com os vivos... Tudo isso  inaudito, absurdo, insensato... impossvel!
    Aproxima-se da mulher, segura-a pelos ombros sem rancor mas tambm sem afeto e diz:
     Como pode um juiz aceitar no dia 13 de dezembro a denncia feita por um homem que morreu comprovada-mente no dia 11 desse mesmo ms? Nenhum tribunal do mundo inteiro, em tempo algum, aceitaria essa prova como vlida. Tu no queres compreender. O que queres  me agredir.
     No. Eu quero te abrir os olhos, esses teus olhos que s vem a imagem que criaste para ti mesmo e que tanto se parece com a do teu falecido pai. Teu objetivo mais alto na vida  chegar a desembargador, como o Velho. E eu tenho de polir essa imagem todos os dias, evitando que ela seja manchada ou arranhada. A minha vida pouco te importa. No te passa pela cabea a idia de que eu tambm sou uma pessoa humana como as outras, que estou viva... que... que no sou um rob... um computador programado s para te servir!
     valenna, por amor de Deus, fala mais baixo.
     Falarei em surdina para os estranhos no me ouvirem, para os vizinhos no descobrirem que o futuro desembargador Quintiliano do Vale, filho e neto de magistrados, no  adorado, idolatrado pela esposa. Quantas vezes me contaste que tua me serviu ao teu pai como uma escrava, apagando-se, anulando-se em benefcio do Grande Homem?
    Ele est rgido, calado. De repente explode:
     Cala essa boca!
     Comeas a perder a Unha apolnea, Quintiliano. Isso  um sinal de que te humanizas. No agento mais o tdio desta vida, os livros maantes que me obrigas a ler para que eu me eduque propriamente e me torne uma esposa digna dum desembargador... No suporto os teus chatssimos amigos. Estou enfarada das tuas Traviatas, das tuas Toscas, das tuas citaes latinas, da tua falta de senso de humor. Deixa que te diga: tu te levas demasiadamente a srio. E a vida est passando. O tempo perdido  irreversvel.
    
    LXXVIII
    Por um momento Quintiliano do Vale parece que est  beira do pranto. Sua face revela espanto, desapontamento, tristeza. Faz-se um silncio em que Valentina acende outro cigarro. Por fim, procurando dominar a voz, ele murmura:
     Devo te confessar que no sei o que dizer. Estou profundamente magoado e decepcionado contigo.
     No esperes que eu diga sinto muito, que estou arrependida de ter dito o que disse. Porque no estou.
     Que pretendes fazer agora?
     Fazer? Sei l! Disse o que h muito te queria dizer. Agora  a tua vez de falar... 
    Ele se senta, dessa vez derreado, a cabea latejante cada sobre o respaldo da poltrona, os olhos fechados.
     No, no estou nesse jogo. S quero saber que pretendes fazer agora.
     Nada, como sempre. A vida vai continuar como antes. Eu sei. Tu no vais mudar. Eu no vou mudar. Os outros tambm no mudaro... 
     Estou me Teferindo  nossa situao matrimonial. Ela esmaga a ponta do cigarro contra o fundo dum
    cinzeiro, cruza os braos sobre o peito, como se estivesse sentindo frio, e diz:
     Se pensas que existe outro homem, ests enganado. No existe. Nunca existiu. Ainda gosto de ti.
     Gostas... Esse  o verbo?
     Preferias, imagino, que eu dissesse formalmente que ainda te amo.
     No, Valentina, eu no preferia coisa nenhuma. Talvez desejasse que no tivesses dito tudo quanto disseste. Agora  tarde. As palavras, como o tempo, so tambm irreversveis. Tu me feriste profundamente.
     Esta  uma noite especial, Quintiliano. Numa casa fechada abriu-se por acaso uma janela, uma porta...
     E por ela entrou a podrido de sete cadveres insepultos.
     Talvez. Mas com esse hlito de sepultura entrou uma aragenzinha benfica de sinceridade.
     Tu me insultaste cruelmente. No sou o homem que descreveste. No me considero nenhum covarde, nenhum vaidoso, nenhum esnobe. E nunca esperei ou desejei que fosses minha escrava mas sim minha companheira. E vou te provar que se eu fosse tudo isso que dizes, h muito eu teria...  Cala-se por um instante e depois, mudando de tom, diz:  Bom.  melhor eu te mostrar uma carta que recebi h mais de um ms.
    Tira do bolso a carteira e de dentro desta um papel dobrado, que entrega a Valentina. Desdobrando-o, ela reconhece a folha quadriculada das Balmacedas. Aproxima-a da luz e l:
    Dr. Quintiliano: Sua esposa e o jovem Pe. Pedro-Paulo so vistos freqentemente junti-nhos como dois namorados. A coisa est dando na vista de todo mundo. Cuidado com os chifres, doutor. Quem avisa amigo .
    Anjo da Verdade Valentina sorri.
     Por que guardaste este papel sujo com tanto cuidado?
    Ele d de ombros.
     No sei, talvez por curiosidade.
     Por que no me mostraste esta carta annima, se a recebeste h mais de um ms?
     Para no te insultar.
     E por que me mostras agora? Para me insultar? Para provar que s magnnimo? Ou que tens confiana em mim?
    Ele apanha em silncio o papel que ela lhe devolve e rasga-o em muitos pedaos, que atira no cesto ao p da escrivaninha.
     Queres que eu te diga uma coisa? Essa carta te fez muito mal. Agora compreendo por que no convidaste mais o Pe. .Pedro-Paulo para vir  nossa casa.
     Ests enganada.
     No estou.
     No vais negar que mudaste muito de idias depois que fizeste amizade com esse padre.
     Ahi Eu tinha razo... Achas que no sou capaz de ter idias prprias. Finalmente a carta das Balmacedas produziu o efeito que elas desejavam. Envenenaram-te o esprito. Numa sociedade como esta em que .vivemos, triunfam sempre os Vacarianos, os Brazes, os Pigaros e as Balmacedas. Confessa, Quintiliano, que tem te passado muitas vezes pela cabea  possibilidade de que eu esteja apaixonada pelo Pe. Pedro-Paulo e ele por mim.
     Que ele est enamorado de ti todo o mundo pode ver. Ele no consegue ou no procura esconder isso.
     E tu ests apavorado  idia de que a cidade inteira possa estar falando do meu caso com o padre, e que o teu nome respeitvel anda sendo arrastado na lama (no  assim que se diz?). Quintiliano, quando  que vais ficar completamente adulto?
     Valentina, no basta a uma mulher ser honesta.  preciso tambm parecer.
     Estamos de volta ao baile de mscaras.
     Por amor de Deus no me fales mais nisso!
     Est bem. O jogo terminou. A Justia triunfou.
     No achas que j nos insultamos o bastante esta noite?
     Eu no me sinto insultada, mas aliviada. Disse o que h anos venho querendo te dizer. Vou dormir em paz.
     E pouco te importas que eu passe a noite em claro, pensando em tudo quanto me disseste...
    Ela o interrompe:
     Vais passar a noite pensando na tua carreira, no teu futuro, na tua desembargadoria, e no perigo de passar por marido enganado pela mulher... e logo com um padre ... e um padre com idias ditas esquerdistas. E tudo isso que na verdade te preocupa mesmo, no ?
    Ele solta um suspiro que lhe vem do fundo do peito.
     No digas mais nada. Eu vou me recolher.
    Quintiliano do Vale est j no meio da escada, a caminho do quarto de dormir quando ouve de novo a voz da mulher:
     Uma coisa aprendi esta noite.  que o depoimento dum morto no tem valor nenhum, mas uma carta annima do Anjo da Verdade pode conter uma revelao capaz de mudar uma vida... muitas vidas.
    
    LXXIX
    Inocncio Pigaro chega a sua casa antes das nove da noite.
     No vais comer alguma coisa?  pergunta-lhe a mulher.
     No.
    Tira o casaco, a gravata, os sapatos e deixa-se cair pesadamente numa poltrona.
     No queres ao menos beber alguma coisa?
     Cerveja choca?
     No! Arranjei uns cubos de gelo com a vizinha.
     Venha ento um copo de cerveja.
    Minutos depois ele o tem na mo, bebe um gole largo, lambe a espuma que lhe ficou nos beios.
    A mulher permanece a seu redor, fazendo pequenas coisas que ele sabe desnecessrias. Percebe que ela lhe quer dizer alguma coisa mas no encontrou ainda a oportunidade ou a coragem para isso.
     Vamos, Beata, diz logo o que tens a dizer.
     O Mauro foi-se embora pra Porto Alegre no nibus das quatro.
     Eu sabia.
     Como?
     Um delegado de policia deve saber de tudo que se passa na sua cidade, no deve?  Depois dum silncio curto, pergunta:  Ele se despediu de ti?
     No. Me deixou uma carta. Queres ler?
     No. No me interessa.
     Como? E teu filho.
      um homem. Que viva a sua vida.
    Ela apanha um trabalho de agulha e senta-se na frente do marido. Observando-a obliquamente eie verifica que lgrimas lhe escorrem pelo rosto, mas nada diz nem faz.
     s vezes chego a pensar que a morte seria prefervel a... a tudo isto  diz ela com voz machucada.
     Morrer no  soluo pra nada.
     Tens de sair de novo esta noite?
     S se o prefeito me chamar... ou se surgir alguma novidade.
     Que  que vocs vo fazer com esses... esses defuntos?
     Se a coisa dependesse s de mim, eu encharcava o coreto de gasolina e prendia fogo nele. No custa muito caro construir um coreto novo.
     Mas seria horrvel.
     Horrvel por qu? No sabes ento que em certos pases os mortos so incinerados?
    Inocncio Pigaro esvazia o copo e pe-no em cima da mesinha, a seu lado, atira a cabea para trs sobre a poltrona e cerra os olhos. Por alguns instantes Beata fica examinando o rosto cansado do marido  as plpebras arro-xeadas, as olheiras marcadas, a barba cerrada, j com fios grisalhos. Estar dormindo? Ela o contempla em silncio e espera. Ele torna a abrir os olhos e fica olhando fixamente para o teto.
     Inocncio, tenho que te confessar uma coisa.
     Que ?
     Estive na praa hoje ao meio-dia, Vi e escutei tudo.
     Sim... e da?
     Ouvi as acusaes que te fizeram.
     E agora queres saber se tudo aquilo  verdade...
     Sei que no .
     E se eu te disser que ?  pergunta ele, pondo-se de p e encarando-a, quase num desafio.
     Continuo a no acreditar.
     E por qu?
     Porque no te julgo capaz de tantas malvadezas. Ele sorri, amargo.
     No esqueas que sou um policia profissional. Tenho obrigaes definidas. Cumpro o meu dever da melhor maneira possvel.
    Beata movimenta, num automatismo, as agulhas verdes.
     Protejo a sociedade  continua ele, quase sarcstico  a nossa distinta sociedade contra os ladres, os assassinos, enfim, os contraventores da lei, os terroristas, os subversivos... os... ora!... tu sabes muito bem o que quero dizer.
     O Joozinho Paz sempre me pareceu um moo direito e pacato. Fui colega de escola primria da me dele.
     O Joozinho era um elemento perigoso. Foi denunciado como sendo o chefe do grupo dos onze em Antares, um bando de guerrilheiros (existem milhares em todo o pas) que entraro imediatamente em ao logo que vier o golpe da esquerda. Mandei prender o rapaz pra um interrogatrio de rotina.
    Inocncio pe-se agora a andar acima e abaixo, na pequena saia de estar. Sua mulher continua aparentemente absorta no seu trabalho manual.
     O Brasil est em vsperas de acontecimentos muito srios, Beata. Basta ler os jornais para ver isso... E tu sabes que o Cel. Tibrio e o Maj. Vivaldino no rezam pelo breviario do Jango e do Brizola. So contra o comunismo e o caos.
    Beata continua a tricotar em silncio, fungando a intervalos, os olhos ainda midos.
     O Joo Paz e os seus companheiros  prossegue Inocncio  andavam por toda a cidade, alta madrugada, pichando frases revolucionrias em muros e paredes. J pensaste no que nos aconteceria a todos ns se os comunistas tomassem conta deste pais?
     Nem quero pensar.
     Pois eu te digo. Teramos, na semana seguinte  do golpe, tropas americanas desembarcando no Brasil, isso na melhor das hipteses. Na pior, uma guerra civil para durar muitos anos... e a anarquia, a misria, talvez at a fome.
    Depois dum silncio, ela pergunta:
     Mas o Joozinho era mesmo culpado?
     O rapaz pelo menos no era inocente. Foi interrogado normalmente. Negou-se a dizer o nome dos outros membros do grupo. Insistimos, ameaamos. Ele continuou calado. Ofendeu os que o interrogavam. No nego que usamos um certo tipo de violncia. No h policia no mundo inteiro que no empregue esses mtodos, umas mais, outras menos...
    Beata ergue vivamente a cabea:
     E depois?
     Ora, precisvamos descobrir e prender com urgncia os outros dez guerrilheiros. Entreguei o interrogatrio aos meus especialistas. Um deles cometeu um erro tcnico e matou o rapaz. Essa  a verdade. E no vamos falar mais nisso!
     Mas j pensaste que o Joozinho podia estar mesmo inocente?
     Ningum no mundo  de todo inocente. Um polcia deve partir sempre do princpio que, dum modo ou de outro, todos so culpados, at prova provada em contrrio.
     Aquela estria do hospital ento...  verdade?
     Descontadas as fantasias do crpula do Ccero... . Eu tinha de me defender, porque se o fato fosse divulgado pelos jornais de todo o pas, qual seria a minha situao? Os chefes tratariam de tirar o corpo fora e jogar toda a culpa pra cima de mim e no fim o nico prejudicado seria eu.
    Inocncio boceja. Beata pergunta:
     E se os comunistas um dia tomam mesmo o poder no Brasil... que vai ser de ti?
     Ora, de duas uma. Ou me pem contra um paredo e me fuzilam sumariamente ou me poupam a vida e me utilizam. J te disse mil vezes que sou um polcia profissional, um tcnico, em suma, um homem til a qualquer regime, mesmo aos chamados democrticos.  Ela ergue os olhos tristonhos para o marido, que continua:  Escuta aqui, Beata, o mundo se divide em vencedores e vencidos. Os vencedores  que decidem quem  ou no  culpado. Se os nazistas tivessem ganho a Guerra, os rus de Nuremberg teriam sido os chefes civis e militares aliados...
     E se um golpe fascista triunfa no Brasil?
     Tambm serei fuzilado ou aproveitado. E pelas mesmas razes. Comunismo e fascismo so duas faces da mesma moeda. Dentro de poucos anos, mulher, o chamado liberalismo democrtico no passar dum artigo de museu: uma moeda de cobre azinhavrado de valor puramente histrico... e muito pequeno.
    Um relgio comea a bater lentamente as nove horas.
     E esses defuntos continuam apodrecendo no coreto  resmunga Inocncio, irritado. Beata permanece em silncio. Depois recomea a chorar baixinho.
     Por que essas lgrimas?
     Estou pensando no nosso filho.
     E um romntico, com todo o seu materialismo dialtico. Anda com a cabea cheia de idias confusas. Acho que nem sabe direito o que quer. E  preciso tambm que saibas duma coisa importante. Interrogamos a mulher do Joozinho e ela nos deu o nome de nove dos dez do grupo que o marido chefiava. Ficou faltando um nome. s vezes desconfio que o Mauro  o dcimo. ..
     Inocncio! Parece at que odeias o teu prprio filho...
     No, Beata,  ele que me odeia. Vi isso nos olhos do rapaz aqui nesta sala, onde batemos boca hoje de manh, e mais tarde na praa, quando o Ccero estava falando mal de mim. Odio, dio foi o que vi na cara de meu filho quando nossos olhares se encontraram...
    Aproxima-se da janela aberta, olha distraidamente para a rua, mas seu olhar interior se vai pelos corredores do tempo e ento de sbito  uma manh de inverno, seu pai corre, fugindo na direo do rio  Pega o bandido! Pega o bandido I  e um homem cado de bruos na sarjeta solta pela boca golfadas de sangue...
    Inocncio Pigaro volta-se bruscamente para a mulher e murmura:
     Um consolo me resta... Um dia o Mauro vai casar, ter um filho... e esse filho vai tambm odiar o pai.
    
    LXXX
    Alta madrugada, insone em seu quarto, o Pe. Pedro-Paulo faz o seguinte registro em seu dirio ntimo:
    Como prometi a Joo Paz, levei hoje Rita para o outro lado do rio. Geminiano emprestou-me o seu jipe para a primeira parte dessa operao de contrabando. Eram cerca de onze horas e as ruas estavam completamente desertas. A meu lado no carro, Rita permaneceu silenciosa durante o trajeto de sua casa  beira do rio. Deixei o jipe acamaleo-nado na sombra duma grande rvore, num beco, segurei o brao de Rita e descemos devagarinho a barranca at ao Trapiche Pequeno. Romero estava no seu posto e me ajudou a fazer a moa descer sem esforo nem choques -para dentro do seu barco, que ele ps logo em movimento.
    Cheiro de gua e peixe no ar ainda saturado do mor-mao do dia. Romero silencioso ao leme. Rita na proa, sentada de costas para o pas onde ia entrar clandestinamente, olhava para Antares que ia ficando cada vez mais recuada. .. Devia estar pensando na estranheza de tudo aquilo. .. O marido morto sentado no coreto da praa. O filho de ambos aninhado em seu ventre. O grande rio, o grande cu, o grande mistrio da vida e da morte.
    Meu corao batia quase to rpido como o do barco. Medo? Sim, mas quero crer que no por mim, mas pela mulher grvida que estava conosco, e tambm pelo dono do barco. Ocorreu-me um simile que o Pe. Gerncio acharia profano: a fuga da Virgem Maria com o Menino para o Egito.
    Do outro lado do rio piscavam as luzes da vila do Farolito. Quando estvamos a uns- duzentos metros da costa argentina, Romero fez parar o motor da lancha. A cerca de um quilmetro ao sul de Farolito vimos uma luz pisca-pis-car.  o sinal combinado...  resmungou o nosso piloto. Pop.cos minutos depois fazia o seu barco entrar numa pequena enseada, sob ramadas. Dois vultos, um homem e uma mulher, nos esperavam em terra firme. Romero trocou com ambos algumas palavras em voz baixa. Rita me apertou a mo e me beijou numa das faces. Os dois desconhecidos ajudaram-na a sair do barco e a levaram noite e terra a dentro, em silncio.
    Nosso barco comeou a viagem de volta. Eu sentia na face um ponto entre fresco e morno  a lembrana dos lbios da mulher de Joo Paz. Passamos o nosso contrabando  murmurou Romero, acendendo um cigarro. E brincou: Padre, o senhor bem que podia mudar de profisso... Respondi: Quem lhe garante que j no mudei? E no trocamos mais palavras durante o resto da travessia.
    Estvamos no meio do rio quando me veio  cabea a famosa frase de Herclito: Ningum cruza duas vezes o mesmo rio. Sim, refleti, ningum nunca fala com o mesmo homem duas vezes. O Pedro-Paulo que deixou a margem esquerda do Uruguai no era o mesmo que chegou minutos depois  margem direita, e ser outro quando tornar a pisar solo brasileiro. Mergulhei um dedo na gua e isso me evocou cenas da infncia, pois nasci numa vila banhada por um pequeno rio. Passou-me pela mente a face e a voz duma professora de escola primria: Os rios correm para o mar. O tempo  um rio (o rosto de Martim Francisco) que nos leva para o oceano sem princpio nem fim do Nada. Lembrei-me da nossa longa conversa no outono passado sobre a nitude humana. A voz do amigo me veio ntida  memria, em palavras que no esquecerei to cedo: Voc j pensou como nossa vida seria barata e sem sentido se a gente soubesse que no ia morrer nunca? Quando muito moo, eu me sentia como uma personagem que tinha entrado por engano numa pea a cujo elenco no pertencia. Eu me movia num palco estranho sem ter idia do meu papel, e tudo a meu redor parecia impreciso, absurdo e relativo. Um dia, mais velho, decidi olhar a morte cara a cara ou, melhor, cara a caveira, e da por diante passei a me sentir uma pessoa, um indivduo real, concreto, pertinente e at cheguei a pensar com saudvel petulncia: se a morte  a nica coisa absoluta da vida, por que no hei de fazer da minha existncia tambm um fato absoluto?
    Apertei a mo de Romero antes de deixar o barco. Obrigado, amigo! E que Deus o ajude. Soltando uma baforada de funtaa, ele respondeu: No posso me queixar do Velho. Sempre me tem dado tudo que preciso.
    Subi a barranca. Um cachorro latiu num quintal prximo. Uma criana de colo rompeu a chorar dentro duma das casinholas vizinhas. Alcancei finalmente a Rua da Margem e divisei na sombra um vulto humano. Encaminhei-me para o lugar onde havia deixado o carro, e percebi que o desconhecido me seguia. Algum da polcia? Curioso, meu corao agora batia sereno. Continuei a andar, voltava de quando em quando a cabea e percebia que o vulto ainda me seguia, cada vez mais de perto. Decidi parar e enfrent-lo, como Martim Francisco fizera com a morte. Em dez ou doze passadas o homem chegou  minha frente, to perto de mim que senti o seu hlito de cachaa.
     Boa noite, padre.
     Boa noite, Mendes  respondi, reconhecendo o secretrio do prefeito.
     Posso acompanh-lo?
     E por que no?
    Retomamos a marcha lado a lado. Fui o primeiro a falar:
     No vai me perguntar que  que ando fazendo por estas bandas a estas horas?
     No  necessrio. Eu sei. O senhor acaba de voltar do outro lado do rio, aonde foi levar a Ritinha Paz.
     E agora... vai me denunciar?
     Est se vendo que o senhor no me conhece, padre. No sou polcia. Nem delator.
     Por que ento nos seguiu?
      melhor eu lhe contar tudo duma vez. A Ritinha foi a nica mulher que amei de verdade em toda a minha vida. Quis casar com essa menina, mas ela preferiu o Joo Paz. Que era que eu podia fazer? Mas ainda gosto dela. Depois que aqueles bandidos prenderam o Joozinho eu me julguei responsvel pela Rita, passei a cuidar dela... mas de longe, para no dar motivo pra falatrio. De vez em quando ia olhar as janelas do apartamento dela. Hoje eu estava escondido atrs duma esquina quando o senhor chegou e ela entrou no seu jipe. Compreendi o plano. Agora vim ver se tudo tinha sado certo... 
    Havamos chegado ao lugar onde eu escondera o jipe.
     Quer uma carona?  perguntei.
     No, padre, obrigado. Quem mora sozinho nunca tem muita vontade de voltar pra casa. Vou passar a noite em claro, caminhando  toa por essas ruas, fumando e falando sozinho. A propsito, a criancinha est direita... quero dizer, viva?
     Est, Mendes, e vai nascer dentro de menos de dois meses.
     Quem  que toma conta da Rita do lado de l?
     Bons amigos, gente de confiana.
      uma pena que eu no seja o pai da criana. Pena pra mim, naturalmente. Sou um sujeito feio e sem graa, mas acho que ia dar um bom pai... 
     Quanto a isso no tenho a menor dvida. Apertamo-nos as mos, mas como o Mendes permanecesse imvel, senti que ele queria me dizer algo mais.
     Lembra-se de hoje de manh, no gabinete do prefeito, quando o porco do Pigaro quis lhe bater na cara?
     Claro que me lembro. Acho at que me esqueci de lhe agradecer pela providencial interveno.
     No me agradea. O que eu queria era lhe contar que, quando apliquei aquela gravata no delegado, me passou ligeiro pela cabea um mau pensamento: esgoelar, matar aquele bandido.  horrvel a gente querer matar uma pessoa... Mas acho que Deus me compreende. O malvado do Inocncio mandou prender a Ritinha e andou ameaando a menina com torturas...
     Bom, agora estamos os dois presos um ao outro pelos nossos segredos, hem, Mendes?
     Pois ... Boa noite, padre. Quando amanhecer vou ter que voltar pra casa, fazer a barba, escovar os dentes, lavar esta cara suja, e ir para a prefeitura como se tivesse dormido como um justo. No  tudo uma farsa, como disse hoje na praa o finado Ccero?
     Deus um dia h de ajud-lo, Mendes. Voc  um bom homem.
     Qual! A bondade  sua. No sou bom. Sirvo a canalha da situao. Sou um capacho do prefeito. Tentei uma carreira poltica, mas fracassei. Fiquei reduzido a isto. Um reles secretrio dum prefeito ladro, que sirvo com eficincia e lealdade, porque herdei de meu pai e de meu av, ambos empregados pblicos, o hbito de bem servir sem olhar a quem. Tenho pensado em mandar o emprego e o major para a puta que os pariu, com o perdo da m palavra, mas me falta coragem pra comear vida nova nesta idade.  por isso que bebo. Outra fraqueza. Mas o senhor no tem por que estar ouvindo estas jeremiadas...
     Repito que voc  um homem bom, Mendes.
     Qual nada, padre! Quer saber mesmo o que sou? Um cachorro servil que lambe as botas dos que lhe do pontaps no rabo. Um simples vira-lata, isso  o que eu sou.
    Como nica resposta pousei a mo no ombro daquele pobre homem, procurando dizer com esse gesto o que no saberia exprimir com palavras que no soassem falso.
    A caminho da Vila fui pensando no Mendes. De repente abre-se uma janelinha inesperada numa alma, a gente espia para dentro, mesmo sem querer, e o que v nos surpreende, dando-nos uma viso diferente desse ser. Como se pode julgar (verbo paranico que deve ser substitudo por compreender^, mais cristo) um homem s pela fachada da casa de seu sef, ou pelas palavras que ele pronuncia na lngua cotidiana e imperfeita dos homens? Lembrei-me de que um velho tropeiro um dia me disse: Olhe, moo, ningum  o que parece. Nem Deus.
    O Pe. Pedro-Paulo larga a caneta, rel o que escreveu duma s assentada e conclui que estas pginas incriminam Romero, os vultos desconhecidos da outra margem, o Mendes e a si mesmo.
    E ento, para tornar este trecho de seu dirio ainda mais comprometedor, escreve, em letras de imprensa, VALENTINA, num mpeto que tem algo de suicida. E fica a olhar com ternura para esse nome...
    
    LXXXI
    Pouca gente dormiu naquela noite em ntares  a maioria por causa da presena dos sete mortos na praa e do calor opressivo, mas alguns porque pensavam nas possveis conseqncias das denncias de Barcelona, que haviam maculado a honra de tantas damas e cavalheiros da sociedade local.
    Alguns maridos cujas mulheres tinham sido acusadas publicamente da prtica de adultrio, aproveitaram o pretexto para abandonar a casa da famlia legtima e ir passar a noite com as respectivas amantes e filhos naturais.
    Fechado num quarto, ainda preso numa camisa-de-fora, Egon Sturm planejou e executou um massacre de seis milhes de judeus, conquistou a Polnia, a Frana, a Inglaterra, a Rssia Sovitica, os Estados Unidos e  j que estavam perto  mais a Argentina e o Uruguai. E instituiu assim o Quarto Reich, que durou mil anos.
    Vivaldino Brazo dormiu apenas duas horas, e durante esse tempo teve um pesadelo do qual despertou aos gritos, com dores em todo o corpo. Sonhou que uma de suas orqudeas, transformada numa gigantesca flor carnvora de ptridas emanaes, devorava-o aos poucos, partindo-lhe os ossos como uma jibia tritura um boi antes de o engolir.
    Em muitas casas as velas dos oratrios passaram boa parte da noite acesas, e por suas peas sombrias vagueavam homens e mulheres insones, como sonmbulos ou fantasmas domsticos.
    Pouco depois da meia-noite terminou a sesso de Assemblia Geral do sindicato dos industriados. Posta em votao a proposta de Geminiano Ramos para que se levantasse o cerco do cemitrio em vista dos acontecimentos foi ela aprovada por grande maioria; nomeou-se uma comisso de trs membros para, nas primeiras horas da manh, levar ao prefeito municipal a notcia dessa deciso.
    O Dr. Lzaro Bertioga, que depois do confronto na praa com os defuntos no tivera a coragem de voltar para sua casa e enfrentar os seus familiares, passou a noite inteira em viglia (benzedrina)  cabeceira do Cel. Vacariano, cujo estado de sade era bastante satisfatrio.
    O acontecimento mais importante daquela noite teve como local a residncia de Tranqilino Almeida, que l congregou velhos amigos e companheiros de aventuras aduaneiras, mesas de jogo e noitadas em penses de mulheres, e lhes disse, ao final duma arenga: Bom, minha gente, j que as autoridades competentes no fazem nada, ns cidados temos que agir. No podemos permitir que esses defuntos fiquem a na praa empestando o ar da nossa cidade e pondo em perigo a sade da nossa populao. Vou expor a vocs o meu plano. Prestem toda a ateno.
    
    LXXXII
    Foi em conseqncia dessa reunio que os moradores das casas da praa e arredo.es foram surpreendidos, ao raiar do dia seguinte, por um tiroteio cortado de gritos de guerra. Os que acorreram s suas janelas presenciaram,  luz cinzenta do alvorecer, um espetculo impressionante. Uns quinze ou vinte homens, com as caras tapadas por lenos, como os salteadores de estradas dos antigos romances de capa e espada, carregando alguns deles sacos que pareciam conter objetos slidos, alvejavam com tiros de revlver os urubus que cercavam o coreto. Algumas dessas aves juncavam j o cho, mortas ou agonizantes, ao passo que as outras alavam o vo rumo do livido cu do amanhecer.
    E quando o ltimo urubu desapareceu e o primeiro sol dourou as faces dos defuntos, Tranqilino Almeida e seus homens  pois eram eles os embuados da alvorada (frase do Lucas F aia)  executaram a segunda parte de seu assalto  pequena cidadela dos mortos. Formando uma linha, a uns quinze metros do coreto, tiraram dos sacos pedras, garrafas vazias e pedaos de madeira pesada e comearam a arremess-los como projteis contra os sete cadveres. Uma pedrada atingiu o Dr. Ccero Branco em pleno rosto. Outra quebrou um dente de Barcelona. Uma garrafa de Coca-Cola bateu em cheio nos peitos de D. Quitria Cam-polargo. Pudim de Cachaa recebeu  altura do estmago o impacto dum tijolo arremessado com fora, e caiu de costas. Erotildes deitou-se de borco no cho de cimento do coreto para proteger-se. O maestro Menandro Olinda manteve-se sentado, impassvel, escondendo apenas as mos. Barcelona apanhou do pavimento o tijolo que derrubara o ca-chaceiro e jogou-o de volta contra o assaltante mais prximo, atingindo-o de raspo na testa. Em seguida uma chuva de pedras e garrafas caiu sobre a cabea e o corpo do sapateiro. Ccero Branco tirou do bolso do casaco um leno branco e, erguendo o brao, sacudiu no ar essa improvisada bandeira de paz, ao mesmo tempo que bradava: Armistcio! Armistcio!.
    Na sua fria agressiva, os embuados no entenderam o gesto do advogado dos mortos e continuaram o assalto. Tranqilino gritou uma ordem: Cessa fogo! Cessa fogo! Cessa fogo!. Seus companheiros, ofegantes, obedeceram. Peo cinco minutos de trgua  disse Ccero  para consultar meus constituintes!
    Dirigiu-se primeiro  matrona dos Campolargos que, de cabea baixa, olhava para os cacos da garrafa de Coca-Cola com que fora alvejada.
     D. Quitria, agora, mais que nunca, estou convencido de que somos considerados indesejveis em Antares. Os vivos nos repelem. Nossa presena na realidade s tem trazido desavenas, desunies e dissabores para nossos conterrneos.
      triste  murmurou a velha  muito triste a gente descobrir depois de morta que no  querida nem respeitada na sua terra natal. E os Campolargos esto radicados em Antares h mais de um sculo!
     Mas que  que voc prope?  perguntou Barcelona, que tinha na mo uma garrafa de litro, disposto a continuar a refrega.
     Proponho que voltem todos imediatamente para os nossos caixes.
     Mas... e a greve?
     Ora, que os vivos cuidem dos vivos. E enterrem os mortos quando puderem. Est em votao a proposta de abandonar incondicionalmente nossa posio sem mais delongas. Quem estiver de acordo levante a mo.
    Todos levantaram, menos Barcelona, qu queria continuar a guerra, e o Prof. Menaridro, que possivelmente achava uma indignidade usar para esse propsito as suas mos de artista do teclado.
    Junto da balaustrada do coreto, Joo Paz parecia procurar com os olhos, ansiosamente, algum ou alguma coisa. De sbito surgiu numa boca de rua o Pe. Pedro-Paulo, que lhe fez um sinal e gritou, sorrindo: A Virgem e o Menino j esto no Egito. O rosto de Joozinho como que se iluminou dum sol interior.
    Ccero Branco dirigiu-se aos assaltantes:
     Cavalheiros, compreendemos a vossa insinuao. Comunico-vos que vamos voltar imediatamente para os nossos lugares. Queiram, pois, abrir caminho...
    Tranqilino Almeida deu dois passos  frente e, de pernas abertas, mos na cintura, cabea erguida, como um general vencedor, deu-se o luxo duma generosidade:
     Querem transporte?
    Quem respondeu foi a prpria Quitria Campolargo, que se ergueu, altiva, comps o vestido e disse:
     No aceitamos favores de trogloditas. Vamos a p mesmo.
    Ccero Branco deu-lhe a mo para ajud-la a descer os trs degraus do coreto. E os sete mortos, na mesma formao em que haviam descido a Voluntrios da Ptria, subiram a mesma rua, rumo do cemitrio. O Prof. Menandro, ainda dentro do coreto, olhou em torno da praa e bradou:
     Cidade sem alma! Cidade cruel! Cidade sem amor! O que te falta  msica! Eu devia odiar-te, sacudir s tuas portas o p das minhas sandlias, mas o meu corao no abriga nenhum sentimento mesquinho. Deixo aos meus conterrneos, que nunca me compreenderam, esta ltima mensagem, na mais maravilhosa das lnguas do universo.
    Abriu os braos e cantou para a cidade, para o rio, para o cu, para a manh, com toda a misteriosa fora de seus pulmes carcomidos, a frase inicial da Appassionata. E foi nesse exato momento que o assaltante que havia sido atingido pelo tijolao de Barcelona tirou do bolso um ovo podre, fez pontaria e atirou-o na cabea do maestro. O ovo se partiu contra a testa olmpica. Sua gema, dum amarelo sujo e ftido, e a sua gosmenta clara escorreram pelo rosto do pianista. Menandro Olinda, porm, cruzou as mos sobre o peito, desceu a escada e seguiu os companheiros, rua acima.
    E l se foram os mortos, envoltos numa nuvem de moscas. Aproximadamente meia hora mais tarde chegaram aos muros do cemitrio, e cada um deles se postou ao p do seu esquife.
     Companheiros!  exclamou o Dr. Ccero Branco.  Nossa aventura terminou. Fostes maravilhosos clientes. Convido-vos agora a voltar aos vossos lugares.
    Ajuda D. Quitria a acomodar-se no seu caixo. E ela lhe sorri tristemente antes de fechar os olhos. Barcelona faz o mesmo com Erotildes, que, antes de deitar-se, diz: Foi lindo, na praa, com todo aquele povo olhando pra gente, bem como num circo. N,unca mais vou esquecer....
    Pobre da Natalina!  suspira Pudim de Cachaa, retornando ao seu rstico caixo sem verniz. Joo Paz estende-se no seu esquife, em silncio, mas sorrindo, e tem de usar o brao direito para puxar o esquerdo, que ficou cado para fora. O maestro Olinda deita-se no seu tero de madeira, olha enamorado para as prprias mos e depois as aninha carinhosamente no cncavo do magro peito. D. Quita, sem abrir os olhos, murmura: Agora, sim, vou ver Deus. Barcelona aperta a mo de Ccero e volta para o seu caixo, dizendo.- Limpei o peito, disse o que quis praqueles burgueses, morro feliz. O advogado sorri: Barcelona, faz trs dias que voc est morto. Mas isso  um pormenor sem importncia. Afinal de contas, que  o tempo e o calendrio para quem j est na Eternidade?. E com estas palavras o bacharel Ccero Branco acondiciona-se na sua negra caixa, cruza as mos sobre o abdome e cerra os olhos.
    So exatamente seis e vinte da manh de sbado, 14 de dezembro de 1963.
    
    LXXXIII
    Um pouco antes das nove horas dessa mesma manh alguns automveis pararam  frente do cemitrio e deles apearam as autoridades municipais e uma meia dzia de homens desses em geral designados pelos jornais como pessoas gradas. Tanto as autoridades como os medicos do departamento de higiene local tinham as cabeas cobertas por mscaras contra gases lacrimogneos. Aproximaram-se dos sete caixes e examinaram os defuntos, um a um. O Mendes  facilmente reconhecvel pela sua altura, apesar da mscara, tomava notas numa caderneta. Os mdicos fizeram um exame perfunctrio nos cadveres, reconfirmaram-lhes os bitos, e ordenaram fossem todos sepultados sem tar-dana.
    Postos ao corrente dos ltimos acontecimentos, as quatro filhas e os quatro genros de Quitria Campolargo haviam chegado a tempo para a cerimnia do sepultamento da anci. No houve discursos. O Pe. Gerncio sussurrou uma breve orao ao p do fretro. Os familiares da defunta receberam novos abraos de psames  frente do suntuoso mausolu de mrmore dos Campolargos. Um amigo da famlia  sujeito proverbialmente curioso  chamou  parte o genro veterinrio e, numa espcie de corredor entre dois tmulos de alvenaria, manteve com ele um breve dilogo:
      verdade mesmo, nosso amigo, que D. Quitria atirou as suas mais belas jias no vaso sanitrio e puxou a corrente?
      verdade  confirmou o genro  mas por sorte nossa o cano entupiu e conseguimos recuperar o broche, o colar, os brincos e a pulseira. Infelizmente perdemos o anel com o solitrio...
     Logo a jia de maior valor!  lamentou o amigo da famlia, sacudindo a cabea, penalizado.  E dizer-se que essa preciosidade se foi Uruguai abaixo, misturada com todas as porcarias da populao de Antares. ..  uma ironia da sorte.
     O que  que vai se fazer?  suspirou o veterinrio.
     Mas no perca a esperana, meu caro. Deus  grande. Contrate um escafandrista para mergulhar perto dos canos de despejo da cidade. A jia  pesada, pode ter ficado cravada na areia do fundo do rio. Pense nisso. Contrate um escafandrista e confie na Providncia Divina.
    Rosinha foi a nica pessoa que compareceu ao enterro de Erotildes no cemitrio dos indigentes. Trouxe-lhe algumas flores que roubara do jardim dos Campolargos e entre as quais se viam algumas das rosas queridas de D. Quitria.
    Uma comisso do sindicato dos industririos representou a classe no enterro do Barcelona. A pedido do prefeito no houve discursos. Outra comisso operria esteve presente, tambm em silncio, ao sepultamento de Joo Paz.
    Alambique veio com o seu violo prestar uma homenagem a seu velho companheiro de serestas. Sentou-se num tmulo prximo do lugar onde haviam plantado o seu amigo, cruzou as pernas, tirou uns ponteios do violo e depois comeou a cantar a valsa preferida do Pudim de Cachaa, aquela que comea dizendo que amar  um holocausto de palpitaes. Um cavalheiro bem vestido aproximou-se dele, tocou-lhe o ombro com a ponta dos dedos e disse-lhe que era um sacrilgio cantar no cemitrio. Alambique respondeu que sacrilgio mesmo era no cantar. E continuou entoando a valsinha.
    Ningum esteve presente ao ato de sepultamento do maestro Menandro Olinda. Dois coveiros fecharam-lhe o caixo, jogaram-no no fundo da cova e puseram-se a atirar-lhe terra em cima. Mais tarde, porm, foi muito comentado um fato curioso ento ocorrido. Um passarinho saiu de dentro duma casuarina prxima, pousou no monticulo de terra da sepultura do pianista e rompeu a cantar, como numa espcie de oferenda musical ao artista que ali jazia.
    E depois que todos haviam deixado o cemitrio  os sete mortos j devidamente sepultados  o Pe. Pedro-Paulo andou a vaguear por entre as sepulturas, pensando nos mortos e nos vivos e se fazendo a si mesmo perguntas s quais nem ele nem ningum no mundo poderia responder.
    
    LXXXIV
    Deus  bom. Cedo, na manh daquele sbado  verdadeira aleluia para os antarenses  um vento forte comeou a soprar em Antares, de leste para oeste, varrendo na direo da Argentina e de outras repblicas vizinhas, os miasmas e o mau cheiro deixado pelos mortos na Praa da Repblica e arredores.
    O sino da Matriz bimbalhou festivamente, e o seu canto parecia vir do prprio sol  esse sino de ouro que o Criador pendurou no campanrio do infinito. (Frase dum literato local menor.)
    Homens, mulheres e crianas apareceram s suas janelas ou saram de suas casas para as ruas. Vizinhos cumprimentavam-se, abraavam-se, trocavam-se frases de alvio ou queixa, contavam uns aos outros os padecimentos, sustos e terrores daquelas ltimas vinte e quatro horas. Pareciam habitantes duma cidade sitiada que acaba de ser libertada. Os nomes de Tranqilino Almeida e de seus embuados da alvorada andavam de boca em boca. Para a maioria ele era um herico cabo-de-guerra que, com um punhado de bravos, havia, num golpe de audcia, livrado a cidade do inimigo invasor. Outros, porm, censura/am-lhe a drstica brutalidade do gesto.
    Uma senhora de boas letras, cabelos soltos, assomou  janela de sua casa, encheu os pulmes de ar limpo, os olhos de sol, os ouvidos de sinos e rompeu a recitar em altos brados um poema de Mrio Quintana:
    E os sinos danam no ar. De casa a casa, os beirais,  Para l e para c  Trocam recados de asas, Riscando sustos no ar. Silncio. Sinos. Apelos. Sinos. E sinos. Sinos. E sinos. Sinos. Pregoeiros. Sinos. Risadas. Sinos. E levada pelos sinos, Toda ventando de sinos, Dana a cidade no ar.
    Antares parecia mesmo danar. As suas rvores estavam tambm desnastradas como a potica senhora. Por um passe de mgica da luz, as fachadas das casas pareciam todas pintadas de fresco. O rio, reverberando a claridade da manh, estava como que todo encrespado duma alegria bi-nacional.
    O vento, porm, cessou de soprar. Os sinos da Matriz emudeceram. Nuvens brancas esconderam por uns momentos o sol. E foi como se todo o horror de repente tivesse voltado.
    A Praa da Repblica era agora uma espcie de territrio tabu. No foi fcil para o Mendes fazer que lixeiros da prefeitura pisassem os gramados e sendeiros daquele logradouro pblico para recolher no s os urubus e os ratos mortos, como tambm todo o cisco que a multido l deixara depois do terrvel confronto de sexta-feira, e ao qual se somavam os projteis usados contra os mortos pelos granadei-ros de Tranqilino Almeida.
    
    LXXXV
    Cerca da uma da tarde chegaram a Antares dois automveis vindos de Porto Alegre, trazendo reprteres e fotgrafos do Correio do Povo, do Dirio de Notcias, da Folha da Tarde e da Ultima Hora, e mais um cinegrafista da Rdio e Televiso Gacha. Os carros estacaram  frente do edifcio da prefeitura. Obsequioso e apreensivo, o Mendes tratou logo de tomar conta do pessoal da imprensa da capital.
     Onde esto os defuntos?  perguntou logo o reprter do Correio do Povo, um sujeito com uma barbicha  Dom Quixote e que parecia (ou fingia) acreditar em almas do outro mundo.
     No cemitrio  respondeu o Mendes, entre gaiato e desenxabido.
    Os jornalistas olharam decepcionados para o coreto vazio. Os fotgrafos comearam a trabalhar, tirando instantneos de rua e fotografando o coreto e a praa. O cinegrafista subiu ao alto do campanrio da Matriz e de l filmou panoramicamente Antares, o rio e arredores.
    Crivado das frechas das perguntas dos forasteiros, como um moderno So Sebastio, o Mendes suportou como pde o seu martrio, respondendo a todas as curiosidades de maneira ambgua mas sempre amvel:
     Temos muito tempo para esclarecer o caso  declarou por fim.  J almoaram? No? Pois um suculento churrasco e uns franguinhos dourados com polenta esperam vocs na Rosa do Pago. Vamos embora, pessoal.
    Foram, comeram, beberam e o Mendes os entreteve como lhe foi possvel.  hora do cafezinho o. Maj. Vivaldino apareceu, cordial, brincalho, distribuindo abraos e agradecimentos. Sentou-se  cabeceira da mesa, indagou dos rapazes sobre a longa viagem e finalmente, com um sorriso meio contrafeito, disse:
     Ento vocs caram no meu conto, hem?
     Como assim, prefeito?  admirou-se o barbicha.  Quer dizer que toda essa estria...
     Mas, meu filho, ento voc, um rapaz inteligente e instrudo, engoliu essa potoca de que sete defuntos se levantaram de seus caixes e vieram caminhando at  praa para conversar com os vivos?
     Bom  replicou o reprter  acreditar mesmo no acreditamos. Viemos averiguar o que houve. Porque algo houve, no me diga que no. Foi o senhor quem telefonou em pessoa ao nosso diretor, contando o fato...
    Vivaldino improvisou:
      que no outono do ano que vem pretendemos organizar aqui em Antares uma feira agropastoril e precisamos chamar a ateno de todo o Brasil para a nossa cidade. ..
    Os reprteres entreolharam-se em silncio. O Mendes pigarreava repetidamente, embaraado.
     Naturalmente  prosseguiu o prefeito  todas as despesas desta viagem de vocs vo correr por conta da prefeitura, isso para no falar nos anncios e reportagens pagas que vamos fazer nos jornais e nas estaes de rdio e televiso que vocs representam, etcetera, etcetera e tal...
    
    LXXXVI
    Depois do almoo os reprteres saram a entrevistar pessoas que encontravam na rua. Das cinco primeiras interrogadas, uma esquivou-se, mas as quatro restantes declararam ter visto, ouvido e at cheirado os defuntos.
     Mas o prefeito nega que a coisa toda tenha acontecido  observou um dos jornalistas.  Diz que tudo foi uma inveno da prefeitura para fazer publicidade para a feira agropastoril do ano que vem.
     Qual feira qual nada! No ouvi ningum falar nisso.
     Ento por que o Maj. Vivaldino est procurando esconder o fato?
    O entrevistado olhou para os lados, cauteloso, e baixou a voz:
     O prefeito nega tudo porque ontem ao meio-dia n praa houve um bate-boca danado entre os defuntos e as autoridades. Um dos mortos disse o diabo do governo municipal, ladroeiras, concorrncias fraudulentas, cobras e lagartos. Depois outro defunto comeou a revelar os podres da cidade. O delegado de polcia foi acusado de ter torturado e assassinado um dos defuntos. O meu nome? No digo, que no sou besta. A corda sempre rebenta do lado mais fraco. At logo, moada!
    O dilogo foi gravado em fita magntica. Os reprteres procuraram o juiz de Direito, que, para no os receber, alegou que estava indisposto, o que no deixava de ser verdade. O Dr. Lzaro Bertioga recusou terminantemente abrir a. boca sobre o assunto, invocando o juramento de Hipocrates. Os prceres locais, na sua totalidade, fecharam-se como ostras cvicas para proteger as prolas dos tremendos segredos da sua comunidade.
    A conselho dum popular, os jornalistas procuraram Yaroslav, o fotgrafo da praa.
      verdade que voc viu os sete mortos no coreto e os fotografou?
     . Juro por Deus.
     Onde est a foto?
    O tcheco mostrou-lhes o postal, que os reprteres examinaram demoradamente.
     Mas onde esto os defuntos? Aqui s vemos o coreto. 
     O olho da minha mquina no enxergou eles. S o mu. Vocs nunca leram nada sobre vampiros e fantasmas? Dizem que s figuras deles no aparecem nunca em espelhos e tambm no podem ser fotografadas.
    Os jornalistas, desapontados, devolveram ao lambe-lam-be a sua discutida fotografia e se foram, convencidos agora de que toda aquela estria no tinha passado mesmo duma grande mistificao, duma brincadeira de mau gosto e, na mais remota e menos provvel das hipteses, dum caso de alucinao coletiva.
    J o Dr. Mirabeau da Silva lhes dissera, quando entrevistado:
     Os senhores nem parecem pessoas de cidade grande, com experincia em tantos casos de mistificao. Como  que na era eletrnica, no sculo da ciberntica e dos vos interplanetrios  possvel a gente ainda acreditar na ressurreio de mortos apodrecidos?  Ao dizer estas palavras deu trs passos bruscos  retaguarda.  Nol No permito que gravem minhas palavras. Sou um membro do Ministrio Pblico. Tambm no firmo nenhuma declarao escrita. Prefiro permanecer annimo. Muito grato por se haverem lembrado de mim. Passem bem.
    Os jornalistas confabularam e decidiram continuar as averiguaes para ver at onde a coisa ia dar. Dirigiram-se para a redao de A Verdade, mas encontraram-na fechada, pois o prefeito, sabendo que Lucas Faia seria fatalmente procurado por seus colegas da capital, ordenou-lhe que se escondesse, alegando que no momento no convi-nha revelar  imprensa o terrvel incidente da sexta-feira. Lucas trancafiou-se no sto da casa dum amigo. No estava disposto a dar informaes aos colegas, da capital porque ele queria ser o primeiro jornalista a escrever sobre o fato.
    O proprietrio do Salo Bela Sicilia declarou a um dos reprteres :
     Sou um homem simples, mas no tenho medo da verdade. Por esta luz que me alumia, juro que vi o cadver do Prof. Olinda subir essas escadas (e os degraus por sinal rangiam) e depois ouvi o homem tocar l em cima a msica que costumava bater todos os dias, desde que mudei para ca o meu salo, faz uns dez anos. E um troo de Beethoven, parece. Mais ou menos assim... 
    Parou de trabalhar e, com tesoura e pente nas mos, assobiou, desafinado e engolindo notas, algumas frases da Appassionata.
    
    LXXXVII
    O reprter da barba quixotesca teve a idia de visitar o Bar Bacu, ponto de reunio da gente moa, em geral estudantes de Antares, e conversar com seus freqentadores. Teve a melhor das acolhidas. Andou de mesa em mesa. Comeou na dos comunistas  linha de Moscou. Passou depois para os que seguiam a orientao de Mao Tse-Tung, que no gostaram de ter sido visitados em segundo lugar, mas logo esqueceram o agravo, pois se tratava duma causa comum das esquerdas, isto ,  a desmoralizao da burguesia local. O pessoal da linha cubana tambm confraternizou. Por fim o Barbicha (como j era conhecido na cidade) foi sentar-se  mesa do nico representante local do trotskismo, um sujeito magro, de meia-idade, que tomava solitrio a sua cerveja a uma mesa de canto. Todos os freqentadores do Bar Bacu afirmaram ter sido testemunhas visuais, auditivas e olfativas do fenmeno.
     Mas como pode um fato sobrenatural cpmo esse realmente acontecer?  perguntou o reprter do Correio do Povo.
    Um dos rapazes (trs prises, um espancamento) a-pressou-se a dizer:
     No sistema capitalista, meu amigo, todos os absurdos so possveis.
    O reprter cocou a barba, pensativo:
     Quantos de vocs  perguntou  estariam pendurados nas rvores ao redor do coreto, quando esse... esse dilogo se processou?
     Uns cinqenta ou sessenta... talvez mais.
     Mas no estariam todos j de pileque?
     Ao meio-dia, companheiro? Que  isso?
    Por fim o reprter retirou-se, seguido- pelo fotgrafo, seu fiel escudeiro. Como a vida nem sempre imita a arte, o jornalista de barba quixotesca era de estatura mediana e fornido de carnes. Seu Sancho Pana era alto e magro corno o Quixote de Cervantes.
    Ambos decidiram visitar o Kaf Kafka. Era uma espcie de clube exclusivo que tinha apenas doze scios (estudantes ricos e esnobes) e cuja sede  um poro que imitava uma cave existencialista parisiense  s se abria durante as frias de vero. (Afirmavam seus scios que em matria de literatura, fora de Kafka, Joyce e Proust no havia salvao.) Encontraram apenas dois dos scios sentados a uma mesa, em silncio, bebendo anisete com ar entediado.
    O mini-Quixote disse quem era e a que vinha.
     Nada de fotografias  foi logo dizendo um dos kafkianos, olhando para o anguloso escudeiro.
     D o fora!  disse o jornalista ao fotgrafo, que obedeceu  ordem imediatamente.
    O reprter esperou, mas em vo, que o convidassem a sentar-se. Interrogados sobre o estranho incidente, um dos freqentadores do K.K. deu de ombros, dando a entender que o assunto no merecia o seu interesse. O outro falou, lento, sem emoo:
     Estive na praa por puro desfastio. E li apenas a primeira pgina dessa ridcula estria.
     Leu?
     Sim, porque a coisa toda no passou da pardia dum conto gtico... Antares  um caso perdido. Podendo ter sido cenrio duma novela kafkiana de boa qualidade, contentou-se com um Edgar Poe de terceira ordem.
    O reprter no se conteve e disse:
     Pois ento, meninos, vo pro Kafka que os pariu!  E retirou-se, rindo.
    
    LXXXVIII
    Os reprteres dirigiram-se para a Vila Operria, onde entrevistaram o Pe. Pedro-Paulo, que lhes disse:
     Se eu comear a contar a vocs o que vi. e ouvi nestas ltimas trinta horas, eu mesmo acabarei duvidando no s das minhas palavras, como tambm da minha memria e at da minha razo. Querem um conselho? Deixem os mortos em paz. Tratem dos vivos ou, antes, dos subvivos.
     Que subvivos?
     Os marginais que se encontram numa condio mais animal do que humana. Os nossos favelados. Vou levar vocs a uma grande metrpole da misria. Chama-se Babilnia. Excelente assunto para uma grande reportagem ilustrada para os jornais e para a televiso... Posso servir-lhes de cicerone. Aceitam a sugesto?
     Vamos embora!  disse o Barbicha, entusiasmado. E o escudeiro repetiu num eco: Vos bora!.
    E foram. Ao avistarem o sky line da Babilnia os jornalistas ficaram alvorotados.
     O senhor vai ser o nosso Virglio  disse o Barbicha ao jovem sacerdote que ia a seu lado no automvel.  Vamos entrar no Inferno.
    O Pe. Pedro Paulo sorriu com tristeza:
     S que  murmurou  modstia  parte, o inferno que vocs agora vo ver  pior, muito pior que o de Dante. No tem rima nem razo.
    Ao saber dessa visita, o prefeito ficou furioso:
     Padre safado, filho duma me! Por que no mostrou a esses meninos de Porto Alegre as coisas boas de An-tares? Os bueiros novos, as ruas caladas, os silos de alumnio, as nossas fbricas... 
     A sua coleo de orqudeas  acrescentou o Mendes, entre adulo e irnico.
     Sim, e por que no?  vociferou Vivaldino.  A minha coleo de orqudeas. Tudo menos a Babilnia!
    O secretrio, que j havia empinado uns copinhos de cachaa, insistiu:
     Afinal de contas, chefe, a Babilnia  a maior favela desta regio do Rio Grande. Para igualar a Babilnia da antigidade, a verdadeira, s faltam  nossa os jardins suspensos.
     Ora, vai-te quele lugar, Mendes!
    
    LXXXIX
    s cinco horas daquela tarde o prefeito ofereceu aos jornalistas forasteiros, no salo de festas da prefeitura, um coquetel para o qual convidou algumas das pessoas mais representativas da sociedade local. Improvisou um discurso em que pretendeu fazer humorismo, mas que na realidade foi, alm de insosso, incoerente. Enquanto ele falava, o reprter quixotesco cocava a barbicha, cocando-o com os seus agudos olhos de guia, que lembraram ao prefeito os dos urubus que ele entrevira na praa, no fatal meio-dia de sexta-feira. E, em ltima anlise  refletiu mais tarde o major  que eram aqueles homens de imprensa seno abutres descidos das alturas para bicar as carnes cansadas duma populao e duma cidade recm-libertas dum medonho .pesadelo?
    Mal o Maj. Vivaldino terminou a sua orao  aplaudida com falso entusiasmo pelos seus concidados e j agora cmplices  o Mendes irrompeu na sala e entregou ao seu chefe um telegrama, que o prefeito leu de cenho cerrado, movendo inaudivelmente os lbios. Depois assumiu um ar solene, olhou~ em torno, pediu a ateno dos presentes e proclamou :
     Senhores, a greve geral terminou! Os operrios do Frigorfico Pan-Americano, os da Cia. Franco-Brasileira de Ls e os da Cia. de leos Comestveis conseguirarri todas as suas reivindicaes.
    Amassou o telegrama num gesto colrico e acrescentou, em voz baixa: O Brasil est caminhando para o caos com esse governo trabalhista esquerdizante!.
    Os jornalistas da capital saram da prefeitura e foram entrevistar os lderes da greve. Geminiano Ramos e seus companheiros estavam gloriosos. E aquela noite os fotgrafos e os cinegrafistas puderam fotografar e filmar mais de oitocentos operrios que desfilaram pelas ruas centrais da cidade numa marcha au flambeatix, que Lucas Faia espiou por uma fresta de janela do sto onde ainda continuava escondido.
    No dia seguinte pela manh a caravana de gente da imprensa voltou para Porto Alegre.
    
    XC
    Na missa das onze daquele domingo  a missa chi-qurrima, no dizer de Scorpio  o Pe. Gerncio, com voz dbil, pregou um sermo cheio de misteriosas aluses e subentendidos. (Os catlicos deviam estar em permanente prontido, em incessante vigilncia, pois Deus s vezes mandava seus avisos e recados nas formas mais imprevistas, em linguagem codificada que era preciso a gente aprender a decifrar corretamente.) No fez; porm, nenhuma aluso direta aos macabros acontecimentos da antevspera e da vspera. Foi uma missa triste, quase como as de stimo dia.
    Aos poucos retornavam a Antares as famlias abastadas que, ao aparecimento dos intruses de alm-tmulo, haviam fugido para as suas estncias ou chcaras. A Praa da Repblica continuava deserta, o coreto vazio, os passarinhos ausentes. Uma certa atmosfera de fim de mundo parecia ter contaminado as rvores, a terra, os bancos, as. flores e at as pedras.
    E em toda a histria daquela comunidade  comentavam os moradores mais antigos  nunca houve um domingo to montono e vaziamente domingo como aquele.
    Na vspera,  noite, notara-se uma certa alegria  talvez um tanto infantil  quando as luzes das lmpadas das ruas tornaram a acender-se, finda a greve.
    Mesmo na segunda-feira, quando as casas de negcio, os restaurantes e cafs de novo abriram as suas portas e os carros de aluguel voltaram a trafegar  uma baa tristeza continuou a pairar sobre a cidade e as almas. Parecia que, passada a exploso de alegria e alvio causada pela retirada dos mortos  efuso essa, entretanto, que durara apenas algumas horas  Antares e sua populao haviam cado numa espcie de marasmo melanclico que  quem sabe?
     podia ser uma espcie de misteriosa e paradoxal saudade da situao de angstia, ou ento uma retardada ressaca daquela espcie de bebedeira de terror. As pessoas agora pouco se falavam umas com as outras, s vezes mal se olhavam ao se cruzarem nas ruas. O veneno destilado na praa pelas palavras do sapateiro anarco-sindicalista fazia ainda o seu efeito. Algum disse, com certa propriedade, que no s as pessoas como a prpria cidade  casas, ruas, rio, cu  pareciam desapontadas, envergonhadas.
    O Cel. Tibrio Vacariano melhorava, mas o Dr. Lzaro evitava sair  rua e, quando saa, era no seu automvel preto e, se tinha de andar a p uma quadra ou duas, caminhava rente s paredes, sem olhar para os lados.
    O Prof. Libindo Olivares teve alta do hospital onde tivera de ser internado, mas trancou-se em casa, no compareceu ao colgio, temendo um confronto com os estudantes. As cartas annimas continuavam, tecendo os fios de novas intrigas ou reforando os das antigas. O farmacutico genro de Quitria Campolargo recebeu um bilhete em que o Anjo da Verdade lhe contava que sua esposa  dele, farmacutico  fora acusada de adltera em plena praa pblica. O boticrio suspirou, triste mas resignado, pois no ignorava a paixo de sua mulher pelo aixeiro-viajante ruivo  mas queimou o bilhete na chama do fogareiro em que cos^-tumava aquentar a gua para o chimarro das dez, na sua farmcia, cujo movimento aumentara sensivelmente durante a crise e que agora mesmo esgotava todo o seu estoque de alfazema, benjoim, incenso e de vrios desinfetantes. m amigo a quem ele contou isso, lhe disse com pssima pronncia que  quelque chose malheur est bon.
    O genro veterinrio escreveu a um amigo em Porto Alegre consultando-o sobre a possibilidade de contratar um es- cafandrista, homem de absoluta confiana, para uma operao delicada em Antares; e pediu preo.
    O genro comerciante  proprietario, entre outras coisas, de cinco aougues  observou que desde o aparecimento dos defuntos o consumo de carne na cidade diminura sensivelmente, e as vendas continuavam ainda fracas.
    E o dentista, seguindo o seu pendor estatstico, fez para uso prprio e dos amigos mais chegados um levantamento dos danos morais causados na sociedade local pelas intrigas do Barcelona. Chegou ao seguinte resultado, salvo erro, engano ou omisso: Doze separaes de casais seguidas de oito reconciliaes. Quatro casais estranhados porm mais tarde reconciliados. Trs maridos que deram su-mantas nas esposas. Duas esposas que agrediram fisicamente os maridos. Dois duelos a bala, do qual resultaram dois feridos, mas sem gravidade. Trs homens fugidos da cidade. Incontveis pessoas que se haviam cortado o cumprimento umas s outras. No setor sade  trinta e dois acessos nervosos, vinte e cinco ataques cardacos, mas nenhum fatal, e dezenas de casos de disenteria e outros distrbios gstricos. E, rematando a sua proeza estatstica, o dentista conclua: Por tudo isso a esta hora aquele maldito sapateiro deve estar se retorcendo de dor nas chamas do inferno, enquanto diabinhos lhe arrancam a lngua com torqueses de ferro em brasa.
    A todas essas os rapazes do Bar Bacu e outros moleques andavam insolentes pelas ruas, soltando risadas e dirigindo dichotes a mocinhas e senhoras, e escrevendo a giz nas caladas e a piche nas paredes as maiores imoralidades, entre as quais as mais leves eram: Fulana  puta. Fulano  corno. Apareciam tambm nas paredes e muros frases de sentido poltico como  A sociedade de Antares est podre. Antares  o smbolo da burguesia capitalista decadente.
    Inocncio Pigaro aumentou o nmero de soldados que patrulhavam as ruas durante a noite. E, como era de se esperar, efetuou vrias prises no s de jovens apanhados em flagrante como tambm de suspeitos.
    
    XCI
     Precisamos fazer alguma coisa para levantar o moral do povo de Antares  declarou um dia o prefeito.
     E desagravar as pessoas respeitveis que foram insultadas em pblico  acrescentou o Mendes, odiando-se a si mesmo por ter feito essa observao insincera e servil.
    Quando Lucas Faia procurou o Maj. Vivaldino para lhe dizer que ia publicar em A Verdade  no primeiro nmero que aparecesse depois do lamentvel incidente  um grande artigo descrevendo com sabor literrio a visita dos mortos o prefeito saltou, furibundo:
     No publique coisa nenhuma! Esse seu artigo no pode aparecer sem a aprovao dos acionistas do jornal. Vou convocar uma sesso aqui na prefeitura para tratar dum assunto que, est me preocupando seriamente. Nessa reunio voc poder ler o seu artigo e sondar as opinies.
    A sesso realizou-se no dia seguinte pela manh, no salo de honra da prefeitura, com a presena de uns quarenta e poucos representantes do comrcio, da indstria, da pecuria e das profisses liberais de Antares, bem como de vrios ancios, cuja sbia opinio era geralmente tida em alta conta na comunidade. A reunio teve carter rigorosamente secreto. Abriu-a o prefeito, com estas palavras:
      urgente descobrir um remdio para apressar a cura do povo de Antares, que ainda sofre as conseqncias dum grande choque emocional. Dou a palavra ao Prof. L-bindo Olivares, que tem um plano a nos expor.
    O sbio local ergueu-se, pigarreou e foi direito ao assunto:
     Que provas materiais, substanciais, temos ns de que realmente sete defuntos desceram sobre a nossa cidade, meteram-se no coreto da praa e de l insultaram meio mundo?  Olhou em torno, esperando uma resposta, que ningum deu. O helenista continuou:  Nenhuma!  Tirou do bolso um postal.  Aqui est o coreto que o velho Yaroslav fotografou na hora em que l estavam ou, melhor, estariam supostamente os sete mortos. Ora. nesta foto o coreto aparece vazio!
    Um dos presentes, comerciante de couros, homem ter-ra-a-terra, pediu licena para um aparte:
     Mas professor, milhares de pessoas viram e ouviram os defuntos, inclusive eu, minha mulher e meus filhos... 
    O professor sorriu :
     Poderemos confiar sempre no testemunho de nossos sentidos? Devemos dar crdito ilimitado  nossa memria?
     Que vamos fazer, ento?  perguntou o proprietrio, duma casa de jias.
     Eis o que proponho  respondeu o amigo de Plato, Scrates e outros filsofos da antigidade.  Organizar uma campanha muito hbil, sutilssima, no sentido de apagar esse fato no s dos anais de Antares como tambm da memria de seus habitantes. Sugiro (aqui entre ns) um nome para esse movimento: Operao Borracha,
    Alguns sorriram. Outros menearam a cabea, incertos. Passou pela mente de Vivaldino Brazo a cadeia carnvora que o devorara em sonhos. O genro veterinrio de D. Quita, esse pensava nas possibilidades da sua Operao Escafan-dro.
    O helenista prosseguiu:
     Podemos contar com vrios aliados nessa campanha, a saber: o tempo, que tem uma funo de borracha e de gua, pois aos poucos vai apagando e lavando tudo...
    Um negociante de ls, remexendo-se na sua cadeira, objetou :
     O diabo  que o tempo leva tempo para passar.
     Mas passa  replicou o professor.  Pensem ainda em outros aliados naturais: o Bom-Senso Humano. Nenhuma pessoa em s razo poder aceitar o fato de que mortos em estado de putrefao pudessem mover-se, falar, pensar, ter memria... Em suma, temos a nosso favor no s a Cincia como tambm a Experincia Humana. O mundo inteiro se negar a dar crdito a essa... essa lenda macabra!
    Lucas Faia suava abundantemente, menos de calor que de ansiedade, pois j compreendera que a publicao de seu grande artigo estava irremediavelmente condenada.
     Mas os senhores j pensaram  interveio, com voz insegura  que s em Antares existem vrias centenas de pessoas interessadas em provar ao mundo que aquela cena degradante na praa, ao meio-dia de sexta-feira 13, aconteceu mesmo? Refiro-me a essas aves esquerdistas das mais variadas plumagens... e aos maldizentes profissionais... e aos espritos de porco... e aos autores das cartas annimas. .. e... e...
    O Prof. Libindo rebateu a bola:
     A voc chega a um ponto importante. Vrias pessoas de reputao ilibada foram injusta e brutalmente atacadas em praa pblica. Precisamos fazer alguma coisa para desagrav-las, em nome da segurana de nosso Edifcio Social.
    O presidente do Liions sugeriu  e nisso foi apoiado peio do Rotary e o do Clube Comercial  que se oferecesse um banquete monstro a todos aqueles, tanto homens como mulheres, cujos nomes tinham sido respingados de lodo pelas calnias dos falecidos Dr. Ccero Branco e sapateiro Jos Riz. Posta em votao, a idia foi aprovada unanimemente.
    Lucas Faia, que caminhava agora dum lado para outro, ali na sala, como um bicho enjaulado, disse:
     Senhores, no se iludam! A oposio vai espalhar pelo mundo, verbalmente ou por escrito, a sua prpria verso do caso. No seria prudente que ns, os representantes das classes conservadoras... 
     Produtoras  corrigiu-o um negociante de calados.
     Sim, produtoras  repetiu o jornalista  apresentssemos a nossa verso dos acontecimentos? Pensem bem, por amor de Deus! Negar o que se passou  um perigo. E depois, meus amigos e conterrneos, procurem olhar o fenmeno por outro prisma. Se os fatos forem narrados honestamente, da maneira como aconteceram, Antares gozar o seu momento de notoriedade e aparecer no noticirio mun-diar, ficar na Histria.
    Um marchante sacudiu a cabea numa robusta negativa taurina:
     A mim pouco me importa que nossa cidade fique dentro ou fora da Histria.
    Lucas Faia ergueu os braos num apelo pattico:
     Senhor prefeito! Meus concidados! Peo vnia para ler o artigo que escrevi para aparecer em A Verdade, no nmero de depois damanha.  Tirou do bolso um chumao de papis em tiras longas, escritas a mo. Olhou em torno.  Posso comear?
    Houve um momento de constrangida indeciso. Alguns dos prceres bocejaram. Outros consultaram acintosamente os seus relgios. O prefeito e o Dr. Lzaro entreolharam-se. O vigrio tinha j comeado a cochilar.
     Est bem, Lucas  disse Vivaldino.  Leia o seu artigo, mas ligeiro, porque estamos j perto da hora do almoo.
    O jornalista comeou a ler com voz cuidadosamente modulada, de entonao pausadamente dramtica, a sua narrativa dos acontecimentos de sexta-feira 13: a descida dos mortos pela Rua Voluntrios da Ptria, semeando o pavor nas almas, o confronto na praa (sem entrar em por-menores), a invaso dos ratos, a presena dos abutres em torno do coreto, etc... etc... A leitura durou mais de meia hora, ao cabo da qual, suando copiosamente, Lucas dobrou os papis e atochou-os nervosamente num dos bolsos do casaco
     Que tal?  perguntou.
     Uma admirvel pea literria  afirmou hipocritamente o Prof. Libindo.
     Muito eloqente  disse, frio, o juiz de Direito, que durante toda a sesso pensara obsessivamente em Valenti-na, com quem pouco falava depois da noite dos mortos.
     Acho esse artigo uma arma de dois gumes  opinou o promotor, que no simpatizava com o jornalista.  Embora o nosso caro periodista no tenha mencionado em seu brilhante ensaio as calnias proferidas pelo sapateiro e pelo Dr. Ccero, essa descrio poder ser til aos nossos inimigos, pois ela confirma o fato.
    Procedeu-se a um rpido plebiscito: o artigo devia ou no ser publicado? O resultado foi um no unnime. (O articulista absteve-se de votar.)
     Mas  uma barbaridade!  exclamou ele.  A me lhor pea literria que escrevi em toda a minha vida!
     Eu o aconselharia at a queimar esses originais  sugeriu perversamente o promotor.
     Seja patriota, Lucas  disse o Mendes.  Faa esse sacrifcio pelo bem da sua terra e do seu povo.
     Se eu no noticiar o fato, que iro dizer de mim e do meu jornal esses milhares de pessoas que viram... ?
    Nesse ponto, Pigaro, que at ento se mantivera sentado a um canto, em silncio, ergueu-se, truculento:
     Viram o qu? Ningum viu nada, porque nada aconteceu, compreende? E voc tambm vai esquecer o que pensa que viu... Est compreendendo?
    Cachorro!  vociferou em pensamentos o secretrio da prefeitura, cuspindo simbolicamente na cara do delegado de polcia.
    Lucas Lesma desatou a chorar, como uma criana a quem se nega com maus modos um brinquedo que ela muito deseja. O Mendes segurou-lhe o brao, compassivo, e levou-o para fora da sala.
     Onde vai ser o banquete?  perguntou algum.
     Sugiro os sales do Comercial.
    A aprovao foi geral. Onde melhor?
     Quando?  quis saber o promotor, pensando j no discurso que pretendia fazer na grande ocasio.
     Quanto mais cedo, melhor A coisa tem de sair antes do Natal, no acham?
    O promotor props que se nomeasse uma comisso de trs membros para ir  capital do Estado explicar pessoalmente o equivoco, isto , os boatos, ao governador, aos jornais e s estaes de rdio e televiso, para que ficasse limpo o nome de An tares.
    O Mendes, que voltara  reunio, disse:
     Com a permisso aqui do meu ilustre chefe, proponho que se elejam agora os membros da comisso executiva da Operao Borracha.  E de novo sentindo-se o mais vil e servil dos mortais, acrescentou:  Proponho que o nosso Cel. Tibrio Vacariano seja eleito por aclamao seu presidente de honrat
    Aplausos unnimes.
    
    XCII
    A verdade, porm,  que, por artes do reprter da bar-bicha quixotesca, os correspondentes das agncias de notcias UPI, AP e Frnce Press transmitiram aos jornais do mundo notcias sobre o estranho incidente de Antares, cujo nome assim apareceu em muitos jornais e revistas internacionais naquela semana entre 16 e 22 de dezembro. O Times de Londres noticiou em dez ou doze linhas que os habitantes duma pequena cidade do sul do Brasil,  beira dum grande rio, alegavam ter visto sete mortos erguerem-se de seus es-quifes e descerem para a praa central do lugar. O jornal interpretou o fato como sendo um hoax (mistificao). J o Ashashi Shinbum, de Tquio, noticiando a mesma ocorrncia, classificou-a como um caso de alucinao coletiva. Mais tarde o magazine Time publicou na sua seo intitulada Latin America uma estria sob a epgrafe Seven Corpses in a Bandstand (Sete Cadveres num Coreto) em que o incidente de Antares foi narrado em tom de amvel sarcasmo e interpretado como tendo sido tudo um ardil da Cmara de Comrcio antarense, para chamar a ateno do resto do pas sobre a sua comunidade, com finalidade puramente mercantil. Le Monde no tomou conhecimento do assunto. Um dirio de Port-au-Prince interpretou o fenmeno  luz do vudu e deu  notcia o ttulo de Le Baron Samedi au Brsil. Outros jornais pequenos e grandes  na Austrlia, na Itlia, na ustria, na Holanda e na Blgica  dedicaram curtos pargrafos neutros ao evento ou pseudo-evento. Um jornal de Berlim Ocidental narrou a anedota como um exemplo de humor negro. J na Alemanha Oriental a estria foi apresentada como uma alegoria ao apodrecimen-to da sociedade burguesa. Os peridicos de Atenas nada publicaram, mas em Praga, Istambul e Budapeste o caso chegou deturpado, e Egon Sturm ganhou no drama um papel estelar, na qualidade de chefe dum pseudo movimento neofascista clandestino, que tentava implantar o nazismo hitlerista no sul do Brasil. E um nobre ingls empobrecido pelos impostos de ps-guerra, a ponto de ter de abrir as portas de seu castelo ao pblico, como um museu com entrada paga, escreveu ao Times de Londres uma carta na qual insinuava que s um castelo escocs secular tinha o direito de possuir fantasmas prprios (como era o caso do seu), mas que uma pequena comunidade como Antares, perdida nos confins dum pas subdesenvolvido como o Brasil, no podia de maneira alguma gozar daquela pletora de almas do outro mundo. Terminava a missiva censurando o Times pela leviandade de ter noticiado o grosseiro embuste.
    
    XCIII
    O banquete realizou-se no salo de festas do Clube Comercial. A Verdade publicou  encabeada pelos nomes do Cel. Vacariano e do Maj. Brazo  a lista de todos os homenageados de  ambos os sexos, e que eram exatamente aqueles que direta ou indiretamente haviam sido atingidos pelos insultos e calnias partidos das ptridas bocas do advogado Ccero Branco e do sapateiro Jos Ruiz. Mas tanto o jornal como os oito oradores que falaram durante aquele banquete de desagravo, tiveram o cuidado de no fazer a menor referncia  natureza dos agravos e muito menos ao confronto na praa entre vivos e mortos.
    Mais de quinhentas pessoas, o que Antares possui de mais fino e representativo, no dizer de Scorpio  que no banquete envergou o seu smoking de gola verde, com uma camisa rendada  sentaram-se s longas mesas em forma de U invertido, enfeitadas com rosas, gladolos, jasmins e outras flores. Um gaiato annimo, que sempre os h, comentou (e a piada se espalhou pela cidade) que s faltava ao arranjo floral alguns cravos de defunto.
    O Cel. Tibrio Vacariano, que continuava em casa, em convalescena, ouviu os discursos pelo rdio que tinha  cabeceira de sua cama. Os homenageados mais aplaudidos pelos convivas e louvados pelos oradores foram, alm do citado varo, o prefeito municipal, o Dr. Lzaro Bertioga, Inocncio Pigaro, o juiz de Direito e o promotor pblico. Quando um dos oradores terminou o seu elogio do delegado de polcia  esse abnegado servidor da Justia que sacrifica o sono da noite, arrisca a prpria vida e a prpria sade na sua luta incessante para garantir a paz e a ordem em Antares, soldado que  da sociedade crist ocidental, hoje em dia to brutalmente atacada por grosseiros materialistas a soldo de Moscou, Pequim e Havana!  Inocncio Pigaro foi aplaudido de p durante mais de trs minutos. Ningum fez o brinde de praxe ao Presidente da Repblica, mas ao fim do banquete, depois que se distriburam e acenderam os charutos, o prefeito municipal ergueu o corpo e a taa de champanha e brindou a Democracia e a Justia, que tinham ganho mais uma batalha em Antares. Um observador  e no precisava ser muito arguto!  notaria nas faces da maioria dos convivas uma curiosa mescla de alegria forada e uma espcie de mal-escondida cabula. Foi necessrio que se bebesse muito vinho para que as conversas ganhassem alguma animao e um arremedo de espontaneidade.
    Os homens casados haviam comparecido  festa com suas esposas. Entretanto, aqui e ali se via, sozinho, um macho, que mais tarde a malcia popular passaria a chamar de cornudo solitrio. Segundo esse mesmo pblico, que leu a notcia do banquete em A Verdade, o nmero de cor-nudos contentes era maior que o dos solitrios, pois l se viam alguns cavalheiros sentados ao lado de suas esposas adlteras. Comentou-se que uma das mscaras mais tristes de quantas estavam no gape era a do juiz de Direito, pois sua esposa Valentina se havia recusado a representar mais essa farsa e ficara em casa cuidando dos filhos e lendo um livro de Z. J. Lebret, um frade dominicano reconhecidamente subversivo.
    O Mendes tambm tomou parte no banquete, metido num smoking alugado, de mangas demasiadamente curtas e j meio lustroso nos fundilhos das calas. Como era de se esperar, bebeu demais, comeou a dizer inconvenincias e teve de ser retirado do recinto por dois empregados do clube, por ordem expressa do prefeito.
    Quando, terminada a festa, os convidados deixavam a sede da melhor sociedade antarense na direo de seus carros e de suas casas, amontoava-se na frente do prdio uma pequena multido, formada em geral de gente jovem, e que rompeu numa grande vaia: assobios, uivos, latidos, cacare-jos, mugidos... Em meio dessa cacofonia irreverente, ouviam-se palavras e frases como Farsantes!  Abaixo a burguesia!  Hipcritas!. Inocncio Pigaro, que, tendo previsto essa demonstrao de hostilidade, pusera seus guardas de prontido, mandou-os carregar contra os manifestantes, de cassetetes em punho Os rapazes reagiram a pedradas. As damas da sociedade soltavam gritos de horror. Uma delas desmaiou. Outra teve rasgado um lindo vestido, modelo do costureiro Ruy, de Porto Alegre. Alguns maridos indignados levaram a mo  cintura, num reflexo condicionado mas, verificando que estavam desarmados, acharam de melhor aviso desertar do campo de batalha. Soldados da polcia e manifestantes atracaram-se finalmente num corpo-a-corpo feroz, e rolavam pelas caladas, pela sarjeta e pelo calamento da rua. Da sacada do prdio do clube, Inocncio dava ordens aos seus comandados, e como o nmero dos inimigos da ordem aumentasse de minuto para minuto  e agora eles vinham armados de porrete  o delegado de polcia, vendo que os convidados haviam desaparecido de cena, resolveu lanar mo das bombas de gases lacrimogneos. Conjurou ento os homens-elefantes com suas estranhas armas marcianas, e as bombas comearam a explodir, sua fumaa a espalhar-se no ar, e os desordeiros foram assim dispersados, ensangentados uns, muitos com as roupas em frangalhos, e lacrimejantes todos. No dizer do prefeito municipal, triunfou mais uma vez a Democracia.
    
    XCIV
    A Operao Borracha continuava, a despeito dos esforos em contrrio feitos pelas esquerdas e pelas cartas annimas. Estudiosos de psicologia, parapsicologia, ocultismo, espiritismo ou meros curiosos comearam a aparecer em Antares, vindos de Porto Alegre e outras cidades do Estado. Depois de interrogar as autoridades, os pr-homens locais, os estudantes e o povo das ruas, ficavam em estado de perplexidade ou dvida. Alguns chegaram  concluso de que tudo havia sido apenas um caso de alucinao coletiva, fenmeno raro mas possvel. A maioria, porm, ficou convencida de que a coisa toda no passara duma ridcula mistificao.
    Um dia chegou  sua terra o estudante Xisto Vacariano trazendo consigo seu amigo e mestre Martim Francisco Terra, que ele hospedou no palacete dos Vacaranos. D. Lanja recebeu-o com a sbria hospitalidade duma matrona gacha dos bons tempos. E quando Xisto levou o amigo e hspede ao quarto de seu av, que estava j sentado numa poltrona, na ltima fase de sua convalescena, o caudilho estendeu-lhe uma mo mole e morna, e seus olhinhos brilharam duma expectativa pcara.
     Ul Por aqui de novo, moo? No tem medo de apanhar uma sova?
     Ora, por que, coronel?
     Por causa das bobagens que vocs andaram escrevendo sobre Antares naquela droga de livro... como  mesmo o nome dele?
     Anatomia duma Cidade Gacha de Fronteira.
     Pois . Tome assento, doutor.  Xisto, mande sua av preparar um caf bem bom para ns Estou louco pra fumar um palheiro.
     O senhor no pode fumar, vov. O mdico lhe proibiu.
     Pois vo, voc e o mdico,  pota que os pariu. E que venha logo esse caf.
    Martim Francisco sentou-se.
     Pois, coronel, vim averiguar o que h de verdade nessa estria dos sete defuntos no coreto.
    Tibrio Vacariano, solidrio com a Operao Borracha, disse :
     Mas voc acredita mesmo em almas do outro mundo?
     No. Mas algo houve.
     Por exemplo...
      o que vou procurar descobrir.
     Como?
     Para principiar, conversando com gente da terra... O velho soltou uma risadinha seca e curta.
     Ora, cada cabea uma sentena. Voc vai acabar louco.
    Xisto entrou com trs xcaras fumegantes numa bandeja. Serviram-se os trs de acar e comearam a beber o caf com lenta delcia. Depois de emborcar a sua xcara, Tibrio Vaca nano tirou do bolso do pijama um palheiro pronto, apertou-o entre os dentes, acendeu-o, puxou uma longa tragada e depois soltou a fumaa, com uma expresso de felicidade no rosto emagrecido.
      bom estar vivo!  exclamou.  Mesmo no governo do Jango Goulart.
     Vov  disse Xisto  o Brizola vem a Antares em janeiro ou fevereiro do prximo ano para falar num comcio petebista. Como  que o senhor vai receber o homem?
     Como o Floriano Peixoto: a bala!
     Mas o seu reino acabou  retorquiu o rapaz.  O senhor  um dos ltimos representantes do velho coronelis-mo no Rio Grande do Sul.
    Tibrio ficou por um instante pensativo, a fumar, e depois murmurou:
     Pode ser Mas ainda no morri. E enquanto me restar um pingo de vida ningum me pisa no poncho. Hei de defender as minhas idias com as armas que tiver.
     Mas que idias?  provocou-o o neto.
     No sejas bobo, menino. As minhas idias so as minhas propriedades, o meu sossego, a minha vida, este crioulo, as coisas que sempre gostei de fazer e, acima de tudo, a minha liberdade. No vou entregar nada do que  meu a esses comunistas de merda, declarados ou disfarados.
     E que me diz da liberdade alheia? E do bem-estar dos outros?  perguntou Martim Francisco.
     Ora, professor,, que cada qual cuide da sua vida. Quem for mais capaz e mais macho vence. E a lei do mundo. Sempre foi.
     E por quanto tempo o senhor e os de sua classe imaginam que podem manter os seus privilgios?
     Espero morrer antes da vitria da canalha.
     Mas isso que o senhor chama de canalha  observou Martim Francisco  constitui a maioria do povo brasileiro.
     Haja o que houver  disse o velho, piscando um olho  temos um trunfo escondido.
     O Exrcito?
     Adivinhou. Voc no  to burro como parece.
     Mas j pensou, coronel, que um golpe do Exrcito pode levar o pas tanto para a Esquerda como para a Direita? E no lhe ocorreu tambm que, uma vez no poder, os militares podem facilmente dissolver os partidos e alijar os polticos profissionais... e os coronis de... de... quero dizer, os coronis honorrios, como o senhor?
     As Foras Armadas, moo, um dia vo apertar os parafusos frouxos deste pas. Precisamos, antes de mais nada, de ordem.
     Mas no necessariamente da ordem unida. Tibrio Vacariano ia responder mas no pde, pois
    rompeu num acesso de tosse bronqutica, que lhe congestionou o rosto, deixando-o ofegante.
     Eu no disse?  repreendeu-o o neto.
     Agora v se vais contar pra tua av que eu fumei. ..
    Com os olhos lacrimejantes do esforo, a voz engasgada, o ancio fixou no hspede o seu olhar de peixe.
     Quer um conselho, moo? No esquente lugar em Antares. V embora o quanto antes. Nossa gente no gostou do seu livro. Voc pode ter dissabores, j andei ouvindo conversas ...
     Que conversas?  indagou Xisto.
     Andam dizendo que vo desacatar o seu amigo em pblico. Um desses melenudos brabos at falou em dar uma sova nele a mesmo na praa.
     No coreto?  perguntou o professor, soltando uma clara risada.
    
    XCV
    O socilogo passou boa parte daquela noite palestrando com o seu amigo Pedro-Paulo, caminhando ambos lado a lado ao longo do rio. O padre lhe contou tudo quanto sabia sobre a volta dos mortos. Martim Francisco escutou-o srio, em silncio. Houve um momento em que pararam ambos no alto da barranca do Uruguai e ficaram olhando para as luzes de Farolito, na margem oposta. Depois o professor perguntou:
     Que explicao tens para o fenmeno?
     Para falar com toda a sinceridade... nenhuma.
     Ests certo de que tudo no passou duma iluso?
     To certo como estares aqui a meu lado agora.
     E estranho...
     Eu te pergunto o que  que no  estranho?
    Continuaram a andar, sempre margeando o rio. Martim Francisco falou ao amigo de livros que havia lido recentemente. Pedro-Paulo lhe disse de sua nova afeio: Tei-lhard de Chardin. (Esse encontro era fatal  pensou Martim Francisco.) Separaram-se depois das duas da madrugada. Martim Francisco notou que quando se encaminhava para a casa dos Vacarianos um vulto o seguia, parando quando ele parava. Compreendeu que o desconhecido, fosse quem fosse, estava procurando amedront-lo
    No dia seguinte recebeu uma carta annima em que um Amigo Desinteressado lhe declarava que sua vida estava em perigo. Pouco depois o Mendes o procurou, da parte do prefeito, para lhe pedir que deixasse a cidade o quanto antes, pois o governo municipal no lhe podia dar garantias de vida.
     Mas eu no pedi garantias a ningum!  sorriu o professor de sociologia.
    Mendes segurou os braos do forasteiro com suas longas mos angulosas:
     Meu amigo, tudo isto  uma misria e eu estou envergonhado de ser o portador deste recado. Agora, aceite, por favor, o conselho do prefeito. V embora o quanto antes. Hoje, se possvel. Nesta cidade existe gente capaz de tudo.
     Mas qual  o meu crime?
     Ora, doutor, quem lhe disse que  preciso cometer um crime para ser castigado? No faa mais investigaes sobre os mortos do coreto. Sinto ter de lhe comunicar que o senhor no  persona grata em Antares... o que, sob certos aspectos, pode ser considerado uma honra.
    Martim Francisco sacudiu lentamente a cabea, compreendendo tudo.
     Se a coisa  assim, no quero criar mais problemas para a sua cidade, Mendes. Mas c em segredo, que ningum nos oua, voc viu mesmo esses mortos que desceram do cemitrio para a praa?
     Vi, por Deus que vi!  respondeu o secretrio da prefeitura em voz baixa.  Se no me engano, o senhor no acredita no fenmeno...
    O outro sacudiu os ombros.
     Creio que a Histria no registra nenhum fato dessa natureza, que me lembre...
     Quer dizer que o professor nunca encontrou um morto que se move, que fala e pensa, como se estivesse vivo? Pois agora tem um aqui na sua frente, em avanado estado de putrefao fsica e moral.
    E enquanto dizia estas palavras, lgrimas escorriam-lhe pela face.
    
    XCVI
    Martim Francisco fez as malas e embarcou na tarde daquele mesmo dia, de volta para Porto Alegre, levando consigo um caderno cheio de anotaes: reproduo de dilogos que tivera com vrias pessoas de Antares, desenhos, lembretes... Tinha observado que, com relao ao incidente dos mortos, a velha guarda obstinava-se em negar a sua veracidade, ao passo que as geraes novas tudo faziam para confirm-lo.
    O Pe. Pedro-Paulo e Xisto o levaram  estao rodoviria e, esperando a hora da partida do nibus, ficaram os trs a um canto da sala de espera, conversando em surdina.
     Como  que vs a situao poltica nacional?  perguntou o Pe. Pedro-Paulo.
     Muito turva, muito confusa Talvez estejamos no preldio do caos.
     Como assim?
     Antes de cinco ou seis meses, se tanto, teremos um golpe de direita ou de esquerda, com a participao do Exrcito. Vena o lado que vencer, haver sempre uma grande vtima: as liberdades civis.
     O professor est muito pessimista  sorriu Xisto.
     Talvez a palavra exata seja realista.
     Espero sempre um milagre  disse o sacerdote  decerto por deformao profissional. Isso pode no ser cientfico nem sensato, mas ajuda a gente a viver com alguma esperana.
     Pois eu sou otimista  afirmou o neto do velho Tibrio.  Boas coisas esto por vir.
    Martim Francisco, j abraando os amigos  pois se anunciava pelo alto-falante a partida do seu nibus  disse :
     Acho que no Brasil devemos ser pessimistas a prazo curto e otimistas a prazo longo. At mais ver, Pedro-Paulol At maro, Xisto! Escrevam! Escrevam!
    
    XCVII
    A comisso encarregada de levar a cabo a Operao Borracha tinha todos os motivos para consider-la j vitoriosa. Yaroslav, entretanto, contava ainda aos forasteiros e a todos quantos o interrogavam sobre o incidente, que ele vira, ouvira e cheirara os mortos. O prefeito, irritado, mandou cham-lo ao seu gabinete, para uma reprimenda:
     Se voc continuar dizendo por a que viu mesmo os mortos no coreto, eu cancelo a sua licena de fotgrafo ambulante! E se voc reincidir na sua mentira, a prefeitura tratar da sua extradio para a Tchecoslovquia... e a voc vai ver como  duro viver nesses pases do outro lado da Cortina de Ferro.
    O fotgrafo cocou a barba e de cabea baixa, murmurou:
     Est bem. Vou esquecer o que vi.
     Viu o qu?  explodiu o chefe do executivo municipal.  Voc no viu coisa alguma!
     Ento vou esquecer o que no vi...
     Raspa daqui pra fora, gringo desaforado!
    O fotgrafo bateu em retirada, a passo acelerado. O Mendes, que estava no vestbulo contguo, ouviu-o murmurar por entre dentes: Fascistas!
    
    XCCVIII
    Pelo Natal, o estado de esprito dos habitantes de An-tares tinha j dum modo geral melhorado consideravelmente. Na vspera do dia em que se celebra o nascimento do Menino Jesus, nas casas de famlia de remediadas a abastadas, em Antares, perus foram primeiro embriagados, depois mortos, desventrados, temperados, recheados, assados ao forno e finalmente comidos alegremente  luz das veli-nhas das rvores de Natal e ao som de cantigas alusivas  festividade. O comrcio local, durante o perodo de festas, s no vendeu o que no tinha. (No dia 25 de dezembro os habitantes da Babilnia comeram os restos j meio deteriorados de peru catados nas latas de lixo de Antares, s primeiras horas da manh.)
    A prefeitura mandou desinfetar com crcolina o coreto da Praa da Repblica, cujo cho foi lavado com sabo, em muitas guas, escovado repetidamente e finalmente deixado a secar e arejar-se. Isso feito, o Maj. Vivaldino mandou passar-lhe duas mos de tinta verde, que  a cor da primavera e da esperana. E o tempo, com sua pachorra, sua pacincia, e sua sutil e invisvel broxa foi passando mos de esquecimento no esprito dos antarenses e at nas pedras e plantas da cidade.
    Os ventos, que sopraram com freqncia naquele fim de dezembro, ajudaram muito o tempo na sua operao de limpeza e esquecimento. E vieram tambm fortes chuvas. E alguns casais que ainda estavam separados por causa das intrigas do Barcelona, reconciliaram-se.
    Num dos ltimos domingos daquele ano, a Banda de Msica Carlos Gomes deu o seu primeiro concerto no coreto depois do... bom, do incidente. A primeira pea do programa foi a protofonia de O Guarani, da autoria do imortal epnimo do conjunto. Von Supp foi tambm homenageado. Verdi esteve presente em Selees de Aida. Tocaram-se tambm msicas de carter popular: sambas, frevos e marchinhas. E no fim, para encerrar o programa, a banda executou com grande brilho um dobrado americano intitulado Stars and Stripes for Ever. (O Prof. Iibindo Olivares traduziu para amigos  Estrias e Listras para Sempre  e explicou que se tratava duma aluso  bandeira dos Estados Unidos.) Como em certo trecho desse vibrante dobrado o flautim tem um papel de muito destaque, ouvindo os trmulos desse piccolo, o maestro lembrou-se de que Barcelona revelara em pblico que sua mulher  dele, maestro  e o flautista eram amantes. Suas orelhas aos poucos foram ficando vermelhas como crista de galo. E o som das tubas, marcando o compasso do dobrado, parecia-lhe a voz grave de homens gordos a roncar ritmadamente: Cor-no! Cor-no! Cor-no!
    Mr. Jefferson Monroe III no esteve presente ao concerto porque, com sua esposa, havia deixado Antares poucos dias antes, transferido que fora para outra cidade, num desses pases semi-imaginris da Amrica Central. Jean-Franois Duplessis e sua mulher tambm faziam j as malas para retornar  Frana, mas compareceram ao concerto. Caminhando nas caladas da praa, de brao dado com o marido, num desafio  sociedade local, Dominique, excessivamente pintada, rebolou o que pde as venustas ancas e ndegas haitianas. Mr. Chang Ling e sua senhora assistiram a todo o concerto sentadinhos quietos num banco, e receberam com o mesmo sorriso inefvel tanto a ria de Radams como a Cavalaria Ligeira de Von Supp, e as marchinhas de rancho e os sambinhas de gafieira que a banda executou.
    
    XCIX
    Chegou finalmente o esperado 31 de dezembro. A diretoria do Clube Comercial esmerou-se em fazer daquele rveillon o maior, o mais alegre da histria de Antares. Contratou uma orquestra tpica de Buenos Aires e um conjunto moderno de Porto Alegre. Scorpio aproveitou a grande festa para apresentar as Dez mais Elegantes do Ano, por ele escolhidas, e tambm os Dez Mais Graciosos Brotinhos.
    A festa foi animadssima. Comeou s onze com a quadrilha dos Lanceiros danada por um grupo do C.T.G. Chi-marro da Saudade, com todos os seus bailarins exibindo trajes caractersticos. Depois o Maj. Vivaldino Brazo marcou a tradicional polonaise, na qual tomou parte apenas a j muito reduzida velha guarda. A seguir, os moos tomaram por completo conta da festa, com suas danas importadas  quase todas com nomes ingleses  em que as pessoas no danam umas com as outras, mas contra as outras.
    Alguns casais que se haviam separado depois do incidente na praa foram vistos risonhos, danando de corpos colados, no salo do clube, como jovens namorados.
    Pouco antes da meia-noite ouviram-se detonaes de revlver e o espocar de foguetes vindos da Zona Estragada que, como acontecia em todos os fins de ano, tinha sempre os seus relgios adiantados. A maioria dos tiros foram, como de tradio, dados para o ar, mas pelo menos trs deles tinham endereo certo, dirigidos que foram para o peito, a cabea ou o ventre de desafetos dos atiradores. (Um morto e dois feridos.) Ao soar da meia-noite comeou o pandemnio dentro das salas do Clube Comercial. Gritos, risadas, choros de emoo, abraos, votos, beijos, encontres e duas orquestras tocando ao mesmo tempo peas diferentes. Parentes e amigos procuravam-se no meio da multido alvoro-tada para se abraarem e se desejarem um feliz e prspero Ano Novo.
    Em seu casaro, o velho Tibrio Vacariano, sentado na sala de visitas na companhia da patroa, recebeu como um cacique as homenagens dos membros de sua tribo e da cria-dagem. Vieram do baile para beijar-lhe a mo os seus filhos, filhas, genros, sobrinhos, netos e at uma bisneta (escolhida por Scorpio como O Brotinho do Ano). A todas estas o Cel. Tibrio pensava na sua Cleo, a quem pretendia visitar, custasse o que custasse, depois de passada toda aquela cerimnia tribal.
    No clube bebeu-se muita cerveja, muito usque e muita champanha. Inimigos ou. desafetos reconciliaram-se, num acesso de ternura alcolica. Mas para no quebrar um antigo hbito, alguns amigos estranharam-se, brigaram e chegaram ao Pula pra fora, se s homem. Alguns pularam e se atracaram a socos rolando na relva do jardim do clube. Outros ficaram onde estavam, atendendo aos que diziam Deixa disso! Deixa disso!.
    
    C
    Um novo ano havia entrado. O Lucas Faia, que enver-gava um smoking que mal lhe entrava no corpo, sentia j quase cicatrizada a ferida aberta em sua vaidade pela rejeio de sua maior pea literria. O Prof. Libindo Oliv ares, ao abraar o prefeito, disse-lhe ao ouvido: Nossa Operao Borracha foi um sucesso, major. Podemos d-la por encerrada. E o prefeito, os olhos reluzentes de animao, exclamou: Voce  um bicho, Libindo. Que seria de ns sem a sua ajuda? E quando q outro se afastou, radiante, Vivaldino murmurou por entre dentes: Pederasta duma figa!
    O ano de 1964 tinha apenas uma hora de idade quando Tibrio Vacariano, iludindo a vigilncia de sua mulher, ocupada com netos e bisnetos, entrou sorrateiro no seu automvel e mandou-se para a casa da amante. Cleo recebeu-o com beijos. O velho insistiu em ir para a cama com ela. Pro forma  explicou, porque desde a sua doena ele j no ousava mais brincar de Salamanca. Tirou toda a roupa, deitou-se e, tremulamente deliciado, ficou vendo a amante despir-se pouco a pouco, com a languidez duma odalisca. E quando ela se estendeu a seu lado e lhe deu um beijo na boca, ele murmurou: E uma lstima, meu bem, mas o Blau Nunes anda agora meio estropiado. Mesmo assim, imitando as pernas do campeiro da lenda, seus dedos escalaram os seios de Cleo  que de cerros se haviam transformado em montanhas, por artes da fisiologia mancomunada com o tempo  e depois percorreram em passos lentos o ventre, no mais uma plancie com uma suave depresso, mas j uma coxilha. E Blau Nunes penetrou no capo, buscando, mas sem o antigo ardor, a furna do tesouro. E, fazendo todo esse trajeto, o coronel chorava de saudade e impotncia, e as lgrimas lhe escorriam pelo rosto pintalgado de manchas de purpura senil.
    quela hora o Pe. Pedro-Paulo estava sozinho, parado  beira do rio, olhando para as luzes de Farolito, que piscapiscavam na margem oposta. Pensava no filho de Joozinho e Ritinha que em breve ia nascer, e essa idia lhe dava um frmito de esperana, ele no sabia e nem mesmo procurava saber em que nem por qu.
    Um homenzinho aproximou-se dele, cambaleante, e saudou-o com voz pastosa:
     Boa noite, padre. Feliz Ano Novol
     O mesmo pra voc, amigo  respondeu Pedro-Paulo, reconhecendo o Alambique, envolto na sua aura de cachaa e com um violo a tiracolo.
     No repare, mas estou num porre medonho... Mal me agento nas pernas.
     Por que no vai pra casa? Se quer, eu o acompanho. ..
     No, padre, muitas gracias. Vou esperar o nascer do dia. Quero fazer uma serenata pro sol, j que fiz tantas pra lua. E vai ser a ltima da minha vida.
     Por que a ltima?
     Ora, com essas msicas loucas que andam por ai, no vale mais a pena um vivente cantar as modinhas de antigamente. Ningum mais aprecia. E quer saber duma coisa? Vou enterrar o meu violo.
    O Pe. Pedro-Paulo sorriu:
     No faa isso. A gente no deve nunca enterrar as coisas que ama.
    
    CI
    Como costuma acontecer tanto na vida como nos romances, passaram-se os anos. E muitas mudanas se operaram em Antares e no resto do universo.
    Caado pela polcia do novo governo, Geminiano Ramos uma noite atravessou o rio s pressas, na lancha do Romero, e ambos pediram asilo na Argentina.
    Lucas Lesma, procurando equilibrar-se inclume, desta vez ao longo do fio duma espada, comps para o seu jornal um artigo de fundo intitulado Novos Tempos: Novas Esperanas no qual, entre elogios  revoluo vitoriosa, escreveu: Agora que as greves esto felizmente proibidas por lei, reina a maior harmonia entre patres e empregados, e os sindicatos e os trabalhadores no vo mais ser usados, como acontecia no governo deposto, como instrumentos de poltica partidria, nem como fatores de desordem sociaV.
    A paz remava tambm no cemitrio local, onde, a dar crdito  voz do povo, todas as tardinhas,  mesma hora, um sabi vinha cantar sobre a lpide da sepultura de Me-nandro Olinda, em torno da qual ardiam quase sempre velas votivas, pois criara-se a lenda de que do Alm o suicida concedia graas e obrava milagres.
    A polcia fechou o Bar Bacu, sob o pretexto de que era um antro de agitadores comunistas. O Kaf Kafka, esse morreu de morte natural.
    O delegado Inocncio Pigaro foi investigado, proclamado limpo de pecados contra a tica profissional e por fim promovido e transferido para a delegacia duma outra cidade muito mais importante que An tares, do ponto de vista de estratgia policial.
    O minuano dum spero agosto soprou o P  Gerncio Albuquerque para o Reino do Cu, mas no antes de ele ter tido o privilgio de encomendar a Deus a alma de seu amigo Tbrio Vacariano, vitimado por uma trombose cerebral. O enterro do velho chefe poltico de Antares foi muito concorrido e, como o de D. Quitria Campolargo, puxado por um brioso piquete do C.T.G. Chimarro da Saudade, ao som das marchas fnebres da Banda de Msica Carlos Gomes. Diante do mausolu dos Vacarianos falaram trs oradores. Um deles afirmou que com o Cel. Tibrio desaparecia um ldimo representante duma estirpe de bravos que, durante mais de um sculo, haviam ajudado a manter as fronteiras no s geogrficas como tambm tradicionais e morais do Rio Grande do Sul. Um jovem plido, novato na cidade  e que tinha acompanhado o enterro ningum sabia ao certo por que  pediu a palavra e, sem esperar que lha concedessem, rompeu a discursar com uma eloqncia um tanto estrdula. Em certo trecho de sua orao, teve o desplante de comparar o defunto a um dinossauro, isso para completar uma atrevida metfora  a de que os grandes rpteis da vida pblica brasileira estavam em processo de extino, j que agora o pas entrava poltica, social e economicamente numa era geolgica mais avanada. Ouviram-se murmrios de descontentamento entre os membros da velha guarda que cercavam o esquife do ilustre morto.
    O Dr. Quintiliano do Vale foi transferido para uma entrncia superior  de Antares, dando assim mais um passo rumo do ideal supremo de sua vida. Suas relaes com Valentina, porm, haviam esfriado consideravelmente depois do dilogo da noite dos mortos.
    O Dr. Mirabeau da Silva fez mais dois filhos dentro dum perodo de trs anos. As irms Balmacedas foram denunciadas (anonimamente) ao novo delegado de polcia, interrogadas e ameaadas de processo judicial, caso no cessassem, por completo e para sempre, de escrever cartas annimas.
    O Maj. Vivaldino Brazo, que no havia sido reconduzido  prefeitura, andou por uns tempos sorumbtico, numa nostalgia da autoridade, e procurou consolo no convvio de suas orqudeas. Tentou, mas sem resultado positivo, empolgar a chefia da Aliana Renovadora Nacional, o novo partido governista. Diante desse malogro, resolveu entrar num perodo de hibernao poltica.
    O fotgrafo Yaroslav continuou no seu posto, junto ao coreto, a tirar retratos de namorados e forasteiros e a dar a sua dose diria de alimento e amor a seus amigos, os passarinhos. No inverno de 1968, ao ouvir pelo seu rdio porttil a notcia de que os tanques soviticos haviam entrado em Praga e feito fogo contra a sua populao, teve um colapso cardaco e tombou morto ali mesmo no cho da praa, em meio de suas pombas.
    O Dr. Lzaro Bertioga, graas s suas boas obras, foi recuperando aos poucos a aurola de santidade, mas sempre que avistava na rua o Pe. Pedro-Paulo fazia as mais complicadas manobras para no encontrar-se com ele cara a cara. Cedo, porm, livrou-se do homem que lhe conhecia os segredos mais ntimos, pois o padre vermelho foi investigado, interrogado pela polcia poltica e, embora no tivessem descoberto nada de grave contra ele, perdeu o seu posto de capelo da Vila Operria, tendo sido pouco depois transferido pelas autoridades eclesisticas para uma parquia remota e obscura. Foi l que um dia recebeu uma carta de seu amigo o Prof. Martim Francisco Terra que, expurgado com vrios outros colegas da sua universidade, emigrara para o Chile.
    O Mendes pensava ainda em Rita com afeto e bebia cada vez mais. Continuava como funcionrio da prefeitura, mas num posto inferior ao que ocupava antes. Agora recebia ordens do novo prefeito, um coronel de verdade que tinha imposto ao servio municipal uma sadia disciplina de caserna.
    O Prof. Libindo Olivares permaneceu na direo do Ginsio Nacional, produziu mais uns trs ou quatro livros imaginrios e ultimamente anda contando a todo mundo que mantm uma correspondncia polmica com o Prof. Herbert Marcuse, esse corruptor da juventude, cuja fijosofia ele, Libindo Olivares, contesta apaixonadamente.
    A alta sociedade de Antares entrou nestes ltimos cinco anos numa espcie de crescente delrio exibicionista e competitivo, em matria de posio e virtudes mundanas. Qual  o casal nmero um do nosso caf society? Quem d as melhores festas? Quem tem mais classe? Qual a mais elegante de nossas damas? Quem possui o automvel mais fino? De quem  a residncia mais confortvel? E a mais bem decorada? Quem visitou mais vezes o Velho Mundo? Qual a hostess mais sofisticada do ano? E assim por diante. ..
     por isso que Scorpio, o cronista social de A Verdade, se tornou uma das personalidades mais prestigiosas da cidade. As gr-finas o adulam, presenteiam e fazem-lhe confidencias. O rapaz no s exigiu aumento de ordenado no jornal como tambm um telefone vermelho para a sua mesa na redao, onde o Ferreirinha, sempre mal pago e amargurado, arrasta a sua carcaa e a sua asma. Que diabo, Lucas!  costuma dizer Scorpio com freqncia.  Voc sabe que  a minha Passarela que faz vender este pasquim!
    Sete anos aps aquela terrvel sexta-feira 13 de dezembro de 1963, pode-se afirmar, sem risco de exagero, que Antares esqueceu o seu macabro incidente. Ou ento sabe fingir muito bem.
    
    CII
    A julgar pelas aparncias, pelo seu progresso material visvel a olho nu  novas indstrias e casas de comrcio, mais ruas asfaltadas, servios pblicos melhores  Antares  hoje em dia uma comunidade prspera e feliz.
    Como, porm, nada  perfeito neste mundo, s vezes na calada da noite vultos furtivos andam escrevendo nos seus muros e paredes palavras e frases politicamente subversivas, quando no apenas pornogrficas.
    Os dedicados guardas municipais, sempre alerta, do-lhes caa dia e noite. Numa destas ltimas madrugadas abriram fogo contra um estudante que, com broxa e piche, tinha comeado a pintar um palavro num muro da Rua Voluntrios da Ptria. Na calada, no lugar em que o rapaz caiu, ficou uma larga mancha de sangue enegrecido, na qual a imaginao popular  talvez sugestinada por elementos da esquerda  julgou ver a configurao do Brasil. ( assim que nascem os mitos.)
    Cedo, na manh seguinte, empregados da prefeitura vieram limpar a calada dessa feia mcula, e quando comearam a raspar do muro o palavro, aos poucos se foi formando diante deles um grupo de curiosos.
    Aconteceu passar por ali nessa hora um modesto funcionrio pblico que levava para a escola, pela mo, o seu filho de sete anos. O menino parou, olhou para o muro e perguntou :
     Que  que est escrito ali, pai?
     Nada. Vamos andando, que j estamos atrasados...
    O pequeno, entretanto, para mostrar aos circunstantes que j sabia ler, olhou para a palavra de piche e comeou a soletr-la em voz muito alta: Li-ber. ...
     Cala a boca, bobalho!  exclamou o pai, quase em pnico. E, puxando com fora a mo do filho, levou-o, quase de arrasto, rua abaixo.
    
    
    FIM DO LIVRO

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